"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

terça-feira, 29 de abril de 2008

SOBERANIA - Guerra x Paz e o descontrole social

Primeiramente, desculpem-me por ficar tanto tempo sem atualizar o blog, tenho trabalhado muito, enfim... sem mais delongas. Quero falar um pouco sobre violência. Acho que estamos desenvolvendo uma espécie de resistência emocional coletiva para a violência e o descontrole social. É quase um anestésico, muito ainda em cima dos conceitos de virtualidade já debatidos aqui no blog, ou seja, as coisas reais estão sendo substituídas pelas virtuais e isso produz uma reação subjetiva de "rejeição à verdade" ou à aceitação dela. Aí, muitos conceitos sensatos, como os de proteção aos direitos humanos se perdem no descontrole quando as pessoas decidem que é hora de reagir.

No episódio em que Hugo Chávez avançou seu exército até a fronteira (no conflito entre Colômbia e Equador, quando do assassinato de um dos líderes das Farc pela primeira em território equatoriano), deixando os conservadores de cabelo em pé, seu ato apenas era o exercício de um direito soberano, o de controlar e proteger suas fronteiras. Este, aliás, é um dos elementos constitutivos do poder soberano sendo as fronteiras por sua vez, um elemento político constituído de poder. Além do controle das fronteiras, compõem os poderes soberanos: a autoridade interna, a autonomia política e a não-intervenção.

Cada país é autônomo e sua autodeterminação é garantida a partir da Carta de São Francisco (por ocasião da criação da ONU em junho de 45). Desde 1648, onde houve na Alemanha uma tentativa de monopólio absoluto do poder pela monarquia, após o Tratado que pôs fim à Guerra dos 30 anos, foi estabelecido o conceito de "estado-nação". Este possui três elementos principais: território, povo e língua. Aliás, língua, como poucos sabem, é uma questão legal, é lei. De certa forma, falar ou escrever errado não é ilegal, mas é um ato "fora da lei".

Liberté Igualité Fraternité

O exercício da soberania (popular) é conceituado desde 1789, durante a Revolução Francesa. Após cortarem a cabeça do rei e o povo clamar pela república, veio a redenção: "todo poder emana do povo e em seu nome será exercido". Isto é utilizado até hoje e foi reproduzido em nossa Constituição de 1988. Saímos do estado absoluto para a república, ou como prefere Bobbio, "do regime de cortar cabeças para o de contar cabeças". Do poder absoluto para o estado de direito. E, posteriormente, para a democracia (ainda em fase de testes, diga-se).

El poder significa la probabilidad de imponer la propria voluntad, dentro de una relación social, aun contra toda resistencia y cualquiera que sea el fundamento de esa probabilidad (conforme definição de Max Weber)

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, que esse ano faz 60 anos, na verdade começou a ser gestada em 1919 quando da formação da Sociedade das Nações, no âmbito do Tratado de Versailles, que transformou a guerra em um tema de interesse global. Portanto, o conflito recente Colômbia x Equador, foi levado à OEA porque qualquer conflito entre nações hoje, é do interesse de todos. Por isso também, na maioria dos governos, existem dois elementos permanentes: o Ministério do Exército (que faz a guerra) e o Ministério das Relações Exteriores (que faz a paz).

Na Carta da ONU, a palavra guerra aparece apenas uma vez, logo no preâmbulo: "nós, os povos das nações unidas, resolvidos a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres, assim como das nações grandes e pequenas, e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla. (...)". Historicamente, a guerra tinha uma conotação apenas de um "instrumento de resolução de conflitos" e a tortura por muito tempo foi tida como um "meio justificado de obtenção de provas". Ainda bem que as coisas mudaram bastante neste sentido...

A dignidade da pessoa humana é inviolável e toda autoridade pública
terá o dever de respeitá-la e protegê-la.


