"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

sábado, 28 de maio de 2011

OTAN usa bombas para assustar crianças

Hoje pela manhã a OTAN se utilizou de um ataque pouco usual na Líbia – já que nos últimos dias são mais freqüentes os bombardeios noturnos que funcionam como “toques de recolher” para a população das cidades atacadas – tendo bombardeado áreas próximas às escolas da capital.

Crianças em idade escolar, que faziam provas semestrais, estão dispersas pelas ruas de Trípoli tentando escapar dos ataques. Isso só pode ser entendido no sentido de que ou a OTAN não tem informações de inteligência, ou eles estão deliberadamente tentando aterrorizar crianças.

Desde o início dos conflitos, as bombas da OTAN já mataram dezenas de crianças, incluindo bebês, como os três netos de Muammar Kadafi. Aisha, advogada especialista em direito internacional, filha de Kadafi, havia concedido entrevista à imprensa ocidental dias antes, dizendo que à noite contava histórias para seus filhos na tentativa de prepará-los para o pior. Um dos bebês mortos no ataque aéreo da OTAN há duas semanas era seu filho.

Um dado interessante sobre a cobertura desse ataque foi a reprodução por dezenas de canais de TV, incluindo a BandNEWS e GloboNews brasileiras, de imagens de manifestantes nas praças protestando contra os ataques e que eram narrados pelos âncoras como “manifestantes comemoram o ataque à casa de Kadafi”. Em todas elas, as imagens mostravam pessoas com bandeiras verdes nas ruas, sinal claro de apoiadores do governo líbio, mas a imprensa insiste em confundir a opinião pública.

Ainda assim, após 71 dias de bombardeio da Líbia, e algumas tentativas de assassinar o comandante Muammar Kadafi, o ataque mais caro da história falhou como 25 anos antes. A população líbia está a cada dia mais confiante de que uma união de forças cruzando todo o país é a melhor forma de resistir à tentativa estrangeira de nova colonização. Cartas enviadas ao comando da OTAN por grupos rebeldes avisam que não confiam mais na falácia da “ajuda humanitária” propagandeada pelos aliados e pedem o fim dos bombardeios.

Nas últimas semanas, a OTAN tem procurado intensificar os ataques, incluindo o hospital de Sirte e a infra-estrutura civil e pública em Trípoli além de muitos outros locais distantes até 1000km dos focos de conflito em Benghazi. E foi justamente a decisão de bombardear todo o país, e não somente áreas onde denunciava-se o “massacre” contra civis, que provocou um efeito inesperado para os aliados, o da completa indignação que atinge agora, além da população líbia praticamente todos os grupos rebeldes, restando apenas três deles – encabeçados por ex-membros do governo líbio – que sequer estão unidos entre si sobre como conduzir sua já enfraquecida oposição.

O Centro Mundial de Estudos sobre o Livro Verde, um centro acadêmico de pesquisas sobre a democracia, também foi bombardeado pela OTAN destruindo o edifício principal completamente e deixando apenas de pé a biblioteca. Cerca de oito funcionários estavam lá e não há informações se eles sobreviveram. Esse ataque reflete a intenção dos aliados de se atingir a idéia do sistema de comitês populares utilizado na Líbia e pouco compreendido pelo ocidente.

Um jornalista britânico, para a já desacreditada rede de TV do Qatar, Al Jazeera, revelou que o vice-ministro da Líbia estava em um avião para a Tunísia com a intenção de reunir-se com o Serviço Secreto Britânico, o MI6, em nome do governo líbio. 

A mesma TV Al Jazeera que não informa sobre as manifestações que estão ocorrendo no Catar contra a ditadura de lá, e em grande parte permaneceu em silêncio sobre os massacres de manifestantes no Bahrein (massacres apoiados militarmente pelos EUA), afirmou que as negociações da Tunísia, entre o secretário-adjunto do MI6 e da Líbia buscavam "uma estratégia de saída para Kadafi". 

No entanto, uma fonte informou à agência de notícias Mathaba que, na verdade, os britânicos buscam uma estratégia de saída para a OTAN diante dos milhares de dólares sendo gastos sem grandes resultados nesta guerra. E que não há absolutamente nenhuma possibilidade de Kadafi deixar sua casa na Líbia. 

Um comentário sobre isso foi feito também pelo embaixador da Líbia no Brasil, Salem Omar Ezubeidy, no debate ocorrido na sede da ABI no Rio de Janeiro. Ele afirmou que Kadafi é um cidadão líbio e que até mesmo por sua contribuição na história da Líbia, ele sequer considera a possibilidade de viver em outro país. Ainda segundo o embaixador, o papel de Kadafi na Líbia tem sido o de um velho conselheiro, um símbolo da revolução líbia, já que ele derrubou a monarquia corrupta do rei Idris em 1969 e passou o poder para o povo oito anos mais tarde, em 1977. Desde então, a Líbia é governada por um sistema de democracia direta baseado em conferências populares. Também por isso foi mais simples para os descontentes planejarem a tomada dos armamentos no início dos conflitos, já que a população é quem gere os espaços públicos no país, incluindo hospitais e universidades.

Duas sinistras coincidências entre as ações dos países aliados desde o princípio marcam a história dessa guerra que começou como uma guerra midiática de enfraquecimento político por parte da imprensa ocidental.

A primeira delas é que ainda na primeira semana de conflitos entre as forças rebeldes de oposição e as tropas do governo, a imprensa declarava que já haviam mais de seis mil mortos, sem que qualquer canal de TV conseguisse em momento algum mostrar tantos corpos. Desde o princípio, é latente a ausência de imagens que corroborem a tese de ataque dos aviões líbios sobre a população civil e isso agrava ainda mais a decisão dos ataques estrangeiros sem que observadores tenham sido enviados para a coleta de evidências, como determina a resolução do Conselho de Segurança da ONU.

A outra – e possivelmente a mais grave delas – foi o comunicado oficial do exército russo avisando que não havia em momento algum captado ataques dos aviões líbios contra a população civil, motivo que serviu de base para a decisão da “No Fly Zone” e que permanece sendo o principal. Ou seja, a decisão “humanitária” de proteção aos civis líbios foi fundamentada na idéia de que Muammar Kadafi havia ordenado que aviões do governo atacassem cidades e população civil no intuito de combater os focos opositores.

No entanto, a Rússia declarou oficialmente que seus satélites não haviam captado essa movimentação, apenas a alegada pelo próprio governo líbio, de que seus aviões estavam bombardeando estoques militares no deserto (muito distantes das áreas civis), na tentativa de evitar que eles fossem acessados pelos rebeldes. Ora, a maior parte dos países desenvolvidos e certamente todos os que compõem a coalizão estrangeira, possuem seus próprios satélites que podem a qualquer momento captar qualquer movimento em qualquer parte do planeta. E ainda assim, nenhum deles conseguiu mostrar ao mundo, qualquer imagem que provasse que a Líbia estivesse massacrando sua população.

Essa confusão entre as informações, usada propositalmente para justificar o avanço estrangeiro na Líbia, convenceu até mesmo parte das esquerdas no mundo (incluindo o Brasil), como aliás, afirma o jornalista Michael Collon em seu artigo. Parece mesmo que não aprendemos nada com a história.

