"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Insônia

Assisti agora há pouco, pela enésima vez, o filme "Eu, você e todos nós". Ele foi produzido e dirigido por uma artista, uma videomaker, que também protagoniza o filme. O fato de a diretora Miranda July não ser, de fato, uma diretora de cinema, talvez seja o principal motivo do “ritmo” diferenciado, mais lento, menos fragmentado (como nos cortes cada vez mais rápidos e sem conexão dos filmes de Hollywood). A despeito de haver histórias diversas, múltiplas, o filme possui uma “correlação” subjetiva entre seus personagens. Todos parecem um pouco solitários, todos se sentem deslocados e todos estão em busca de algo novo, de descobertas, de mudanças. Ao mesmo tempo, como diria Calvino, "a multiplicidade empresta contemporaneidade ao filme". São histórias do cotidiano que possuem leveza, que fogem à imagem do espetáculo.

Guy Debord, em seu clássico, A sociedade do espetáculo, fez a primeira crítica apurada do significado da imagem dentro da sociedade. Imagem aqui tem um sentido abstrato, mas na verdade tudo é imagem, os rostos, as roupas, a internet, os livros... Existe então, na visão dos estudiosos do assunto, uma importância em se criticar a imagem dentro da cultura. A língua falada (oral), a cultura, a literatura, a produção de imagens, todas são manifestações culturais, mas a imagem é a manifestação mais onipresente. O problema é que a cultura está tão imbuída das imagens que criamos que é quase impossível dissociar uma da outra. Pode-se dizer então que a imagem na sociedade se tornou uma espécie de representação de sua cultura.

A diretora tenta criar imagens que despertem emoções subjetivas, como na cena do par de sapatinhos rosas utilizados por ela para a produção de um vídeo que fala de amor, de separação, de conflito sentimental. Para fora de nós, humanos, tudo é imagem. Então, o que é o espetáculo? Tudo que está fora do sujeito, a partir da pele, ou melhor, nossa pele já é imagem.

Todos os temas do filme, conflituosos, que poderiam ter sido tratados de forma pesada, são abordados de forma sublime. Descoberta sexual, homossexualidade, timidez, arrogância, traição e até mesmo a seqüência da morte do peixinho, tudo é tratado sem pieguice, sem afetação, não há tentativa de causar "efeito imagético" algum. Ao mesmo tempo, ela brinca com a beleza do que pode ser imaginado simplesmente, do que nunca será concretizado, como na cena em que os dois caminham por uma rua e constroem toda uma vida – casamento, filhos, velhice – até a próxima esquina onde eles se despedem e cada um segue seu real caminho. Não queremos o real, o imaginário é mais confortável, mais seguro...

O filme faz uma crítica à imagem como mercadoria, que serve de objeto de troca, de venda. Existe uma valorização da imagem até nas relações, a atração por gente bonita, as pessoas têm que ser agradáveis aos olhos. No filme, os personagens não são modelos de beleza contemporânea, mercadológica, a maioria é até desengonçada, quase sem graça. Se a imagem existe para ser vendida como mercadoria, então ela só se presta a ser vendida porque ela é embelezada, enlatada, preparada para ser vendida pela publicidade. A imagem pode ser vista como mercadoria (sob a lógica do capitalismo), criar desejos que não existem é a práxis da publicidade. A virtualidade das imagens faz com que antes do concreto, se consumam imagens. O que nós consumimos, na verdade, é imagem. A imagem do cinema é abstrata, a imagem da TV, as fotografias das revistas de moda... No filme, a atriz-diretora é também personagem que tenta criar videoclipes que juntam fotografias de pessoas diferentes para criar histórias. Miranda July tenta unir o que normalmente a sociedade fragmenta, ou seja, os sentimentos. Se a vida das pessoas está fragmentada pela contemporaneidade e efemeridade das coisas, então é possível criar imagens de histórias perfeitas para se contrapor à imagem real das coisas que foram fragmentadas pela própria realidade contemporânea.

O capitalismo se apoderou da ideologia para vender. O mercado da cirurgia plástica, das roupas, dos cosméticos, do esporte... tudo se alimentando da ideologia. Em muitos casos, o que compramos, ou é pueril, ou não satisfaz... Nós consumimos imagens e depois continuamos sentindo falta de “alguma coisa”. O velho no filme constata que passou a vida toda viajando e aproveitando a vida com alguém que ele não amava e que não poderia fazer as mesmas viagens com a única mulher que amou que, no filme, estava em fase terminal. Há uma associação à passividade critica do olhar. Os olhos consomem as imagens primeiro, mas eles perdem a capacidade de ver.

