"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

sexta-feira, 22 de março de 2013

Muito além do peso

Esse filme é um alerta. Ele mostra que, dentre outras coisas, é muito, muito difícil lutar contra a propaganda que bombardeia as crianças diariamente. As que dizem coisas como "amo muito tudo isso" e imprimem em seus cérebros um valor completamente contrário a qualquer hábito mínimo de saúde. Muitas vezes o comportamento é apoiado por adultos que dizem "ah, deixa, o que é que tem?", prq eles também não percebem o quanto estão dominados pela propaganda subliminar embutida nos comerciais que vendem, na verdade, obesidade, colesterol, diabetes e pressão alta, dentre outros.  Para os que tiverem preguiça em ver o filme inteiro, procurem por trechos no youtube. Há vários. Para mim, são todos chocantes. Eu me sinto, pessoalmente, absolutamente impotente e entristecida e o filme vem nos alertar mas também nos joga na incerteza de que talvez, impedir mesmo toda essa pressão, seja quase impossível.





Entrevista de Estela Renner e Marcos Nisti no "Agora é Tarde" do Danilo Gentilli



segunda-feira, 18 de março de 2013

Chávez: o adeus a uma nêmesis do neoliberalismo

Fonte: RedeCastorPhoto



7/3/2013, Chris NinehamInformation Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Morreu uma das maiores figuras do século 21. Em tempos de universal mediocridade e ortodoxia neoliberal à venda por toda parte, o Presidente Hugo Chávez da Venezuela impôs-se pela personalidade de independência, princípios e coragem. Não apenas falou sobre socialismo e justiça social: tomou medidas para que, em seus vários governos, houvesse meios para melhorar de fato a vida de milhões em seu país, sobretudo dos mais pobres. Foi homem de tal carisma e tão radical, que não seria exagero dizer que produziu governos e movimentos progressistas por toda a região.

Sua presença e sua política de esquerda já eram, elas mesmas, produto de ampla radicalização nos movimentos de base. As políticas neoliberais que Pinochet começou a implantar brutalmente no Chile nos anos 1970s, começaram a ser difundidas para todo o continente, a partir do início dos anos 1980. Na Venezuela, foi o Presidente Carlos Andrés Pérez quem introduziu o programa, gerido pelo FMI, “A Grande Virada”, no final dos anos 1980s. Entre 1981 e 1997, os 10% mais ricos na Venezuela viram sua fatia da renda bruta nacional crescer, de 22 para 33%. Os pobres venezuelanos responderam àquela “virada” com ocupações, protestos de massa e agitação: o “Caracazo”.

Inspirado por esses movimentos, o jovem Hugo Chávez, então jovem oficial do exército venezuelano, lançou uma tentativa de golpe, longamente planejada, em 1992. O golpe tinha apoio popular, mas foi contido pelo governo de Pérez. Ao ser preso, Chávez fez uma de suas típicas declarações de coragem: “Infelizmente”, disse, “não alcançamos, por hora, os objetivos que definimos. Novas possibilidades surgirão, e o país conseguirá andar na direção de futuro melhor”. Instantaneamente, a boina vermelha do uniforme do regimento de paraquedistas que Chávez usava e a expressão “por hora” tornaram-se símbolo de resistência para os pobres do país.

Marcha à esquerda

O golpe falhado desestabilizara o regime. A esquerda cresceu e a classe rica dividiu-se internamente. Chávez saiu da prisão em 1994 e lançou o Movimento 5ª República, que concorreu e venceu as eleições de 1998 e fez dele, filho de professores que sobreviviam com salários de miséria, o símbolo da oposição à austeridade que os EUA haviam conseguido impor ao país: era Presidente da Venezuela. Diferente de tantos líderes progressistas, Chávez moveu-se para a esquerda depois de eleito e empossado.

Um dos pontos cruciais desse processo foi a tentativa de golpe contra seu governo, em 2002. O golpe foi coordenado por generais, líderes religiosos e grandes empresários, com ativo apoio das empresas de imprensa e discretamente apoiado pelos EUA. Chávez foi sequestrado no palácio e levado de lá num helicóptero que decolou da cobertura do próprio prédio. Mas o golpe foi contido pela mobilização espontânea de dezenas de milhares de moradores dosbarrios. Em cenas magnificamente gravadas e reunidas no documentário “Por dentro do golpe” [orig. Inside the Coup (2003), divulgado sob o título A revolução não será televisionada - assista logo abaixo edição legendada em português], a multidão cercou o palácio presidencial onde os líderes do golpe festejavam. À vista daquelas centenas de milhares de pessoas, o clima de festa mudou rapidamente. Houve negociações e Chávez foi trazido de volta ao palácio, no mesmo helicóptero que o sequestrara, para alegria da multidão.

Uma segunda tentativa de golpe aconteceu no final daquele ano, ligada a um movimento de lockout das grandes petroleiras que operavam no país. Dessa vez, um movimento de massa de trabalhadores restabeleceu condições para que o governo, afinal, assumisse o controle sobre o petróleo nacional.

