"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Jornalista Isabel Pisano fala sobre a Líbia



Jesus Quintero entrevista em seu programa no Canal South2 (televisão da comunidade autônoma de Andaluzia), Isabel Pisano, escritora, jornalista, correspondente de guerra, amiga próxima de Yasser Arafat.

Ela fala sobre a Líbia e o líder Muammar Gadaffi e a farsa montada pela mídia para se apropriar do país mais rico da África e impor um sistema colonial no continente.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A morbidez da mídia

Por Fernando Brito, do Tijolaço:




Reproduzo o video da entrevista do presidente venezuelano Hugo Chávez. Lamento ter de transmiti-lo, porque é mórbido que um homem tenha de vir desmentir em público que esteja agonizando. Na virada desta madrugada li essa matéria sobre a internação em “emergência” de Chávez. Pesquisei e encontrei reproduzida em centenas de jornais do mundo.
Não comentei nem publiquei, porque depois de 34 anos de convívio com a imprensa – o que não é o mesmo que o jornalismo – já aprendi um pouco sobre do que ela é capaz.
A fala de Chávez, muito mais que engraçada, é um momento dramático para a imprensa mundial, que reproduz uma informação anônimoa, de um jornal de ultra-direita – “El Nuevo Herald” , de Miami – sem nenhum tipo de confirmação.
Coisa que nem um blog como este, com a informalidade que a falta de meios lhe obriga, faz.
Como profissional de imprensa, cada frase, mesmo dita em tom bem humorado pelo presidente Chávez, soa como uma bofetada em minha profissão.

Entornando o caldo

Felipe Boni de Castro 



A gestão do Ministro César Peluso na Presidência do STF (Supremo Tribunal Federal) e no CNJ (Conselho Nacional de Justiça) vem causando mal estar nas várias instâncias do Poder Judiciário. 


A crise, ampliada após a Corregedora Nacional de Justiça, Eliana Calmon, afirmar que há "bandidos de toga" no judiciário brasileiro, ampliou-se para os outros poderes, envolvendo agora o governo federal. A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado, aprovou ontem requerimento para uma audiência, no próximo dia 5 de outubro, onde irão discutir o caso. Mas o advogado geral da União, Luís Inácio Adams, já declarou ser contra a limitação de poderes do CNJ para investigar juízes. 


Algumas associações de magistrados, no entanto, entenderam que as declarações de Eliana Calmon eram uma tentativa de influenciar o julgamento, marcado para ontem, que acabou sendo adiado por sugestão do relator Ministro Marco Aurélio. 


O já conhecido corporativismo da Magistratura, aliado às orientações equivocadas do Ministro Presidente do STF, deixarão marcas negativas no exercício judicante nacional e no inconsciente da sociedade brasileira que pede por mais transparência e menos impunidade em todos os poderes. 


As cobranças da Corregedoria Nacional, órgão disciplinar máximo do CNJ, vinham contribuindo para as punições de maus profissionais - existentes em qualquer profissão - bem como diagnosticando deficiências essenciais para a qualidade da prestação jurisdicional. O sexto ano de existência do órgão Administrativo Auxiliar do Judiciário, que tem sido um divisor de águas no Poder Judiciário, está prestes a ser caldo entornado.


Confio nos Ministros do STF e aguardo uma decisão favorável à manutenção da competência disciplinar do CNJ para processar, julgar e punir os magistrados faltosos e descompromissados com essa maravilhosa carreira e em benefício dos excelentes juízes que temos no Brasil. 


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Felipe Boni de Castro é advogado, atuando em Brasília nos Tribunais Superiores

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A Líbia somos nós

Com tantas mudanças no cenário econômico mundial, os ataques à Líbia (assim como ocorrido no Iraque) vão deixando de ter espaço nos noticiários. No entanto, desde a visita de Barack Obama ao Brasil, quando os bombardeios da coalizão foram autorizados sobre o país, os ataques jamais cessaram, mas apenas pioraram desde então. 


No vídeo abaixo, é possível se ter uma idéia do que era a Líbia antes e no que se transformou depois da guerra.





Uma das últimas mentiras utilizadas pela propaganda de guerra para incriminar o regime de Muammar Gaddafi, a notícia da vala com os corpos de Abu Salim, reportada no Brasil até pelo correspondente do Estadão, não passava de ossos de camelo.


Depois de meses de uma cobertura de guerra inédita, onde a imprensa se transformou numa espécie de RP dos militares - e ainda que jornalistas como Michel Collon e redes latinas de TV venham denunciando as sucessivas manipulações - a coalizão estrangeira já não pode mais negar que sua atuação passa longe de ser "humanitária", sendo na verdade um misto de estratégia de controle do Norte da África, apropriação do petróleo líbio e "test drive" das novas armas que vem sendo utilizadas na Líbia. Jornais franceses, parte deles de propriedade de indústrias bélicas, não se cansam de publicar os "resultados" das ações militares na Líbia, como os efeitos da utilização de gás mostarda, fósforo branco e urânio empobrecido sobre a população.


O povo líbio tem sofrido, além dos horrores da guerra, com a falta de abastecimento. Esta tem sido uma das principais evidências da crueza da atuação militar no país. Ação militar, aliás, que já está em terra há algum tempo, ao contrário do que negam os porta-vozes da OTAN.


O grande rio subterrâneo, construído por Muammar Gaddafi para levar água ao país, atravessando o deserto do Sahara (e até para abastecer miseráveis países vizinhos no chifre da África), foi bombardeado em vários pontos com o intuito de provocar o desabastecimento de água para a população (nossa delegação, quando na fronteira da Tunísia com a Líbia, pôde testemunhar filas com mais de 50 caminhões com remédios e alimentos aguardando permissão de entrada no país). Ações que mais se assemelham à estratégias de enfraquecimento já utilizadas antes, como na guerra da ex-Iugoslávia.


Esmagar um exército e um povo de pouco mais de cinco milhões de habitantes, depois de privá-los de comida, água e eletricidade, é o que eles vem chamando de "libertação"? O fato é que denúncias de violações aos direitos humanos praticadas pelos mercenários (rebeldes e OTAN) têm se tornado cada vez mais difíceis de esconder. 


Nesse vídeo, uma médica de um hospital em Sirte expõe emocionada sua indignação em atender à crianças feridas por bombas da OTAN no último dia 23-09. Ela aponta para as crianças e para um jovem e afirma que "eles não eram soldados de Gaddafi", mas foram atingidos por bombas na sexta-feira, um dia de celebração para os muçulmanos. 







