"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

quarta-feira, 28 de março de 2012

Adeus



"Jornalismo é oposição.
O resto é armazém de secos e molhados."
(Millôr Fernandes)



Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

O que é o Ecad? E por que ele está cobrando direitos autorais de blogs?

Do Com Texto Livre:

Esta semana, o Ecad se tornou um dos assuntos mais discutidos por cobrar dinheiro de blogs que apenas embedaram vídeos do YouTube em alguns posts. Mas afinal, o que é o Ecad, e por que ele está fazendo isso?

O Ecad arrecada direitos autorais de músicas…

O Ecad (Escritório Central de Arrecadação) é um órgão privado, fundado em 1976 para arrecadar os direitos autorais de cada música tocada “em execução pública” no Brasil, seja ela nacional ou estrangeira. O dinheiro deve, então, ir para os artistas. O órgão é formado por nove associações – de músicos, compositores, intérpretes, autores e mais – que funcionam como sindicatos. E o Ecad é grande: são 26 unidades arrecadadoras, 780 funcionários e 45 advogados.

O Ecad arrecada direitos não só de rádio, TV e shows: bares, academias, consultórios médicos, carros de som, terminais de transporte e até mesmofestas de casamento, aniversários, arraiás e quermesses precisam pagar – esta é a lista completa. E a arrecadação nesses locais geralmente não é feita por quantidade de músicas tocadas: ou é pela receita bruta, ou por área do local (como bares e lojas) ou até mesmo por número de quartos (hotéis e motéis).

E como eles fazem para monitorar tudo isso? Eles contam com antenas no alto de prédios para captar o que as rádios tocam; gravadores em blocos e trios elétricos, para monitorar a apresentação pública; e seus fiscais, munidos de bloco e caneta, anotam o que toca nos shows para saber o que deve ser cobrado. Se eles descobrirem que algum estabelecimento não pagou o direito autoral, eles podem entrar com processo na Justiça.

A lei brasileira de direitos autorais, de 1998, prevê um só escritório central de arrecadação e distribuição, que “não terá finalidade de lucro”. O Ecad arrecadou R$432,9 milhões em 2010, dos quais R$346,4 milhões foram repassados. Em comparação, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) arrecadou R$263,3 milhões em receita no mesmo período.

…inclusive na internet…

O Ecad se envolveu em polêmica esta semana por cobrar taxa mensal de blogs que embedam vídeos do YouTube e do Vimeo com músicas. O blog de design Caligraffiti e o blog pessoal A Leitora foram obrigados a pagar R$352,59 por mês, valor alto considerando que eles não têm fins lucrativos. O Ecad justifica a medida afirmando que os sites são retransmissores, pois “o uso de músicas em blogs se trata de uma nova execução” pública. O Ecad ainda diz que, de acordo com a lei de direitos autorais, a existência de lucro direto não é requisito para cobrar os direitos.

Eles negam que os blogs sejam seu novo alvo, mas avisam: “todo usuário que executa música publicamente em site/blog, ao ser captado, pode receber um contato”. O Ecad afirma que “aproximadamente 1.170 sites que utilizam música publicamente na internet” estão cadastrados na entidade, entre “sites de grande, médio e pequeno portes”.

O blog Caligraffiti deve pagar R$350 mensais ao Ecad  

…onde eles também recebem direitos autorais do YouTube…


O Ecad firmou em 2010 um acordo com o Google, após quase dois anos de negociações, para receber direitos autorais sobre vídeos no YouTube com músicas da entidade. Eles receberam do Google R$252.000 referentes ao período de um ano (julho de 2010 a julho de 2011). Então por que estão cobrando de novo? Segundo o Ecad, porque eles podem cobrar por novo uso da música: “a autorização para o uso por uma [das modalidades] não se estende para as demais”, diz o Ecad em nota.

Segundo o cantor e compositor Leoni, “com o YouTube, a cada 150 mil visualizações de um clipe, você recebe R$ 1,00 de direito autoral”. Por essa regra, um blog pequeno – como Caligraffiti e A Leitora – mal pagaria um centavo, já que dificilmente levaria dezenas de milhares de pessoas a um vídeo (o Caligraffiti tem de 1.000 a 1.500 acessos por dia). Mas não é assim que funciona: esta é a tabela de preços do Ecad e, pelo serviço de webcasting – no qual os blogs foram enquadrados – eles tiveram que pagar 7 UDAs (Unidades de Direito Autoral), o que resulta nos R$352,59.
…baseados em uma lei antiga…

A lei de direito autoral no Brasil data de 1998, quando a internet ainda estava começando a se popularizar no Brasil – e o YouTube nem existia. Na verdade, a própria lei nunca cita a internet: o máximo é considerar transmissão como difusão via “ondas radioelétricas; sinais de satélite; fio, cabo ou outro condutor; meios óticos ou qualquer outro processo eletromagnético”, o que envolve a internet.

Esta nova polêmica levantou a necessidade de uma nova lei de direito autoral – e ela vem sendo feita desde 2010. Nesse ano, o Ministério da Cultura, disposto a flexibilizar a lei, realizou consulta pública. Com a posse da ministra Ana de Hollanda em 2011, este projeto foi substituído por outro mais rigoroso, consolidado em anteprojeto apresentado no fim de 2011 à Casa Civil. Segundo a Folha, o anteprojeto favorece o Ecad ao reduzir ainda mais a fiscalização sobre a entidade. Não há prazo para o anteprojeto ser enviado ao Congresso.

