"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

“Snowden foi um herói de nosso tempo”

Na Revista Piauí

“Snowden foi um herói de nosso tempo”

A pedido de piauí, o historiador Perry Anderson – autor do artigo A pátria americana, publicado nesta edição de outubro – enviou os seguintes comentários a respeito das recentes revelações sobre a espionagem cibernética dos Estados Unidos.


“O fato de nenhum país ocidental ter ousado dar asilo a Snowden diz muito sobre a realidade da Pax Americana”

por PERRY ANDERSON


O artigo A pátria americana está voltado para a política interna dos Estados Unidos, não para a ordem imperial americana no exterior. Mas um feito distintivo do governo Obama tem sido o de apagar a fronteira entre essas duas esferas em um grau inédito. Sob Obama, foi criado um sistema global de vigilância que abarca implacavelmente tanto chefes de Estado estrangeiros – como os presidentes do Brasil e do México descobriram – quanto o mais humilde cidadão americano. Ao expor essa espionagem cibernética universal, Edward Snowden foi um herói de nosso tempo. O fato de que nenhum país ocidental – nem mesmo o Brasil, uma vítima desse sistema – tenha ousado dar asilo a Snowden é mais revelador das realidades da Pax Americana do que o orçamento militar dos Estados Unidos, que é maior do que os orçamentos combinados de todas as outras potências com alguma pretensão de ter um papel internacional.
Numa sequência de A pátria americana que será publicada no fim deste mês na New Left Review, eu discuto a atuação externa do Estado norte-americano desde os anos 1930. A seguir, adianto um trecho sobre o atual governo:
“O que distingue o governo Obama como uma nova etapa do Império Americano? Durante a Guerra Fria, a Presidência dos Estados Unidos acumulou poder discricionário num ritmo crescente. Entre a época de Harry Truman [1945-1953] e a de Ronald Reagan [1981-1989], a equipe da Casa Branca se multiplicou por dez. Hoje, o Conselho de Segurança Nacional – com mais de 200 integrantes – é quase quatro vezes maior do que era sob Richard Nixon, Jimmy Carter ou mesmo Bush pai. A CIA atua como um exército privado à disposição do presidente e, embora o tamanho da agência seja um segredo, ela também cresceu exponencialmente desde que foi criada em 1949. Desde os dias de John Kennedy, seu orçamento aumentou mais de dez vezes, de 4 bilhões de dólares em 1963 para 44 bilhões em 2005, em valores atualizados. As chamadas “declarações de promulgação” – objeções feitas por escrito pelo presidente no ato de assinatura de uma lei – agora permitem invalidar legislação aprovada pelo Congresso e que não é do agrado da Casa Branca. Atos do Executivo ao arrepio da lei são regularmente endossados pelo Escritório de Assessoria Legal do Departamento de Justiça, o mesmo que [no governo George W. Bush] providenciou memorandos defendendo a legalidade da tortura. Mas mesmo esse grau de subserviência foi considerado insuficiente pelo Salão Oval, que criou sua própria assessoria para carimbar incondicionalmente tudo o que a Presidência decidir fazer.
Obama herdou esse sistema arbitrário de poder e violência e, como a maioria de seus antecessores, o ampliou. As operações Odisseia da Aurora e Stunext, o programa Prism e a campanha de assassinatos seletivos são da lavra do atual presidente: uma guerra [contra o líbio Muammar Khadafi em 2011] em que nem hostilidades chegaram a se configurar; um ataque de longa distância com um vírus eletrônico [ao programa nuclear do Irã]; a ampla espionagem de comunicações nacionais e estrangeiras; o assassinato de cidadãos americanos e estrangeiros. O Algoz-em-Chefe relutou até mesmo em abrir mão da prerrogativa de ordenar a morte sem julgamento de cidadãos dos Estados Unidos [acusados de atividades terroristas no exterior].
Ninguém pode acusar este presidente de não ter sentimentos humanos – as lágrimas pelas crianças mortas numa escola da Nova Inglaterra comoveram a nação; os apelos pelo controle do porte de armas foram convincentes para não poucos. Se muitas outras crianças, a maioria sem escolas sequer, morreram por suas mãos em Ghazni, no Afeganistão, ou no Waziristão paquistanês, isso não é motivo para a perda do sono presidencial. Os aviões não tripulados Predators têm a mira mais acurada do que armas automáticas, e o Pentágono sempre pode expressar pedidos de desculpas quando considerar conveniente. A lógica do império, e não a unção do governante, estabelece o padrão moral.”  