Sirte, Tarhuna e Bani Walid são exemplos de cidades onde não há, nem houve ainda, qualquer batalha em terra por tropas rebeldes contra as do exército líbio. Os ataques ocorrem apenas por via aérea, sobre a população civil, em áreas residenciais. Uma simples busca na internet é o suficiente para verificar a quantidade de vídeos, postados pela população, denunciando os ataques da OTAN e até mesmo dos próprios rebeldes que demonstram com "orgulho" suas execuções praticadas principalmente contra uma maioria de negros acusados de serem mercenários contratados por Gaddafi.



 


A perseguição à negros imigrantes, com torturas, espancamentos, roubos, estupros e execuções a sangue frio, inúmeras vezes denunciada por organizações de direitos humanos, somadas às mortes de crianças tem revoltado a população. O resultado da operação militar na Líbia, tem sido a resistência, como demonstra o video enviado ONTEM pelos cidadãos de Bani Walid, cidade que tem sido anunciada "sob o controle rebelde" por toda a imprensa mundial:







As manifestações tem se tornado uma onda que toma conta do país e vem se espalhando por outros países, como a Espanha, onde vem ocorrendo sucessivas manifestações contra a intervenção militar na Líbia como esta ocorrida em Madri, encabeçada pelo deputado Gaspar Llamazares:





E essa onda deveria envergonhar os países da coalizão que alegam estar "protegendo" a população Líbia. É uma matemática simples: após mais de seis meses de guerra, uma população "sedenta" por ser "libertada" de um "ditador sanguinário", já teria conseguido seu intento, agradecendo todos os dias à seus "salvadores".


A pergunta que devemos nos fazer é: com essa nova configuração nos tratados internacionais, com todas as recentes violações das resoluções da ONU e com o papel ínfimo até mesmo das esquerdas e organizações de direitos humanos em todo o mundo em se opor à ação estrangeira na Líbia, o que faremos (e o que devemos esperar do mundo) quando o alvo formos nós?

A Greve


Texto do Prof. Marco Rossi, no blog Espaço de Cultura Socialista.


"A Greve", de Sergei Eisenstein (1924)


Quando penso na palavra greve, duas coisas me vêm imediatamente à cabeça: o filme de Eisenstein, de 1924, uma das grandes obras-primas do cinema mundial, e o fato de a minha geração (das mais novas, nem se fala...) não ter quase nenhuma familiaridade com esse tipo de acontecimento.

Mudaram muito as configurações do universo do trabalho nos últimos vinte ou trinta anos. A precarização aliada à automação, a qualificação sempre exigida lado a lado com os baixos salários, os poucos empregos disputados por multidões jogaram ao pó os grandes movimentos contestatórios. A individualização cega e a hipercompetição praticamente soterraram a solidariedade de classe e a consciência do humano para além de sua minúscula parcela naufragada e impotente.  

Nesse sentido, diante de uma greve, rara e invariavelmente mal interpretada por seus agentes e por quase toda a sociedade, nossas emoções e pouca razão se dividem entre a total indiferença e a indignação por atrapalhar questões pessoais, caminhadas e projetos individuais.

Não obstante o direito de greve estar inscrito na Constituição Federal, de 1988 – um avanço democrático que levou décadas para nos abraçar -, muitas dessas formas coletivas de insatisfação e inquietude podem ser declaradas abusivas, inconstitucionais, por se tratar de “interrupção de serviços essenciais”.

Em verdade, declarar que uma greve é ilegal por paralisar práticas mais substantivas do que outras é admitir que uns são essenciais, outros, superficiais. Mais: que as pessoas atingidas direta ou indiretamente por greves serão unanimemente contrárias às demandas dos trabalhadores que se veem obrigados à suspensão de suas atividades cotidianas.

A greve não é dessas coisas que se fazem por aí porque não há opção ou porque reina a absoluta falta do que fazer. Ela se refere a descontentamentos, a ferimentos que doem na dignidade de quem trabalha e deseja uma vida melhor para si e para seus filhos e netos.

Antes de julgar de modo apressado e, por extensão, equivocado uma ação grevista, procure refletir sobre quantas reivindicações gostaria de ter feito, partilhado; reflita sobre quantas vezes quis gritar e ter um mundo inteiro para ouvir os ecos da indignação, da rebeldia, da vontade de mudar a vida, o curso da história. Se a resposta provável for "muitas, muitas vezes", celebre um gigantesco viva a quem ainda tem coragem de levar suas dores e delícias às últimas consequências.

domingo, 25 de setembro de 2011

Aviões britânicos bombardeiam a cidade de Sirte


Por José Gil de Almeida no site www.amarchaverde.blogspot.com
Aviões britânicos bombardearam durante a noite diversas regiões da cidade de Sirte, a cidade natal de Muamar Kadafi. Esse é mais um episódio covarde e sangrento, entre tantos outros patrocinados pelos países que compõe a OTAN.
Atacar e bombardear a população civil durante a noite é uma prática dos militares norte-americanos iniciada na Guerra da Coréia, quando dezenas de cidades e vilarejos daquele país foram dizimados sob ataque cruel e sanguinário das forças estrangeiras.
À meia-noite, uma formação de Tornados GR4s, que partiu da base da RAF (Royal Air Force) de Marham, em Norfolk, leste da Inglaterra, disparou uma salva de mísseis guiados de precisão Storm Shadow contra um bunker de um grande quartel-general na cidade natal de Kadafi, Sirte", afirma um comunicado.
A TV estatal líbia, Al Jamariya, anunciou nesta quinta-feira em sua página no Facebook que a OTAN estava bombardeando Sirte, atingindo alvos civis, entre os quais hospitais, escolas e rodovias.
Imaginem se a Líbia disparasse mísseis em direção à Europa? Seria um desastre sem proporções e a opinião pública mundial ficaria revoltada ao extremo, mas a mídia ocidental silencia quando aviões partem da Inglaterra para despejar bombas na Líbia e voltar ao país de origem cantando vitória. É uma verdadeira desgraça para o futuro da humanidade não reagir a mais esse crime de guerra praticado por britânicos.
Não consta que a ONU tenha autorizado que aviões da Inglaterra bombardeassem cidades líbias. Trata-se de crime de guerra, condenável por toda a legislação internacional. Entretanto, por tratar-se de terrorismo de Estado patrocinado por aliado dos EUA, é praticamente impossível que haja qualquer conseqüência em tribunais penais internacionais, na maioria controlados pelos governos das potências imperialistas que hoje atacam a Líbia para roubar petróleo.
A situação hoje é caótica na Líbia. Falta água, luz, gasolina e alimentos na maioria das cidades, ou seja, os invasores atingiram seus objetivos de enfraquecer o país para permitir o roubo de suas riquezas através da formação de um governo pró-ocidente, a exemplo do que fizeram no Iraque e Afeganistão.
O povo árabe líbio e os partidários de Muamar Kadafi lutam contra a maior potência militar do planeta, incluindo amais avançada tecnologia de guerra, os aviões não-tripulados utilizados pelo governo norte-americano. A população líbia foi colocada em regime de terror pelos bombardeios diários da Otan que assassinou milhares e milhares de civis indefesos.