E circulam duas outras propostas de reforma da lei que prevêem supervisão estatal para o Ecad. Uma delas, o projeto de Lei 3133/12 do deputado Nazareno Fonteles (PT-PI), propõe medidas mais flexíveis – no projeto, nem mesmo baixar filmes e músicas da internet é crime – e está sendo analisado pela Câmara.
…e que gera críticas até dos artistas.

Os músicos, compositores, intérpretes e afins — os beneficiados pelo Ecad — também carregam uma série de críticas ao modelo implementado pelo Ecad. Dezenas de músicos brasileiros — incluindo nomes mais antigos, como Jair Rodrigues e Ivan Lins, e novos nomes, como Tulipa Ruiz e Lucas Santtana — assinaram um manifesto para discutir a criação de uma “terceira via” para solucionar os problemas da lei dos direitos autorais brasileira. A ideia é criar um meio termo entre o debate daqueles que querem que a lei revista seja extremamente flexível e aqueles que entendem que o modelo atual defende os músicos.

Leoni, ao depôr contra a CPI do Ecad, em agosto do ano passado, fez duras críticas ao modelo criado pela entidade: segundo ele, o modelo de divisão é falho e favorece grandes corporações; a liberdade do Ecad em relação à Justiça e à cobranças do Governo é nefasta; e combate o argumento do Ecad de que quem estabelece os critérios de cobrança e arrecadação são os autores — segundo ele, tal valor foi definido, em caráter único, pelo Ecad.





O Ecad não é fiscalizado…

No Brasil, não existe qualquer entidade que fiscalize o Ecad. Como ele é um órgão privado, não precisa divulgar muitos detalhes sobre arrecadação e distribuição – eles só começaram a divulgar balanço anual em 2005. Segundo o senador Randolfe Rodrigues, “o Brasil é um dos poucos países no mundo que não têm nenhum tipo de fiscalização sobre a arrecadação de direitos autorais: de 136 países, só 20 não têm nenhum tipo de fiscalização”. Vários especialistas em direito autoral defendem que o Ecad seja supervisionado por órgão público. O Ecad, ao se pronunciar sobre o assunto, dizque não está sujeito à “ingerência do Estado”, e que os músicos sempre cuidaram da gestão de direitos “sem qualquer ajuda governamental”.
Em outros países onde empresas cuidam da coleta de direitos autorais, o negócio é diferente: no caso da Espanha, por exemplo, a Sociedad de Autores y Editores, que tem em sua sombra mais de 100 mil artistas, é fiscalizado pelo Ministério da Cultura do país. Na Colômbia, o órgão de recolhimento e distribuição é composto por autores e pelo governo. E nos EUA, o incentivo é para a decentralização de poder: a BMI (Broadcasting Music Inc) e a Ascap (American Society of Composers) gerenciam milhares de artistas, e a competição entre elas é estimulada.

…foi suspeito de envolvimento em diversas irregularidades…

O Ecad chamou a atenção do público em abril do ano passado, quando esquentava o debate sobre uma nova lei de direito autoral. Reportagem d’O Globo mostrou que o motorista Milton Coitinho dos Santos recebeu quase R$130.000 do ECAD por trilhas sonoras de filme que não compôs – e o dinheiro foi retirado por uma procuradora que era funcionária da entidade. Quatro semanas depois, a revista Época coletou dez histórias de fraudes e práticas questionáveis do Ecad: apropriação de ganhos judiciais, pagamentos abaixo do devido e até falsificação de assinaturas.

Audiência pública da CPI do Ecad, com Glória Braga e o senador Randolfe Rodrigues  

…está sendo investigado por duas CPIs…

O Ecad é alvo de duas Comissões Parlamentares de Inquérito: uma no Senado e outra na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro). As duas CPIs do Ecad foram abertas em junho do ano passado. No Senado, foi criada pelo senador Randolfe Rodrigues para investigar denúncias de irregularidades, no escritório central e nas associações que o compõem. Durante as investigações, surgiram suspeitas de que o Ecad não estava se mantendo “sem fins lucrativos”: diretores e gerentes do escritório teriam recebido gratificações no total de R$500.000 em um ano. Também surgiram suspeitas de que fiscais da arrecadação estariam cobrando propinas.

A CPI no Senado até quebrou o sigilo fiscal do Ecad, mas se esvaziou: desde o final de outubro, as reuniões pararam de acontecer. A CPI da Alerj teve duração de seis meses e seu relatório final deve ser feito em parceria com a CPI do Senado. O prazo de entrega para o relatório final da CPI foi prorrogado para até maio deste ano.

…e não conta com nosso apoio.


Uma entidade sombria, que não presta contas ao Governo, é alvo de duas CPIs e arrecadou R$432,9 milhões apenas em 2010, quer tirar centenas de reais de blogs de pouco acesso. Uma entidade que em 2011 arrecadou R$2,6 milhões apenas por meio de direitos autorais no âmbito digital, se apoiando em uma leia arcaica para os tempos de internet, e pretende aumentar o número em 2012. Só podemos esperar que a revisão da lei dos direitos autorais, que ainda não tem prazo para surgir, tire grande parte dos poderes do Ecad.