Depois disso, e beneficiando-se dos preços crescentes do petróleo, Chávez lançou vários programas sociais que em muito melhoraram a vida dos pobres da Venezuela. Programas de moradias, de subsídios para alimentação, novos centros médicos e um programa de alfabetização em massa, todos organizados através de “missões” populares, e que tiveram impacto gigantesco na vida de milhões de pessoas. Quase metade da população, em momentos diferentes, por exemplo, passaram a receber subsídios estatais regulares para alimentação.

Chávez tomou, é claro, várias medidas para proteger-se contra golpes e golpistas. Mas o segredo de seu sucesso político nunca dependeu disso. Sempre foi homem de imensa energia. Manteve um programa semanal de televisão, “Alô Presidente”, no qual cantava, lia, contava histórias e falava, literalmente, por horas. Dizer que sabia falar ao povo é subquantificar e subqualificar esse processo. Mas nem por isso Chávez descuidou da atenção sempre ativa que sempre dedicou aos movimentos internacionais.

Conheci Chávez pessoalmente em 2006, como membro de uma delegação internacional de ativistas antiguerra. Típico dele, havia conseguido que Caracas recebesse aquela edição do Fórum Social Mundial, imenso conclave internacional antiglobalização. Falou-nos por quase uma hora, sobre socialismo, a história do movimento sindical nos EUA, as ideias de Chomsky, a questão campesina na América Latina e muito mais.

Entendia como poucos a dinâmica do imperialismo. Reconheceu, com alguma humildade, que a guerra do Iraque e os movimentos antiguerra dentro dos EUA haviam sido fatores determinantes, que de fato impediram que os EUA agissem mais ativa e mais diretamente contra seu governo

Eleito e reeleito

A imprensa o acusa de autoritarismo, provavelmente porque Chávez venceu mais eleições que qualquer outro presidente eleito, no mundo. Foi apoiado, consciente e profundamente por seus eleitores até seu último dia. Em dezembro passado, seu partido venceu as eleições regionais em todos os governoratos, exceto num. Hoje, até os jornalistas mais empenhados em derrotá-lo reconhecem que seu vice-presidente Nicolas Maduro dificilmente será derrotado nas novas eleições marcadas para dentro de 30 dias.

Chávez nunca atuou diretamente contra a elite de direita na Venezuela – nem por isso ela lhe fez oposição menos feroz. Quando nos recebeu, contou que o bem protegido palácio presidencial era o único local satisfatoriamente seguro, onde podia trabalhar. Sua força sempre veio de sua conexão com os pobres e os trabalhadores. Chávez foi presidente posto e mantido no poder por um sentimento popular de solidariedade, que periodicamente emergiu como movimento de massas. A continuação de seu trabalho e a transformação da sociedade venezuelana estão em andamento, longe de estarem concluídos e terão de continuar a ser disputadas. Chávez faz corar de vergonha muitos líderes ditos progressistas em todo o mundo, que se escondem atrás da opinião pública fabricada, para justificar a subserviência aos mercados e à direita reacionária. Provou que suas políticas radicais funcionam e geram votos. Mostrou que é possível – e muito popular – desafiar o império norte-americano.

É homem que será lembrado por muito tempo em cada esquina do mundo dos pobres [assim, portanto, os ricos não conseguirão esquecê-lo].

Comunicado da Vila Vudu: Aqui damos por encerrada a nossa homenagem ao Presidente Hugo Chávez Frías; todos trabalhamos sem parar durante mais de 48 horas, para encontrar e traduzir, distribuir e postar informação séria e pensamento progressista sobre o presidente Chávez. Pequena homenagem, para homem tão grande. Os pobres resistimos e vencemos, simplesmente, cada vez que não nos deixamos matar, nem calar, nem engambelar... Mas uma coisa é certa: em nenhum veículo da dita “grande imprensa” -- a imunda imprensa-empresa brasileira -- alguém encontrou melhores análises, melhor jornalismo e melhores comentários sobre o presidente Chávez, do que aqui, nessa blogosfera de trabalho comunista, voluntário e solidário, onde operamos. Só a luta ensina!

sexta-feira, 15 de março de 2013

Além da fumaça branca

Por Antonio Luiz M. C. Costa
Carta Capital

O argentino Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, reza missa na Capela Sistina nesta quinta-feira 15.
Foto: Osservatore Romano / AFP
Não se culpe só os jornalistas: até os especialistas e os prelados mais próximos do Vaticano ficaram surpresos com a escolha do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio. Ao ter notícias da fumaça branca, Dom Mariano Crociata, presidente da Conferência Episcopal Italiana (ou seja, o equivalente italiano da CNBB) apressou-se a enviar cumprimentos a Angelo Scola, tido como favorito por quase toda a mídia. Uma gafe difícil de esquecer.