sábado, 24 de setembro de 2011

Quem ganhou a guerra na Líbia?



Quem ganhou a guerra na Líbia?

Por Jeremy Salt*





A história já está sendo reescrita para acomodar a nova realidade provisória na Líbia" - a realidade de hoje, isto é, porque ninguém pode prever o tempo exato em que o povo líbio colocará para correr o novo governo de traidores e mercenários financiados por potências ocidentais. 

De acordo com Hussein Agha e Robert Malley, escrevendo no New York Review of Books, a Otan "ajudou" os rebeldes a "derrubar Kadafi". Esta é uma inversão da realidade porque na verdade os rebeldes ajudaram a Otan, e não o contrário. 

Incapazes de derrubar o governo com suas próprias forças, pois não passavam de grupos dispersos financiados por potências estrangeiras, eles abriram as portas para um colossal ataque ao seu país por forças estrangeiras. Em troca, a Otan pavimentou o caminho para seu avanço para o oeste até a Trípoli e permitiu-lhes assumir o crédito pela vitória. 

Foi a Otan – a serviço das potências estrangeiras – que salvou uma pequena insurreição que não duraria mais do que algumas semanas, transformando-a em uma guerra total na qual dezenas de milhares de vidas foram sacrificadas. Foi a Otan que, em nome da proteção aos civis, assassinou milhares de civis indefesos num processo de saturação de bombardeios à Líbia (admitiram 7.500 mísseis militares até o mês passado), destruindo qualquer possibilidade do governo legítimo se defender. 

O confronto entre o governo da Líbia e a Otan não foi uma guerra, mas um ataque monstruoso, de proporções gigantescas, utilizando a mais moderna tecnologia militar do planeta, e a força econômica, política e diplomática das potências mais poderosas. O destino da Líbia poderia ser o destino de qualquer outro país pequeno, como tem sido o destino de muitos pequenos países durante os últimos dois séculos de agressão ocidental contra o mundo não-europeus e não americanos.

Chamar essa agressão de guerra é uma afirmação enganosa por parte da mídia ocidental para desviar a opinião pública sobre a verdade dos fatos e beneficiar os agressores - financiadores. Basicamente, esta foi uma guerra decidida pelos governos da Grã-Bretanha, França e Estados Unidos, com outros países (Canadá, Itália, Bélgica, Dinamarca e Noruega) utilizando a Otan como camuflagem. Cameron e Sarkozy têm negado interesse próprio, mas a disputa sobre o direito prévio aos recursos de petróleo da Líbia já começou dentro do novo consórcio chamado de "Amigos da Líbia". A Líbia descobriu que tinha amigos que nunca suspeitou que existissem.

Intervenção externa em socorro a Benghazi

Foi muito rápida a mobilização de forças estrangeiras para atacar a Líbia, revelando que não foi por acaso, mas algo planejado e preparado ao longo dos últimos anos.Os governos das potências imperialistas França, Grã-Bretanha e os EUA começaram a mobilização para conseguir a ONU a legitimação da guerra para ocupar a Líbia. A exemplo do que a ONU fez na Coreia, Afeganistão e Iraque, a ONU foi novamente manipulada pelas grandes potências e aprovou a Resolução 1970, (26 de fevereiro) que trata de imposição de sanções e um embargo de armas: resolução 1973 (17 de março) declarada zona de exclusão aérea sobre os governos da Líbia e autorizado a tomar todas as medidas necessárias para "proteger a vida civil", neste caso, trata-se da mais pura hipocrisia: assassinaram milhares de pessoas em nome da proteção a essas mesmas pessoas. Seria cômico se não fosse trágico.

A partir deste ponto de partida a imposição de uma zona de exclusão aérea abriu a oportunidade para os primeiros aviões estrangeiros bombardearem a Líbia. As primeira bombas a caírem na Líbia para "proteger o povo" foram despejadas por aviões franceses, país que tem péssimo histórico de crimes de guerra na colonização e saque de nações africanas. Acostumados – ao longo da história - a assassinar os negros para roubar suas riquezas naturais, os franceses sentiram-se como se "voltassem ao lar".

O fracasso da Anistia Internacional

A Anistia Internacional elaborou um relatório que detalha os crimes cometidos pelos rebeldes até a entrada em Trípoli. O que a Anistia Internacional omite, atendendo a interesses do porta-voz da Otan, são os crimes cometidos pelos poderes de intervenção externa contra a população civil. Uma lista curta incluiria o bombardeio de abastecimento de água, clínicas, armazéns, mercados, pelo menos, um hospital, escolas, a Universidade Nasser, em Tripoli, casas de civis, os escritórios da Sociedade da Líbia para tratamento da Síndrome de Down, uma pousada em Brega onde um grupo de imãs católicas foram assassinadas porque se colocaram na frente de uma passeata que pedia paz em Benghazi.

As vítimas de ataques aéreos da Otan, incluídas mulheres e crianças, somam milhares. Todos os dias cometeram- e cometem – crimes contra civis indefesos, e em todos esses crimes o porta-voz da Otan afirma que o objetivo dos ataques eram alvos militares, apesar da evidência visual ao contrário: em poucas ocasiões em que eles admitiram vítimas civis, disseram, cinicamente, que lamentavam os erros de segmentação ou sistema de armas.

A Anistia Internacional deveria questionar o quadro de violações do direito internacional na Líbia por parte da Otan, começando com o fato da intervenção ter excedido e extrapolado o mandato (espúrio em si mesmo) emitido pelo Conselho de Segurança da ONU. 