No filme, Miranda July impõe um ritmo em que o espectador é obrigado a refletir sobre conflitos humanos de uma forma mais poética. Ela mostra que a vida real que temos, com todas as nossas “esquisitices” é banal, comum, não é fashion ou glamourosa. O filme tenta romper com o conceito de espetáculo imprimindo leveza às coisas cotidianas que na realidade são pesadas. O menino não percebe a “malícia” dos recados e a interlocutora não percebe a “ingenuidade” dele. O que prova também que o que não vemos, o que imaginamos, se não está associado à uma imagem real, pode ser de fato produzido por nossa mente. Nós criamos então a realidade que nos rodeia e isto começa na nossa imaginação. Ao mesmo tempo, o sublime está presente a todo o momento, na leveza dos diálogos, no tratamento dado às cenas, na trilha sonora. O contraponto é feito a partir da constatação de que nós mesmos podemos educar nossa mente para o belo, para o simples, sem artifícios ou máscaras. Mas que isso é um exercício de luta contra a contemporaneidade das imagens do mundo atual. É necessário estar disposto a ver. Não só a ver, mas também sentir.

Juliana Medeiros, madrugada de 22 de fevereiro.

Lua

A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
A lua girou, girou
Traçou no céu um compasso
Eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços
Eu bem queria fazer...

Travesseiro dos meus braços
Só não faz se não quiser
Um travesseiro dos meus braços
Só não faz se não quiser...
Sustenta a palavra de homem
Que eu mantenho a de mulher
Sustenta a palavra de homem...

(Milton Nascimento)


(Tela de Tarsila do Amaral)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O futuro da Alba com a saída de Fidel

Depois de passar um tempo recorde sem atualizar o blog, gostaria de fazer uma reflexão sobre a decisão que Fidel acaba de tomar e, a despeito do nosso país dar mais importância ao resultado do "paredão do BBB", acredito que nenhum país no mundo poderá ignorar as mudanças que virão a partir disto. Fidel Castro cumpriu com seu papel e soube, bem ou mal, sustentar um país durante anos num governo que muitos chamam "ditadura" mas que alimentou e educou 100% de seu povo e tem sido por anos seguidos um celeiro de campeões olímpicos, tudo sob a opressão de um embargo cruel e desumano imposto pelos EUA. O reflexo dessa mudança também atingirá diretamente a Alba e o projeto de construir uma América mais justa. Sobre Fidel, reproduzo abaixo um excelente texto de um grande amigo com quem compartilho das idéias que se seguem:

"Uma parcela da esquerda sente-se vexada porque não é tão ética quanto propala; outra, porque o socialismo faliu, exceto em Cuba. As carpideiras da falência do socialismo não se perguntam por suas causas, nem denunciam o fracasso do capitalismo para os 2/3 da humanidade que, segundo a ONU, vivem abaixo da linha da pobreza. Assim, abraçam o neoliberalismo sem culpa. E o adornam com o eufemismo de “democracia”, embora ele acentue a desigualdade mundial e negue direitos humanos cultuando a idolatria do dinheiro e das armas. (...) Fidel é um homem de esquerda. Mas não fez uma revolução para implantar o socialismo. Motivou-o livrar Cuba da ditadura de Batista, resgatar a independência e libertar o povo da miséria. Em visita aos EUA na época, foi ovacionado nas avenidas de Nova York. A elite cubana resistiu a ceder os anéis para que toda a população tivesse dedos. Apoiada pela Casa Branca, instaurou o terror, empenhada em deter as reformas agrária e urbana e a campanha nacional de alfabetização. Kennedy, festejado como baluarte da democracia, enviou 10 mil mercenários para invadir Cuba pela Baía dos Porcos. Foram derrotados. (...) Cuba é o único país da América Latina que logrou universalizar a justiça social. Toda a população de 11 milhões de habitantes goza dos direitos de acesso gratuito à saúde e à educação. Para quem vive na miséria a cidadania dos cubanos é invejável. Para quem é classe média, Cuba é o purgatório; para quem é rico, o inferno. Só suporta viver na Ilha quem tem consciência solidária. No trajeto do aeroporto de Havana ao centro da cidade há um outdoor com o retrato de uma criança e a frase: “Esta noite 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana.” Algum outro país merece semelhante cartaz à porta de entrada? (...) A simples menção da palavra Cuba provoca arrepios nos espíritos reacionários. Cobram da Ilha democracia, como se isso que predomina em nossos países fosse modelo de alguma coisa. Ora, por que não exigem que, primeiro, o EUA suspenda o bloqueio e feche seu campo de concentração em Guantánamo? (...) O que acontecerá quando Fidel morrer, ele que sobrevive a 47 anos de esforços terroristas da CIA para eliminá-lo? O bom humor dos cubanos tem a resposta na ponta da língua: “Como pessoas civilizadas, primeiro trataremos de enterrar o Comandante.” Mas o socialismo descerá à tumba com o seu caixão? Cuba prepara-se para o período pós-Fidel. Mas não como querem os cubanos de Miami. Como 70% da população nasceu no período revolucionário, não há indícios de anseio popular pela volta ao capitalismo. Cuba não quer como futuro o presente de tantas nações, onde a opulência convive com o narcotráfico, a miséria, o desemprego e o sucateamento da saúde e da educação(...)" Frei Betto, em agosto de 2006

