"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

terça-feira, 29 de março de 2011

Quem ganha com essa guerra?

"O essencial da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas de produtos do trabalho humano. A guerra é um meio de despedaçar, ou de libertar na estratosfera, ou de afundar nas profundezas do mar, materiais que de outra forma teriam de ser usados para tornar as massas demasiado confortáveis e, portanto, com o passar do tempo, inteligentes."
George Orwell




                                                                                    Marco Longari/AFP

segunda-feira, 28 de março de 2011

44 BILHÕES DE MOTIVOS PARA ATACAR A LÍBIA

Da Agência de Notícias Nova Colômbia:


"...A Líbia, com as buscas dos últimos anos demonstrou possuir um capital incalculável de petróleo e de gás.

Com as novas tecnologias, as estimativas sobre as reservas podem se duplicar. Falamos de 44 bilhões de barris de petróleo.

É um petróleo de muito boa qualidade, que custa pouco para refinar e que não se encontra facilmente em outros lugares

(...) depois das destruições da guerra civil e da "humanitária", os contratos petrolíferos, se forem respeitados, poderão ser até mais favoráveis.

Porque, naturalmente, teremos um "vendedor", a Líbia, mais pobre e dividido e, portanto, mais chantageável.

E essa é a situação ideal à qual provavelmente se queria chegar..."

(Margherita Paolini, Il Manifesto/IHU)

(Carta Maior; 2º feira, 28/03/2011)

sexta-feira, 25 de março de 2011

Hoje eu queria estar em Macapá

Acompanho desde o início a movimentação em torno da Ficha Limpa. Não só como cidadã, mas como repórter. Cobri quase todas as audiências e votações em torno da matéria, fosse no Congresso, ou já no STF.

Lembro que tomei conhecimento ainda em 2008, em SP, durante uma viagem a trabalho. Pessoas comuns, cidadãos como eu ou você, sentavam-se em banquinhos e mesas simples munidos de cartazes e panfletos em Shoppings, praças e outros locais públicos e aguardavam que as pessoas se chegassem para explicar a proposta. Eu fui abordada por um senhor aposentado que me apresentou o manifesto. Assinei na hora.

Vida que segue e soube por vários meios, incluindo os prejudicados - que conheço e atesto em qualquer lugar serem pessoas de caráter ilibado e com histórias de vida admiráveis - que também eles tinham caído na "malha" da Ficha Limpa, mas enquadrados como "fichas sujas". Acontece que o casal a que me refiro são duas pessoas que deveriam ser motivo de orgulho para o país.

Não bastasse tudo que representam na construção da democracia que vivemos hoje, João Capiberibe é autor da Lei Complementar 131/2009, a Lei da Transparência.


Janete e João Capiberibe

Mesmo com inúmeras reportagens, denúncias e evidências a respeito da fraude montada para incriminá-los, sabemos que a justiça no Brasil caminha por brechas nem sempre "transparentes" ou fáceis de serem compreendidas.

Eu apoiei o movimento, mas tenho de admitir que nesse caso, no caso das duas figuras acima, fez-se justiça. Por isso, hoje eu gostaria muito de estar em Macapá, dando um abraço em cada um.

Soldados dos EUA tiram fotos com cadáveres de crianças


Os guerrilheiros mortos ou os prisioneiros torturados já estão fora da moda. Agora o "must" para os soldados estadunidenses no Afeganistão é fazer fotografias com cadáveres de crianças camponesas. Fotos assim foram publicadas pela revista conservadora alemã Der Spiegel, que assegura ter outras 4 mil imagens da ocupação americana no país.


Enquanto as imagens circulavam pelo mundo, reveladas no último dia da visita de Obama ao Chile, o presidente do país sul-americano bajulava o estadunidense: "Vemos nos Estados Unidos um país poderoso e amante da paz".

Enquanto Michelle Obama passeava na última segunda-feira (21) no museu infantil com as crianças pobres do bairro La Granja da capital chilena, e seu marido proclamava no Palácio de La Moneda o "amor" dos Estados Unidos pelos Direitos Humanos e pela Democracia, a revista alemã publicava imagens dos soldados americanos que, supostamente, lutam por esses valores no Afeganistão.

Uma delas mostra um soldado agachado perto do corpo de um menino, morto momentos antes. Os soldados bateram fotos de "recordação", retiraram seus dentes e outros "troféus".
As imagens ilustram a perversão da lavagem cerebral que Obama, o Pentágono e o complexo militar-industrial midiático faz aos soldados dos Estados Unidos.

Na fotografia que ilustra este artigo, vê-se o cadáver do filho do camponês Gul Mudin, assassinado em 15 de janeiro de 2010. O militar que levanta a cabeça da criança pelos cabelos pode ser Jeremy Morlock ou Andrew Holmes, da chamada "Equipe da Morte" do Afeganistão, um grupo de 12 militares estadunidenses que está sendo julgado em Seattle, pelo assassinato de civis no país asiático.

Gul Mudin, pai do menino assassinado, era um sitiante dos arredores da cidade de Kandahar. Os soldados alegaram que ele teria ameaçado atirar uma granada neles. O diário britânico The Guardian disse na terça-feira que os militares mutilavam os dedos das suas vítimas e extraíam seus dentes como "troféus". Para obter uma pena reduzida, Morlock aceitou dedurar seus companheiros e culpar seu superior, o sargento Calvin Gibbs, como responsável pelas matanças.

Com agências

quinta-feira, 24 de março de 2011

Secretaria de Cultura do DF promove Pré-Conferências de Cultura

O circuito das Pré-Conferências que teve início no dia 26 de fevereiro na cidade de Samambaia e que reuniu 101 pessoas no salão da Escola CCI, conta, agora, com o número de 3012 participantes nas 21 cidades e 12 setoriais em que foi realizado, o que faz da III Conferência de Cultura, o evento com a maior mobilização cultural desde o Seminário de Cultura realizado nos anos 80 anos no Distrito Federal. Saiba mais em: http://www.conferenciaculturadf.blogspot.com/.


Ouça aqui a reportagem sobre as Pré-Conferências veiculada na Rádio Cultura FM, incluindo entrevista com o coordenador Nelson Gilles:

segunda-feira, 21 de março de 2011

Beppe Grillo sobre intervenção na Líbia: Caros jornalistas e políticos, por favor, não acreditem nos italianos

Do blog da Maria Frô


Caros jornalistas e políticos, por favor, não acreditem nos italianos.

Não há nada de humanitário no que estão fazendo: são atos de guerra. Guerra suja por energia, petróleo, gás. A França, que depois de Fukushima já não tem futuro nuclear, precisa de gás e petróleo.