No filme O paciente inglês, a enfermeira vivida por Juliete Binoche é a única que reconhece o doente terminal como uma pessoa humana. Isso porque durante a guerra, judeus, ciganos e doentes terminais, não tinham direitos. A Constituição Alemã só reconhecia os direitos dos alemães (enquanto cidadãos). Para se ter uma idéia, em nossa constituição, a palavra brasileiro só é citada para especificar os parágrafos que tratam de nacionalidade, mas todos os seres em território brasileiro, tem seus direitos humanos e de cidadãos reconhecidos (pelo menos na teoria).

"Todos nascem iguais" é o que diz a carta de 48, mas só a partir da reforma em 2005, surge o conceito da "responsabilidade de proteger". É dever humanitário garantir abrigo aos refugiados, por exemplo. E isso é um conceito à ser observado mundialmente, o que considero um avanço gigantesco para a sociedade em que vivemos e, porque não, para o futuro da humanidade.

Segundo Hanna Arendt "(...) onde os homens aspiram a ser soberanos, como indivíduos ou como grupo organizado, devem se submeter à opressão da vontade, seja esta a vontade individual com a qual obrigo a mim mesmo, seja a vontade geral de um grupo organizado. Se os homens desejam ser livres, é precisamente à soberania que devem renunciar". O sentido de liberdade Arendtiano aqui, não é o que muitos pensam, não tem um viés tão revolucionário, ela mesma afirma mais a frente que o próprio "sentido da política é a liberdade". Mesmo o dificílimo Kant em seu texto "A paz perpétua" (que não é a dos cemitérios), diz que todos os países devem ser republicanos para alcançarem a paz. A ordem internacional deveria ser regida por uma confederação de estados livres. O cosmos no conceito kantiano, é inspirado na polis grega.

No government should be able to create a prison where it can be exercise unchecked absolute power over those within the prision´s walls (Human Rights Watch World Report 2004).

Será que os defensores de Guantánamo conhecem isso? A base é uma evidência do limite da proteção internacional dos direitos humanos quando o discurso da segurança de Estado se torna prioridade absoluta. O campo iniciou seu funcionamento em 11 de janeiro de 2002 com aproximadamente 700 pessoas de várias partes do mundo, dentre elas três adolescentes entre 13 e 18 anos. Até o momento, não foi informado: a identidade dos prisioneiros, a alegação contra eles, onde serão julgados.. Os julgamentos que estão sendo realizados, são feitos por uma Comissão Militar criada pelo presidente Bush em 2001. Vivo num mundo em que isso é aceito, permitido e não questionado pela maior parte do planeta... é difícil compreender isso às vezes...

(...) Se oriente, rapaz
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece
Vê se não se esquece
Pela simples razão de que tudo merece
Consideração
Considere, rapaz (...)
Gilberto Gil

O sentido da palavra dignidade é merecimento, respeito, consideração. Essa definição foi melhor explicada para mim, esses dias, pelo Prof. Guilherme Assis Almeida: "Siderar é olhar para as estrelas. Milenarmente, olhamos para elas para entender a existência ou prever o futuro. Quando considero, respeito as peculiaridades de cada ser. O antônimo é desiderar, ou desejar ao extremo, sem limites."

No caso Isabella Nardoni por exemplo, só houve o desejo de se livrar de um problema, não houve consideração. E, no entanto, considerar é uma necessidade humana, por isso o fato chocou tanto, a despeito da reação da sociedade e da imprensa terem me chocado mais. Sobre isso aliás, leiam: http://provocadoress.blogspot.com/2008/04/ensinando-lixar.html de Ana Paula Bessa e http://prenhederazao.blogspot.com/2008/04/o-acaso-particular.html do Flávio Costa que definem bem o que vem acontecendo e resume muito do que eu mesma penso sobre o assunto. Triste do povo que acredita que linchar suspeitos em praça pública é o exercício de um direito ou um ato de "justiça" (putz)...
Outro filósofo, Joan Galtung define: "violência é tudo que impede ou impossibilita o processo de desenvolvimento", ou seja, quando pais e mães super protegem seus filhos não estão criando seres livres, muito menos dando-lhes possibilidade de se desenvolverem.