É um lembrete de que tentar tirar demasiadas conclusões a respeito do novo papa com base em indícios vagos, antes que ele tome atitudes públicas e explícitas, corre o risco de dar com os burros n’água. Ainda assim, vale tomar nota de alguns pontos interessantes:
Não é Angelo Scola, nem Odilo Scherer – O cardeal de Milão era tido como o favorito de Joseph Ratzinger e da maioria dos cardeais diocesanos (os que atuam fora do Vaticano), enquanto os mais ligados à Cúria (a burocracia vaticana) supostamente preferiam o italiano Gianfranco Ravasi, do Conselho de Cultura do Vaticano (apoiado por Tarcisio Bertone, secretário de Estado de Bento XVI) e o argentino Leonardo Sandri, da congregação das Igrejas Orientais (apoiado por Angelo Sodano, secretário de Estado de João Paulo II). Visto que nenhum dos grupos parecia ter maioria absoluta, o nome do arcebispo de São Paulo era citado como um provável candidato de conciliação entre as correntes (provavelmente no contexto de um acordo para nomear Sandri como Secretário de Estado), por ter uma carreira pastoral no Brasil, mas também ter boas relações com a Cúria. Por que nenhum deles foi eleito?
Foi candidato forte em 2005 – No Conclave de 2005, Bergoglio, apoiado pelo também jesuíta e influente (mas à época, já muito adoentado) cardeal Carlo Maria Martini, foi o mais votado depois de Ratzinger (42 a 10, 65 a 35 e 72 a 40 nas primeiras apurações, segundo Pope Benedict XVI de Thomas Streissguth), antes que ele mesmo pedisse (“quase em lágrimas”, escreveu Marco Tosatti, do jornal La Stampa) a seus partidários para desistirem, permitindo que Ratzinger fosse eleito com 84 dos 115 votos. Representava a insatisfação com a continuidade da linha dura de João Paulo II, com a ascensão de ordens laicas demasiado vinculadas a interesses políticos e econômicos terrenos (Opus Dei, Legionários de Cristo, Comunhão e Libertação, Neocatecumenais e assim por diante) e a vontade de eleger um representante do terceiro mundo, mas pesava contra ele a suspeita de colaboração com a ditadura argentina e a preferência da maioria pelo que parecia ser uma versão mais calma e reservada do papa recém-falecido e apontaria para uma tranquila continuidade.
Pelo visto, a maioria dos cardeais se arrependeu e quis dar uma segunda chance a Bergoglio, que representa uma forma mais tradicional de organização católica (a ordem dos jesuítas). É menos rígido do ponto de vista do clero em questões de dogma, disciplina, forma e ritual – mais “moderado” que Ratzinger no sentido de não incentivar as missas tradicionais em latim ou o uso da batina, e é aberto ao ecumenismo, pois realizou cerimônias conjuntas com evangélicos e abriu a catedral a eventos com judeus e muçulmanos. Mas é igualmente conservador na abordagem da política e da moral laicas (na Argentina, foi o mais feroz opositor do aborto e do casamento homossexual, que denunciou, palavras literais, como “jogada do diabo”).
É idoso e frágil – Eleito aos 76 anos, Bergoglio tem apenas dois anos menos do que Ratzinger em 2005 e é o nono papa mais idoso ao ser eleito em toda a história da Igreja. Além disso perdeu grande parte de um pulmão aos 21 anos (provavelmente um pneumotórax por tuberculose, como ainda se fazia em 1957) o que limita sua atividade física e o torna paciente de alto risco no caso de novo problema pulmonar. Mais recentemente, sofreu de lombalgia e de inflamação aguda do nervo ciático. Por isso, a maioria dos vaticanólogos o descartava: mesmo com um estado geral aparentemente melhor, Ratzinger renunciou por alegadas razões de saúde e supunha-se que os cardeais queriam, desta vez, um papa mais vigoroso e com longa expectativa de vida. Aparentemente os especialistas se enganaram: os cardeais não queriam um papa forte e sim um com o qual possam esperar nova eleição em não muito tempo, para terem a oportunidade de corrigir o rumo, ou por alimentarem ambições próprias. Mais do que possíveis gafes, a omissão como um dos supervisores do Banco do Vaticano ou a ligação com a Opus Dei, pode ter pesado com Dom Odilo seus “meros” 63 anos, que faziam prever uma expectativa de duas décadas de papado.
É um latino-americano de direita – A história segundo a qual Bergoglio delatou e entregou dois companheiros jesuítas à tortura pode ser ou não um mal-entendido, apesar de pelo menos um dos torturados ter morrido, anos depois, convencido da traição do seu superior. Mas é inegável que não criticava a ditadura, sorria ao lado dos ditadores de turno, não ouvia os dissidentes, expurgou qualquer traço da Teologia da Libertação entre os jesuítas argentinos (antes fortemente progressistas) e desencorajou famílias que tentavam recuperar bebês roubados pelos militares. Nisso, acompanhou a Conferência Episcopal, cujos representantes esclareceram à Junta Militar em setembro de 1976: “nós bispos, sabemos que um fracasso (do governo) levaria com muita probabilidade ao marxismo e por isso acompanhamos o atual processo de reorganização do país, encabeçado e organizado pelas Forças Armadas, com compreensão, adesão e aceitação”.
Escreveu Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz: “não considero Jorge Bergoglio cúmplice da ditadura, mas creio que lhe faltou coragem para acompanhar nossa luta pelos direitos humanos”. Quando a Argentina, muito depois, veio a ter um governo de centro-esquerda, o arcebispo tornou-se um opositor ferrenho. Se a escolha de um latino-americano sinaliza interesse especial da Igreja pela América Latina, é no mesmo sentido que a escolha de Karol Wojtyla sinalizou interesse pelo então bloco soviético e com a mesma preocupação, pois hoje este continente concentra as mais dinâmicas experiências de esquerda e de contestação ao imperialismo. Que ninguém se iluda com suas ocasionais críticas ao neoliberalismo, que João Paulo II também fazia: não se trata de progressismo, mas do corporativismo católico conservador de Leão XIII, que fundamentou regimes como os de Francisco Franco e Antonio Salazar.
Escolheu o nome de Francisco – Na Igreja Católica, como em geral nas religiões tradicionais, nenhum símbolo é gratuito. Por que um nome novo e não algum dos mais tradicionais, como esperavam tanto vaticanólogos quanto apostadores (“Leão” era o mais cotado entre estes)? A mídia o associou a Francisco de Assis, lembrado como símbolo de humildade e de amor aos pobres e à natureza e supôs que isso indicaria que Bergoglio faria da simplicidade e do trabalho social o eixo do seu pontificado. Não se pode excluir que exista também essa intenção e em Buenos Aires o novo papa ganhou reputação de ser austero, inimigo do luxo (por andar de metrô em vez de carro oficial) e praticar a caridade (embora esse seja um dever de qualquer membro do clero). Mas o Portal dos Jesuítas do Brasil, que decerto conhece melhor a cultura da sua ordem, garante que “a escolha do nome faz referência a São Francisco de Assis, que fundou a ordem dos Franciscanos, mas principalmente a São Francisco Xavier”.