A sangrenta estrada para Damasco



Por James Petras*

A indignação expressa por políticos no Ocidente, em estados do golfo e nos mass media acerca da "matança de pacíficos cidadãos sírios a protestarem contra a injustiça" é cinicamente concebida para encobrir informações documentadas da tomada violenta de bairros, aldeias e cidades por bandos armados, brandindo metralhadoras e colocando bombas nas estradas.

O assalto à Síria é apoiado por fundos, armas e treino estrangeiro. Devido à falta de apoio interno, contudo, para ter êxito, será necessária intervenção militar direta estrangeira. Por esta razão foi montada uma enorme campanha de propaganda e diplomática para demonizar o legítimo governo sírio. O objetivo é impor um regime fantoche e fortalecer o controle imperial do Ocidente no Médio Oriente. No curto prazo, isto destina-se a isolar o Irã como preparativo para um ataque militar de Israel e dos EUA e, no longo prazo, eliminar outro regime laico independente amigo da China e da Rússia. 

A fim de mobilizar apoio mundial a esta tomada de poder financiada pelo Ocidente, Israel e Estados do Golfo, vários truques de propaganda tem sido utilizados para justificar mais uma flagrante violação da soberania de um país após a destruição com êxito dos governos laicos do Iraque e da Líbia


O contexto mais amplo: Agressão em série 

A atual campanha ocidental contra o regime independente de Assad na Síria faz parte de uma série de ataques contra movimentos pró-democracia e regimes independentes que vão desde a África do Norte até o Golfo Pérsico. A resposta imperial-militarista ao movimento egípcio para a democracia que derrubou a ditadura Mubarak foi apoiar a tomada de poder da junta militar e a campanha assassina para prender, torturas e assassinar mais de 10 mil manifestantes pró democracia. 

Confrontado com movimentos democráticos de massa semelhantes no mundo árabe, ditadores autocrático do Golfo apoiados pelo Ocidente esmagaram seus respectivos levantamentos no Bahrain, Yemen e Arábia Saudita. Os assaltos estenderam-se ao governo laico da Líbia onde potências da NATO lançaram um bombardeamento maciço por ar e mar a fim de apoiar bandos armados de mercenários, destruindo assim a economia e a sociedade civil da Líbia.


O desencadeamento de gangster-mercenários armados levou à devastação da vida urbana na Líbia, assim como das regiões rurais. As potências da NATO eliminaram o regime laico do coronel Kadafi, que foi assassinado e mutilado pelos seus mercenários. A NATO superintendeu a mutilação, aprisionamento, tortura e eliminação de dezenas de milhares de apoiadores civis de Kadafi, assim como funcionários do governo. A NATO apoiou o regime fantoche quando ele iniciou um massacre sangrento de cidadãos líbios descendentes de africanos sub-saharianos bem como imigrantes africanos sub-saharianos – grupos que beneficiaram de generosos programas sociais de Kadafi. A política imperial de arruinar e dominar na Líbia serve como "modelo" para a Síria: Criar as condições para um levantamento em massa conduzido por fundamentalistas muçulmanos, financiados e treinados por mercenários ocidentais e de estados do golfo. 


A estrada sangrenta de Damasco para Teerã

Segundo o Departamento de Estado, "A estrada para Teerã passa através de Damasco": O objetivo estratégico da NATO é destruir o principal aliado do Irã no Médio Oriente; para as monarquias absolutistas do Golfo o objetivo é substituir uma republica laica por uma ditadura vassalo teocrática; para o governo turco o objetivo é promover um regime cordato aos ditames da versão de Ancara do capitalismo islâmico; para a Al Qaeda e os seus aliados fundamentalistas Salafi e Wahabi, um regime teocrático sunita, limpo de sírios laicos, alevis e cristãos servirá como trampolim para projectar poder no mundo islâmico; e para Israel uma Síria divida ensopada em sangue assegurará a sua hegemonia regional. Não foi sem uma antevisão profética que o senador estado-unidense Joseph Lieberman, um uber-sionista, dias após o ataque da "Al Qaeda" de 11 de Setembro de 2001, pediu: "Primeiro devemos atacar o Irã, Iraque e Síria" antes mesmo de considerar os autores reais do feito. 

As forças anti-sírias armadas refletem uma variedade de perspectivas políticas conflitantes unidas apenas pelo seu ódio comum ao regime nacionalista independente e leito que tem governado a complexa e multi-étnica sociedade síria desde há décadas. A guerra contra a Síria é a plataforma de lançamento de uma nova ressurgência do militarismo ocidental a estender-se desde a África do Norte até o Golfo Pérsico, sustentado por uma campanha de propaganda sistemática que proclama a missão democrática, humanitária e "civilizadora" da NATO em prol do povo sírio. 