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Sobre "Os Últimos Soldados da Guerra Fria" e sobre porque eu torço por Cuba - Rita de Cássia de Araújo Almeida


psicanalista

Os Últimos Soldados da Guerra Fria de Fernando Morais é um livro extraordinário. Caso não soubéssemos que tudo que está sendo contado nele é fruto de anos de trabalho de campo feito pelo autor, poderíamos considerá-lo apenas um excelente romance de espionagem. Entretanto, não se trata de uma ficção. A intenção do autor é retratar (partindo de evidências, registros, documentos, notícias de jornal e relatos dos próprios personagens) o cenário político mundial no final da Guerra Fria, tendo Cuba e Estados Unidos como protagonistas, o que torna a obra ainda mais cativante. 

Conta a história que, após a queda da União Soviética, Cuba se dedicou a estimular o turismo, numa tentativa de minorar a crise econômica que se agravava na ilha, já que aquele país era seu principal parceiro comercial. Durante esse período, grupos anticastristas radicais da Flórida aproveitaram para promover atentados terroristas a Cuba com a clara intenção de assustar os turistas enfraquecer o Governo de Fidel Castro. Em cinco anos foram 127 ataques e apesar das dezenas de reclamações oficiais enviados por Cuba ao Governo Americano, nenhuma medida foi tomada para reprimi-los. Fidel chega a enviar uma carta a Bill Clinton, então presidente, denunciando organizações de extrema direita que funcionavam em território americano, tendo como pombo-correio ninguém menos que Gabriel Garcia Marques. Nesta carta Fidel faz praticamente uma profecia. Ao pedir que Clinton se empenhe em abortar as ações terroristas que estão sendo maquinadas em território americano, Fidel defende que se medidas não forem tomadas, “em breve qualquer país do mundo poderá ser vítima de tais atos”. Anos mais tarde, como sabemos, os Estados Unidos seriam a vítima de atentados terroristas.

Sem o apoio dos EUA e das organizações internacionais, Cuba decide tomar providências por si e cria a Rede Vespa: um grupo seleto de doze homens e duas mulheres que recebem a missão de se infiltrarem em algumas das 41 organizações terroristas de extrema direita nos EUA, a fim de colherem informações que pudessem antecipar possíveis ataques. O livro conta, justamente, a incrível história desses “soldados” enviados por Fidel aos EUA, todos travestidos de desertores do regime cubano.

O livro de Morais nos provoca inúmeras emoções, sendo que algumas delas atingirão com mais força a nós, militantes ou partidários de esquerda. E o maior mérito do livro é contar a história das relações entre EUA e Cuba de uma outra perspectiva, diferente da americana que a grande maioria acredita ser a única versão, apenas por ser considerada a versão oficial. Terminada a leitura, mesmo os menos críticos ou pouco entendedores de política internacional, vão compreender melhor os motivos de algumas conduções do Governo Cubano, e o bloqueio americano a Cuba lhes soará ainda mais insano e cruel.

O livro também lança luz sobre uma questão que intriga a muitos de nós: porque essa pobre e minúscula ilha do caribe, sem nenhum poder no cenário político internacional incomoda tanto o poderoso EUA? E que ninguém venha me dizer que o interesse americano é pela “defesa da democracia”. Todos sabemos que esse mesmo governo defendeu e sustentou, durante muito tempo, a ditadura cruel de Fulgêncio Batista na ilha caribenha, assim como fez por outras ditaduras pelo mundo.