Por que não questionam, por exemplo, sob a luz do direito internacional, o ataque a casa de Saif al Arab al Kadafi em Trípoli, em primeiro de maio. O comando militar da Otan sabia que havia mulheres e crianças na residência, mas ainda assim matou seu filho e três de seus netos. O argumento de que casa de Saif al Arab seria um comando militar ou centro de controle é uma escandalosa mentira. O escritório da Sociedade para tratamento da Síndrome de Down na Líbia foi bombardeada, aparentemente porque o comando militar da Otan pensava que Kadafi estivesse naquele local. Estas tentativas claramente deliberadas para assassiná-lo levantam um outro aspecto do direito internacional que a Anistia não se sente inclinada a investigar.

Sobre a questão da perda de vidas de civis resultantes de ataques aéreos, a Anistia acha que a Otan "admitiu uma série de erros fatais, incluindo uma em 19 de junho, em Tripoli que levaram à morte de civis". A passagem posterior refere-se a vários civis 'supostamente' ser morto (em vez de realmente ser morto como parece ter sido o caso) quando um "projétil" (uma telha solta?) atingiu suas casas. A Anistia permite que um porta-voz da Otan explique o que aconteceu. Havia uma "falha no sistema de armas" que "poderia ter causado [sic.] a perda de vidas inocentes" e, por essa perda de vidas o porta-voz da Otan diz – novamente – que lamenta.

Há também uma referência a um ataque aéreo perto de Trípoli em 20 de junho.O alvo era um conglomerado pertencente a "um dos associados de Kadafi" (ou seja, um alto funcionário do governo da Líbia). Pelo menos uma mulher e duas crianças foram mortas porque o "conglomerado" teria implicações militares, mas na verdade tratava-se de um conglomerado de casas. De acordo com o porta-voz da Otan, no entanto, apesar do assassinato da mulher e das crianças, este foi um "ataque de precisão", lançado contra um "alvo militar legítimo". No mínimo, a questão da proporcionalidade surge novamente. Se a Otan tinha provas de equipamento militar dentro do complexo (nunca mostrado) também tinha provas da presença de mulheres e crianças. O alvo provável era o alto funcionário do governo, que escapou ileso.

Repórteres informaram a Anistia Internacional que "pelo menos alguns dos prédios atingidos no composto parecia ser residencial" e deixaram por isso mesmo. Ela menciona a explosão de três antenas de televisão por satélite como uma eventual infração das leis de guerra sobre a proibição de ataques a infra-estrutura civil, mas não tem nada a dizer sobre violações infinitamente mais graves do direito humanitário internacional por parte da Otan. Não há menção dos 85 mortos no ataque em primeiro de agosto, nenhuma menção sobre o assassinato dos religiosos na cidade de Brega; nenhuma menção sobre o assassinato do filho de Kadafi e netos; nenhuma menção a continuação dos ataques a infra-estruturas civis desde o início da guerra aérea até os dias de hoje. Nem há qualquer menção das ofertas de negociações feitas por Kadafi e pela União Africana, todas elas rejeitadas pelos rebeldes pela simples razão de que, enquanto eles tinham a Otan atrás deles, eles não iam parar até que o governo em Trípoli foi derrubado. Sem a Otan não bombardeasse o país de formacriminosa e terrorista diarimaente ao longo de sete meses, os rebeldes não sairiam de Benghazi , e teriam que negociar. Na medida em que o papel da Otan é central e determinante, o relatório da Anistia é uma farsa vergonhosa.

Os negócios firmados entre os rebeldes e os governos dos Estados Unidos, França e Grã-Bretanha vão permanecer escondidos debaixo da mesa pelo maior tempo possível, e só lentamente é que vamos ver que vai envolver: generosas concessões às grandes empresas petrolíferas ocidentais, contratos para a reconstrução do que os mísseis da Otan estão destruindo, reabertura eampliação das embaixadas, missões militares para treinar e reorganizar o exército da Líbia, e empreiteiros passeando em Humvees e veículos blindados para proporcionar "segurança". Naturalmente os custos da guerra - de 'libertação' da Líbia – será pago pela Líbia.

O estabelecimento de bases militares da Otan na Líbia será o bônus especial para as forças estrangeiras ocidentais ameaçaremcada vezmaisa África. A Líbia vai retornar ao sistema financeiro internacional, o que significa uma economia reestruturada com base nos "conselhos" do FMI e empréstimos. Não haverá mais conversa de um Banco Central Africano e agência de investimento financiado pela Líbia, e outros projetos que Kadafi já tinha colocado em movimento.

A Líbia será como o Iraque, para favorecer a rapina de suas riquezas naturais por parte dos "libertadores". O Conselho Nacional de Transição é internamente fragmentado e mais propenso a implosão antes da consolidação de um governo. A guerra ainda está longe do fim, exigindo a participação da Otan a cada passo do caminho, e os últimos redutos do governo deposto estão se superando, aumentando a resistência dia a dia. Mesmo que Kadafi ou Saif al Islam fossem mortos, é provável que a luta pela libertação da Líbia continue. A guerra à Líbia não se trata de uma guerra de libertação ou de uma revolução popular, mas é um produto da intervenção ocidental. Os sorrisos triunfante em Tripoli de Cameron, Sarkozy e Bernard-Henri Levy, são os sorrisos de um tigre saboreando sua última refeição e contemplando seu próximo. Nenhum ataque ocidental em um país árabe já terminou bem para a população local, e na Líbia é improvável que haja qualquer exceção.

O sucesso da força militar ocidental no Oriente Médio é ameaçador. Iraque e Líbia são precedentes perigosos. Com o apoio dos governos europeus, os EUA têm ameaçado o governo sírio para retardar o crescimento econômico do país nas duas últimas décadas. Seu colapso ou derrubada representaria o maior ganho estratégico para os EUA, Israel, Grã-Bretanha e França desde a Segunda Guerra Mundial, superando o isolamento do Egito através do tratado de paz de Camp David e da destruição do Iraque. As repercussões seriam sentidos em todos os níveis da política árabe. O regime sírio está em apuros e estes poderes podem cheirar sangue. Eles esperam que a pressão interna irá derrubá-lo, mas se não podem expor no mesmo caminho que os levou para a Líbia. Este é certamente na sua agenda, o que eles, eventualmente, devem decidir.