A estrada para Damasco está pavimentada com mentiras 

Uma análise objetiva da composição política e social dos combatentes armados na Síria refuta qualquer afirmação de que o levantamento é feito em busca da democracia para o povo daquele país. Combatentes fundamentalistas autoritários formam a espinha dorsal do levantamento. Os Estados do Golfo que financiam estes bandidos brutais são eles próprios monarquias absolutistas. O Ocidente, depois de ter impingido um brutal regime gangster sobre o povo da Líbia, não pode apregoar "intervenção humanitária". 

Os grupos armados infiltram cidades e utilizam centros populosos como escudos a partir dos quis lançam seus ataques à forças do governo. No processo eles expulsam milhares de cidadãos dos seus lares, lojas e escritórios os quais utilizam como postos avançados. A destruição do bairro de Baba Amr em Homs é um caso clássico de gangs armadas a utilizarem civis como escudos e como matéria de propaganda na demonização do governo. 

Estes mercenários armados não têm credibilidade nacional junto à massa do povo sírio. Uma das suas principais centrais de propaganda está localizada no coração de Londres, o chamado "Syrian Human Rights Observatory" onde, em coordenação estreita com a inteligência britânica, despejam chocantes estórias de atrocidades para estimular sentimentos a favor de uma intervenção da NATO. Os reis e emires dos Estados do Golfo financiam estes combatentes. A Turquia proporciona bases militares e controla o fluxo transfronteiriço de armas e os movimentos dos líderes do chamado "Free Syrian Army". Os EUA, França e Inglaterra proporcionam as armas , o treino e a cobertura diplomática, jihadistas-fundamentalistas estrangeiros, incluindo combatentes Al Qaeda da Líbia, Iraque e Afeganistão, entraram no conflito. Isto não é "guerra civil". Isto é um conflito internacional contrapondo uma perversa tripla aliança de imperialistas da NATO, déspotas de Estados do Golfo e fundamentalistas muçulmanos contra um regime nacionalista independente e laico. A origem estrangeira das armas, maquinaria de propaganda e combatentes mercenários revela o sinistro carácter imperial e "multi-nacional" do conflito. Em última análise o violento levantamento contra o estado sírio representa uma sistemática campanha imperialista para derrubar um aliado do Irão, Rússia e China, mesmo ao custo de destruir a economia e a sociedade civil síria, de fragmentar o país e desencadear duradouras guerras sectárias de extermínio contra os Alevi e minorias cristãs, bem como apoiantes laicos do governo. 

As matanças e a fuga em massa de refugiados não é o resultado de violência gratuita cometida por um estado sírio sedento de sangue. As milícias apoiadas pelo ocidente capturaram bairros pela força das armas, destruíram oleodutos, sabotaram transportes e bombardearam edifícios do governo. No decorrer dos seus ataques eles interromperam serviços básicos críticos para o povo sírio incluindo educação, acesso a cuidados médicos, segurança, água, electricidade e transporte. Assim, eles arcam com a maior parte da responsabilidade por este "desastre humanitário" (do qual seus aliados imperiais e responsáveis da ONU culpam as forças armadas e de segurança sírias). As forças de segurança sírias estão a combater para preservar a independência nacional de um estado laico, ao passo que a oposição armada comete violências por conta dos mestres estrangeiros que lhes pagam – em Washington, Riyadh, Tel Aviv, Ancara e Londres. 

Conclusões 

O referendo do regime Assad no mês passado atraiu milhões de eleitores sírios em desafio às ameaças imperialistas ocidentais e aos apelos terroristas a um boicote. Isto indica claramente que uma maioria de sírios prefere uma solução pacífica, negociada, e rejeita a violência mercenária. O Syrian National Council apoiado pelo ocidente e o "Free Syrian Army" armado pelos turcos e Estados do Golfo rejeitaram categoricamente apelos russos e chineses para um diálogo aberto e negociações, os quais foram aceites pelo regime Assad. A NATO e as ditaduras dos Estados do Golfo estão a pressionar seus apaniguados a tentarem uma "mudança de regime" violenta, uma política que já provocou a morte de milhares de sírios. As sanções económicas estado-unidenses e europeias são concebidas para arruinar a economia síria, na expectativa de que a privação aguda conduzirá uma população empobrecida para os braços dos seus violentos apaniguados. Numa repetição do cenário líbio, a NATO propõe "libertar" o povo sírio através da destruição da sua economia, sociedade civil e estado laico. 

Uma vitória militar ocidental na Síria simplesmente alimentará a fúria crescente do militarismo. Encorajará o Ocidente, Ryiadh e Israel a provocarem uma nova guerra civil no Líbano. Depois de demolir a Síria, o eixo Washington-UE-Riyadh-Tel Aviv mover-se-á para uma confrontação muito mais sangrenta com o Irão. 

A horrenda destruição do Iraque, seguida pelo colapso da Líbia do pós guerra, proporciona um terrífico modelo do que está reservado para o povo da Síria. Um colapso precipitado dos seus padrões de vida, a fragmentação do seu país, limpeza étnica, dominação de gangs sectárias e fundamentalistas e insegurança total quanto à vida e propriedade. 