Dois séculos de conquistas estão sendo jogados no lixo

Em entrevista à Televisão da Catalunha, o escritor uruguaio Eduardo Galeano fala  sobre as mobilizações que levaram milhares de jovens para as ruas de diversas cidades espanholas nos últimos dias. "Esse é um dos dramas do nosso tempo. Dois séculos de lutas operárias que conquistaram direitos muito importantes para a classe trabalhadora, estão sendo jogados na lata de lixo por governos que obedecem à uma tecnocracia que se julga eleita pelos deuses para governar o mundo. É uma espécie de governo dos governos, como este senhor que agora parece que se dedica a violar camareiras, mas antes violava países e era aplaudido por isso". Singulars - TV3 (Catalunha)


Em entrevista ao programa "Singulars", da Televisão da Catalunha (TV3), o escritor uruguaio Eduardo Galeano fala sobre as manifestações dos últimos dias que levaram milhares de jovens para as ruas de diversas cidades espanholas. Galeano esteve em Madri e pode presenciar ao vivo as mobilizações na Porta do Sol. Disponibilizamos abaixo a entrevista concedida ao jornalista Jaume Barberà e destacamos alguns trechos da fala de Galeano:

"Há hoje em quase toda a América Latina um problema visível e preocupante que é o divórcio entre os jovens, as novas gerações, e o sistema político, o sistema de partidos vigente. Eu não reduziria a política à atividade dos partidos, por que ela vai muito mais além, mas isso é preocupante mesmo assim".

"Nas últimas eleições chilenas, por exemplo, 2 milhões de jovens não votaram. E não votaram porque não se deram ao trabalho de fazer o registro eleitoral. Suponho que a maioria não fez o registro por que não acredita nisso. E me parece que isso não é culpa dos jovens. Neste sentido, gostei muito de ter presenciado essas manifestações que tive oportunidade de ver na Porta do Sol".

"Um dos lemas que ouvi era 'com causa e sem casa', o que é muito revelador da situação atual. Muitos daqueles jovens ficaram sem casa e sem trabalho. Isso deve ser levado em conta. Esse é um dos dramas do nosso tempo. Dois séculos de lutas operárias que conquistaram direitos muito importantes para a classe trabalhadora, estão sendo jogados na lata de lixo por governos que obedecem à uma tecnocracia que se julga eleita pelos deuses para governar o mundo".

"É uma espécie de governo dos governos, como este senhor que agora parece que se dedica a violar camareiras, mas antes violava países e era aplaudido por isso. É essa estrutura de poder, muitas vezes invisível, que de fato manda. Por isso, quando se consegue aglutinar vozes capazes de dizer 'basta' a primeira coisa a fazer é ouvi-las com respeito, sem desqualificá-las de antemão e saber esperar. Esses jovens não parecem esperar ordens de ninguém. Agem espontaneamente, aliando razão à emoção. Como vai acabar isso? Não sei. Talvez acabe logo, talvez não. Vamos ver".

"O mundo está preso em um sistema de valores que coloca o êxito acima de todas as virtudes. Ele é uma fonte de virtudes. Em troca, condena o fracasso. Perder é o único pecado para o qual, no mundo de hoje, não há redenção. Estamos condenados a ganhar ou ganhar. Os dois homens mais justos da história da humanidade, Sócrates e Jesus, morreram condenados pela Justiça. Os mais justos foram condenados pela Justiça. E nos deixaram coisas muito importantes como amor e coragem".

Fogo na usina do desenvolvimento acelerado

A grande revolta dos peões de Jirau


por Fábio Fujita, Revista Piauí, n.56


É durante a troca de turnos que a irritação costuma se transformar em exasperação no canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. O núcleo do desconforto é o “Curral”, a pequena estação rodoviária de onde partem os ônibus para Porto Velho, a 130 quilômetros, cidade em que moram muitos dos operários.

Ali, no Curral, o cansaço dos que acabam de encerrar o expediente, as filas – e os espertinhos que tentam furá-las –, o empurra-empurra, a barulheira, a vontade de voltar para casa, a perspectiva do longo trajeto e o calor beirando os 40 graus se sobrepõem perigosamente.

Para piorar, os operários volta e meia acusam os motoristas de fazer corpo mole, de remanchar em partir. E os intimam aos gritos de “Vambora!”. Alguns motoristas não gostam de gritos, ainda mais de peões. Palavrões e trocas de xingamentos são frequentes.

Pouco depois das cinco da tarde da terça-feira, 15 de março, um desentendimento entre um trabalhador e um motorista não ficou só nas agressões verbais. Um operário que morava num alojamento do canteiro de obras quis entrar num ônibus para ir a Porto Velho. Mas somente quem mora na cidade tem esse direito. E o peão queria ir à capital resolver um problema pessoal. Não importa que não tivesse direito ao ônibus: ele decidiu que embarcaria e pronto, era uma situação emergencial, que abrissem a exceção.

O motorista não quis saber: regras existem para ser respeitadas. O peão, inconformado, atirou uma pedra que pegou no para-brisa do ônibus. O ambiente ferveu. Um grupo de motoristas cercou o peão e o atacou a socos e pontapés. Ele caiu, desmaiado. Foi a vez de outros peões reagirem e avançarem sobre os motoristas, que, amedrontados, correram. A excitação se espalhou pela rodoviária aos gritos de “É greve! É greve!”. O ônibus da discórdia foi o primeiro a ser incendiado.

A aproximação da noite não serenou os ânimos. No dia seguinte a greve adquiriu força e alojamentos foram
destruídos. À noite, imaginou-se que o conflito havia terminado. Na quinta-feira, capatazes conclamavam os peões para o trabalho quando um novo incidente estourou, dessa vez no refeitório.

Um operário de cabelos claros gritava “Greve! greve!” e conclamava os que estavam com uniformes a tirá-los. Como nem todos concordaram, houve discussões inflamadas. Homens da Polícia Militar pegaram o sujeito pelos cabelos e, aos sopapos, o jogaram num camburão. Um grupo de operários se aproximou e exigiu sua soltura. Os policiais se recusaram. “Não vão soltar? Então é fogo nos alojamentos!”, conclamaram os mais belicosos.

A polícia partiu para cima dos incendiários. Quando conseguiu reprimi-los, chamas subiram em outra instalação, ao longe. A insurreição se espalhou. Cientes de que as câmeras de segurança, espalhadas pelo canteiro, captavam tudo, trabalhadores amarraram suas camisas no rosto. Grupos entravam em alojamentos, juntavam colchões, punham fogo e saíam rapidamente.

Muitos operários, atarantados, permaneciam nos alojamentos até que o fogo se aproximasse deles. Então corriam, levando bolsas e sacolas. Alguns não conseguiram carregar nada. Barracos viravam cinzas em poucos minutos.

No final da manhã, com a expectativa da chegada de cinquenta ônibus, a convulsão se transferiu para a portaria do canteiro, onde boa parte do operariado se concentrou. Na dificuldade de identificar os incendiários dos que só queriam fugir, um batalhão de choque da polícia atacou a esmo, à base de balas de borracha, gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Na correria, muitos dos que haviam conseguido sair com malas e sacolas dos alojamentos as perderam pelo caminho.

Com a carga policial e a confusão que se seguiu, começou a dispersão, a pé ou de carona, em carros e caminhões.

Muitos andaram até 12 quilômetros, rumo a Jaci Paraná ou ao distrito de Nova Mutum, e outros ficaram no Posto Pedrinhas, o mais próximo da saída de acesso ao canteiro. Mas, na BR-364, que vai a Porto Velho, um ônibus, um carro e pilhas de pneus foram queimados, bloqueando a estrada. Quem saiu do canteiro sem levar comida só se alimentou de noite.

No dia seguinte, sexta-feira, ainda havia centenas de operários espalhados pela BR. Cansados de andar, eles fizeram um novo bloqueio da pista por cerca de meia hora, na altura de Jaci Paraná. Na usina, sem alternativa, os últimos trabalhadores abandonaram os canteiros.

Terminou então a maior revolta operária no Brasil do século XXI. Havia 45 ônibus e quinze carros incendiados. Cem alojamentos incinerados ou depredados. Salas de cinema, de jogos e de televisão inutilizadas. Escritórios, posto de saúde, agência bancária, lanchonete, lan house e refeitório parcialmente destruídos.