Pelo menos desde o tempo do massacre de Ustica[1], França e Itália lutam pelo controle do petróleo da Líbia, quando os céus da Itália viraram teatro da guerra com a França, aviões italianos e Gaddafi, que estava apresente e safou-se por um fio. Gaddafi foi apoiado pelos italianos nos anos 70s, for armado pelos italianos. Parte do exército da Líbia foi treinado na Itália em troca de relações privilegiadas para comprarmos gás e petróleo.
Essa é guerra ensandecida que os europeus não desejam. Do modo como os italianos foram informados, não passaria de notícia de rodapé nos noticiários, como uma partida de futebol. China e Rússia são contra os ataques. A Alemanha absteve-se no CSONU e a União Africana rejeitou “qualquer tipo de intervenção estrangeira na Líbia, seja de que tipo for.” O presidente da Mauritânia Abdel Aziz disse bem claramente: “é crise gravíssima que se abate sobre um país irmão e que exige solução africana”. O presidente Aziz disse também que “nenhum representante da União Africana participou do encontro internacional sobre a Líbia, em Paris”.

O CSONU aprovou “uma zona aérea de exclusão”. Não aprovou bombardeio que reduzisse a Líbia a ruínas. Centenas de mísseis disparados por EUA e britânicos contra “alvos”, numa operação batizada de “Alvorada da Odisseia”.

Linguagem de videogame. Não é alvorada. É ocaso: o ocaso da odisséia.

Há hoje mais civis mortos pelas mãos de Obama, Cameron e Sarkozy ou em Benghazi que mortos pelas mãos de Gaddafi. Talvez os líbios mortos por mãos líbias valham, cada morto, duas mortes?

O art. 11 da constituição da Itália diz que “a Itália rejeita a guerra como instrumento de agressão contra as liberdades de outros povos e também como meio para resolver controvérsias internacionais (…).” Por que os partidos políticos não estão nas ruas, brandindo a Constituição, contra a guerra?
Estamos bombardeando uma nação muçulmana africana. Nenhuma nação, nem muçulmana nem africana participa do ataque “internacional” das potências ocidentais, ao lado dos “cruzados”, como Gaddafi os chama.

A Arábia Saudita invadiu o Bahrain, agitado por manifestações populares contra a ditadura. Quando começará o ataque dos “cruzados” contra os ditadores-xeiques?

Gaza foi convertida em cemitério. Ninguém considerou necessária qualquer intervenção humanitária. A Itália é um porta-aviões cercado de navios canadenses, americanos e britânicos que entram e saem de nossos portos. Com que direito? Somos país de soberania limitadas, mas o que está acontecendo é demais.

Fora! Fora da Itália as bases dos EUA, antes que seja tarde demais! O que sabemos sobre os rebeldes de Benghazi? Opõem-se a Gaddafi por quê? Por razões democráticas, tribais, econômicas ou religiosas? Propõem o quê, para a Líbia? Nada sabemos. Nada.

Qualquer um aí, que precise de petróleo, que lance o primeiro Tomahawk, para carregar a responsabilidade do ataque. Em seguida os EUA lançaram 110 Tomahawks, para completar o serviço.
++++++++++++++++++++

[1] Sobre o conflito entre Itália e França pelo controle dos recursos energéticos no norte da África. Segundo Priore e Fasanella (autores do livro Intrigo internazionale), esse seria o pano de fundo do massacre de Ustica. Um avião italiano de passageiros explodiu, em circunstâncias jamais esclarecidas, sobre a cidade de Ustica, dia 27/6/1980. Suspeita-se de que tenha sido abatido por um caça francês. Em 2008, a Itália reabriu as investigações sobre o caso (TG2 Punto di vista, 17/5/2010).

domingo, 20 de março de 2011

Pré-Conferências mobilizam a cultura do DF

A iniciativa busca fomentar o debate e a construção de propostas voltadas para a cultura, reúne representantes dos mais diversos segmentos culturais, além de representantes do Poder Público e pessoas das comunidades. 


Nelson Gilles, coordenador das conferências conversou com a Rádio Cultura FM sobre o novo formato pensado para estimular a participação popular.


 

sábado, 19 de março de 2011

Jordán Rodríguez: La estupidez no tiene límites...

Cheguei a indicar a Al Jazeera como fonte confiável do que estava acontecendo na Líbia, junto com a TeleSur. Mas já há algum tempo apenas essa última se mantém fiel às regras mínimas da boa reportagem, a começar pela apuração.

Um dos jornalistas que tenho acompanhado todos os dias, tanto pela TV quanto pelo blog, é o Jordan. Prestem atenção no texto abaixo, ele usou o blog para fazer um desabafo e dizer, dentre outras coisas, que tem assistido a colegas - de outros veículos - nque estão na Líbia, mentirem e falarem de coisas que eles não vêem. E o resultado dessa guerra midiática é o que está acontecendo agora. E não só o mundo referendou isso, como também apoiaram o discurso de Hilary Clinton hoje, pela manhã, JUSTIFICANDO o apoio às - estas sim - atrocidades que estão sendo cometidas no Bahrein e na Arábia Saudita e o motivo é óbvio: "aos amigos tudo". Qual critério levou os "especialistas" a definirem que nesses dois países valia apoiar os governos contra a oposição e na Líbia não? Será que não faz sentido para ninguém??


Jordán Rodríguez: La estupidez no tiene límites... Bravo al premio Nobel:

Hoy me voy a tratar de dormir a las 2 a.m. nuevamente, pero con la peor de las amarguras... He visto personas matarse unas a otras por dos banderas de un mismo país, una y otra y otra vez durante el tiempo que he estado en Libia. he visto a periodistas mentir a mi lado, no grabar, no escribir, no reportar, hablar de cosas que no ven y me pregunto si esta noche podrán dormir tranquilos.

Obama habla de la "Odisea del amanecer" odisea?.. A qué se refiere?.. Desde que llegué he tratado de estar en medio del conflicto, me he preguntado mil veces que pasa con las víctimas, con sus mujeres, con sus hijos, no hay respuesta. Tenía la esperanza utópica o estúpida de que una comisión de observadores internacionales viniera y de que los líderes tribales pudieran hacer que ambos bandos dejarán las armas de lado pero no... Era mucho pedir he tenido que ser testigo de un nuevo accionar pacifista de los policías del mundo... Bravo! Que solución... Para parar los bombardeos, lancemos bombas sobre Libia... Me impresiona el pensamiento de los más desarrollados.