Assim como a "esquerda" e "progressistas" declararam o brutal ataque à Líbia ser a "luta revolucionária de democratas insurgentes" e a seguir afastou-se, lavando as mãos da sangrenta consequência de violência étnica contra líbios negros, eles agora repetem os mesmos apelos à intervenção militar contra a Síria. Os mesmo liberais, progressistas, socialistas e marxistas que estão a apelar ao Ocidente para intervir na "crise humanitária" da Síria a partir dos seus cafés e gabinetes em Manhattan e Paris, perderão todo interesse na orgia sangrenta dos seus mercenários vitoriosos depois de Damasco, Alepo e outras cidades sírias terem sido bombardeadas pela NATO até à submissão. 


Ver também: 
http://mrzine.monthlyreview.org/2012/syria060312.html
http://www.presstv.ir/
http://www.sana.sy/index_spa.html

[*] James Petras é sociólogo e analista político norte-americano. O seu livro mais recente é The Arab Revolt and the Imperialist Counterattack (Clarity Press: Atlanta2012) 2ª edição. 
O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/?p=1891 
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . 

sábado, 10 de março de 2012

Cobertura ao vivo da Conferência de Tunis



"Nossas vidas começam a terminar no dia em que nos silenciamos para as coisas que realmente importam" - Martin Luther King, Jr.


11:12 Cobertura ao vivo da Conferência de Túnis: "Os líbios sob a autoridade de milícias e gangues armadas".


Já é possível acompanhar pelo video aqui:  http://www.mathaba.net/go/live/


Pedimos desculpas, porque atualmente temos uma transmissão de vídeo ao vivo intermitente e ainda não temos comunicação com o nosso correspondente na conferência.

Como é habitual em eventos importantes como este que contradizem as redes que se submetem à agenda da "nova ordem mundial", não há qualquer referência na grande mídia para esse evento, que seria notícia em qualquer canal sério de televisão. Portanto, é importante apoiar agências independentes como Mathaba, para que seja possível continuar a cobrir eventos de tamanha importância para o público mundial.


Várias autoridades européias, africanas e árabes estão presentes, bem como membros de organizações mundiais e grupos de ajuda internacionais, representantes das tribos líbias e vários advogados, escritores e jornalistas da Tunísia além de meios de comunicação internacionais.


Agradecemos seus comentários, eles serão publicados ao longo do tempo durante todo o evento.


Se você não consegue ver o vídeo, por favor, atualize a página  http://www.mathaba.net/go/live


Vamos agora dar aos espectadores algumas informações sobre os eventos na Líbia no ano passado e a razão para esta Conferência ter lugar hoje na vizinha Tunísia.

Antes de um ataque total da aérea executado pelos EUA, Europa e jatos de combate do Golfo Árabe, disparando mísseis e soltando dezenas de milhares de bombas sobre a Libya durante a maior parte de 2011, este país foi governado por um sistema de democracia popular direta, conhecido como "Jamahiriya".



Desde o início de 2011, o povo líbio tem resistido à invasão do seu país pela Al-Qaeda e elementos treinados por franceses, britânicos, e tropas dos EUA além de outras"agências de inteligência", juntamente com mercenários e ex-exilados da Líbia, da era pré-Jamahiriya. Período anterior a 1969, quando a Líbia era um dos países mais pobres do mundo, governado por um rei fantoche dos Estados Unidos, sendo na época a maior base aérea no exterior, onde os norte-americanos tinham o controle da Bacia do Mediterrâneo, África Central e Oriente Médio.


Nós vamos tentar postar aqui e depois colocar atualizações no mesmo post, portanto, para os que tiverem interesse em ler aqui em português, basta ir atualizando a página principal do blog.


Analistas acreditam que os objetivos da elite falida ocidental em travar esta guerra na Líbia, inclusive destruindo exemplos como a Jamahiriya, silenciando também a voz do coronel Muammar Kadafi, era pôr fim ao enorme investimento e apoio para a independência econômica, política e militar da África (dinheiro que a Líbia emprestou aos países vizinhos sem jamais cobrar por isso) e aproveitar-se também da maior oferta mundial de água pura do rio que há embaixo do Sahara - a maior parte sob território líbio - onde agora se sustentam as esperanças francesas de saírem da crise econômica, vendendo trilhões de dólares em petróleo e água líbios.

Nós estamos acompanhando desde o início a Conferência e na medida do possível vamos transmitir o nome dos presentes e as resoluções que serão tiradas de lá. Continuem acompanhando e postando seus comentários.


As atrocidades mais terríveis foram cometidas por criminosos perigosos que foram libertados das prisões na Líbia por terroristas armados, conhecidos entre os líbios como "ratos". Essas ações, incluindo as formas mais brutais de tortura, desmembramentos, abusos, humilhação e assassinato, foram freqüentemente filmados nos telefones celulares dos criminosos e carregados para o YouTube (e muitos ainda podem ser encontrados lá). No entanto, o mundo das assim chamadas organizações de direitos humanos têm permanecido em grande parte em silêncio sobre este assunto.

Pedimos àqueles que não entendem árabe, para se inscrever em http://www.mathaba.net/go/daily com seus e-mails e imediatamente conferir o email para confirmar a inscrição gratuita, de modo que você será capaz de ler um relatório ampliado na próxima semana sobre a conferência em Francês, Inglês e Português, que será enviado a você se você entrar nessa lista.