A Usina de Jirau é a maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC do governo federal. Orçada em 12 bilhões de reais, até a explosão do conflito ela empregava 22 mil operários, dos quais metade morava no canteiro. Junto com a Usina de Santo Antônio, também em construção, ela forma o Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira. Quando operarem em conjunto – a de Jirau tem previsão de começar em março de 2012 –, as duas barragens deverão faturar 8,5 milhões de reais por dia.

Logo que a revolta chegou ao noticiário, a Camargo Corrêa – construtora responsável pela obra e sócia do projeto –, que capitaneia o consórcio Energia Sustentável do Brasil, se apressou em dizer que não recebera nenhuma pauta de reivindicações. Altair Donizete Oliveira, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores  da Construção Civil de Rondônia, admitiu que, realmente, não enviara um documento formal. “Mas uma semana antes, pedimos pelo telefone que a empresa nos liberasse para formarmos uma comissão de trabalhadores e fazermos uma assembléia”, disse ele. “Os trabalhadores estavam tensos.” Segundo Oliveira, a Camargo Corrêa não autorizou nem a comissão nem a assembléia.

Vários trabalhadores me disseram que é comum os admistradores não cumprirem o previamente acordado. A sensação generalizada é de que a empresa apostava que os operários não reclamariam os seus direitos – fosse pela burocracia que deveriam enfrentar, pelo temor de perder o emprego ou pela dificuldade em apresentar provas que sustentassem o seu pleito. Marcio Pedroza, ex-ajudante de manutenção, contou ter passado pela situação assim que foi contratado. Ele morava em Vilhena, no interior de Rondônia, trabalhava como auxiliar num shopping e recebia 555 reais de salário. Viu um cartaz que falava sobre vagas na usina, com salários de 800 reais. Foi a Jirau e se empregou. “Comecei a trabalhar e, quando fui ver no papel, estava 700 reais”, contou. “Não corri atrás para reclamar porque eu precisava do emprego.”

Outra história recorrente é sobre a sabotagem das horas extras. “Muita gente trabalhava de domingo a domingo e, quando chegava o pagamento, não vinham todas as horas”, disse Anderson, que trabalhava na terraplanagem (ele preferiu não ter o sobrenome revelado.) “A gente passava da hora do expediente, suava para ver se pegava um dinheirinho a mais, mas pagavam só o horário normal e algumas horazinhas. O resto a gente trabalha de graça para eles.”

Outras reclamações dizem respeito a dois benefícios, o de participação nos lucros e o conhecido como “Big Card”. A participação nos lucros, acordada com o sindicato, renderia cerca de 700 reais a cada trabalhador, mas nunca foi paga. Já o Big Card é um auxílio do tipo da cesta-básica. Só que, enquanto funcionários da Camargo Corrêa ganhavam 110 reais de Big Card, algumas empresas terceirizadas dela pagavam 350 reais. “Se eu ganho tanto, e você tem uma diferença de 240 reais no mesmo benefício, eu estou sendo prejudicado”, disse o porteiro Joaquim Lauro. “Então, a pessoa perde o interesse de trabalhar e, se ela puder dar um prejuízo na empresa, vai dar.”

Segundo o sindicato, o controle de faltas era feito, muitas vezes, na base dos humores do encarregado. “Se ele não vai com a cara do trabalhador, ele vai lá e inventa uma falta”, disse Donizete Oliveira. Aconteceu com Joaquim Lauro. “Vieram duas faltas no meu contracheque sem eu ter”, reclamou. A questão da assiduidade é fundamental para ganhar outro benefício, o 14º salário: só tem direito a ele quem não tem nenhuma falta durante todo o ano. Joaquim Lauro procurou o setor de recursos humanos para contestar os descontos indevidos. Assim que retornou, foi chamado à sala do chefe e acusado de se ausentar em horário de serviço para resolver assuntos pessoais. Foi também ameaçado de demissão por justa causa. “Falei que isso a gente ia ver, se ele teria poder para me mandar embora”, contou o porteiro.

Em Jirau há duas categorias de funcionários, instituídas segundo a cor dos uniformes. Os “amarelinhos” são os chefetes, os “encarregados”; os “verdes”, os peões. Marcio Pedroza disse que os amarelinhos ameaçavam os verdes de enviá-los para trabalhar numa área conhecida como Buracão, a mais quente das obras, que combinava o calor do solo com o trabalho a céu aberto. Quebrar pedra ali era tido como um dos piores serviços. “Quando o peão ia beber água, o encarregado reclamava: ‘Ih, esse aí não vai aguentar. Se não aguentar, pode pedir demissão.’ Falavam desse jeito”, disse Pedroza, que viu gente desmaiar no exercício da tarefa.

No alojamento dos encarregados, dormiam duas pessoas em cada quarto. No dos verdes, oito peões dividiam um cômodo. Além da diferença do conforto, Pedroza assegurou que alguns amarelinhos aproveitavam a distância do alojamento deles em relação ao dos peões para levar mulheres aos quartos, o que é proibido em todo o canteiro. “Mas escondido eles podiam”, disse. “Eles tinham até churrasqueira no alojamento. Mas no nosso a gente não podia nem levar fogãozinho a álcool, não podia fazer nenhum tipo de  comida no alojamento. Eles podiam, e mandavam até os peões montar a churrasqueira.”

No refeitório, nem sempre os operários conseguiam comer. Com uma hora de folga para o almoço, e filas enormes, às vezes não dava tempo. “Eu vi um cara do meu lado desmaiar porque não conseguiu comer”, disse Anderson. Se o peão esquecesse o crachá, não comia. “O segurança via o sujeito todo suado, via que tinha acabado de trabalhar, e mesmo assim não liberava”, contou o soldador José Raimundo Leite.

Quem conseguia pegar seu bandejão não se considerava privilegiado. Anderson classificou a comida como “uma imundície”. “O arroz era duro, e tudo o que sobrava eles faziam uma misturada dentro de um panelão: frango, carne, pedaço de bucho, pescoço de galinha”, disse. “Você olhava aquilo e dava vontade de desistir.” A mesma comida às vezes era repetida por dois ou três dias seguidos. “Eu mesmo já passei mal, com dor no estômago, dor de cabeça”, contou Pedroza. “E aí tem outro problema, que é a área de saúde. O laboratório era longe, a gente tinha que andar 2 quilômetros para poder pegar uma pílula.”

Pedroza contou ter visto um capataz dar um tapa na cara de um peão, que tentara esconder uma laranja no bolso do uniforme para comer no alojamento, o que é proibido. Pedroza não concorda com o furto do colega. O problema são os pesos e medidas. “Ninguém podia pegar, mas os encarregados pegavam e piscavam para os seguranças.” No primeiro dia da revolta, o alojamento dos vigilantes foi o primeiro a ser incendiado.

No ambiente de trabalho, o alto risco para o trabalhador decorria do desvio de função. Se um operário é contratado como armador, mas demonstra habilidade no manuseio do martelete, por exemplo, ele pode ser desviado para a função. “Mas só pode ter acesso ao equipamento de proteção específico quem é contratado como marteleteiro”, explicou o sindicalista Oliveira. “Então, o trabalhador vai para o martelete, mas o almoxarifado não libera o equipamento de segurança para ele, porque é armador.” O dirigente sindical diz que houve três acidentes fatais em Jirau. O carpinteiro Giovani Rabelo informou que no canteiro “faltam luva, botina, óculos, protetor. Ninguém liga para nada. Vi gente que caiu de escada de 5 metros. O cara estava sem cinto de proteção”.