Se hablaba de 15 mil muertos, ya contaremos al final. Me voy a dormir con la imagen de un niños partido en dos por una bomba que publicó un medio local y sólo pido porque Dios proteja a mi hijo.

Perdonen que esto más que información sea una opinión y si escribo lleno de rabia.

Jordán

Emancipate yourselves from mental slavery

A França começa a disparar contra a Líbia - podendo estar iniciando com isso uma guerra em que outros países já ameaçam também se envolver - enquanto o Brasil-Colônia faz a claque para Barack Russein Obama, primeiro negro presidente americano, descendente de muçulmanos. O brasileiro que esperou na chuva para ver a família Obama, com certeza ainda não juntou as peças do quebra-cabeças que responde à inevitável pergunta: "o que Obama quer com essa visita ao Brasil?".

A Carta que Niemeyer endereça a Obama e que pode ser assinada aqui, revela que o velho comunista, do alto dos seus 103 anos, conserva toda sua lucidez e memória. E memória, me parece hoje um artigo realmente raro nas manifestações que testemunhamos em rede nacional.





Redemption Song

Bob Marley


Old pirates, yes, they rob I,
Sold I to the merchant ships,
Minutes after they took I
From the bottom less pit
But my hand was made strong
By the hand of the Almighty
We forward in this generation
Triumphantly
Won't you help to sing,
These songs of freedom?
'Cause all I ever have:
Redemption songs,
Redemption songs!
Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our minds
Have no fear for atomic energy,
'Cause none of them can stop the time
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look
Huh, some say it's just a part of it:
We've got to ful fill the Book
Won't you help to sing,
These songs of freedom?
'Cause all I ever have:
Redemption songs,
Redemption songs,
Redemption songs!
Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our mind
Oh, have no fear for atomic energy,
'Cause none of them-a can-a stop-a-the time
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look?
Yes, some say it's just a part of it:
We've got to ful fill the Book
Won't you help to sing,
These songs of freedom?
'Cause all I ever had:
Redemption songs,
All I ever had:
Redemption songs!
These songs of freedom,
Songs of freedom!


UPDATE 17:20H
NESSE MOMENTO, INFORMAÇÕES DA TELESUR E AL JAZEERA CONFIRMAM QUE OBAMA, ENQUANTO CONVERSAVA COM A PRESIDENTE DILMA, ENTREGOU BILHETE AUTORIZANDO ATAQUE A LÍBIA. JÁ FORAM DISPARADOS MÍSSEIS CONTRA TRÍPOLI! PRESTEM ATENÇÃO: TRÍPOLI! SE O OBJETIVO É PARAR O CONFLITO, ELE ACONTECE EM BENGHAZI, NÃO EM TRIPOLI! PORQUE OS AMERICANOS E FRANCESES ESTÃO ATINGINDO CIVIS EM TRIPOLI?

sexta-feira, 18 de março de 2011

Yes, we understand



Grande Niemeyer!

Do blog do Altamiro Borges



"Reproduzo abaixo-assinado que circula na internet e que continua aberto a novas adesões:

O presidente Lula foi definitivo: quando nos dirigimos a V. Exa não parece que falamos com o representante de um poder imperial e sim com um brasileiro como qualquer um de nós. Sua eleição trouxe muita admiração e muita esperança para o povo brasileiro e para toda a América Latina. Contudo, devemos confessar-lhe que nos encontramos profundamente decepcionados.

Acreditamos nas promessas de campanha, entre elas esperávamos que seu governo trouxesse a paz e a justiça para nossa querida Ilha Cubana, que como é sabido, apesar do embargo de mais de 50 anos conseguiu ocupar um lugar de destaque no mundo com avanços significativos na área da biotecnológica, educacional e na área de saúde publica.

Apesar da campanha difamatória e da propaganda violenta Cuba resiste a todas as agressões e intempéries com dignidade. Desnecessário citar a V. Exa todos os desmandos contra Cuba, sob as mais mentirosas alegações.

Assim foi a Baia de Porcos, assim foi a promessa de desativar Guantánamo, assim é a prisão dos Cinco Cubanos em prisões Estadunidense com julgamentos sem nenhum critério ético e justiça, assim foi assinado há mais de 50 anos um embargo econômico, cruel e desumano.

Assim tem sido contra Honduras, Venezuela, Bolívia, África, sem citar o apoio e o trabalho das agencias de inteligência contra os países sul americanos nas décadas de 60 e 70 de século passado.

São incontáveis essas agressões. O senhor chegou como esperança de crescimento do homem em todas as esferas. Veio de uma classe média diferenciada, traz nas veias a herança de seus antepassados, os mesmos que construíram a economia de seu Pais.

Sabemos de seus interesses na grandiosidade do Brasil, que transcende o imaginável: Pré - sal, riquezas inesgotáveis de energia, biodiversidade, mão de obra barata, são apenas alguns exemplos.

Senhor Presidente Barack Obama, nosso contencioso é grande mas nosso carinho pelo povo norte americano transcende as desavenças.

Queremos aproveitar esta ocasião para uma reflexão necessária: a generosidade, a solidariedade, o respeito a soberania de cada pais, e principalmente, centrar nossas potencialidades para transformar o caos em que vivemos num mundo melhor.

Acabe com o embargo a Cuba e liberte os Cinco Heróis Cubanos, em nome da real integração entre os povos.

Rede das redes em Defesa da Humanidade – Capitulo Brasileiro

Oscar Niemeyer – Presidente de Honra;

Marilia Guimarães – Presidente do Capitulo Brasil."

A matéria que a Veja escondeu

Não se sabe ao certo o motivo. Correm boatos de que o jornalista sairia da revista para outra e levaria consigo a exclusiva. O fato é que a entrevista publicada essa semana pela Veja foi realizada antes das eleições e poderia ter mudado seu resultado. Esse é mais um exemplo da ausência de ética jornalística por parte deste semanário. Por outro lado, a mesma Veja sempre primou por favorecer toda essa turma que se concentra em grande parte no DEMOcratas. Parece que a "fonte" secou...

Mas vale a publicação aqui no blog, já que as informações do ex-Governador Arruda já começaram causando o esperado efeito "ventilador" que atingiu figuras que vão desde os Deputados Ronaldo Caiado  e Rodrigo Maia até o Senador Cristovam Buarque. Alguns, como os Senadores José Agripino (@joseagripino) e Demóstenes Torres (@demostenes_go), passaram a noite refutando energicamente as acusações pela rede social Twitter, sendo esse último o mais exaltado, tendo chamado o ex-Governador até de "vagabundo, maloqueiro e ladrão". E o próprio entrevistado, por meio de seus advogados, acusou a revista de ter deturpado a entrevista e negou que tenha admitido a prática de corrupção.