Francisco Xavier é conhecido como um dos fundadores da Companhia de Jesus ao lado de Ignácio de Loyola e como missionário na Índia, Japão e China. Foi admirado pelos jesuítas como o homem que converteu mais fiéis ao catolicismo desde Paulo de Tarso e odiado pelos não-católicos da Índia como o homem que destruiu estátuas de deuses, incendiou templos hindus e levou a Inquisição a Goa para perseguir não só hindus, judeus e muçulmanos como também os cristãos sincréticos da antiga tradição de São Tomé. Desse ponto de vista, a promessa implícita na escolha do nome é a de se esforçar pela conversão dos infiéis, reconquistar os que se afastaram da Igreja e continuar a perseguir os supostos hereges.
É da natureza da esquerda católica acreditar em milagres. Mas é mais fácil Bergoglio andar sobre as águas ou fazer o proverbial camelo passar pelo fundo de uma agulha do que se revelar um progressista. Não há dúvidas de que é um homem inteligente, politicamente hábil e que como a maioria dos jesuítas, tem uma excelente formação cultural e científica (formou-se em química). No momento em que o Vaticano enfrenta uma série de escândalos sexuais e financeiros e suas disputas internas vazam pelos jornais, escolheu dizer em seu primeiro sermão como papa que o maior risco da Igreja é “se converter numa ONG piedosa” e que “quem não reza ao Senhor, reza ao diabo, já que quando não se proclama Cristo, se proclama a mundanidade do diabo, do demônio”.