Com todos esses problemas, a tensão cresceu em Jirau. “Desde meses atrás já diziam: ‘Vai ter uma guerra aqui’”, disse Anderson. “A segurança patrimonial já identificava os ‘cabeceiras’ e mandava embora”, contou José Raimundo, referindo-se aos líderes em potencial. Donizete Oliveira usou uma metáfora para sintetizar o que houve: trancar um gato num quarto e cutucá-lo constantemente. “Não precisa nem feri-lo”, disse. “Ele vai pular e esbugalhar seu rosto. Porque ninguém, nem bicho, gosta de ser maltratado.” (A Camargo Corrêa não autorizou a entrada no canteiro de obras. Solicitei que um porta-voz da empresa falasse sobre a revolta e as denúncias dos trabalhadores. A empreiteira preferiu não designar ninguém para ser entrevistado.)

Ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008, Marina Silva saiu do governo, entre outros motivos, devido às pressões da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, para que apressasse a concessão de licenças ambientais que permitissem o início das obras em Jirau e em Santo Antônio.

Com o aumento do poder de Dilma, o cronograma do projeto foi remanejado, e o início da geração de energia em Jirau foi antecipado de 2013 para 2012. As consequências se fizeram sentir. Em novembro, a Justiça determinou um prazo de noventa dias para se regularizar a situação de 331 famílias ribeirinhas de Mutum Paraná – antigo distrito da cidade de Jaci Paraná, a mais próxima da usina –, inundado pelas águas da nova barragem. Uma ação civil pública constatou irregularidades no processo de remanejamento das famílias. Houve também denúncias de uso de força excessiva nos despejos feitos em Mutum Paraná.

A pressa em terminar a barragem fez com que os operários fossem instados a trabalhar mais. A rotatividade da mão de obra é alta, ali, porque muitos trabalhadores acabam demitidos dentro do período de experiência, em geral por produzirem aquém do esperado. Como as vagas não podem ficar ociosas, as contratações são rápidas, com pouco rigor na seleção.

Valério Soares, ex-auxiliar de assistência social, disse que muita gente que passava por seus cuidados apresentava um nível de instrução baixíssimo, quando não quadros de incapacidade psicológica. “Alguns eram até incapazes de dizer o próprio sobrenome”, disse, lembrando-se de situações em que auxiliava operários no preenchimento de fichas. “Algumas pessoas ali não conseguiam nem expressar o que precisavam.”

Porto Velho sempre foi, historicamente, forjada por ondas migratórias. A primeira, no ciclo da borracha, iniciado no final do século XIX, se estendeu até a Segunda Guerra. Nos anos 70, veio a fase dourada do garimpo, que durou até a década seguinte. Agora, há a migração em função das barragens. A irmã Maria Ozânia da Silva, coordenadora da Pastoral do Migrante de Rondônia, observa que a imagem do estado como eldorado ainda é propalada pelos governos local e federal. No seu entender, isso é ruim. “Os migrantes, tanto no início como até hoje, têm a visão de vir, tirar tudo o que Rondônia tem, enriquecer e voltar ao seu estado de origem”, disse.

Se o migrante tem a tendência de não criar vínculo com a terra desconhecida, que dirá quando as condições no ambiente de trabalho são ruins? “Quando eles chegam ao canteiro, ao ver o campinho de futebol, a academia, as salas de jogos, eles têm uma ilusão”, disse a irmã Maria Ozânia. “Mas por detrás disso há mecanismos para impedir as relações verdadeiras.” Ela falou da dificuldade da Pastoral em estabelecer uma relação duradoura com os migrantes em Jirau, em função das constantes trocas de turno. “A gente vai numa quinzena, tem um grupo. Vai na outra, e aquele trabalhador já está em outro turno”, exemplificou. “As grandes empresas querem que as pessoas produzam. Não olham a pessoa como um ser humano, que tem sonhos, projetos, dores, saudades.”

Foram registrados em Jirau dois casos em que os operários viviam em situaçãoanáloga à escravidão, de acordo com a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Rondônia. No primeiro, de 2009, 38 trabalhadores a serviço da empresa BS Construtora, terceirizada da Camargo Corrêa, foram encontrados em casas precárias, na cidade de Jaci Paraná, com instalações sanitárias degradantes. “Não havia nem água para  o pessoal beber”, explicou Juscelino José Durgo dos Santos, auditor fiscal do trabalho na Superintendência. “Tinham que tirar água de um poço que ficava próximo a uma fossa. Usavam aquela água para tudo: para consumo, para tomar banho, para lavar utensílios domésticos e roupas.”

O segundo caso se deu no ano passado, quando um grupo de trabalhadores do Nordeste foi encontrado em situação similar. A denúncia partiu de peões que conseguiram fugir e, de carona, chegaram a Porto Velho, onde procuraram a Superintendência. Pelos relatos, as irregularidades começaram já no aliciamento. “Os trabalhadores vendiam seus bens, vendiam tudo, para pagar os ‘gatos’ [aliciadores] e vir para cá, sob a condição de que os salários seriam maravilhosos”, disse Juscelino dos Santos.

Casos desse tipo envolvem migrantes: para o trabalhador local, o conhecimento da região facilita o deslocamento e a busca de ajuda. Na Usina de Santo Antônio não houve registro de situações degradantes. Colabora para isso o fato de a maior parte da mão de obra empregada ser de Porto Velho, além de haver poucos operários alojados no canteiro – cerca de 2 mil. Outro aspecto favorável a Santo Antônio é sua maior proximidade da capital rondoniense. “Qualquer problema mais grave que aconteça, as pessoas podem vir caminhando para a cidade”, explicou o auditor. “É uma situação totalmente diferente de Jirau, que está a 130 quilômetros de Porto Velho. Como eles não têm a quem recorrer, ficam lá, suportando as situações.”

Se na esteira da migração para Jirauhá grupos mais facilmente manipuláveis, também há os malandros, e até
mesmo bandidos. A irmã Maria Ozânia, da Pastoral, diz ouvir dos migrantes que, a partir do momento em que ficou evidenciada a corrida para a antecipação na entrega da obra, os problemas de violência em Jirau cresceram. Definitivamente, passou-se a contratar “qualquer um”, às pressas, sem critério. Donizete Oliveira, do sindicato, conta ter topado com um grupo de vinte homens, em Jaci Paraná, que, devido ao excesso de álcool, simplesmente abandonaram o trabalho.

Muitas vezes, o álcool é a única válvula de escape em ajuntamento de migrantes que trabalham intensamente, em meio a estranhos. Como a circulação de bebida é proibida no canteiro, muitos recorrem às mais inventivas ideias para burlar a fiscalização. Nesses canais, circulam também drogas ilícitas.

O carpinteiro Giovani é testemunha disso. “A droga rola solta, não tem nem o que esconder”, disse. “A vigilância sabe, mas não dá conta.” Marcio Pedroza lembrou o caso de um falso pastor, que trabalhava durante o dia e fingia pregar durante a noite, próximo ao alojamento dele, para poder traficar. “A segurança queria que os peões entregassem o traficante”, disse. “Só que muitos tinham medo de que a pessoa que estava vendendo droga os matasse.”

O soldador José Raimundo contou que a droga passava pela vigilância com mais facilidade do que o álcool. “Não sei quais eram as drogas mais comuns, porque eu não uso, não conheço essas coisas. Mas sei que tinha maconha, porque a gente sentia aquele cheiro”, explica. Conforme a proximidade dos seguranças, o consumo podia ocorrer nos próprios alojamentos. Crack e cocaína foram citadas pelos peões como as drogas mais difundidas no canteiro.

“No meu alojamento, eram mais senhores de idade, e tinha dois crentes, então era tudo tranquilo”, disse José
Raimundo. “Mas um conhecido meu tinha companheiros de quarto que roubavam dos colegas para trocar por droga. Roubavam qualquer coisa, até roupa.” A orientação da empresa para os casos de furto é que a vítima vá a Porto Velho fazer um boletim de ocorrência – ou seja, perder horas de trabalho e arcar com as despesas da viagem.