Durante a leitura, indico os links para as notas oficiais à imprensa que saíram ao longo dia. Como dizem lá na minha terra, agora vai ser um "barata voa" danado.






Arruda diz que ajudou líderes do DEM a captar dinheiro


Segundo o ex-governador, dinheiro da quadrilha que atuava em Brasília alimentou campanhas de ex-colegas como José Agripino Maia e Demóstenes Torres


José Roberto Arruda foi expulso do DEM, perdeu o mandato de governador e passou dois meses encarcerado na sede da Polícia Federal (PF), em Brasília, depois de realizada a Operação Caixa de Pandora, que descobriu uma esquema de arrecadação e distribuição de propina na capital do país. Filmado recebendo 50 mil reais de Durval Barbosa, o operador que gravou os vídeos de corrupção, Arruda admite que errou gravemente, mas pondera que nada fez de diferente da maioria dos políticos brasileiros: “Dancei a música que tocava no baile”. 

Em entrevista a VEJA, o ex-governador parte para o contra-ataque contra ex-colegas de partido. Acusa-os de receber recursos da quadrilha que atuava no DF. E sugere que o dinheiro era ilegal. Entre os beneficiários estariam o atual presidente do DEM, José Agripino Maia (RN), e o líder da legenda no Senado, Demóstenes Torres (GO). A seguir, os principais trechos da entrevista:  

O senhor é corrupto?Infelizmente, joguei o jogo da política brasileira. As empresas e os lobistas ajudam nas campanhas para terem retorno, por meio de facilidades na obtenção de contratos com o governo ou outros negócios vantajosos. Ninguém se elege pela força de suas ideias, mas pelo tamanho do bolso. É preciso de muito dinheiro para aparecer bem no programa de TV. E as campanhas se reduziram a isso.

O senhor ajudou políticos do seu ex-partido, o DEM?Assim que veio a público o meu caso, as mesmas pessoas que me bajulavam e recebiam a minha ajuda foram à imprensa dar declarações me enxovalhando. Não quiseram nem me ouvir. Pessoas que se beneficiaram largamente do meu mandato. Grande parte dos que receberam ajuda minha comportaram-se como vestais paridas. Foram desleais comigo.

Como o senhor ajudou o partido?Eu era o único governador do DEM. Recebia pedidos de todos os estados. Todos os pedidos eu procurei atender. E atendi dos pequenos favores aos financiamentos de campanha. Ajudei todos.

O que senhor quer dizer com “pequenos favores”?Nomear afilhados políticos, conseguir avião para viagens, pagar programas de TV, receber empresários.

E o financiamento? Deixo claro: todas as ajudas foram para o partido, com financiamento de campanha ou propaganda de TV. Tudo sempre feito com o aval do deputado Rodrigo Maia (então presidente do DEM).
De que modo o senhor conseguia o dinheiro?Como governador, tinha um excelente relacionamento com os grandes empresários. Usei essa influência para ajudar meu partido, nunca em proveito próprio. Pedia ajuda a esses empresários: “Dizia: ‘Olha, você sabe que eu nunca pedi propina, mas preciso de tal favor para o partido’”. Eles sempre ajudaram. Fiz o que todas as lideranças políticas fazem. Era minha obrigação como único governador eleito do DEM.

Esse dinheiro era declarado?Isso somente o presidente do partido pode responder. Se era oficialmente ou não, é um problema do DEM. Eu não entrava em minúcias. Não acompanhava os detalhes, não pegava em dinheiro. Encaminhava à liderança que havia feito o pedido. 

Quais líderes do partido foram hipócritas no seu caso?A maioria. Os senadores Demóstenes Torres e José Agripino Maia, por exemplo, não hesitaram em me esculhambar. Via aquilo na TV e achava engraçado: até outro dia batiam à minha porta pedindo ajuda! Em 2008, o senador Agripino veio à minha casa pedir 150 mil reais para a campanha da sua candidata à prefeitura de Natal, Micarla de Sousa (PV). Eu ajudei, e até a Micarla veio aqui me agradecer depois de eleita. O senador Demóstenes me procurou certa vez, pedindo que eu contratasse no governo uma empresa de cobrança de contas atrasadas. O deputado Ronaldo Caiado, outro que foi implacável comigo, levou-me um empresário do setor de transportes, que queria conseguir linhas em Brasília.
O senhor ajudou mais algum deputado?O próprio Rodrigo Maia, claro. Consegui recursos para a candidata à prefeita dele e do Cesar Maia no Rio, em 2008. Também obtive doações para a candidatura de ACM Neto à prefeitura de Salvador.
Mais algum?Foram muitos, não me lembro de cabeça. Os que eu não ajudei, o Kassab (prefeito de São Paulo, também do DEM) ajudou. É assim que funciona. Esse é o problema da lógica financeira das campanhas, que afeta todos os políticos, sejam honestos ou não.

Por exemplo?Ajudei dois dos políticos mais decentes que conheço. No final de 2009, fui convidado para um jantar na casa do senador Marco Maciel. Estávamos eu, o ex-ministro da Fazenda Gustavo Krause e o Kassab. Krause explicou que, para fazer a pré-campanha de Marco Maciel, era preciso 150 mil reais por mês. Eu e Kassab, portanto, nos comprometemos a conseguir, cada um, 75 mil reais por mês. Alguém duvida da honestidade do Marco Maciel? Claro que não. Mas ele precisa se eleger. O senador Cristovam Buarque, do PDT, que eu conheço há décadas, um dos homens mais honestos do Brasil, saiu de sua campanha presidencial, em 2006, com dívidas enormes. Ele pediu e eu ajudei.
NOTA DO BLOG: Cristovam Buarque foi o primeiro a negar logo cedo: http://buarque.org.br/?p=9426
Então o senhor também ajudou políticos de outros partidos?Claro. Por amizade e laços antigos, como no caso do PSDB, partido no qual fui líder do Congresso no governo FHC, e por conveniências regionais, como no caso do PT de Goiás, que me apoiava no entorno de Brasília. No caso do PSDB, a ajuda também foi nacional. Ajudei o PSDB sempre que o senador Sérgio Guerra, presidente do partido, me pediu. E também por meio de Eduardo Jorge, com quem tenho boas relações. Fazia de coração, com a melhor das intenções

terça-feira, 15 de março de 2011

Uma reflexão

“O verdadeiro significado e o valor da compaixão e da não-violência aparecem quando nos ajudam a ver o ponto de vista do inimigo, a ouvir o que pergunta, a conhecer o que pensa sobre nós. Porque assim, desse ponto de vista, podemos de fato conhecer as fraquezas de nossas posições, e, se estivermos suficientemente maduros, podemos aprender e crescer e nos beneficiar da sabedoria dos irmãos que são chamados de ‘a oposição’.” [“Beyond Vietnam: A Time to Break Silence”, discurso de Martin Luther King Jr, 4/4/1967, NY, EUA]

sexta-feira, 4 de março de 2011

A guerra que Gaddafi já perdeu

Toda Mídia :: Nelson de Sá


A primeira vítima

Destaque sobre a Líbia no Wall Street Journal, "EUA esfriam a conversa vaga sobre zona de exclusão aérea". Era o secretário de Defesa, Robert Gates, em indireta à "loose talk" da secretária de Estado, Hillary Clinton. "Vamos falar direito: zona de exclusão aérea é ataque à Líbia", afirmou ele, avisando ser preciso, para tanto, o apoio do Conselho de Segurança, o que a Rússia já negou.