Em 2005, Hugo Chávez e Fidel Castro se reuniram em Havana para firmar um plano estratégico para o início da Alba, a Alternativa Bolivariana para as Américas. O que no início era apenas um sonho, hoje congrega quatro países (Bolívia, Venezuela, Cuba, Nicarágua) e está em negociação com Equador e outros que estudam suas propostas e pretendem se integrar ao sonho de uma aliança solidária entre os povos latinos do continente americano. O plano inicialmente se destinava a garantir uma melhor complementação produtiva baseada na racionalidade com o aproveitamento de vantagens existentes entre os países envolvidos, além de economia de recursos, ampliação do emprego útil, acesso a mercados e outras considerações, potencializando as forças dos países integrantes, próximo do que ocorre hoje na União Européia porém, de uma forma historicamente inédita e diferente. O sonho de Fidel e Chávez não tem o foco na economia, mas sim nas pessoas.

Em janeiro deste ano, durante a reunião da cúpula em Caracas, foi inaugurado o Banco Alba, uma instituição que visa contribuir para a independência financeira dos países, para que não precisem mais de instituições como o FMI (Fundo Monetário Internacional), por exemplo. A Alba, desde sua concepção, é uma proposta que se difere da Alca, porque esta última responde aos interesses do capital transnacional e persegue a liberalização absoluta de bens e serviços. A Alba enfatiza a luta contra a pobreza e a exclusão social, sendo esse seu maior objetivo. Economicamente, ela se baseia em mecanismos que criem vantagens cooperativas para reduzir as disparidades existentes entre os países integrantes utilizando-se de fundos compensatórios. Sua intenção é identificar os espaços de interesse comum que promovam a real integração latino-americana. O Brasil, apenas por essa concepção inicial, já se sentiria excluído do processo, ainda que Lula demonstre um interesse disfarçado no assunto. Nós, os brasileiros, não nos sentimos hermanos de nossos vizinhos, não nos enxergamos como cucarachas, temos uma postura emergente, somos americanizados (ou europeizados) e talvez por nosso tamanho, não nos identificamos com os "pobres". O Brasil está para a América Latina como Santa Cruz de La Sierra está para a Bolívia. Somos silenciosamente separatistas, com exceção da hora de optar por turismo barato. Desde a derrocada econômica, a Argentina por exemplo, passou a ser invadida por turistas brasileiros.

Historicamente, as conseqüências da política imperialista para a América Latina e Caribe, têm sido muitas: entrega das empresas estatais para o capital transnacional; negação e supressão de direitos trabalhistas; privatização de serviços de saúde, educação, habitação e seguridade social. Os críticos - de direita e esquerda - adiantam que a Alba não dará certo porque foi iniciada por países com líderes controversos e seu nome, bolivariana, já é excludente. Mas devemos lembrar que a União Européia começou com o acordo do carvão e do aço (entre França e Alemanha).

Apesar do mercado financeiro e setores empresariais, influenciados pelos meios de comunicação, não estarem nem um pouco interessados nesse tipo de integração, será importante para a continuidade da Alba, que Raúl Castro consiga dar andamento ao projeto que Fidel começou com Chavéz, nessa que pode ser a grande esperança de uma América Latina mais justa. Mas, como bem lembra Frei Betto em seu texto, ele terá que enfrentar a elite latino-americana e até mundial que pretende continuar concentrando seus anéis em poucos dedos.

Barca Brasília



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Delirium Nocturnum

Aceite a vida como ela é, se você é um passivo.
Acredite em destino, se você é um conformado.
Agora, transforme sua vida, se você é livre.


Flavio Costa

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