O autor Jeremy Salt é professor associado na história do Oriente Médio e Política na Universidade Bilkent, em Ancara, na Turquia. Anteriormente, lecionou na Universidade do Bósforo em Istambul e na Universidade de Melbourne nos Departamentos de Estudos do Oriente Médio e Ciência Política. Escreveu vários artigos sobre questões do Oriente Médio, especialmente na Palestina, e foi um jornalista para o jornal The Age, quando ele morava em Melbourne. Ele contribuiu com este artigo para PalestineChronicle.com.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Haiti


"Haiti", composição dos músicos brasileiros Caetano Veloso e Gilberto Gil, do álbum Tropicália 2, de 1993, se mostra ainda atual. Aqui você confere a gravação original.

A música faz referência, dentre inúmeros assuntos inerentes, à Fundação Casa de Jorge Amado, localizada em Salvador (BA), organização não-governamental cujo objetivo é preservar o acervo do escritor brasileiro e tem também como missão a criação de um fórum permanente de debates sobre a cultura baiana – especialmente sobre a luta pela superação das discriminações raciais e sócio-econômicas. 
A atualidade da música também pode ser demonstrada pela ocorrência de atrocidades cometidas por rebeldes líbios, com o apoio da OTAN e o silêncio da ONU, contra uma maioria de negros imigrantes que trabalhavam em empresas estrangeiras na Líbia e agora são alvos de torturas, assassinatos, estupros. Uma verdadeira limpeza étnica já denunciada pela Anistia Internacional e outras organizações de direitos humanos, mas ignorada por grande parte da imprensa mundial.
Nesta versão da Banda Trampa, a música tem o peso do rock n´roll com a leveza da música erudita. O clipe, gravado inteiramente no centro e periferia de Brasília, capital do Brasil, mostra os contrastes do "nosso" Haiti.


Criado em 2008, o projeto Trampa Sinfônica é um espetáculo que une, em um único palco, a banda Trampa de rock´n roll com a Orquestra Sinfônica de Brasília Esse encontro entre dois estilos musicais tão distintos é também uma homenagem à memória do idealizador do projeto, o maestro Silvio Barbato (11/05/1959 – 01/06/2009), que estava à bordo do Airbus da Air France, que desapareceu no Oceano Atlântico durante o voo 447 em 2009.



Quando você for convidado pra subir no adro
Da Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados


E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados


E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for


Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui


E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital


E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal


E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon


E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos


Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos


E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba


Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

Carta de Hugo Chávez para Ban Ki-moon em apoio à Palestina



Em 17 de setembro, o presidente venezuelano Hugo Chávez enviou uma carta ao Secretário Geral da ONU Ban Ki-Moon, para confirmar o apoio do governo venezuelano para o estabelecimento do Estado da Palestina.


Por Hugo Chávez Frías, Presidente da República Bolivariana da Venezuela

Miraflores, 17 setembro de 2011

Sua Excelência, 
Ban Ki-moon 
Secretário Geral das Nações Unidas

Senhor Secretário-Geral: 
Ilustres representantes dos povos do mundo:

Dirijo estas palavras à Assembléia Geral da ONU, a este grande fórum que representa todos os povos da terra, para ratificar, neste dia e neste cenário, o apoio total da Venezuela ao reconhecimento do Estado Palestino: ao direito da Palestina em se tornar um país livre, soberano e independente. Trata-se de um ato de justiça histórica para com um povo que carrega consigo, desde tempos imemoriais, toda a dor e sofrimento do mundo.

Em seu ensaio memorável "A Grandeza de Arafat", o grande filósofo francês Gilles Deleuze escreveu com todo o peso da verdade: A causa palestina é antes de tudo, o conjunto de injustiças que essas pessoas sofreram e continuam a sofrer. E eu ouso acrescentar que a causa palestina também representa uma constante e inabalável vontade de resistir, que já está escrita na memória histórica da condição humana. Vontade de resistência que nasce do amor mais profundo pela terra. Mahmoud Daewish, a voz infinita da Palestina almejada, nos fala com o sentimento e a consciência deste amor:

Nós não precisamos de memórias 
porque em nós trazemos o Monte Carmelo 
e em nossas pálpebras a erva da Galiléia. 
Não digas: Se pudéssemos correr para o meu país como um rio! Não o digas! 
Porque nós estamos na carne de nosso país 
e nosso país está em nós.

Contra aqueles que falsamente sustentam que o ocorrido com o povo palestino não é um genocídio, o mesmo Deleuze afirma com lucidez implacável: Do começo ao fim, vêm agindo como se o povo palestino não só não devesse existir, mas como se nunca tivesse existido. Isso representa a própria essência do genocídio: decretar que um povo não existe, para negar-lhes o direito à existência.


Neste sentido, quanta razão tem o grande escritor espanhol Juan Goytisolo quando afirma contundentemente: A promessa bíblica da terra da Judéia e Samaria para as tribos de Israel não é um contrato de propriedade em cartório que autoriza a expulsão daqueles que nasceram e vivem naquele solo. É precisamente por isso que a resolução de conflitos no Oriente Médio deve, necessariamente, trazer justiça ao povo palestino, este é o único caminho para a paz.


É perturbador e doloroso que as mesmas pessoas que sofreram um dos piores genocídios da história tenham se convertido nos carrascos do povo palestino: é perturbador e doloroso que a herança do Holocausto seja a Nakba. E é verdadeiramente preocupante que o sionismo continue a usar a acusação de anti-semitismo como uma chantagem contra aqueles que se opõem às suas violações e crimes. Israel tem, descaradamente e vilmente, usado e continua a usar a memória de suas vítimas. E eles fazem isso para agir com total impunidade contra a Palestina. Ademais, vale a pena mencionar que o anti-semitismo é um flagelo ocidental, de raiz européia, em que os árabes não tiveram participação. Além disso, não vamos esquecer que é o povo semita da Palestina que sofre com a limpeza étnica praticada pelo Estado colonialista israelense.

Quero tornar-me claro: uma coisa é denunciar o anti-semitismo, e outra coisa totalmente diferente é aceitar passivamente que a barbárie sionista imponha um regime de apartheid contra o povo palestino. Do ponto de vista ético aqueles que denunciam o primeiro, devem condenar o segundo.