A seu lado, o chefe do Estado Maior acrescentou que os EUA "até agora não conseguiram confirmar os relatos de que aviões líbios atiraram em manifestantes". O dia todo, outra vítima da guerra foi a cobertura da cidade de Brega. O "WSJ" chegou a noticiar vitória do governo, citando o próprio; "NYT" e Al Jazeera deram vitória dos rebeldes, ouvindo os próprios.

Fonte: ft.com


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Os relatórios que acusavam o Governo da Líbia de convocar a Força Aérea a atirar contra seu próprio povo se espalharam rapidamente em todo o mundo. A informação foi replicada pela imprensa internacional e vimos comentários diversos em fóruns nas redes sociais.

No entanto, até o momento, não há imagens confiáveis que demonstrem o "massacre" ou "limpeza étnica" como chegaram a chamar o que está acontecendo por lá. Mas, ainda assim, essa informação foi o pretexto para os americanos posicionarem suas tropas  perto da fronteira e a ONU ameaçar Muammar Gaddafi com uma condenação no Tribunal de Haia.

Até agora, quase tudo que está sendo mostrado - por favor, voltem e observem novamente - são imagens de conflitos civis, alguns muito parecidos com os  confrontos entre manifestantes e a PM no Brasil, outras mais fortes mostram os rebeldes com metralhadoras, tanques de guerra, ou seja, não são manifestantes com pedras e paus, desarmados. O povo líbio é treinado, quase todo militarizado como o são grande parte dos povos dessas regiões. Até há alguns anos o serviço militar obrigatório na Líbia era - como acontece até hoje em Israel - para meninos e meninas. Há sim imagens de explosões, mas se já são mais de 6000 (!) mortos (um verdadeiro genocídio), aonde estão os corpos?

Agora, uma notícia pode mudar a lógica de tudo isso. Os chefes militares russos dizem que vêm monitorando a partir do espaço - por imagens de satélite - toda a região e as fotos contam uma história diferente.

Ora, não só a Rússia, mas vários países possuem satélites que podem, por exemplo, fazer avaliação do trânsito das cidades, identificar casas atingidas por enchentes, etc E vivemos num mundo em que a convergência de mídias favorece e amplia a percepção do mundo pelas imagens. Vide as primeiras imagens feitas por celular que surgiram da Líbia e que repórteres do mundo inteiro comentavam em "off", afirmando certezas sem saberem exatamente do que se tratava e que causaram essa verdadeira guerra midiática. Guerra cuja essência Gaddafi já perdeu e ele reconheceu isso em seu último pronunciamento quando disse que "não entendia como a ONU pode ter tomado tantas decisões baseada apenas em notícias, sem as devidas investigações".

Segundo a Al Jazeera e BBC, em 22 de fevereiro o governo líbio teria infligido ataques aéreos em Benghazi - a maior cidade do país - e na capital Trípoli. No entanto, militares russos que fazem a monitorização via satélite desde o início, dizem que nada disso estava acontecendo. 

Ou seja, o exército russo está afirmando oficialmente que, os ataques que alguns meios de comunicação estavam relatando jamais ocorreram. Não há registro desses ataques. E vivemos num planeta em que há um verdadeiro arsenal de satélites sobre nossas cabeças gravando tudo. Claro, com certeza eles ocorreram e alguém terá essas imagens. Vamos aguardar.

As mesmas fontes em estabelecimento militar da Rússia dizem que estão monitorando a situação em torno das instalações de petróleo da Líbia, parte delas ocupadas por grupos rebeldes. Com certeza, muitas novidades ainda surgirão nesse cenário, resta saber se confirmada por fotografias que os ataques não ocorreram, a mídia internacional irá replicar com a mesma intensidade que o fez anteriormente.

A reportagem é da RT:


terça-feira, 1 de março de 2011

SOBRE A LÍBIA

"In an age of universal deceit, telling the truth becomes a revolutionary act." George Orwell 
(Numa época de mentiras universais, dizer a verdade torna-se um ato revolucionário)



(Publicado em 22/02/2011)

DIÁRIO DA ÁFRICA: LÍBIA: Reportagem da TV Brasil sobre a Líbia exibida em junho de 2009. Estou recomendando esse vídeo, bem como a leitura de outros textos referentes à Líbia no blog do jornalista Carlos Alberto Jr por ele já ter trabalhado no país algumas vezes como correspondente e ser um conhecedor do continente africano. Estou preparando também um texto sobre minha opinião acerca dos últimos acontecimentos.

Recomendo também a leitura do artigo do professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17462 sobre o mesmo assunto.


UPDATE :

(Publicado em 01/03/2011)

Encontrei, no Portal Vermelho, dois bons artigos que falam sobre a crise na Líbia. Um deles, publicado hoje pelo jornalista  Manlio Dinucci, é elucidador por detalhar internamente o conflito sob o aspecto das forças que se antagonizam no país nesse momento. O outro, do também colega Beto Almeida (publicado originalmente na Carta Maior), considero importante por expor outras facetas desse conflito, em especial a relação da mídia brasileira com o fato. Beto Almeida é membro da Telesur, veículo cuja transmissão dos acontecimentos na Líbia tem sido bastante diferente do que grande parte do restante da mídia vem fazendo e ele explica, em seu texto, os motivos. Pessoalmente, também tenho acompanhado as notícias pela Al Jazeera.

Aos comentários deles, eu acrescento: converso quase todos os dias com amigos líbios e brasileiros que moram na Líbia e estão, para começar, diariamente online pelo Skype. Nenhum deles teve sua internet bloqueada como tem sido dito por parte da mídia internacional e sim, todos me relatam as condições no país de forma diferente do que a mídia vem fazendo.