quinta-feira, 7 de março de 2013

SEM CHÁVEZ


Fonte: Maria Frô
Por LEANDRO FORTES

Não tenho dúvidas de que a História irá fazer bom juízo de Hugo Chávez, o comandante de uma revolução pacífica e democrática, a desmembrar e expor em praça pública o complexo e cruel pacto de permanência das elites locais. Antes de Chávez, a Venezuela não existia no mapa geopolítico mundial, parecia ser anexo na América do Sul, um país-satélite dos Estados Unidos, a ponto de amar mais o beisebol que o futebol. Uma elite que tinha Miami como um condomínio de luxo, ao qual voltavam às sextas-feiras, depois do trabalho, empresários, políticos, cidadãos.
Minha fé na justiça da História reside não só no argumento da força popular renascida entre a massa, essa palavra endurecida, e um governante mestiço, meio índio, meio nada. Essa “ninguendade”, sobre a qual se debruçou Darcy Ribeiro, a explicar o significado filosófico das misturas étnicas de base lusitana da qual descendemos quase todos nós, brasileiros, assim como do matiz hispânico vem a “nadiedad” de Chávez e da imensa nação de esquecidos que o elegeu e o manteve firme no poder, até que, morto o comandante, se enrolaram na bandeira venezuelana e foram chorar, aos milhões, em todas as cidades do país.
Antes de Chávez, a Venezuela mantinha-se dentro de uma estrutural social paralisante, dentro da qual os privilégios do petróleo, maior riqueza do país, eram distribuídos entre apenas 1% da população. Em pouco mais de uma década, o líder bolivariano tirou, de um universo de 24,6 milhões de pessoas, 5 milhões delas da pobreza absoluta. Universalizou a saúde e a educação, criou mercados subsidiados de alimentos, ensinou política aos pobres, tirou os arreios da Venezuela em relação aos Estados Unidos e, certa vez, na sede da ONU em Nova York, diante das câmaras, disse o seguinte sobre o lugar que George W. Bush havia ocupado antes de sua fala: “Ainda cheira a enxofre”. Tinha cojones, o comandante.
Hugo Chávez fez trocentas eleições livres na Venezuela, todas monitoradas por observadores estrangeiros e, mais ainda, por uma mídia sequiosa de sangue, mas é uma tarefa inútil bater nessa tecla. Fixar a pecha de “ditador” em Chávez foi uma tentativa do Departamento de Estado americano e da mídia em geral para iniciar o processo de demonização do presidente venezuelano. Nem é preciso dizer na nossa triste contribuição nesse processo, dando notícia de como Chávez era perigoso para o mundo livre, branco e cristão. Embora Chávez, o índio, o negro, o zé-ninguém, acreditava em um socialismo baseado nas origens do cristianismo.
Então, tinha que ser “ditador”, mesmo, já que a fé em Cristo impedia que lhe imputassem, também, a pecha de “comunista”.
A reação dos conservadores a Chávez, confesso, me interessava mais do que a figura do presidente, a histeria da direita latino americana, a forma primária como a propaganda contra o presidente venezuelano se disseminava pelo noticiário da mídia brasileira, as opiniões de bonecos de ventríloquos disfarçados de especialistas, o ódio dos liberais contra a erradicação de privilégios.
Chávez combateu a todos, e a todos venceu. Tinha o riso largo dos vencedores, não disfarçava o desprezo pela tibieza de seus adversários, dos que lhe acusavam de ser um tanto caricato em seu uniforme militar. Estes mesmos que, no entanto, eram suficientemente espertos para entender o significado daquela farda. Chávez deu ao Exército de onde veio um novo significado de Pátria, onde estão todos, não somente uns.
Não sou ninguém, nem tenho conhecimento o suficiente, para prever o futuro da Venezuela. Mas uma coisa é certa: ela nunca mais será a mesma, depois de Chávez.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Chávez, o homem que viveu múltiplos personagens