Uma inteligência distribuída por toda a parte, incessantemente valorizada e coordenada em tempo real, resulta em mobilização efetiva de competências. (Pierre Lévy)

O uso internacional da força física ou do poder, real ou potencial, contra si próprio, contra outras pessoas ou contra um grupo ou uma comunidade é praticado mundialmente ainda hoje sem a observação dos critérios recomendados pela Carta da ONU, ainda que muito se diga a respeito, cada cultura acaba fazendo de acordo com sua vontade. A vantagem é que hoje é difícil isso acontecer sem que hajam reações literalmente imediatas de cada canto do planeta, a internet aí é um grande "observatório". Mesmo com fatos como a base de Guantánamo ou o assassinato do líder das Farc ocorrendo embaixo de nossos narizes sem que as pessoas se dêem conta do tipo de atrocidade que é cometido, da violação de direitos, da ingerência ao país alheio, creio que Lévy acerta quando afima no resultado final, ainda podemos nos salvar nos utilizando da informação (responsável), da educação e do conhecimento. Como aponta Amartya Sen, prêmio nobel de economia de 1998: "o desenvolvimento é um compromisso muito sério com as possibilidades de liberdade". O desenvolvimento para ela, deve ser visto como um processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam. Ela contrasta com visões mais restritas, como as que identificam desenvolvimento com crescimento do PIB, aumento da renda per capita, industrialização, avanço tecnológico ou modernização (obviamente importantíssimas como meios de expandir as liberdades). Mas as liberdades definidas por ela são essencialmente determinadas por saúde, educação e direitos civis. Então, ver o desenvolvimento como expansão de liberdades substantivas dirige a atenção para os fins que o tornam importante, em vez de restringi-lo a alguns dos meios que desempenham um papel relevante no processo. Possivelmente, isso resolveria boa parte dos nossos problemas. Darcy Ribeiro, Paulo Freire e muitos outros educadores já sabiam disso há tempos só que não é interessante ainda apontarmos para isso. Pelo menos é o que pensam nossos representantes. Infelizmente.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Stop and think

Christopher Eric Hitchens, jornalista britânico

Cuidado com o irracional, por mais sedutor que ele seja. Evite o "transcendente" e todos os que o convidarem a se subordinar ou anular. Não confie na compaixão; prefira a dignidade para você e para os outros. Não tema ser considerado arrogante ou egoísta. Olhe todos os experts como se eles fossem mamíferos. Nunca seja um espectador da injustiça e da estupidez. Procure o debate ou a discussão por eles mesmos; o túmulo fornecerá muito tempo para o silêncio. Suspeite de seus próprios motivos e de todas as desculpas. Não viva para os outros, assim como você não espera que os outros vivam para você.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