Uma digressão necessária: tem sido fartamente utilizado confundir o sionismo com o judaísmo. Ao longo do tempo fomos lembrados disto por vários intelectuais judeus, como Albert Einstein e Erich Fromm. E hoje há um número cada vez maior de cidadãos conscientes, dentro de Israel propriamente dito, que abertamente se opõem ao sionismo e suas práticas criminosas e terroristas.


Há que dizê-lo com todas as letras: o sionismo, como uma visão de mundo, é absolutamente racista. Prova irrefutável disto pode ser notado nas palavras, de cinismo aterrador, escritas por Golda Meir: Como vamos devolver os territórios ocupados? Não há ninguém a quem devolvê-los. Não há tal coisa chamada povo palestino. Não é como as pessoas pensam, que existia um povo chamado "palestinos", que se consideravam palestinos, e que nós chegamos, os expulsamos e nos apropriamos de seu país. Eles simplesmente jamais existiram.


É importante lembrar que: a partir do final do século XIX, o sionismo iniciou o chamado para o retorno do povo judeu à Palestina e a criação de um Estado nacional próprio. Esta abordagem foi benéfica e funcional para os colonialistas franceses e britânicos, como também seria mais tarde para o imperialismo ianque. O Ocidente sempre incentivou e apoiou a ocupação sionista da Palestina por meios militares, o que ocorre desde então.

Leiam e releiam o documento historicamente conhecido como a Declaração de Balfour de 1917: o governo britânico assumiu a responsabilidade legal em prometer um lar nacional na Palestina para o povo judeu, ignorando deliberadamente a presença e os desejo de seus habitantes. Deve-se acrescentar ainda que cristãos e muçulmanos viveram em paz durante séculos na Terra Santa até o momento em que o sionismo começou a reclamá-la como sua propriedade total e exclusiva.

Não vamos esquecer que no início da segunda década do século XX, o sionismo começou a desenvolver seus planos de expansão, aproveitando a ocupação colonial britânica na Palestina. Até o final da Segunda Guerra Mundial, a tragédia do povo palestino se exacerbaria, consumando-se na expulsão de seu território e, ao mesmo tempo, da história. Em 1947, a desprezível e ilegal resolução 181 da ONU recomendou dividir a Palestina em um Estado judeu, um Estado árabe, e uma área sob controle internacional (Jerusalém e Belém). Vergonhosamente, 56% do território foi concedido ao sionismo para estabelecer seu Estado. Na verdade, esta resolução violou o direito internacional e ostensivamente vem ignorando a vontade da grande maioria árabe: o direito à autodeterminação dos povos tornou-se letra morta.

De 1948 até esta data, o Estado sionista tem continuamente aplicado a sua estratégia criminosa contra o povo palestino com o apoio constante de seu aliado incondicional, os Estados Unidos da América do Norte. Esta lealdade incondicional é claramente observada pelo fato de que Israel dirige e define a política internacional dos EUA para o Oriente Médio. É por isso que o grande palestino de consciência universal Edward Said afirmou que qualquer acordo de paz construído sob a aliança com os Estados Unidos seria uma aliança que confirmaria o poder sionista, ao invés de confrontá-lo.

Então, ao contrário do que Israel e os Estados Unidos estão tentando fazer, levando o mundo a acreditar nas transnacionais midiáticas, o que aconteceu e continua a acontecer na Palestina, usando as palavras de Said, não é um conflito religioso, mas um conflito político, de cunho colonial e imperialista e ele não é um conflito milenar, senão contemporâneo, não é um conflito nascido no Oriente Médio, mas sim na Europa.


O que foi e continua a estar no centro deste conflito: o debate e as discussões têm priorizado a segurança de Israel, ignorando a Palestina. Isto é corroborado por recentes acontecimentos, um bom exemplo é o mais recente episódio genocida desencadeado por Israel durante a Operação "Chumbo Fundido" em Gaza.

A segurança da Palestina não pode ser reduzida ao simples reconhecimento de uma autonomia limitada e o autocontrole policialesco em suas "enclaves" ao longo da margem ocidental do Jordão e na Faixa de Gaza, ignorando não só a criação do Estado Palestino, no conjunto das fronteiras anteriores a 1967 e com Jerusalém Oriental como sua capital, os direitos dos seus cidadãos e sua auto-determinação como povo, mas também, ignorando a compensação e consequente regresso à pátria de 50% do povo palestino que estão espalhados por todo o mundo, conforme estabelecido pela resolução 194.

É inacreditável que um país (Israel), que deve sua existência a uma resolução da Assembléia Geral pode ser tão desdenhoso das resoluções que emanam da ONU, conforme disse o padre Miguel D'Escoto, quando pedia o fim do massacre contra o povo de Gaza, entre o final de 2008 e o início de 2009.

Sr. Secretário Geral e ilustres representantes dos povos do mundo:

É impossível ignorar a crise nas Nações Unidas. Em 2005, perante esta Assembléia Geral, nós sustentamos que o modelo de Nações Unidas havia se esgotado. O fato de que o debate sobre a questão palestina tenha sido adiado e está sendo abertamente sabotado, novamente nos confirma isso.

Há vários dias, Washington vem afirmando que, no Conselho de Segurança, vai vetar o que será uma resolução da maioria da Assembléia Geral: o reconhecimento da Palestina como membro pleno das Nações Unidas. Na Declaração de Reconhecimento do Estado palestino, a Venezuela, juntamente com as Nações irmãs que compõem a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA), denunciaram que tal aspiração justa pode ser bloqueada por esta via. Como sabemos, o império, neste casos e em outros, vem tentando impor o seu duplo padrão no cenário mundial: é a dupla moral ianque que tem violado o direito internacional na Líbia, e agora, permite que Israel faça o que bem entender, convertendo-se no principal cúmplice do genocídio palestino que vem sendo realizado pelas mãos da barbárie sionista. Edward Said tocou em ponto nevrálgico quando escreveu que: os interesses de Israel nos Estados Unidos criaram uma política em torno Oriente Médio israelocentrista.


Gostaria de finalizar com a voz de Mahmoud Daewish em seu poema memorável "Sobre esta terra":

Sobre este terra, nós temos algo 
que faz a vida valer a pena: 
Nesta terra está a senhora da terra, 
Mãe de todos os começos 
Mãe de todos os fins.
Ela foi chamada... Palestina. 
Seu nome continua sendo... Palestina. 
Minha senhora, porque você é minha dama, 
eu mereço a vida.