POR BOB FERNANDES


Ele não foi um. Foi muitos. Assim costumam ser os humanos e suas personas, mas poucos, pouquíssimos deixam a vida com a dimensão, polêmica ou não, que deixaram Hugo Rafael Chávez Frías e os personagens que viveu e interpretou.
A mesma mídia do mundo que sempre buscou encolhê-lo, enquadrá-lo tão somente no papel de clown, de animador das massas, uma espécie de Chaves, o mexicano, passado o perigo –ele em vida- admite nas manchetes, linhas e entrelinhas:
- …o populista que reduziu a pobreza…o caudilho que tirou milhões da pobreza e da miséria…o homem que impactou a América Latina…o legado de Chávez…
Vladimir Putin, o presidente da Rússia, o conhecia bem. Empresas russas estão na Venezuela fazendo negócios, erguendo muitos dos milhares de apartamentos que o governo Chávez entregou, entrega de graça para pobres e miseráveis. Putin, como em breve mostrará a história, uma história, conheceu Chávez em situações limite. Conheceu a ponto de poder assim defini-lo após a morte:
- Chávez foi um homem extremamente exigente consigo mesmo…
Dito isso, o mais importante nessa história, Putin ateve-se ao protocolar:
- Chávez foi um homem fora do comum e forte, que olhava para o futuro…
Putin foi dos primeiros a telefonar para Chávez quando, em abril de 2002, o presidente voltou ao poder depois de pouco mais de 30 horas de um golpe de Estado midiático e militar. Ao telefone, Putin então confessou para Chávez sua perplexidade:
- Isso foi inexplicável.
Um privilégio, para um repórter, viver, testemunhar um golpe de Estado e um contragolpe. 
Ver pobres e miseráveis despencarem dos seus morros e favelas para defender o "seu" presidente. E ter a chance de entender profundamente porque fizeram isso com uma paixão e fúria que o jornalismo à distância, asséptico, tenta resumir e embrulhar nas expressões "caudilho"…"populista"…
Não que não possam caber as definições de prateleiras e gavetas, mas elas mais revelam quem delas se vale do que explicam o porquê da paixão e da fúria dos pobres e dos miseráveis. E eles, pobres e miseráveis, eram bem mais do que a metade dos 24 milhões de habitantes da Venezuela naquele março de 2002, exato um mês antes do golpe.
Às sete e quarenta da manhã de um domingo, tocou o telefone no quarto do hotel Tamanaco Intercontinetal. Marisete, assessora do presidente da República, comunicou:
- O senhor deve estar aqui às oito horas. O presidente vai viajar e o senhor irá junto.
A conversa, a entrevista, só começaria à noite, 13 horas depois. Ali, uma primeira lição de Venezuela. Quando alguém garantir que algo irá acontecer "tempranito, tempranito", prepare-se. Esse "cedinho, cedinho", ou "logo, logo", pode demorar. Ou nem acontecer.
A conversa só se deu à noite porque, antes, Chávez queria mostrar a "sua" Venezuela. E apresentar uma ou várias de suas personas.
No Forte Guaicapuro, a 55 quilômetros de Caracas, Hugo Chávez apresentou a alta cúpula militar ao enviado da revista Carta Capital. E apresentou, ao mesmo tempo, o animador de auditório, o comunicador de massas, Hugo Chávez, diretor e apresentador do programa dominical Alô Presidente.
Fundamental aquela manhã e tarde sob sol causticante. Ali estavam muitos dos generais, coronéis e almirantes que, um mês depois, dariam o golpe, ou executariam o contragolpe. As perguntas ao repórter no seu programa, as brincadeiras com a gravata vermelha, facilitariam o trabalho, abririam as portas do Palácio Miraflores um mês depois, no rastro do contragolpe.
Naquela manhã e início da tarde, o presidente/locutor, o "populista" atendeu dezenas de associações de bairro, de comunidades, de sindicatos. Ouviu e respondeu aos remediados, aos pobres e miseráveis.
Ao vivo, depois do programa, ou por telefone durante, autorizou empréstimos bancários, postou-se em favor da senhora enganada na compra de um automóvel, de outra tapeada numa farmácia, entrevistou longamente um corneteiro do Exército.
Diante das câmeras, pediu ao corneteiro o toque da hora do almoço e lembrou: "Vamos às arepas". Arepa, a panqueca que é o feijão com arroz dos venezuelanos.
Naquele Alô Presidente de número 99, ao tempo em que entrevistava o corneteiro, Chávez anunciou uma linha de crédito para militares, no valor de US$ 100 milhões:
- Não é justo que vocês permaneçam sem chances de ascensão nas Forças Armadas, é preciso dar lugar aos jovens que vêm das classes baixas…
Era tarde. O golpe contra ele já estava em andamento. E seria dado por alguns dos que estavam ali, no Forte Guaicapuro.
À noite, na entrevista feita no gabinete presidencial, Chávez, um apaixonado por História, deixaria claro ter a percepção do que se avizinhava.
- O senhor conhece História. (…) Não parece claro que haverá um confronto final?
A essa pergunta, o tenente-coronel eleito presidente quatro anos antes, respondeu:
- (…) teremos o trabalho de derrotar a guerra suja inimiga.
- (…) o senhor cederá?
- Não cederei, não podemos ceder…
Em meio à conversa, a frase que iria para a capa de Carta Capital. Frase profética, não sabíamos o quanto até esse 5 de Março de 2013:
- Sou um soldado. Fico até 2013, ou…
Naquela conversa, outro Chávez. Num lique-lique, tradicional traje que lembra os safáris de Jânio Quadros e as fardas maoístas, ladeado por óleos com Simón Bolívar, António Paes… heróis da Libertação. Em quase tudo diferente do líder de massas, daquele quase "Chaves", do animador de programa de televisão que não poupava nem a si mesmo nos momentos de galhofa.