Depois de ler Os Últimos Soldados da Guerra Fria, meu respeito por Cuba e pela Revolução Cubana aumentou ainda mais. A despeito de todos os erros que o Governo Cubano possa ter cometido, não podemos deixar de respeitar um país minúsculo, pobre e desprovido de poder político no cenário mundial que, mesmo com toda a pressão e perseguição sofrida e vítima de um bloqueio econômico de meio século, tem conseguido manter índices de desenvolvimento humano de fazer inveja a qualquer país do mundo. Pra quem não sabe: Cuba tem uma taxa de alfabetização de 99,8% (a maior do mundo segundo as Nações Unidas), uma taxa de mortalidade infantil de um para cada 5.000.000 nascidos (inferior a do EUA) e uma expectativa de vida média de 78 anos (maior que a dos EUA). 98% dos cubanos recebem energia elétrica e tem acesso a água potável e saneamento básico, e o acesso à saúde e a educação é universalizado e gratuito. Não fosse a medição do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) levar em conta o PIB per capta (e nesse caso, Cuba perde pontuação por ter um PIB baixo), Cuba estaria entre os primeiros no IDH. Ou seja, ainda tem o mérito de conseguir fazer mais que o próprio EUA, com muito, muito menos. 

Depois de alguns dias necessários para digerir o impacto desse livro sobre minhas convicções o que posso dizer hoje é que eu torço imensamente por Cuba. Torço por esse país que tem se mantido como o único ponto de resistência ao capitalismo liberal, praticamente hegemônico no mundo atual. Torço pelo povo cubano que tem suportado com força e altivez meio século de embate e embargo, lutando contra um império. Torço para que Cuba continue na sua busca por melhores condições para seu povo, e que o faça como tem feito, a seu próprio modo, a partir de suas próprias convicções e ideologias e não por influência de outrem.

Marx concebia o comunismo como movimento que reage aos antagonismos do capitalismo e não como um modelo de sociedade ideal. Sendo assim, enquanto o capitalismo existir, com suas contradições e desigualdades, a “hipótese comunista”, como diz Alain Badiou, permanecerá viva. Badiou afirma ainda: “se essa hipótese tiver de ser abandonada, então não vale mais a pena fazer nada na ordem da ação coletiva. (...) Cada indivíduo pode cuidar de sua vida e não se fala mais nisso.”

É importante esclarecer que não se pode confundir a “hipótese comunista” com quaisquer atrocidades cometidas em nome do comunismo. Também, vale lembrar que inúmeras atrocidades têm sido cometidas ao longo da história em nome das mais nobres causas; em nome da paz, em nome de Deus ou Alá, em nome da democracia...a lista é longa. 

Sendo assim, não existe sociedade ideal, todas, a seu modo, possuem suas virtudes e pecados. Mas a maior virtude de Cuba, a meu ver, é a de ainda se manter como esse ponto de resistência; uma “pedra no sapato” do capitalismo mundial. Cuba cumpre a missão de ainda manter acesa a hipótese de um mundo no qual somos considerados seres humanos e não apenas consumidores, onde a natureza seja vista como uma Mãe Generosa e não como matéria prima para ser moída na máquina consumista (segundo o último relatório do WWF Cuba é o único país do mundo com desenvolvimento sustentável), e no qual a noção de solidariedade não seja engolida pela sua versão pervertida: a caridade – quem tem mais (dinheiro) dá a quem tem menos (a mídia não divulga, mas, depois do terremoto que devastou o Haiti em 2008, apesar das nações mais ricas do mundo prometerem missões humanitárias monumentais, depois de alguns meses, só continuaram por lá os Médicos Sem Fronteiras e a brigada de 1.200 médicos cubanos, especializada em desastres e emergência, brigada que foi rejeitada pelos norteamericanos após o furacão Katrina e a primeira a chegar e última a sair do Paquistão, após o terremoto de 2005).

É por tudo isso que reforço aqui minha torcida por Cuba, torço para que esse minúsculo e grandioso país continue nos livrando de um mundo onde o capitalismo seja a única hipótese possível.

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