Anderson passou por apuros no dormitório. No primeiro onde o puseram, teve que conviver com companheiros arruaceiros, que viviam brigando. Ao mudar de quarto, novo azar. “Estavam em quatro e não deixaram eu ficar. Não foram com a minha cara”, recordou. Perguntei se eles tinham poder de veto. Anderson, um homem franzino, que não mede mais de 1,65 metro de altura, hesitou alguns segundos antes de admitir: “Não dá para contrariar a maioria. Já mataram gente ali dentro mesmo, em briga de peão. Meteram a faca no peão deitado na cama dele. A peãozada toda sabe dessas coisas, mas dentro da obra tudo se abafa.”

Certa vez, a Pastoral do Migrante foi contatada pelo telefone por um padre do Maranhão. Ele queria ajuda para localizar um jovem que partira para trabalhar em Jirau. A mãe do rapaz estava desesperada porque perdera contato com o filho. Irmã Maria Ozânia descobriu que ele se envolvera com drogas, roubara colegas de alojamento e fora demitido da usina. Mas ela nunca chegou a encontrá-lo. Tempos depois, o mesmo padre que fizera o contato voltou a ligar para ela, e contou que o cadáver do jovem acabara de chegar ao Maranhão. Depois de sair de Jirau, ele esteve em Jaci Paraná, como condutor de mototáxi – que, na   verdade, já mascarava a atuação como traficante. Acabou assassinado.

O coronel Antônio Carlos Thomaz-zoni, subcomandante-geral da Polícia Militar de Rondônia, considera que as autoridades locais, de uma forma geral, não se prepararam devidamente para fazer frente ao impacto dos projetos de Jirau e Santo Antônio. “Quando essas obras foram planejadas, eu não tinha noção de que ia ter uma migração tão grande”, ele disse, definindo o canteiro de Jirau como uma “minicidade”.

“Ali tem mais gente do que metade dos meus municípios e distritos do estado de Rondônia”, continuou. “Então, mesmo sendo proibido, entra bebida, entra droga. Há todo um problema de segurança pública por causa disso.” O surgimento da minicidade não foi suficiente para aumentar o efetivo policial. Thomazzoni, gaúcho, chegou a Porto Velho em 1988. A população do estado era então de 1 milhão de pessoas e o efetivo de policiais, de 4,8 mil homens: proporção de um para 208 pessoas. Hoje, essa relação está pior: um policial para 285 habitantes. “Não tivemos um acréscimo de nem mil homens, em 23 anos”, disse Thomazzoni.

Reflexo disso é que, no segundo dia de conflitos, 16 de março, tropas do interior de Rondônia foram convocadas para se juntar ao destacamento de Porto Velho, que já estava no canteiro. Depois, chegaram outros 100 homens da Força Nacional de Segurança, a pedido do governador Confúcio Moura.

Na minicidade de Jirau, até os conflitos de março, viviam 22 mil pessoas, de óbvia predominância masculina,
oriundas de diversos pontos do Brasil, das quais mais da metade não apenas trabalhando, mas vivendo no canteiro de obras. No canteiro, porém, a ordem era mantida tão somente pela segurança patrimonial da Camargo Corrêa, que não é armada. Nos relatos dos trabalhadores, brigas e acertos de contas são bastante comuns.

Marcio Pedroza citou o caso de um peão que perseguia um travesti para estuprá-lo. O travesti reagiu com uma facada no agressor. “Os outros peões começaram a gritar”, disse. “O meu alojamento era bem pertinho, e fomos lá olhar: o cara no chão, sangrando.” Pedroza diz que o peão teria morrido pouco depois, ao chegar à portaria do canteiro em busca de ajuda. “Lá não tem pronto-socorro de emergência. Se a pessoa pegar um tiro, uma facada, não tem como tratar lá dentro.”

O aumento da criminalidade em Rondônia, desde que as obras das usinas começaram, no segundo semestre de 2008, está nos números. Só em Porto Velho, nos dois últimos anos, Rondônia ficou em quinto lugar no ranking estadual de homicídios dolosos para 100 mil habitantes. Irmã Maria Ozânia conta que, no ano passado, soube que, no Instituto Médico Legal de Porto Velho, havia cinco corpos de trabalhadores de Jirau para serem reconhecidos. Teriam sido mortos na cidade: depois de bebedeira, envolveram-se em brigas fatais.

“Fui verificar e não eram só cinco: eram 35 corpos”, ela disse. Para o subcomandante Thomazzoni, o aumento da violência tem uma explicação lógica: “Como aumentou significativamente a população, cresceu todo tipo de crime.”

Na noite do dia 15 de março, depois que os primeiros ônibus foram incendiados e o canteiro de obras de Jirau virou uma terra de ninguém, houve ao menos uma tentativa de estupro, segundo Francisco das Chagas Batista da Costa, o Chaguinha, secretário-geral do sindicato.

Assim que a delegação do sindicato chegou ao canteiro, para tentar uma intermediação com os revoltosos,
Chaguinha foi abordado por uma mulher, que o avisou sobre uma colega que ficara para trás, arrastada por um grupo de homens. O sindicalista seguiu as indicações passadas pela mulher e entrou de carro no canteiro. Logo ele topou com a moça, cercada e com as roupas rasgadas.

“Eram mais de trinta homens encapuzados, contando os que estavam sentados numa pedra, como se fossem uma plateia”, relata Chaguinha. Ele disse ter negociado com os agressores com base na lei dos bandidos. “Vocês sabem que na cadeia existe uma lei: estuprador caiu lá dentro é fim de carreira”, disse ele ao grupo. “Lá vão querer fazer com vocês a mesma coisa que vocês estão querendo fazer com essa jovem.” A moça foi solta e Chaguinha a levou ao encontro da amiga, que aguardava num posto de gasolina. Ela estava em crise nervosa, e só pedia para sair dali. “Disse que nunca mais poria os pés em Jirau”, falou o sindicalista. Na Delegacia Especializada em Defesa da Mulher e da Família, em Porto Velho, não foi registrada queixa.

No Jornal Nacional, William Bonner anunciou a revolta da seguinte forma: “Cerca de 8 mil trabalhadores foram retirados do canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, depois de atos de vandalismo.” Num protesto realizado por trabalhadores da usina, nas ruas de Porto Velho, em 5 de abril, uma faixa respondia: “Vandalismo é a maneira com que são tratados os trabalhadores no canteiro de obras.”

No mês passado, Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, antecipou-se à Camargo Corrêa e anunciou a demissão de 4 miltrabalhadores de Jirau. Argumentou que a empreiteira fizera contratações em excesso. Em sua coluna na Folha de S.Paulo, Elio Gaspari escreveu que “aquilo que durante a campanha eleitoral era crescimento do emprego virou ‘contratação desenfreada’”. E ele continuou: “O assunto foi tratado com o silêncio da floresta porque as obras estão no mato e os trabalhadores são peões. Se as demissões acontecessem numa grande cidade, degolando numa categoria com melhores salários e algum ativismo político, o barulho seria enorme.”

Anderson acabou demitido em abril, pouco depois da retomada parcial das obras, no dia 11. “Falaram que eu estava na revolta, que tinham fotos e filmagem”, ele me disse. Anderson garante que saiu do canteiro assim que os incidentes começaram, logo no fim da tarde de 15 de março, e refugiou-se em Nova Mutum. Garante que, além de não ter participado dos tumultos, não faltou um dia ao serviço, nos oito meses em que ficou longe da família – ele é de Belém do Pará – trabalhando em Jirau. Tanto que integrou as equipes de limpeza das cinzas e destroços do pós-rebelião. Em benefício do crescimento acelerado da nação emergente, há quem precise fazer o trabalho sujo. E, uma vez feito, sair de cena.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Para compreender a guerra da Líbia

O artigo abaixo é de Michael Collon (*), que já publicou vários livros sobre as estatégias da guerra dos EUA e da mídia nos conflitos precedentes. Ele apresenta uma análise global do caso líbio, bastante abrangente, citando notícias publicadas na imprensa mundial e ainda fatos históricos que demonstram as verdadeiras intenções dos ataques à Líbia, bem como a repetição do modus operandi de guerra das superpotências. Os grifos são meus.