Ela continuará a ser chamada Palestina: a Palestina vai viver e vencer! Longa vida livre, soberana e independente à Palestina!

Hugo Chávez Frías 
Presidente da República Bolivariana da Venezuela


Publicado originalmente em (inglês): http://www.mathaba.net/news/?x=628760

domingo, 18 de setembro de 2011

MANIFESTO DO HAMÁS: sobre pedido da Autoridade Palestina de reconhecimento como estado-membro da ONU




18/9/2011, MondoWeiss, a guerra de ideias no Oriente Médio 
(traduzido do original em árabe para o inglês por Simone Daud)

Traduzido do inglês para o português pelo pessoal da Vila Vudu


Sobre o pedido, apresentado pela Autoridade Palestina em Ramallah, para que a Palestina receba status de estado-membro da Organização das Nações Unidas 


O que foi discutido e acordado por toda a força nacional palestina, como programa político nacional é:

– estabelecimento de um estado palestino com real soberania, nas linhas de junho  (Huzairan) de 1967;

– com Jerusalém como capital de estado;

– com retorno dos refugiados;

– com a evacuação de todas as colônias; e

– sem reconhecer a entidade sionista. 

Nós, do movimento Hamás, apoiamos qualquer esforço e manobra política que vise a obter apoio internacional e solidariedade para: 

– o direito dos palestinos à liberação e à autodeterminação;

– o estabelecimento de estado plenamente soberano;

– a obtenção de direitos nacionais palestinos; e que

– resulte na condenação da entidade sionista, que nega todos os direitos dos palestinos e revele a verdadeira natureza da entidade sionista.

Mas não se aceita nenhuma manobra política que se faça à custa de qualquer dos direitos nacionais dos palestinos.

Infelizmente, o pedido a ser apresentado pelos irmãos da Autoridade Palestina em Ramallah, para obter que a Palestina seja aceita como estado membro das Nações Unidas tem caráter unilateral, e está ainda muito distante de contar com o consenso de todos os palestinos. Além disso, não brotou de acordo coerente, nos termos da estratégia de toda a luta de libertação nacional de todos os palestinos. 

O pedido a ser encaminhado à ONU é, nesse sentido, extensão do processo de paz. A ideia de insistir em repetir a ideologia das negociações está muito longe da decisão pela resistência e por buscar construir "posição forte" para negociar.

Enfatizamos nossa firme convicção de que a resistência, em seu significado essencial, e, perifericamente, todas as formas da luta política de massas, é a via real que pode libertar a Palestina, conquistar nossos direitos e estabelecer um estado palestino que tenha soberania genuína.

A urgente necessidade dos palestinos é a libertação real de nosso território, para que ali se estabeleça um verdadeiro estado da Palestina independente e soberano. 

Não há qualquer necessidade ou urgência de continua a discutir sobre um estado que não existe e não poderá ser 'inventado' pela ONU. 

Não há qualquer urgente necessidade de tanta preocupação com passos simbólicos, todos de impacto limitado, nem de gerar resultados ambíguos, que não estão livres de alguns riscos.

Apelamos nesse momento aos nossos irmãos da liderança da Autoridade em Ramallah, irmãos  do movimento Fatah, e a todas as forças e facções palestinas, para que retomem o diálogo entre nós, para procedermos a uma revisão política em profundidade.

É a via que há para construir uma estratégia palestina, patriótica, de combate e resistência, que manifeste acordo nacional. 

Temos de continuar a reunir, na base desse acordo nacional, todas as "cartas de poder" [vantagens, posições de força], sobretudo a resistência, até estarmos realmente preparados para exercer o direito de autodeterminação, libertar nossa terra da ocupação sionista e conquistar nossos direitos nacionais, se deus nos permitir.

Movimento da Resistência Islâmica, HAMAS
Setor de Imprensa
Sábado, 19 Shawwal, 1432 H

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Peguem o 'colar de pérolas'... e joguem-se de cabeça no Mar do Sul da China!

Peguem o 'colar de pérolas'[1]... 
e joguem-se de cabeça no Mar do Sul da China! 

12/9/2011, M K Bhadrakumar, Indian Punchlinehttp://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/


Especialistas em todo o mundo, que estudam a Ásia Central e o Afeganistão, sabem que Pan Guang – diretor do Centro Xangai para Estudos Internacionais e, simultaneamente, Diretor do Centro de Estudos da Organização de Cooperação de Xangai [ing. Shangai Cooperation Organization, SCO] – é voz influente no processo de construção de políticas em Pequim. Pan fala perfeito inglês e é personalidade encantadora (além de anfitrião generoso), cuja área de expertise foi um dia Israel, e que até hoje não perde chance de mostrar aos hóspedes cada mínimo, nunca lembrado, jamais suspeitado, extremamente fascinante detalhe da rica herança que os judeus legaram a Xangai.

Seja como for, o último artigo que Pan publicou em China-US Focus, sob o título "China and US in Central Asia: Role of the SCO and the Possibility of Cooperation in Central Asia"
[2] [China e EUA: papel da Organização de Cooperação de Xangai e possibilidade de cooperação na Ásia Central] chamou-me a atenção por outra razão.

O artigo divulga detalhes espantosos do que China e EUA vêm discutindo sobre o Afeganistão.

Saí da leitura do documento, espantado, para começar, de ver (a) o quanto são simplórias, pedestres, elementares, as discussões que fazemos na Índia hoje
[3]  sobre o papel regional da China no Sul da Ásia, e  (b) o quanto são velhas e o quão estão completamente ultrapassadas as ideias que a imprensa indiana não se cansa de repetir[4].

Pan apresenta um primeiro mapeamento, geral, de plano de cooperação entre a Organização de Cooperação de Xangai e os EUA, que deixa sem fôlego qualquer analista.

Nas palavras de Pan: "Ponto de partida conveniente pode ser a constituição de uma estrutura de ligação para coordenar questões antiterror entre EUA-OTAN e a Organização de Cooperação de Xangai (SCO). O mecanismo de ligação poderá ser progressivamente ampliado para diálogo SCO + EUA (SCO + 1) ou SCO + EUA, União Europeia (OTAN), Japão (SCO + 3), e pode até ser ampliado para constituir o Fórum Regional da Organização de Cooperação de Xangai [ing. SCO Regional Forum (SRF)], como o Fórum Regional Asiático [ing. Asian Regional Forum (ARF)]."