ADEUS TEATRO OFICINA PERDIZ

Depois de tantas ameaças a derrubada se aproxima

O Teatro Oficina do Perdiz, três semanas após ganhar as telas do Fantástico e emocionar tanta gente no quadro Me Leva Brasil, recebe um ultimato para ser demolido. Talvez, nos últimos anos, uma das poucas notícias vindas de Brasília e que tenha dado orgulho a algum brasileiro, foi a história desse torneiro mecânico - como o nosso presidente - mas, um torneiro mecânico apaixonado pela cultura e que dividiu o espaço do esmeril e da solda, com figurinos, cenários e o ritual diário dos atores.
Essa história virou filme e tem ganhado as telas de festivais no Brasil e no mundo, com o curta 'Oficina Perdiz' de Marcelo Diaz. Além disso, está em fase de finalização, outro curta metragem, de Pio Gomes e que fala de dois Josés e duas oficinas, Zé Celso (Teatro Oficina – SP) e José Perdiz (Teatro Oficina do Perdiz).
A contundente ameaça ao teatro é fruto dos interesses de uma empresa da construção civil (Ipê-Omni), que ergueu, ao lado do Teatro Oficina, um prédio de quitinetes e estão conseguindo pressionar governo e representantes da Secretaria de Cultura do DF para colocar abaixo 20 anos de história do teatro brasiliense.
Segundo o produtor do espaço, Marco Pacheco, a construtora quer finalizar uma marquise que invade a área ocupada por essa oficina teatro, assim, é preciso tirar de circulação mais um teatro no Brasil, por atrapalhar interesses financeiros de um pequeno grupo. O capital financeiro subjugando o capital cultural, histórico e artístico de uma cidade.
O Teatro Oficina do Perdiz é uma peculiar oficina mecânica criada em 1969 e que funciona como teatro desde 1988, sendo um dos espaços mais democráticos para os artistas e para a comunidade. O principal argumento da construtora é que a área ocupada é do GDF, e deveria ser uma área de passagem de um bloco para outro. Aqui, cabe ressaltar que quase todas as áreas de passagem da Asa Norte são invadidas por empreendimentos que nada acrescentam à vida cultural do brasiliense, que não têm nenhuma utilidade pública. Vale lembrar ainda que o prédio do INSS incendiado em 2005 não possuía habite-se. Um dos mais nobres resorts da cidade também enfrenta problemas com a área ocupada, além disso, várias outras obras da cidade são irregulares. Qual a diferença entre essas outras edificações e a Oficina Perdiz? Por que a oficina do perdiz deve desocupar uma área pública para ser ocupada por esses empresários? Quem é beneficiado com isso? A resposta é simples: em Brasília ganha quem tem dinheiro e influência política. Será que nós, cidadãos e artistas, concordamos com isso?
O Teatro do Concreto se uniu a outros artistas apaixonados por esse espaço e está em temporada no Teatro Oficina do Perdiz com o espetáculo Diário do Maldito desde o dia 28 de março. A peça, inspirada na vida e obra do Plínio Marcos fala de resistência e compromisso com a arte. Nossa temporada é uma ação de resistência pela manutenção do espaço. Agora, corremos o risco de nem chegar ao final da temporada, prevista para 20 de abril, afinal, a obra ao lado tem urgência. Os empresários já se reuniram com a Secretaria de Cultura do DF, sem convidar a classe teatral para debater o assunto, a única proposta feita foi a retirada da Oficina do Perdiz, sem deixar claro como, quando e de que forma. É triste perceber que a marca que esse governo está imprimindo na cultura do DF é a marca da agressão aos foliões durante o carvanal, da destruição de obras de arte na W3 Sul que homenageavam poetas e, agora, a da eminente demolição do Teatro Oficina Perdiz. Cada vez mais, fica clara a idéia de fazer de Brasília uma cidade asséptica. Brasília não é do povo, como o céu é do avião.
Gostaríamos de poder contar com o apoio de artistas, jornalistas e da população em geral para impedir esse crime contra nossa cultura.

Teatro do Concreto.
REPASSEM!!!
Contatos: Marcos Pacheco – (61) 8142-9700 – produtor do espaço
Ivone Oliveira – (61) 9935-0860 – Teatro do Concreto
Marcelo Diaz – (61) 9212-4006 – Diazul de Cinema
Teatro Oficina do Perdiz (61) 3273-2364

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Das coisas que não entendo

Quando pensamos que sabemos
Quando achamos que temos
As respostas
O controle das coisas
Que sentimos
Que observamos
Que pensamos
Quando você se encontra
Com você mesmo
No caminho
Se olha e não se reconhece
Quando não há nada a dizer
Quando decidir já é difícil
E você está naquele ponto do caminho
Em que escolher é inevitável
Em que dar adeus é inevitável
É preciso saber renovar-se
É preciso saber deixar o tempo passar
Sem fazer nada
Ver o avesso da noite
E viver as perguntas
Não mais as respostas

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Release

CAFÉ COM LETRAS PROMOVE LANÇAMENTO DA EDITORA CONTRAPONTO

Seguindo em sua tradição de promover lançamentos com o que há de melhor no mundo da literatura, o Café com Letras realiza no próximo dia 09 de abril (quarta-feira) a partir das 19h30 o lançamento do livro Corpo negro caído no chão de Ana Luiza Pinheiro Flauzina. O livro é o resultado da dissertação de mestrado de Ana Luiza pela Universidade de Brasília.