 • 1ª PARTE: Perguntas que é preciso colocar em cada guerra.
27 vezes. Vinte e sete vezes os EUA bombardearam algum país, desde 1945. E cada vez tem-nos afirmado que estes atos de guerra eram “justos” e “humanitários”. Hoje, dizem-nos que esta guerra é diferente das precedentes. O mesmo que foi dito da anterior. E da anterior. E de cada vez. Não estamos já na hora de pôr “o preto no branco” das perguntas que é preciso colocar em cada guerra para não deixar-se manipular?

HÁ SEMPRE DINHEIRO PARA A GUERRA?
No país mais poderosos do globo, 45 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza. Nos EUA, escolas e serviços públicos estão ruindo porque o Estado “não tem dinheiro”. Na Europa, também acontece o mesmo, “não há dinheiro” para as pensões ou para a promoção do emprego.
Porém, quando a cobiça dos banqueiros desencadeia a crise financeira, então, em só uns dias, aparecem bilhões para os salvar. Isto permitiu aos banqueiros dos EUA repartirem no ano passado US$ 140 bilhões de lucros e bônus a seus acionistas e especuladores.
Também para a guerra parece fácil encontrar bilhões. Ora bem, são nossos impostos que pagam estas armas e estas destruições. É razoável converter em fumaça centenas de milhares de euros em cada míssil ou esbanjar cinquenta mil euros por hora de um porta-aviões? Ou será porque a guerra é um bom negócio para alguns? Ao mesmo tempo, uma criança morre de fome a cada cinco segundos e o número de pobres não cessa de aumentar no nosso planeta, apesar de tantas promessas.
Qual a diferença entre um líbio, um bareinita e um palestino? Presidentes, ministros, generais, todos juram solenemente que seu objetivo é unicamente salvar os líbios. Mas, ao mesmo tempo, o sultão do Barein esmaga os manifestantes desarmados, graças aos dois mil soldados sauditas (americanos) enviados pelos EUA! Ao mesmo tempo, no Iêmen, as tropas do ditador Saleh, aliado dos EUA, matam 52 manifestantes com suas metralhadoras. Estes fatos ninguém os põe em dúvida, mas o ministro dos EUA para a guerra, Robert Gates, acabou de declarar: “Não acho que seja o meu papel intervir nos assuntos internos do Iêmen”.(1)
Por que estes dois pesos e duas medidas? Por que Saleh acolhe docilmente a 5ª Frota dos EUA e diz sim a todo o que Washington ordenar? Por que o regime bárbaro da Arábia Saudita é cúmplice das multinacionais petrolíferas? Será que existem “bons ditadores” e “maus ditadores”? Como os EUA e a França podem pretender ser “humanitários”? Quando Israel matou dois mil civis nos bombardeios sobre Gaza, eles declararam uma zona de exclusão aérea? Não. Decretaram alguma sanção? Nenhuma. Ainda pior, Solana, então responsável pelos Assuntos Exteriores da UE declarou em Jerusalém: “Israel é um membro da UE sem ser membro de suas instituições. Israel faz parte ativa de todos os programas de pesquisa e de tecnologia da Europa dos 27″. Acrescentando ainda: “Nenhum país fora do continente tem o mesmo tipo de relacionamentos que Israel com a União Européia”. Neste ponto, Solana tem razão: A Europa e seus fabricantes de armas colaboram estreitamente com Israel na fabricação de mísseis e outros armamentos que semeiam a morte em Gaza.
Recordemos que Israel, que expulsou 700 mil palestinos das suas aldeias, em 1948, se recusa a devolver-lhe seus direitos e continua cometendo inumeráveis crimes de guerra. Sob esta ocupação, 20% da população palestina atual está ou passou pelas prisões israelenses. Mulheres grávidas foram obrigadas a darem à luz atadas ao leito e reenviadas imediatamente às suas celas com os bebês. Esses crimes são cometidos com a cumplicidade dos EUA e da UE.

A vida de um palestino ou de um barenita vale menos do que a de um líbio? Há árabes “bons” e árabes “maus”?

PARA OS QUE AINDA ACREDITAM NA GUERRA HUMANITÁRIA…
Em um debate televisionado que tive com Louis Michel, ex-ministro belga dos Assuntos Exteriores e Comissário Europeu para a Cooperação e o Desenvolvimento, este me jurou, com a mão no peito, que esta guerra tinha como objetivo “pôr de acordo as consciências da Europa”. Era apoiado por Isabelle Durant, líder dos Verdes belgas e europeus. Dessa forma, os ecologistas (“peace and love”) viraram belicistas!
O problema é que a cada vez mais nos falam de guerra humanitária e que gente de esquerda como Durant se deixa enganar. Não fariam melhor em ler o que pensam os verdadeiros líderes dos EUA em vez de olharem e assistirem a TV? Escutem, por exemplo, a propósito dos bombardeios contra o Iraque, o célebre Alan Greenspan, durante muito tempo diretor da Reserva Federal dos EUA. Greenspan escreve em suas memórias: “Sinto-me triste quando vejo que é politicamente incorreto reconhecer o que todo mundo sabe: a guerra no Iraque foi exclusivamente pelo petróleo” (2). E acrescenta: “Os oficiais da Casa Branca responderam-me: ‘pois, efetivamente, infelizmente não podemos falar de petróleo’”. (3)
A propósito dos bombardeios sobre a Iugoslávia escutem John Norris, diretor de Comunicações de Strobe Talbot que, nesse então, era vice-ministro dos EUA dos Assuntos Exteriores encarregado para os Bálcãs. Norris escreve em suas memórias: “O que melhor explica a guerra da OTAN é que a Iugoslávia se resistia às grandes tendências de reformas políticas e econômicas (quer dizer: negava-se a abrir mão do socialismo), e esse não era nosso compromisso com os albaneses do Kosovo”. (4)
Escutem, a propósito dos bombardeios contra o Afeganistão, o que dizia o antigo ministro de Assuntos Exteriores, Henri Kissinger: “Há tendências, sustentadas pela China e pelo Japão, de criar uma zona de livre-câmbio na Ásia. Um bloco asiático hostil, que combine as nações mais povoadas do mundo com grandes recursos e alguns dos países industrializados mais importantes, seria incompatível com o interesse nacional americano. Por estas razões, a América deve manter a sua presença na Ásia…” (5)
O que vinha a confirmar a estratégia avançada por Zbigniew Brzezinski, que foi responsável pela política exterior com Carter e é o inspirador de Obama: “A Eurásia (Europa+Ásia) é o tabuleiro sobre o qual se desenvolve o combate pela primazia global. A maneira como os EUA “manejam” a Eurásia é de uma importância crucial. O maior continente da superfície da terra é também seu eixo geopolítico. A potência que o controlar, controlará de fato duas das três grandes regiões mais desenvolvidas e mais produtivas: 75% da população mundial, a maior parte das riquezas físicas, sob a forma de empresas ou de jazidas de matérias-primas, 60% do total mundial”. (6)
Nada aprendeu a esquerda das falsidades humanitárias transmitidas pela mídia nas guerras precedentes?
Quando o próprio Obama falou, tampouco acreditaram nele? Neste mesmo 28 de março, Obama justificava assim a guerra da Líbia: “Conscientes dos riscos e das despesas da atividade militar, somos naturalmente reticentes a empregar a força para resolver os numerosos desafios do mundo. Mas quando os nossos interesses e valores estão em jogo, temos a responsabilidade de agir. Vistos os custos e riscos da intervenção, temos que calcular, a cada vez, nossos interesses ante a necessidade de uma ação. A América tem um grande interesse estratégico em impedir que Kadafi derrote a oposição”.
Não está claro? Então alguns vão e dizem: “Sim, é verdade, os EUA não reagem se não virem nisso o seu interesse. Mas ao menos, já que não pode intervir em todos os sítios, salvará àquela gente” Falso. Vamos demonstrar que são unicamente seus interesses os que procura defender. Não os valores. Em primeiro lugar, cada guerra dos EUA produz mais vítimas do que a anterior (um milhão no Iraque, diretas ou indiretas). A intervenção na Líbia, prepara-se para produzir mais…