Soa inacreditável? Pois ainda não ouviram o mais impressionante.

A bomba de Pan, que fará muitos 'analistas' de jornal e televisão e intelectuais 'midiáticos' arrancarem os cabelos em frenesi desesperado ainda está por vir.

Pan revela que EUA e OTAN já estão em tratativas com a China, para conseguir outra rota para transportar suprimentos para os soldados ocidentais que estão no Afeganistão – rota que, como os EUA desejam, deve passar por território chinês. E quais as rotas mais quentes, preferidas pelos estrategistas dos EUA e da OTAN? Bem... O leque de opções parece que se vai fechando; a opção ideal parece partir da China, pela estrada Karakorum e a Caxemira Ocupada pelo Paquistão [ing. POK, Pakistan Occupied Kashmir], até o Afeganistão; uma segunda via pode ser o porto de Gwadar construído (e gerido?) pelos chineses no Paquistão.

OK, OK. Entenderam? A China não só está entrando mais fundo na Caxemira Ocupada pelo Paquistão (e a Caxemira, é claro, pertence à Índia), como, também, entrará ali por negócio acertado com Washington e Bruxelas – e, claro, para ajudar EUA e OTAN!

A grande questão talvez fosse o que a Índia fará sobre tudo isso. Mas nada há que a Índia possa fazer. Não haverá retórica indiana que dê conta.

Além do mais, as implicações estratégicas mais amplas são óbvias – a China está sendo oficialmente reconhecida por EUA e pelo Ocidente, como parceira na estabilidade e segurança do Sul da Ásia. Pan destaca especialmente esse aspecto, item das recentes negociações sino-americanas de alto nível.

Tudo isso considerado, os analistas da 'mídia' estão sendo deixados para trás, em total isolamento, pendurados ao famoso 'colar de pérolas'. Tio Sam está escondido, mudo. Também sumiram da paisagem os analistas da CIA que 'vazam' análises para a imprensa indiana [e para a brasileira e para todas as imprensas do mundo (NTs)].

Talvez seja a hora de nossos 'analistas' de jornal e intelectuais 'midiáticos' meterem o famoso 'colar de pérolas' ao pescoço e mergulharem para nadar um pouco no Oceano Índico, em algum ponto entre Hambantota ou Coco Islands. Melhor ainda: podem jogar-se, de cabeça, no Mar do Sul da China.  
 




NOTAS

[1]   Ing. "string of pearls". "O termo surgiu num memorando interno do Departamento de Defesa dos EUA, intitulado "Futuros da energia na Ásia" [ing. "Energy Futures in Asia"]. Foi matéria do Washington Post em 2005 (em
http://www.washingtontimes.com/news/2005/jan/17/20050117-115550-1929r/ ). Aparece desenvolvido como estratégia em publicação oficial em http://www.strategicstudiesinstitute.army.mil/pdffiles/PUB721.pdf , onde se lê:
    
"Colar de Pérolas é manifestação da crescente influência geopolítica da China, graças aos esforços dos chineses para garantir acesso a portos, campos de pouso e bases aéreas, relações diplomáticas especiais e modernização das forças militares, em área que se estende do Mar do Sul da China, pelo Estreito de Malacca, pelo Oceano Índico e até o Golfo Persa" [NTs, com informações (e mapas) de
http://en.wikipedia.org/wiki/String_of_Pearls_(China)#cite_note-0].

[3] Sobre o quanto são simplórias, pedestres, elementares, ridículas, de fato, patéticas, as discussões dos 'especialistas' brasileiros, embaixadores que serviram a governos já descartados pelas urnas, hoje desempregados ou já empregados na Fiesp e Febraban e em universidades privadas, e 'intelectuais' uspeano-udenistas-midiáticos em geral, reunidos por William Waack nos programas 'de análise internacional' da rede Globo e do canal Globo News... Sobre isso, NEM SE FALA! [NTs].

[4]
Sobre o quanto são velhas e estão totalmente ultrapassadas as ideias que a imprensa brasileira não se cansa de repetir... Sobre isso, NEM SE FALA! [NTs]

domingo, 11 de setembro de 2011

11/9



A propaganda reiterada, ou a máxima da "mentira repetida mil vezes" ajudaram o mundo a esquecer que, em um mesmo 11 de setembro, os EUA bombardeavam um país vizinho ao nosso, o Chile. No documentário acima, um curta de 11 minutos, Ken Loach traça um paralelo entre as duas datas e mostra como Kissinger e Nixon encontraram motivos para "salvar o povo chileno de sua irresponsabilidade" por terem escolhido o médico, marxista e maçom Salvador Allende, o primeiro chefe de estado socialista eleito democraticamente na América Latina.

Como a maior parte das pessoas no mundo, lembro exatamente onde estava e o que senti quando assisti ao ataque em 11/9 contra os americanos. Lembro do susto, do medo, do choque. Mas, com o passar dos anos, minha comoção se transformou em indignação. Me pergunto se as mães americanas que perderam seus filhos, não se comovem com os filhos e mães do Afeganistão, do Iraque ou dos mais de 30 países que os EUA já atacaram diretamente ao longo de sua história. Só na invasão do Iraque, mataram mais de 200.000 pessoas, o que significa 100X mais que o número de mortos em 11/9 nos EUA.

Agora mesmo, enquanto assistimos à cobertura do "Marco Zero" em NY, aviões da OTAN atacam cidades na Líbia, sem respeitarem nem mesmo os "minutos de silêncio" pelos mortos do WTC, ou sem dar a chance para que os parentes enterrem seus entes queridos, espalhados pelas ruas, como se um tsunami tivesse avançado pelo deserto.

Como diz o colega Eduardo Castro - que estava em NY no 11/9 - o mundo ficou, dez anos depois, mais intolerante, mais perigoso, mais racista. Sobre o episódio, visto pelo Eduardo que era repórter da Band à época dos ataques, você pode ler no blog dele aqui. Abaixo do relato dele, tem um texto muito interessante do Paulo Moreira Leite, comparando o legado de Bin Laden e Bush. Este último, sucessivamente retratado como "herói" pela imprensa mundial, sem jamais ter cometido um ato sequer de heroísmo em sua vida.

Mas assistindo ao documentário do Ken Loach acima, sobre uma mesma terça-feira 11/9, é impossível não se perguntar: seria o 11/9 nos EUA o que os budistas chamam de karma?

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