O abuso de líbios negros e outros africanos trabalhadores imigrantes,tem sido particularmente evidente. Qualquer pessoa de pele negra passou a ser alvo de maneira semelhante ao abuso de negros africanos nos Estados Unidos pela Ku Klux Klan durante o século passado. Os governos africanos também permaneceram praticamente em silêncio sobre esta questão, para o choque e desânimo das suas populações.

A Líbia foi o único país a ter um sistema de democracia direta. Todos os outros regimes árabes, a maioria dos quais são monarquias ou ditaduras, ou permaneceram como estão, ou foram substituídos por novos subservientes aos financistas globais (como George Soros), e isso inclui vizinhos árabes da Líbia, da Tunísia e Egito.


Na Tunísia, onde a conferência de hoje promovida por juristas internacionais, ativistas de direitos humanos e pró-democracia apoiadores da Jamahiriya Líbia está ocorrendo, também ocorreram manifestações pacíficas em apoio ao povo da Líbia.

Hoje analistas já acreditam que o objetivo das elites da "Nova Ordem Mundial", não é a criação de um regime fantoche na Líbia, uma impossibilidade, em qualquer caso, dada a forte oposição popular ao "Conselho Nacional de Transição" e que já admitiram ter uma proposta insustentável. 

Hoje acredita-se que o objetivo é a criação de uma Líbia fraca e dividida, como parte do plano para criar um arco de completo caos por todo o caminho da Nigéria até a China, em toda a região central rica em recursos naturais. Não à toa, há décadas assistimos pela televisão o êxodo de fome em países como a Somália ou Etiópia que todos os estudos comprovam poderiam ser alimentados com uma parcela ínfima do investimento bélico contra esses países. Mas também é verdade que os países mais pobres da África estão hoje assentados em reservas petrolíferas cujos governos não tem condições de explorar.

Nós temos agora a comunicação com o nosso correspondente que está presente na Conferência, e irá informar aos telespectadores os nomes e cargos das pessoas que têm falado até agora.

Agora um momento de silêncio para os muitos mártires da Líbia.

O primeiro a falar foi um príncipe da França, Henry VI de Bourbon.

Em seguida, fala uma testemunha da Líbia, descrevendo os horrores da guerra e afirmando que não irá perdoar o que a OTAN fez com seus filhos, todos mortos agora.

"Muitos acreditam que a única maneira de contrariar esta situação, é tomar consciência de nossos verdadeiros direitos e responsabilidades, para espalhar a consciência de princípios fundamentais importantes e organizar uma Jamahiriya universal, um sistema alternativo paralelo ao da ordem mundial capitalista em decadência."

Enquanto estamos à espera de mais notícias da Conferência "Os líbios sob a autoridade de milícias e gangues armadas" que realiza-se hoje em Tunis, congratulamo-nos com quaisquer comentários e perguntas dos telespectadores. Faremos o possível para publicar os seus comentários e responder às perguntas.


Um homem líbio de Misrata, tira a camisa e mostra suas feridas causadas por um bombardeio da OTAN. 


A Conferência irá fazer uma pausa até a sessão da tarde. Esperamos ser capazes de transmitir à eles as pergutnas dos espectadores. Agradecemos a sua paciência.

13:23 Reinício da Conferência

Neste momento, um comentário ao vivo do correspondente Smain Bedrouni, um anúncio em francês, pedindo desculpas em nome de Mathaba.Net para a qualidade do áudio, e explicando que vários advogados têm falado até agora na conferência.


Nós devemos ser capazes de dar uma lista dos nomes daqueles que falaram esta manhã e  suas posições, em algum momento durante as próximas horas, durante a sessão da tarde após a pausa para o almoço. 

Recebemos informações de que os ratos líbios pressionaram para o cancelamento da Conferência, e que esta está ocorrendo em um local diferente, já que o Diplomat Hotel cancelou a cessão do espaço. É por isso também que parte do trabalho está mal organizado, ainda há pessoas chegando no local. Teremos mais detalhes do nosso Correspondente nas próximas horas.

O Presidente da Comissão Internacional de Juristas em Defesa do Oprimido e os líbios exilados, Sr. Mohiedine Ben Jemaa, anunciou que suas perguntas serão respondidas ao vivo no próximo bloco.

Por favor continuem postando perguntas via http://mathaba.net/go/live ou aqui nos comentários do blog, elas serão enviadas para os participantes da Conferência.

A senhora que falou agora é Ginette Scandrani, uma francesa que atuou em apoio à resistência argelina e em seguida, falou o tenor italiano e ativista de direitos humanos Joe Fallisi.

Joe Fallisi é um amigo de longa data da Jamahiriya, um tenor e poeta italiano, que também respondeu a um processo legal do governo italiano por divulgar que este violou a Constituição italiana ao atacar a Líbia, com a qual tinha um tratado de paz.

Joe Fallisi, apesar de italiano, está falando em francês como a maioria dos participantes falam francês ou árabe, porque a conferência está ocorrendo em Tunis.

Lamentamos que o áudio francês não é alto, ainda que o árabe seja alto e claro. Foi-nos prometido um tradutor de Inglês, mas isso ainda não se concretizou.