QUEM SE NEGA A NEGOCIAR?
Desde o momento em que colocarem uma dúvida sobre a oportunidade desta guerra contra a Líbia, imediatamente serão culpados: “então recusam-se a salvar os líbios do massacre? Assunto mal proposto. Suponhamos que todo o que se nos tem contado fosse verdade. Em primeiro lugar, pode-se parar um massacre com outro massacre? Já sabemos que nossos exércitos ao bombardearem vão matar muitos civis inocentes. Inclusive se, como a cada guerra, os generais nos prometem que vai ser “limpa”; já estamos habituados a essa propaganda.
Em segundo lugar, há um meio bem mais singelo e eficaz de salvar vidas. Todos os países da América latina propuseram enviar imediatamente uma mediação presidida por Lula. A Liga Árabe e a União Africana apoiavam esta gestão e Kadafi tinha-a aceitado (propondo ele também que fossem enviados observadores internacionais para verificar o cessar-fogo). Mas os insurgentes líbios e os ocidentais recusaram esta mediação.
Por quê? “Porque Kadafi não é confiável”, dizem. E os insurgentes e os seus protetores ocidentais são sempre confiáveis? A propósito dos EUA, convém recordar como se comportaram em todas as guerras anteriores, cada vez que um cessar-fogo era possível. Em 1991, quando Bush pai atacou o Iraque, porque este invadia o Kuweit, Saddam Hussein propôs se retirar e que Israel se retirasse também dos territórios ilegalmente ocupados na Palestina. Mas os EUA e os países europeus recusaram seis propostas de negociação. (7)
Em 1999, quando Clinton bombardeou a Jugoslávia, Milosevic aceitava as condições impostas em Rambouillet, mas os EUA e a OTAN acrescentaram uma, intencionadamente inaceitável: a ocupação total da Sérvia.
Em 2001, quando Bush filho atacou o Afeganistão, os talibãs propunham a entrega de Bin Laden a um tribunal internacional se eram apresentadas provas do seu envolvimento, mas Bush rejeitou a negociação.
Em 2003, quando Bush filho atacou o Iraque, sob o pretexto das armas de destruição em massa, Saddam Hussein propôs o envio de inspetores, mas Bush o recusou porque ele sabia que os inspetores não iam encontrar nada. Isto está confirmado na divulgação de um memorando de uma reunião entre o governo britânico e os líderes dos serviços secretos britânicos, em julho de 2002: “os líderes britânicos esperavam que o ultimato fosse redigido em termos inaceitáveis, de modo que Saddam Hussein o recusasse diretamente. Mas não estavam certos de que isso iria funcionar.
Então tinham um plano B: que os aviões que patrulhavam a “zona de exclusão aérea” lançassem muitíssimas mais bombas à espera de uma reação que desse a desculpa para uma ampla campanha de bombardeios. (9)
Então, antes de afirmar que “nós” dizemos sempre a verdade e que “eles” sempre mentem, asssim como que “nós” procuramos sempre uma solução pacífica e “eles” não querem se comprometer, teria que ser mais prudentes… Mais cedo ou mais tarde, a gente saberá o que se passou com as negociações nos bastidores e constatará, mais uma vez, que foi manipulada. Mas será muito tarde e os mortos já não os ressuscitaremos.

A LÍBIA É IGUAL A TUNÍSIA OU O EGITO?
Em sua excelente entrevista publicada há alguns dias por Investi’Action, Mohamed Hassan, professor de doutrina islâmica e especialista do Oriente Médio, colocava a verdadeira questão: “Líbia: levante popular, guerra civil ou agressão militar?” À luz de recentes investigações é possível responder: as três coisas. Uma revolta espontânea localizada rapidamente recuperada e transformada em guerra civil (que já estava preparada), tudo servindo de pretexto para uma agressão militar. A qual, também, estava preparada. Nada em política cai do céu. Consigo explicar-me?
Na Tunísia e no Egito a revolta popular cresceu progressivamente em umas semanas, organizando-se pouco a pouco e unificando-se em reivindicações claras, o que permitiu derrotar os tiranos. Mas, quando analisamos a sucessão ultrarrápida dos acontecimentos em Benghazi, ficamos intrigados. Em 15 de fevereiro houve manifestações de parentes de presos políticos da revolta de 2006.
Manifestação duramente reprimida em função de estarem os manifestantes fortemente armados depois de haverem tomado à força, de forma coordenada, vários estoques de armamento militar. Dois dias mais tarde, outra manifestação, desta vez os manifestantes saem armados passando diretamente a uma escalada de ataque contra o regime de Kadafi, atirando em unidades do governo e forçando a população civil à aderir à revolta. Em dois dias, incrivelmente, uma revolta popular se converte em guerra civil. Totalmente espontânea?
Para saber isso, é preciso examinar o que se oculta abaixo do impreciso vocábulo “oposição líbia”. Em minha opinião, quatro componentes com interesses muito diferentes : 1º Uma oposição democrática. 2º Dirigentes de Kadafi “regressados” do oeste (ou traidores que venderam informações confidenciais a que tinham acesso). 3º Clãs líbios descontentes da partilha das riquezas. 4º Combatentes de tendência islãmica.
Afinal, quem compõe a “oposição líbia”?
Em toda esta rede de acontecimentos é importante sabermos do que estamos falando. E sobretudo, que facção é aceita pelas grandes potências… Isso sim, responde, precisamente sobre a que interesses servem.
1º Oposição democrática. É legítimo ter reivindicações ante o regime de Kadafi. Um povo tem o direito de querer substituir um regime por outro mais democrático. No entanto, estas reivindicações estão até hoje pouco organizadas e sem programa concreto. Temos, ainda, no estrangeiro, movimentos revolucionários líbios, igualmente dispersos, mas todos opostos à ingerência estrangeira. Por diversas razões que expomos mais adiante, não são estes elementos democráticos os que têm muito que dizer hoje, sob a bandeira dos EUA nem da França.
2º Dignatários “regressados”. Em Bengazhi, um “governo provisório” foi instaurado e está dirigido por Mustafá Abud Jalil. Este homem era, até 21 de fevereiro, ministro da Justiça de Kadafi. Dois meses antes, a Anistia Internacional tinha-o posto na lista dos responsáveis por violações de direitos humanos do norte da África. É este indivíduo o que, segundo as autoridades búlgaras, organizava as torturas de enfermeiras detidas durante longo tempo pelo regime. É neste que os aliados legitimam a oposição no momento.
Outro “homem forte” desta oposição é o general Abdul Faah Yunis, ex-ministro do Interior de Kadafi. Compreende-se porque Massimo Introvigne, representante da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa) para a luta contra o racismo, a xenofobia e a discriminação, classifique estes personagens  não como os ‘sinceros democratas’ dos discursos de Obama, “mas instrumentos do regime de Kadafi, que apenas aspiram tirar o coronel para tomar seu lugar”.
3º Clãs descontentes. Como sublinhava Mohamed Hassan, a estrutura da Líbia continua sendo tribal. Durante o período colonial, sob o regime do rei Idriss, os clãs do Leste dominavam e aproveitavam-se das riquezas petrolíferas. Após a revolução de 1969, Kadafi recebeu apoio das tribos do oeste e o Leste viu-se desfavorecido. Pode-se perguntar se as antigas potências coloniais não incitaram as tribos rebeldes para enfraquecer a unidade do país. Não seria a primeira vez. Hoje, França e os EUA apostam nos clãs do Leste para tomar o controle do país. Dividir para reinar, um velho dito clássico do colonialismo.
4° Elementos da Al-Qaeda. Documentos difundidos pelo Wikileaks advertem que o Leste da Líbia era, proporcionalmente, o primeiro exportador no mundo de “combatentes mártires” no Iraque. Relatórios do Pentágono descrevem um cenário “alarmante” acerca dos rebeldes líbios de Bengazhi e Derna. Derna, uma cidade de escassos 80.000 habitantes, seria a fonte principal de mercenários da Al-Qaeda no Iraque. Da mesma forma, Vincent Cannistrar, antigo chefe da CIA na Líbia, assinala entre os rebeldes muitos “extremistas islâmicos” e que “as possibilidades [são] muito altas de que os indivíduos mais perigosos possam ser uma maligna influência, se Kadafi cair”.
Evidentemente tudo isto se escrevia quando Kadafi era ainda um “amigo”. Mas isto mostra a ausência total de princípios no chefe dos EUA e dos seus aliados. Quando Kadafi reprimiu a revolta islamista de Bengazhi, em 2006, fez isso com o apoio do Ocidente. Uma vez, somos contra os combatentes árabes, outra vez, utilizamo-los. Vamos apenas ver como.
Entre estas diversas “oposições” qual prevalecerá? Pode ser este também um objetivo da intervenção militar de Washington, Paris e Londres: tentar que “os bons” ganhem? Os bons do ponto de vista deles, é claro. Mais tarde, vai utilizar-se a “ameaça islâmica” como pretexto para se instalarem de forma permanente. Em qualquer caso uma coisa é segura: o cenário libio é diferente dos cenários tunisino ou egípcio. Ali era “um povo unido contra um tirano”. Aqui estamos em uma guerra civil, com um Kadafi que conta com o apoio da maior parte da população (um sinal claro disso é a intenção proposta desde o início, pelo governo líbio, de se organizar um plebiscito para consulta popular de avaliação sobre o regime que vigora no país, proposta essa que também foi ignorada pelos aliados e pela ONU). E nesta guerra civil o papel que jogaram os serviços secretos americanos e franceses já não é tão secreto…