A autora faz uma abordagem científica da questão racial brasileira sob uma visão criminológica. Aborda também as estratégias de desaparecimento e extermínio da imagem física do negro no Brasil promovidos pela mídia. Uma das contribuições para o racismo como sistema, conforme sustentado por ela, é "o projeto de Estado de caráter genocida dirigido à população negra". Com muita segurança, Ana Luiza Flauzina, toma por base sua própria história mas o faz dentro de um olhar para além da coletividade, ela se refere pluralmente e se inclui dentro desta categoria que encara todos os dias o que nosso país vem ignorando oficialmente, mas apoia sumariamente: o racismo. Em sua tese, ela sustenta-se com o referencial teórico da criminologia crítica e avalia que o Brasil "forja uma imagem de harmonia racial descolada da realidade".

Como bem aponta Vera Malaguti Batista, esse livro da jovem professora e militante do movimento negro, Ana Luiza Pinheiro Flauzina é fundamental, antes de tudo, para a compreensão da questão criminal no Brasil contemporâneo.

Serviço:

Lançamento do livro "Corpo negro caído no chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado brasileiro", de Ana Luiza Pinheiro Flauzina, Editora Contraponto, Rio de Janeiro, 2008.
Data: quarta-feira, 09 de abril
Local: Café com Letras, SQS 203 sul BL C loja 19 Asa Sul - Brasília - DF
Horário: a partir das 19h30

Informações e reservas:
61-3322-4070
cafe.letras@gmail.com

Informações à imprensa:
Juliana Medeiros
61-99998843 / 91006065
juliana_msouza@yahoo.com.br

Pausa

O Quereres

Composição: Caetano Veloso

Onde queres revólver, sou coqueiro;
Onde queres dinheiro, sou paixão!
Onde queres descanso, sou desejo;
E onde sou só desejo, queres não!
E onde não queres nada, nada falta;
E onde voas bem alto, eu sou o chão;
E onde pisas no chão,
Minha alma salta: e ganha liberdade na amplidão...
Onde queres família, sou maluco;
E onde queres romântico, burguês!
Onde queres leblon, sou pernambuco;
E onde queres eunuco, garanhão!
E onde queres o sim e o não, talvez;
Onde vês, eu não vislumbro razão!
Onde queres o lobo, eu sou o irmão;
E onde queres cowboy, eu sou chinês!
Ah, bruta flor do querer...
Ah, bruta flor, bruta flor!
Onde queres o ato, eu sou o espírito;
E onde queres ternura, eu sou tesão!
Onde queres o livre, decassílabo;
E onde buscas o anjo, eu sou mulher!
Onde queres prazer, sou o que dói;
E onde queres tortura, mansidão!
Onde queres o lar, revolução;
E onde queres bandido, eu sou o herói!
Eu queria querer-te amar o amor,
Construírmos dulcíssima prisão;
E encontrar a mais justa adequação:
Tudo métrica e rima e nunca dor!
Mas a vida é real e é de viés,
E vê só que cilada o amor me armou:
Eu te quero e não me queres como sou;
Não te quero e não me queres como és...
Ah, bruta flor do querer...
Ah, bruta flor, bruta flor!
Onde queres comício, flipper vídeo;
E onde queres romance, rock'n roll!
Onde queres a lua, eu sou o sol;
Onde a pura-natura, o inseticídeo!
E onde queres mistério, eu sou a luz;
Onde queres um canto, o mundo inteiro!
Onde queres quaresma, fevereiro;
E onde queres coqueiro, eu sou obus!
O quereres e o estares sempre a fim,
Do que em mim é em ti tão desigual...
Faz-me querer-te bem;
Querer-te mal:
Bem a ti, mal ao quereres assim:
Infinitivamente impessoal;
E eu querendo querer-te sem ter fim!
E querendo-te,
Aprender o total...
Do querer que há;
E do que não há em mim!

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