É perceptível que desestabilizar a Líbia, país com renda per capita  maior que inúmeros países desenvolvidos, num continente de maioria miserável e com as reservas de petróleo que a Líbia possui, deveria nos deixar a todos com "os pés atrás" nesse jogo de informações desencontradas. Não havia até poucos dias, veículos de imprensa no país com informações confiáveis e ainda assim, choviam notícias todos os dias sobre imagens que correspondentes sediados na Europa, comentavam em "off". Num claro distanciamento da imparcialidade e apuração jornalísticas.

É importante ressaltar também que o Conselho da ONU que aí está não é referência de construção de processos de paz. Vejam Afeganistão e Iraque, com os resultados desastrosos da ocupação americana, que já ameaça fazer o mesmo na Líbia. O mesmo engodo dos americanos "salvadores do mundo", que esconde o real propósito de exploração e ingerência geopolítica. Aos céticos, há dezenas de documentários a respeito mas recomendo, para os iniciantes, os produzidos pelo americano Michael Moore, como o "Fahrenheit 11/9" que destrincha em linguagem simples as relações de interesse (inclusive bélicos) entre poderosos americanos e magnatas afegãos, só para citar um exemplo.

Por outro lado, é fato que existe um conflito interno no país, mas para quem não conhece o regime criado por Khadafi - que não é o presidente da Líbia, mas um líder militar - fica difícil mesmo entender. A Líbia, com a falha (que pessoalmente considero grave) de não possuir uma Constituição, implantou o sistema, chamado por Khadafi de "Terceira Teoria" (e publicado no "Livro Verde"), cujo conteúdo é verdadeiramente inovador (ainda que alguns críticos queiram ridicularizá-lo sob o pretexto de ele não ser um "pensador" nos moldes aceitos pela "academia"). Nesse modelo, que funcionou todos esses anos, todos os aparelhos públicos de estado são ocupados por colegiados de pessoas comuns escolhidas em "congressos populares". Por meio de assembléias, se revezam periodicamente os grupos de  lideranças. E à despeito de tudo que vem sendo dito, não dá para não reconhecer o caráter revolucionário de um sistema político que coloca as pessoas comuns, cidadãos, para decidirem seus destinos, sem a interferência de políticos ou ainda considerando à todos como seres políticos e partícipes do processo político-decisório. Há mais de 40 anos a Líbia vem funcionando assim. 

Por isso, há alguns dias, o embaixador líbio no Brasil, Dr Salem Ezubed, durante seu pronunciamento (quando declarou que não renunciaria ao cargo), explicou aos jornalistas que não era um diplomata tradicional, mas sim um professor universitário que tinha sido escolhido, pelos comitês populares na Líbia, para conduzir o (como eles chamam) "bureau" brasileiro diplomático. E o fez, um dia depois de haver se reunido com outros diplomatas que decidem com ele coletivamente a gestão do bureau. Prova disso é que dois deles, mesmo depois de terem perdido no voto (na reunião anterior) o posicionamento que seria dado, protestaram aos jornalistas após a coletiva. Curiosamente, nem a fala do embaixador, nem mesmo esses protestos dos funcionários descontentes, receberam destaque na mídia. Provavelmente porque só mereceria espaço, se  o embaixador tivesse se juntado aos outros diplomatas que renunciaram em outros países.

Usando ainda de uma analogia, o modelo líbio é muito parecido com um grupo gestor de condomínios, como conhecemos aqui no Brasil, com um síndico, conselho fiscal, conselho administrativo etc. Quem já participou de grupos colegiados como esse, pode imaginar o que significa pessoas que pensam de forma absolutamente diferente tendo que negociar, não num condomínio, mas em um país, cada macrodecisão, exatamente como o fazem nossos parlamentares, com o acréscimo de que lá, poderíamos imaginar inúmeras, incontáveis, "câmaras" espalhadas pelas cidades formadas por grupos de pessoas e tribos (comuns na Líbia) diferentes. Com a ausência de partidos (sem grandes embates ideológicos) e a extinção do estado islâmico, outra conquista de Kadhafi que incomoda países vizinhos, os debates eram feitos geralmente, apenas de forma temática (saúde, segurança, etc) e deliberatória, no voto.

Numa estatística onde se pudesse mensurar o exercício democrático, a Líbia seria o país africano com o maior índice de participação popular do continente africano. As Universidades, por exemplo, são administradas por comitês populares, colegiados compostos de estudantes, professores e funcionários administrativos. Nas fábricas, além dos salários básicos, a participação acionária é total, com acréscimo de que os trabalhadores líbios recebem o excedente dos lucros. Isso porque Khadafi, numa das primeiras medidas após a revolução, "cooperativizou" na marra as empresas dividindo-as entre os trabalhadores. E a maioria dos trabalhadores na Líbia, ou trabalham nessas empresas, ou são funcionários públicos.

Há uma hierarquização no sistema, comitês de bairro passam as decisões para comitês de cidades e assim por diante, assim como os que representam classes profissionais. Infelizmente, o que acontece agora no país, também mostra que o sistema possui suas falhas. Principalmente a de que grupos de interesse rivais podem se infiltrar e desestabilizá-lo, como vem acontecendo. Isso quer dizer que a relação do governo líbio era, até então, uma relação de confiança entre as pessoas que participavam rotativamente dos processos decisórios já que não eram "autoridades" ou políticos tradicionais (como os conhecemos) que ocupavam espaços de poder, mas o povo. Por isso também foi tão fácil para os rebeldes, tomarem alguns desses espaços (e isso inclui quartéis e órgãos de segurança até porque o povo líbio é quase todo militarizado, treinado para a guerra como boa parte dos povos do Oriente Médio). E sobre isso, ainda que considere legítima também a revolta dos que discordam do regime, o primeiro artigo abaixo, é esclarecedor.



A Líbia no grande jogo da nova divisão da África

Fogem da Líbia não apenas famílias que temem pelas suas vidas e imigrantes pobres de outros países norte-africanos. Há dezenas de milhares de "refugiados" que estão a ser repatriados pelos seus governos por meio de navios e aviões: são principalmente engenheiros e executivos de grandes companhias de petróleo.

Por Manlio Dinucci*


Não só a ENI, a qual realiza cerca de 15% das suas vendas a partir da Líbia, mas também outras multinacionais europeias – em particular, a BP, Royal Dutch Shell, Total, Basf, Statoil, Repsol. Centenas de empregados da Gazprom foram também forçados a deixar a Líbia e mais de 30 mil trabalhadores chineses da sua companhia de petróleo e de construção. Uma imagem simbólica de como a economia líbia está interconectada com a economia global, dominada pelas multinacionais.