À noite, no Palácio, um homem de olhar arguto, duro, mas sereno. Algo de acuado que o entorno militarizado e extremas regras de segurança no acesso a ele não negam. Em apenas um momento, uma concessão ao personagem da manhã. E logo à primeira pergunta, também, uma citação a quem seria inspirador e cada vez mais um parceiro estratégico:
- Quem é Hugo Chávez?
- "Sou um tipo que anda por aí". Isso me disse Fidel em certa ocasião e eu gostei da frase: "Sou um tipo que anda por aí".
Um mês depois, na noite do golpe, Chávez receberia um telefonema e conselhos de Fidel Castro. Conselhos que se revelariam sábios:
- Não se imole nem aos seus homens. Venha para Cuba e o receberemos com um milhão de homens e mulheres nas ruas. Isso não terminará assim…
Não terminou. Chávez foi preso, em alguns momentos viveu ações, a tensão e a expectativa de quem seria assassinado, mas voltou ao Palácio Miraflores na noite do sábado, 13 de abril.
Dos 37 chefes de Estado de quem recebeu ligações e cumprimentos, o primeiro foi Fidel Castro.
O experimentadíssimo homem que liderou a queda de Fulgêncio Batista, que, em 2002, desafiava há 43 anos a maior potência da Terra, os Estados Unidos, e que sobreviveu há mais de uma centena de tentativas de riscá-lo do mapa, assim como Putin confessou a Chávez:
- Isso foi incrível. Estou estupefato.
A brincadeira com a gravata vermelha um mês antes, a curiosidade, o desejo de conhecer por dentro um golpe e um contragolpe levariam a quatro dias, noites e madrugadas no Palácio Miraflores. A ouvir quem tivesse histórias para contar naqueles momentos em que as línguas ainda estão soltas pela euforia da vitória.
Daquela história emergiu um outro extraordinário personagem. O general Raúl Isaías Baduel.
Baduel comandava a 42ª Brigada de Paraquedistas, em Maracay, a uma hora e meia de Caracas.
Maracay, onde estavam os caças, a força com capacidade de bombardear, de decidir aquele ensaio de guerra civil. O general entraria para a História com suas ações, e com uma frase.
Final da manhã do sábado. O governo de Pedro Carmona Estanga, o empresário depois conhecido como "El Breve", em menos de 24 horas havia dissolvido todos os poderes.
A oposição que acusava Chávez de ser um ditador, que detonara o golpe liderado por militares e por grande porção da mídia, em especial emissoras de televisão, ao tomar o Poder, fechou a Assembleia Nacional, o Judiciário, o Ministério Público…
Estão todos no Miraflores neste final de manhã do sábado, 13 de abril de 2002, inclusive a mais alta cúpula da influente Igreja Católica. Não mais os mestiços, os descendentes de negros, índios e mulatos, os zambos de até a antevéspera. Os novos ocupantes do Palácio, está na pele, têm traços caucasianos.
Senhores em trajes de fino corte, senhoras de vestes e joias faiscantes, tudo registrado pelas câmeras de um casal de jovens irlandeses. Que flagram o momento em que as taças de champanhe, garrafas e copos são abandonados sobre as mesas. O telefonema do general Baduel é decisivo:
- Eu não negocio. Eu me apego à Constituição. O presidente Chávez me garantiu que não renunciaria, eu acredito nele. E, se ele renunciasse, o vice-presidente é quem deveria tomar posse. Vocês golpearam o presidente. Isso é um golpe de Estado…
No telefonema, dado para um militar de patente superior à sua, Baduel, que moveu-se todo o tempo atento aos ensinamentos de A Arte da Guerra, de Sun Tzu, dá a estocada final:
- Meu general, se vocês não devolverem vivo o presidente Hugo Rafael Chávez Frías, faltarão postes na Venezuela para pendurá-los.
O general Raúl Baduel é hoje, e já há quatro anos, um prisioneiro do governo que foi de Chávez e agora é de Nicolás Maduro. 
Amigo pessoal há mais de 30 anos, colega de Academia Militar, compadre de Chávez, ministro do Exército e da Defesa depois do golpe, Baduel está condenado e preso em Ramo Verde, prisão em Los Teques, a uma hora de Caracas.
Acusado de corrupção, Baduel nega com veemência. Em 2007, ele se opôs – e venceu – à mudança da Constituição que permitiria outra reeleição. Baduel, hoje diz ser "um preso de consciência". Um preso político.
Terra Magazine tem ouvido personagens decisivos da História recente e atual da Venezuela. Nos próximos dias, Baduel contará aqui detalhes da história e do rompimento do amigo e presidente que ajudou a salvar do golpe de 2002.
Nesse sábado, 13 de abril, o contragolpe se completa na sequência do telefonema de Baduel.
Vindos pelo subterrâneo que liga ao outro lado da Avenida Urdaneta e ao Palácio Branco, onde se aquartelam, jovens oficiais e soldados da guarda pessoal de Chávez tomam de volta o Miraflores.
No início da tarde de sábado, via CNN, a imagem corre o mundo. No telhado do Miraflores, o tenente K, 39 anos, fuzil numa das mãos, faz o V da vitória.
Amontoada, espremendo-se contra as grades do palácio, a multidão enlouquecida. Eles, como se diz com uma ponta de respeito e temor, "baixaram dos cerros". Desceram das montanhas, das favelas de Caracas, para defender seu líder:
- Devuelvan Chávez… Con Chávez hasta la muerte… Chávez, muero por ti…
Pouco mais de dois anos depois. Quinze de agosto de 2004. Onze e meia da noite. No mesmo gabinete presidencial, acompanho com Chávez os minutos finais do Referendo que, de maneira arrasadora, confirma seu mandato.
Estamos a sós, por quase uma hora. O Chávez apaixonado por História aponta para o óleo com António Paes e discorre sobre seu desejo de fazer reparos na saga da libertação da América Espanhola:
- Esse nasceu pobre e morreu rico, em Nova York. Traiu o bolivarianismo. Quando fazendeiro, foi contra a libertação dos escravos. Já procurei um pintor. Falei: "Você faz um quadro no mesmo estilo". Estou pensando em tirá-lo daí, em colocar Ezequiel Zamora ou Francisco de Miranda no lugar de Paes…
O resultado é proclamado extra-oficialmente. César Gaviria, secretário-geral da OEA, a Organização dos Estados Americanos, não quer aceitar a vitória de Chávez. Ouve a oposição e fala em fraude.
Jimmy Carter, presente em mais de 50 países com seu Centro Carter, está em Caracas como observador internacional. Para atestar, ou não, a legalidade da eleição. Carter fala com Chávez ao telefone e o felicita pela "vitória limpa". E segue para um encontro com Gaviria.
O ex-presidente dos Estados Unidos diz ao secretário-geral da OEA que não existem "sequer indícios" de fraude:
- O processo foi limpo, nós acompanhamos.
Quarenta e oito horas depois, ao entrar no Limoncello, fino restaurante da capital, Carter é vaiado.
Néstor Kirchner, o presidente argentino, telefona. Fidel Castro também. E Lula?
- Ele me ligou ontem à noite, de Brasília, ia para a República Dominicana e depois ao Haiti, onde vai jogar a seleção brasileira. Ele me convidou para ir ao futebol, mas nesse jogo não dá para ganhar dos brasileiros…
Chávez considera seus erros:
- O mais grave, no exercício do poder, foi descuidar da comunicação lá no início.
- Reconheço que, nesse cenário, radicalizamos demais, porque sem ter como falar com as classes médias, perdemos um bom pedaço delas. Por isso, ao voltar do golpe, com o crucifixo nas mãos, pedi perdão ao povo venezuelano e me declarei mais aberto do que nunca ao diálogo.
Dois anos antes, grande parte da mídia embarcou no golpe, ajudou a patrociná-lo. Hugo Chávez teve então todas as provas legais para cassar a concessão de canais de televisão. Por que não o fez?
- Porque as coisas, no poder, não se movem assim, de maneira linear – é a resposta na noite do Referendo.
A propósito. Dois meses antes, num encontro secreto costurado por Jimmy Carter, Chávez conversou com Gustavo Cisneros, o maior milionário da Venezuela e o segundo na América Latina.
Dono da rede de TV Venevisión, e da DirecTV/América Latina, distribuidor da Coca-Cola, etc. Na conversa, Cisneros informou ao presidente Chávez:
- De agora em diante, a minha televisão vai mudar, mas pouco a pouco, porque de outra maneira não seria possível.
A TV de Cisneros, pouco a pouco, mudou.
Chávez me leva à Sala de Crise, onde, com dezenas de televisores, ministros, equipes de analistas e de hackers acompanham, rastreiam a eleição por todo o país.
Chávez consulta aos seus assessores mais próximos. O que fazer primeiro? Falar com os 132 jornalistas estrangeiros e outros 50 venezuelanos credenciados, ou dirigir-se à multidão?
Convocar uma cadeia nacional de rádio e TV? O presidente surpreende o repórter:
- Vou de terno ou sem terno?
Não me cabe responder. Chávez contraria à quase totalidade dos assessores. De camisa vermelha e tênis, discursa no balcão interno do Palácio. Ali, convidados estrangeiros, e milhares dos seus mais próximos amigos e seguidores. No outro lado do Miraflores, a multidão acompanha o discurso em telões.
Pouco antes, o presidente que falava em "conciliação" ouve a sugestão de Jesse Chacon, ministro da Comunicação e antigo companheiro de armas:
- Seja magnânimo.
Chávez arranca gargalhadas ao repetir, em forma de pergunta, a sugestão:
- Magnânimo…?
Antes do discurso, peço licença por alguns minutos. Para ver o que se passa na Avenida Urdaneta, onde o povo começa a chegar junto com as notícias da vitória. Ao meu lado, o deputado argentino Miguel Bonasso, amigo pessoal do presidente Néstor Kirchner.
Os olhos de Bonasso se arregalam diante da multidão que, passada a meia noite, avança pela Urdaneta em direção ao palácio. Ali, um extrato de uma porção do chavismo.
Como se num filme do realismo italiano, homens e mulheres em cadeiras de roda, homens-tronco, descamisados ou em farrapos vermelhos avançam no início da madrugada na violenta Caracas.
Dos alto-falantes vazam os épicos de Alí Primera, o finado poeta e cantor da Revolução Bolivariana. A horda de desdentados ou quase grita, chora, chama por Chávez. O deputado Bonasso gargalha diante de tanta alegria, tanta paixão, e concorda:
- Imaginemos se a bebida estivesse oficialmente liberada nesta eleição.
Dois anos depois, em 2006, novamente no mesmo palácio, na mesma sala, outro longo dia. Outra noite e madrugada com mais uma vitória de Hugo Chávez, a da reeleição.
Outra entrevista. Outras conversas, como muitas outras ainda viriam. Mais revelações, bastidores para uma história a ser contada.


 
Quarta-feira, 6 de março deste 2013. Dez e quarenta e cinco da manhã, hora de Caracas. O corpo de Hugo Rafael Chávez Frías está no caixão coberto pela bandeira da Venezuela. O caixão, carregado pela Guarda de Honra, vai deixar o Hospital Militar.
Hugo Chávez será velado com honras na Academia Militar, dentro do Forte Tiuna, a maior guarnição militar do país. Desde a madrugada, milhares e milhares de venezuelanos fazem fila para, pela última vez, ver o seu presidente.
No hospital, a família se despede do filho, do pai, do irmão. Um Pai Nosso, e o hino que Hugo Chávez tanto amou e que às vezes, sem o perceber, cantarolava em meio a reflexões:
- Gloria al bravo Pueblo que el yugo lanzó/ la ley respetando la virtud y honor…
O povo, à frente do Hospital Militar, em silêncio. Silêncio e lágrimas. Quem lá está ouve, de quando em quando, o grito, puro desconsolo, desespero:
- Que Viva Chávez!

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