Qual foi o papel dos serviços secretos?
Na realidade, o assunto líbio não começou em fevereiro em Benghazi, mas sim em Paris, em 21 de outubro de 2010. Segundo revelações do jornalista Franco Bechis (Libero, 24 de março), nesse dia, os serviços secretos franceses prepararam a revolta de Benghazi. Fizeram “voltar” (ou talvez já anteriormente) Nuri Mesmari, chefe do protocolo de Kadafi, praticamente seu braço direito. O único que entrava sem chamar na residência do líder líbio. Em uma viagem a Paris com toda sua família para uma cirurgia, Mesmari não se encontrou com nenhum médico, pelo conttrário, teve encontros com vários servidores públicos dos serviços secretos franceses e com próximos colaboradores de Sarkozy, segundo o boletim digital Magreb Confidential.
Em 16 de novembro, no hotel Concorde Lafayette, prepararia uma imponente delegação que devia viajar dois dias mais tarde a Benghazi. Oficialmente, tratava-se de responsáveis pelo ministério da Agricultura e de líderes das firmas France Export Céréales, France Agrimer, Louis Dreyfus, Glencore, Cargill e Conagra. Mas, segundo os serviços italianos, a delegação incluía também vários militares franceses camuflados como homens de negócios. Em Benghazi, encontraram-se com Abdallah Gehani, um coronel líbio ao que Mesmari lhes tinha apresentado como disposto a desertar.
Em meados de dezembro, Kadafi, desconfiado, enviou um emissário a Paris para tentar contactar Mesmari. Mas este foi preso na França. Outros líbios foram em visita a Paris no dia 23 de dezembro e foram eles que passaram a dirigir a revolta de Benghazi com as milícias do coronel Gehani. Ainda, Mesmari revelou inúmeros segredos da defesa líbia. De tudo isto resulta que a revolta no Leste não foi tão espontânea como nos foi dito. E tendo o apoio da França, a ingerência é clara e significa que pode ocorrer contra qualquer país, a depender do interesse. Mas isto não é tudo. Não foram só os franceses.
Quem dirige atualmente as operações militares do “Conselho Nacional Líbio” anti-Kadafi? Um homem que retornou dos EUA, em 14 de março, segundo a Al-Jazeera. Apresentado como uma das “estrelas” da insurreição líbia, pelo jornal britânico de direita, Dail Mail, Khalifa Hifter é um antigo coronel do exército líbio exilado nos EUA. Foi um dos principais comandantes da Líbia até a desastrosa expedição ao Chade, no final dos 80; emigrou imediatamente para os EUA e viveu os últimos vinte anos na Virgínia. Sem nenhuma fonte de rendimentos conhecida, mas a muito pouca distância dos escritórios da CIA (10)O mundo é um muito pequeno.
Como é que um militar líbio de alta patente pode entrar com toda a tranquilidade nos EUA, somente alguns anos após o atentado de Lockerbie, pelo qual a Líbia foi condenada, e consegue viver durante vinte anos, tranquilamente, ao lado da CIA? Obviamente teve que oferecer algo em troca.
Publicado em 2001, o livro Manipulations africaines (Manipulações africanas) de Pierre Péan, traça as conexões de Hifter com a CIA e a criação, com o apoio da mesma, da Frente Nacional de Libertação Líbia. A única façanha da tal frente foi a organização, em 2007, nos EUA, de um “congresso nacional” financiado pelo National Endowment for Democracy(11), tradicionalmente o mediador da CIA para manter lubrificadas as organizações a serviço dos EUA.
Em março deste ano, em data não comunicada, o presidente Obama assinou uma ordem secreta que autoriza a CIA a empreender operações na Líbia, para derrotar Kadafi. O The Wall Street Journal, que informa disso, em 31 de março, acrescenta: “Os responsáveis pela CIA reconhecem ter estado ativos na Líbia já há várias semanas, tal como outros serviços secretos ocidentais”.
Tudo isto já não é muito secreto, circula pela Internet faz algum tempo; o que é estranho é que a grande mídia não diga nem uma palavra. No entanto, conhecem-se muitos exemplos de “combatentes da liberdade” armados deste modo e financiados pela CIA. Por exemplo, nos anos 80, as milícias terroristas do ‘contra’, organizadas por Reagan para desestabilizarem a Nicarágua e derrotarem seu governo progressista. Nada se aprendeu com a História? Esta “Esquerda” européia que aplaude os bombardeios não utiliza a Internet?
É de se estranhar que os serviços secretos italianos “delatem” assim as façanhas dos seus colegas franceses e que estes “delatem” seus colegas americanos? Isso só é possível se acreditarmos em histórias bonitas sobre a amizade entre “aliados ocidentais”.
(Extraído do Investig’Action)
Notas:
1- Reuters, 22/3.
2- Sunday Times, 16 setembro 2007.
3- Washington Post, 17 setembro 2007.
4- Collision Course, Praeger, 2005, p.xiii.
5- Does America need a foreign policy, Simon and Schuster, 2001, p. 111.
6- Le Grand Echiquier, Paris 1997, p. 59-61
7- Michel Collon, Attention, médias Bruxelles, 1992, p. 92.
8- Michel Collon, Monopoly, – L’Otan á la conquête du monde, Bruxelles 2000, page 38.
9- Michael Smith, La véritable information des mémos de Downing Street, Los Angeles Times, 23 jun 2005.
10- McClatchy Newspapers (USA), 27 mars.
11- Eva Golinger, Code Chavez, CIA contra Venezuela, Liége, 2006.
(*) Jornalista, escritor e historiador belga •

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