Graças às suas ricas reservas de petróleo e gás natural, a Líbia tem uma balança comercial positiva de US$27 mil milhões por ano e um rendimento per capita médio-alto de US$12 mil, seis vezes maior que o do Egito. Apesar de fortes diferenças entre rendimentos altos e baixos, o padrão de vida médio da população da Líbia (apenas 6,5 milhões de habitantes em comparação com os cerca de 85 milhões no Egito) é, portanto mais elevado do que o do Egito e de outros países da África do Norte. Testemunho disso é o fato de que cerca de um milhão e meio de imigrantes, principalmente norte-africanos, trabalha na Líbia. Uns 85% das exportações líbias de energia vão para a Europa: a Itália em primeiro lugar com 37%, seguida pela Alemanha, França e China. A Itália também está em primeiro lugar em exportações para a Líbia, seguida pela China, Turquia e Alemanha.

Esta estrutura agora explodiu devido ao que pode ser caracterizado não como uma revolta das massas empobrecidas, tal como as rebeliões no Egito e na Tunísia, mas como umas guerra civil real, em consequência de uma divisão no grupo dominante. Quem quer que seja que tenha feito o primeiro movimento explorou o descontentamento contra o clã Kadafi, que prevalece especialmente entre as populações da Cirenaica e entre jovens nas cidades, num momento em que toda a África do Norte tomou o caminho da rebelião. Ao contrário do Egito e da Tunísia, contudo, o levantamento líbio foi planeado previamente e organizado.

As reações na arena internacional também são simbólicas. Pequim disse estar extremamente preocupada acerca dos desenvolvimentos na Líbia e apelou a "um rápido retorno à estabilidade e normalidade". A razão é clara: o comércio sino-líbio experimentou crescimento forte (cerca de 30 por cento só em 2010), mas agora a China verifica que toda a estrutura das relações econômicas com a Líbia, da qual importa quantidades crescentes de petróleo, foram postas em causa. Moscovo está numa posição semelhante.

O sinal de Washington é diametralmente oposto: o presidente Barack Obama, que quando confrontado com a crise egípcia minimizou a repressão desencadeada por Mubarak e apelou a uma "transição ordenada e pacífica", condenou o governo líbio em termos inequívocos e anunciou que os EUA está a preparar "o conjunto completo de opções que temos disponíveis para responder a esta crise", incluindo "ações que possamos empreender por nós próprios e aquelas que possamos coordenar com os nossos aliados através de instituições multilaterais". A mensagem é claro: há a possibilidade de um intervenção dos EUA/Otan na Líbia, formalmente para interromper o banho de sangue. As razões também são claras: se Kadafi for derrubado, os EUA seriam capazes de fazer ruir toda a estrutura das relações econômicas com a Líbia, abrindo o caminho para multinacionais com base nos EUA, até agora quase totalmente excluídas da exploração das reservas de energia na Líbia. Os Estados Unidos poderiam então controlar a torneira de fontes de energia sobre as quais a Europa depende amplamente e que também abastecem a China.

Trata-se de acontecimentos no grande jogo da divisão dos recursos africanos, pelos quais uma confrontação crescente, especialmente entre a China e os Estados Unidos, está a verificar-se. A potência asiática em ascensão – com a presença na África de cerca de 5 milhões de administradores, técnicos e trabalhadores – constrói indústrias e infraestrutura, em troca de petróleo e outras matérias-primas. Os Estados Unidos, que não podem competir a este nível, podem utilizar a sua influência sobre as forças armadas dos principais países africanos, as quais são treinadas através do Africa Command (Africom), o seu principal instrumento para a penetração do continente. A Otan agora também está a entrar no jogo, pois está prestes a concluir um tratado de parceria militar com a União Africana, a qual inclui 53 países.

A sede da parceria da União Africana com a Otan já está em construção em Adis Abeba: uma estrutura moderna, financiada com 27 milhões de euros da Alemanha, batizada "Edifício paz e segurança".

*Manlio Dinucci é jornalista


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A Folha e o neocolonialismo petroleiro

Com o título de “TV Companheira”, o jornal Folha de São Paulo – que tem o nome marcado por ter defendido e colaborado com operações da ditadura em torturas e mortes de prisioneiros políticos - publicou artigo de Eliane Cantanhede tentando atingir, sem o lograr, a credibilidade jornalística da Telesur, "La nueva televisión del sur", em seu esforço de cobrir a crise na Líbia.


Por Beto Almeida*

Há muitas lições a partir da precária nota da jornalista. Primeiramente, está escancarado que a grande mídia comercial brasileira, seguindo orientações dos conglomerados internacionais midiáticos, editorialmente controlados pelas indústrias bélicas, petroleiras e a ditadura financeira, sempre protegeram os ditadores do Oriente Médio que serviram e ainda servem a estes interesses. A Folha de São Paulo está dentro deste leque de proteção aos “ditadores amigos”. Assim é que durante mais de 30 anos protegeu Mubarak, tratando-o como o árabe moderado, porque transformou o Egito em cúmplice do massacre do povo palestino por Israel, com o apoio de Washington. 

Durante 30 anos a Folha de São Paulo jamais cobrou eleições diretas ou democracia no Egito, mas, revelando a imensa hipocrisia da sua linha editorial de dois pesos, duas medidas, engajou-se na campanha dos oligopólios midiáticos mundiais contra o governo da Venezuela que, em 12 anos, eleito pelo voto, realizou mais de 15 eleições, plebiscitos e referendos livres, vencendo 14 deles e respeitando democraticamente o único resultado eleitoral adverso registrado.

“Ditaduras amigas” foram protegidas

A reportagem de Telesur está sim na Líbia, como esteve no Egito e na Tunísia, para oferecer uma cobertura com linha editorial diferenciada, sem qualquer influência do poder petroleiro comandado pelos países imperialistas. Telesur não descobriu somente agora que Mubarak era um ditador e que saqueou recursos do povo egípcio, bem como seu comparsa Ben Ali, tunisiano, sempre protegidos pelos grandes países imperiais como EUA, França, Inglaterra etc., por se transformarem em peões da política que facilita a intervenção militar imperialista no mundo árabe, com o óbvio objetivo de rapina sobre suas imensas riquezas energéticas, da qual são tão dependentes.