Os sites Oficiais da JAMAHIRIA estão sendo reconstruídos pela resistência líbia como o www.AlGaddafi.org e o www.Aljamahiria.org (jornal líbio jamahiria). A Jamahirya tem tido muito trabalho para ressurgir, mas vai acontecer. Os sites não tinham sido "hackeados" como alegado, mas, webmasters de alguns dos sites usaram de seu "poder" para alterá-los. Alguns foram fechados contra qualquer lei internacional por parte das empresas de hospedagem! No entanto, informam os participantes da Conferência que há um grande movimento para reorganizar o país que não irá se submeter a essa "autoridade" que foi imposta por forças estrangeiras.



Presidente de l'Académis des Sciences d'Outre Mer (Academia de Ciências do Ultramar), Adel Ben Hsin, falou há pouco tempo, seguido por Professeur JouveEdmond de Université Paris Descartes, na França, que agora está falando.

Não há ainda qualquer estação de TV / rádio transmitindo o encontro. Quanto aos espectadores on-line, centenas ficaram por um tempo curto, já que 99% do tempo o áudio só foi claro em árabe, e em francês, e ausente em Inglês. 

Conforme anunciado pelo Sr. Mohiedine Ben Jemaa, Presidente da Comissão Internacional de Juristas em Defesa dos líbios Oprimidos e Exilados, as perguntas serão respondidas a partir das 19:00. 

17:30 O correspondente Smain Bedrouni acaba de anunciar em francês que haverá uma pausa antes da Conferência continuar com sua sessão da noite.

Esta conferência foi convocada por advogados para analisar a situação dos líbios sob o regime do CNT.

Os organizadores, palestrantes e visitantes da Conferência estão agora se preparando para o momento da oração da noite, a Conferência vai continuar em cerca de 25 minutos.


Acabamos de receber informações de que além da Conferência ter sido forçada a mudar-se para outro lugar, porque o Diplomat Hotel cancelou mais cedo o uso do espaço, como  resultado da pressão dos "líbios ratos da OTAN", o hotel atual para onde se deslocaram,  também ordenou agora que a Conferência terminasse. Nosso correspondente Smain Bedrouni mencionou que há guardas em todos os lugares e ele foi forçado a ficar offline. Assim que possível, iremos transmitir informações mais precisas sobre o que aconteceu.


No momento, estamos tentando entrar em contato com o responsável pela organização do evento, Mohieddin Ben Jemaa para obter mais informações sobre a situação. Nem o deputado Mohieddin Ben Jemaa nem o nosso correspondente Smain Bedrouni estão respondendo seus telefones, o que provavelmente significa que eles estão sendo entrevistados ou detidos.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Convite do Comitê Internacional de Juristas em Defesa do Oprimido



Mulher líbia sobre os escombros de sua casa após bombardeio da OTAN

Amanhã, 10 de março de 2012, em Túnis, capital da Tunísia, vizinha à Libya (país que está sob um regime instalado pelo que George Soros chama de "Nova Ordem Mundial"), haverá uma conferência sobre a reconstrução da Jamahirya Líbia, num grande movimento de resistência que aos poucos começa a tomar conta do país, depois que as forças estrangeiras desocuparam o território.

O portal Mathaba irá transmitir o evento, ao vivo, provavelmente em francês, árabe e inglês (idiomas confirmados até o momento). Este blog vai - a partir deste banner localizado aí ao lado no topo à direita - realizar a cobertura do evento em português - tentando também obter informações com jornalistas colaboradores que estarão no local. Se a transmissão não estiver boa durante o evento, vamos postar aqui um relatório posterior.

O convite oficial, segue abaixo.


CONVITE

O Presidente e os membros da Comissão Internacional de Juristas em Defesa do Oprimido, com a participação da Associação de Exilados da Líbia, têm a honra de convidá-lo para a conferência: "Os líbios sob a autoridade de milícias e gangues armadas ", a ser realizada neste sábado, 10 de março no Diplomat Hotel em Tunis às 11h da manhã.

Autoridades e diplomatas Europeus, Africanos e Árabes estarão presentes, bem como membros de organizações mundiais e grupos de ajuda internacional, além de representantes das tribos líbias e advogados, escritores e jornalistas da Tunísia e outros meios de comunicação internacionais.

Na expectativa de sua visita, por favor, aceite os nossos cumprimentos.

Mohieddin Ben Jemaa 
Tel: 0021622013102 email: a.bjm@hotmail.fr



RESIST AFRICOM

Do blog de Lizzie Phelan:



quinta-feira, 8 de março de 2012

No Dia Internacional da Mulher libertem Hana Shalabi!




Embora quase todo o Congresso dos EUA tenha se ajoelhado para a suposta "democracia" de Israel na convenção anual da AIPAC em Washington, vítimas da repressão política israelense definham em prisões ignorados pela mídia mundial.
Hoje, Hana al-Shalabi completa 22 dias de greve de fome contínua contra a sua detenção sem acusação ou julgamento por Israel desde que um ataque violento destruiu a casa de sua família na aldeia ocupada de Burqin na Cisjordânia, perto de Jenin, em 16 de Fevereiro.
Durante seu discurso na AIPAC, no domingo, o presidente dos EUA, Barack Obama, não pronunciou sequer uma palavra sobre tais abusos por parte de Israel, ao qual renovou seu apoio incondicional.
Hana não come e apenas bebe água desde sua prisão, ela já vem sofrendo sintomas graves. O Serviço de Israel negou os pedidos para que ela seja examinada por médicos de organizações de Direitos Humanos.
Ela é um dos mais de 300 detidos "administrativos", muitas vezes, presos por Israel indefinidamente, sem acusação ou julgamento. Este número inclui pelo menos 21 membros - eleitos democraticamente - do Conselho Legislativo Palestiniano.
A Anistia Internacional emitiu um alerta pedindo às pessoas que pressionem autoridades israelenses no sentido de libertarem al-Shalabi e todos os presos administrativos imediatamente, a menos que sejam acusados de algum crime e levados a julgamento em conformidade com os padrões internacionais, assegurando-lhes também um tratamento humanizado, incluindo acesso a médicos, advogados e familiares.

sábado, 3 de março de 2012

(SP) Ontem


Fonte: CIMI Brasil

Não conheci a Juliana. Mas quando chego à Praça d@ Ciclista, logo uma querida me abraça e chora tanto. Mostra: veja o poema que escreveram. Leio o poema e logo estou eu sem conseguir respirar direito. Aparece um daqueles amigos que te ensinaram tudo e dá um abraço sufocado, difícil.



Reconheço alguns dos rostos - são companheiros das Pedalinas, do Bike Anjo, do Cru, do Pedal Verde, do Vá de Dyke, da Bicicletada da Zona Oeste, do Mão na Roda e tantos outros coletivos, projetos e ações, conhecidos de paradinhas em faróis, de acenos de bom dia, de respostas firmes "se vc vai descer pra Pinheiros, já formou: vamo junto". Aparece uma que não tem bicicleta ainda e aprendeu a dar as primeiras pedaladas com as Pedalinas. Uma outra pedestre, bem alta, traz um imenso girassol, um sol à tira-colo. Saem para buscar flores, chegam flores. Há tantas outras pessoas desconhecidas, mas conhecidas ante o mesmo amor, a mesma pedra

: em fazer das ruas de São Paulo um lugar. Um lugar de escala humana.

Comentários sobre a agonia na demora de sabermos o nome da Juliana. Mulher, com 33 anos, ali naquele horário, são muitas. Alguns telefonaram para a própria Juliana, perguntando se não era ela. Nunca respondeu. A menção ao nome "Julie" rasga em abraços seus mais próximos. O calor denso da noite que se adentra, suor misturado a lágrimas dos homens, aos lamentos das mulheres.

Plantam uma árvore na Praça d@ Ciclista. Juliana era do Pedal Verde. E outra árvore. E aplaudem com estapidos duros, não é uma celebração, é uma memória que se planta.

Muitos fotógrafos e jornalistas. Entrevistam. "Quantas pessoas temos aqui?", não para de gritar uma jornalista para desespero de um dos membros do BikeAnjo. Mais de mil. Na realidade, ali estavam esses mais-de-mil e os que estão sempre no pensamento: seus pais, seus amigos, seus colegas, ciclistas de toda grande São Paulo, ciclistas de todo o país. "É uma fatalidade", diz outra jornalista emocionada, que recebe logo o comentário ríspido de quem está no asfalto sempre: "Fatalidade se fosse imprevisível. Neste caso é muito previsível: a CET não multa quem infringe a norma do Código de manter a distância de 1,5m do ciclista". A rispidez logo se dissolve na fala embargada, complicado manter o discurso aprumado nessa hora. Um jornalista ainda me cochicha sentido, "acho que vou começar a pedalar".

Troveja. E a mãe das tempestades se anuncia à Avenida Paulista. Cai o céu. As cores dos faróis são borradas, as guias desaparecem em corredeiras. Alguns manifestantes procuram abrigo embaixo do Cervantes, na lan house. A força da água não arreda. A chuva não vai passar. Assim, lentamente, sob rajadas de vento forte, os mais-de-mil iniciam a caminhada penosa da Praça d@ Ciclista até o cruzamento da Pamplona. Vão a pé, arrastando a bicicleta, vão montados e pedalando com pesar, vão em duplas pedestres sob os guarda-chuvas que nada seguram. Aos que assistem a manifestação, apinhada nos toldos, entregam flores, panfletos, palavras.

A força da chuva e do vento tira o que vai adentro dos caminhantes: um misto de raiva com grande tristeza. Um frio inacreditável e ali se caminha. "Mais amor, menos motor". Alguém ainda lembrou, no dia em que a Márcia Prado faleceu, também chovia à noite. Tão perto uma da outra: a Márcia e agora a Juliana.

O local. Abraçam-se. Não há uma única peça de roupa, coração ou olhar seco ali no asfalto. Todos deitam na avenida durante incontáveis minutos. A bicicleta branca é trazida. Flores são partilhadas por tantas mãos e aplausos molhados pelas rajadas de vento. Há ainda muitos silêncios. Na entrada da Estação Trianon Masp, entregam-se panfletos aos espectadores. Ouço um, com a roupa completamente seca, comentando: "não sabia que tinha tanta mulher andando de bicicleta". 

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