A linha editorial que protegia Mubarak, era a mesma que sempre condenou Kadafi. Não supreende. Kadafi nacionalizou a riqueza petroleira da Líbia e usou esta extraordinária receita para transformar o país , hoje possuidor do mais elevado IDH da África e dos mais elevados no mundo árabe. Este exemplo se chocava com os interesses imperialistas. Preferiam que Kadafi fosse como a oligarquia que reina sobre a Arábia Saudita, a mais maquiavélica das ditaduras da região, sob a proteção da mídia comercial internacional, inclusive a Folha de São Paulo. E sem uma linha sequer da articulista que esboce qualquer reivindicação democrática para este país, cujo petróleo é rigorosamente controlado por empresas dos EUA. Portanto, rigorosamente diferente da Líbia, onde o petróleo foi estatizado permitindo uma elevação do padrão de vida do povo, com progressos reconhecidos internacionalmente nos serviços públicos e gratuitos de educação e saúde, com uma renda per capta e um salário mínimo que superam em muito os registrados no Brasil e na Argentina. Estas informações nunca circularam nem no fluxo internacional da mídia comandada pelos poderes do petróleo, das armas ou do dinheiro, muito menos aqui na submissa Folha de São Paulo.

Ao contrário desta linha editorial complacente com os crimes que se comentem contra os povos árabes, em particular contra o povo palestino, Telesur , em sua curta existência, pouco mais de 5 anos de vida, procura revelar, com critérios jornalísticos, a falsidade e hipocrisia dos discursos “democráticos” que servem sempre de parâmetros para as coberturas que tentam esconder sob o palavreado democrático, o objetivo fundamental que esta mídia cumpre: dar suporte e favorecer o controle total das riquezas energéticas do Oriente Médio pelos trustes imperialistas. 

É por esta razão que a Folha de São Paulo tenta, inutilmente, atacar a Telesur, porque questiona e se diferencia do jornalismo obediente ao poder bélico-petroleiro que tantas vidas ceifa na região, inclusive na própria Líbia, tantas vezes bombardeada, agredida e boicotada pelos países membros da Otan. É a subserviência a esta política imperial que leva a Folha e sua articulista a afrontarem as políticas externas soberanas que os países do eixo sul-sul estão desenhando, com o objetivo de libertarem-se das algemas da OTAN, inclusive postulando a criação de uma Organização do Tratado do Atlântico Sul, proposta defendida por vários países sistematicamente enfrentados pela linha editorial da Folha, inclusive por Kadafi, certamente, uma das tantas razões que o leva a ter sido sempre condenado pelos imperialistas, pela ONU, pela OTAN. Vale lembrar que Kadafi teve sua residência destruída por um bombardeio ordenado por Bill Clinton, no qual morreu sua filha recém-nascida. A articulista escreveu algum protesto na época? Ou lamentou que a pontaria poderia ter sido mais certeira?

Hipocrisia editorial

Mubarai foi protegido e elogiado por este jornalismo tipo Folha de São Paulo - que, aliás, não chamava Pinochet de ditador, mas de presidente - porque comandou o retrocesso das conquistas socioeconômicas que o Egito havia alcançado durante a Era Nasser. Tal como aqui a Folha serve aos interesses estrangeiros e de seus prepostos internos que operaram para demolir as conquistas da Era Vargas; o elogio e a tolerância para com a ditadura de Mubarak deve-se ao fato dele desconstruir o nacionalismo revolucionário de Nasser, aliado da Líbia e da Síria, colocando o Egito na posição de ser um vergonhoso coadjuvante da macabra política israelense na região, a serviço da indústria petroleira imperial. Mas, os milhões de egípcios nas praças estão escrevendo outra história para aquele país!


Telesur conta esta história. Faz jornalismo para revelar o direito histórico da luta dos povos árabes por sua independência, por sua soberania. É por isso que incomoda tanto. É por isso que agressão da Folha não surpreende, faz parte da blitz midiática internacional que sustenta o intervencionismo militar dos grandes países imperialistas. Esta mídia atua como os clarins que anunciam e clamam pela guerra!


Independente do desfecho que esta crise na Líbia produzirá, a esta altura imprevisível, não há como não perceber a imensa hipocrisia jornalística dos que se calam diante dos sanguinários bombardeios que estão caindo agora mesmo sobre a população civil no Afeganistão, ilegalmente ocupado pelos EUA, ou no Iraque, onde mais de um milhão de vidas foram dizimadas a partir de uma guerra iniciada por meio de grosseiras falsificações de notícias sobre a existência de armas químicas naquele país, fraude jornalística que a Folha de São Paulo endossou, o que lhe retira qualquer moral, juntamente à assessoria que prestou à ditadura militar no Brasil, para reivindicar democracia ou clamar por direitos humanos.

Colônia petroleira
Provavelmente, a crise atual na Líbia tenha também explicação pelos erros cometidos pelo seu governo, entre eles, provavelmente o mais grave, o de ter realizado inesperados e improdutivos acordos com os EUA, com a Inglaterra, com o FMI, inclusive dando início a medidas de privatização injustificáveis e abrindo mão, unilateralmente, do programa de energia nuclear, bobagem que o Irã e o Brasil, mesmo sob pressão, indicam não estarem dispostos a cometer. As concessões de Kadafi aos patrocinadores da morte e de opressão contra os povos iraquiano, afegão, palestino, entre eles Bush e Blair, aprofundou, certamente, os conflitos internos, agravando as disputas tribais, facilitando a infiltração dos que nunca aceitaram a nacionalização do petróleo líbio. Agora, a Folha de São Paulo, que se crê tão moderna, apresenta-se aliada aos que levantam novamente a bandeira da Líbia do Rei Idris, demonstrando preferir operar para o retrocesso histórico da república à monarquia, o que faria da Líbia uma colônia petroleira controlada pelos conglomerados anglo-saxões.

Enquanto as grandes redes oligopólicas de tvs comerciais operam para justificar, auxiliar e assessorar a pilhagem dos recursos energéticos dos povos, - por isso assumiram editorialmente as mentiras que justificaram a guerra de rapina contra o Iraque - Telesur coloca seu jornalismo a serviço do direito dos povos de conhecerem na íntegra a versão objetiva dos fatos, inclusive dando voz aos povos que lutam, que buscam construir modelos de sociedade em que a soberania sobre seus recursos e o seu uso em benefício da população sejam sagrados. Telesur tem consciência de quão árdua é a meta de fazer um jornalismo não controlado pelos oligopólios da guerra, do dinheiro e do petróleo. Mas, desta meta não se afastará, pois foi como expressão dos povos que se rebelam na América Latina contra a dominação imperial que nasceu e que assumiu como bandeira o princípio “O nosso Norte, é o Sul”.

* Beto Almeida é membro da Junta Diretiva da Telesur


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P.S.: Nos dois artigos acima, os grifos são meus.

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