"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

domingo, 17 de novembro de 2013

Biógrafo de Che: “Que herói a direita tem para colocar em camisetas? Pinochet?”

Fonte: Socialista Morena

Em 2007, quando o assassinato de Che Guevara completou 40 anos, a revista Veja, cujo modelo de jornalismo já conhecemos (leia aqui sobre minha experiência na semanal da Abril) publicou uma reportagem de capa, ao estilo “guia politicamente incorreto” de seus foquinhas amestrados, para tentar demolir o mito. Dias depois, uma carta pública do biógrafo de Che, o premiado jornalista norte-americano Jon Lee Anderson, desmentia o teor da reportagem praticamente por completo, acusando seu autor de ter sido parcial e desonesto (leia aqui).
“O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista”, escreveu Anderson, cujo livro é apontado pela própria Veja como “a mais completa biografia de Che”. Espantosamente, este libelo de mau jornalismo vem sendo utilizado nos últimos anos pela direita indigente intelectual brasileira para tentar reduzir Che a um “assassino”, como se o contexto, uma revolução, não justificasse mortes. Tem colunista de jornal aí que só se refere a ele como “porco fedorento”. Este é o nível deles.
Mas qual o interesse dos cérberos reaças de enlamear Che Guevara? Será que é porque não tem nenhum ídolo do lado de lá para servir de modelo aos jovens a não ser torturadores, generais ditadores e exploradores da miséria do mundo? Leiam abaixo a entrevista que fiz com Jon Lee Anderson para CartaCapital na época e vejam o que ele responde.
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(O jornalista Jon Lee Anderson. Foto: divulgação)
Guerra é guerra*
O jornalista norte-americano Jon Lee Anderson, autor de Che Guevara – Uma Biografia (Editora Objetiva), considerado o mais completo relato sobre a vida do guerrilheiro executado em 1967, rebate incisivamente as acusações de que Che fosse não um herói, mas um assassino frio que se regozijava de matar seus inimigos. Lee Anderson é colaborador da revista The New Yorker desde 1998.Respeitado correspondente internacional, escreveu, além do livro sobre Che, A Queda de Bagdá (Editora Objetiva) e Guerrillas (inédito no Brasil), em que analisa os mujaheddin do Afeganistão, a FMLN (Frente Farabundo Martí de Liberación Nacional), de El Salvador, a Unidade Nacional Karen (KNU) birmanesa, a Frente Polisário do Saara Ocidental e um grupo de jovens palestinos que luta contra Israel na Faixa de Gaza.
O jornalista criticou a reportagem de capa da revista Veja em que o revolucionário argentino é acusado de ser uma farsa e até de não gostar de tomar banho. “O artigo de Veja é ridículo! Baseado em fontes parciais e comprometidas, sem nenhuma novidade, é um exemplo singular de jornalismo barato, ou seja, algo construído a partir do nada, mas com o objetivo de fazer sensacionalismo. Embora aparente ser jornalismo investigativo, na realidade é puramente tablóide.”
Leia a seguir a íntegra da entrevista de Jon Lee Anderson, que se encontra atualmente viajando por vários países dando palestras sobre Che Guevara. Ele falou à CartaCapital via e-mail enquanto esperava, no aeroporto de Miami, um vôo para Caracas.
CartaCapital: É verdade que Che Guevara se acovardou em seus últimos momentos, dizendo: “Não disparem. Valho mais vivo do que morto”?
Jon Lee Anderson: Não me consta e francamente duvido que tenha dito isso. Tudo parece crer que, ao contrário, demonstrou muita coragem em seus últimos momentos, como havia demonstrado antes. Não se acovardou. Isso é uma invenção para desacreditá-lo.
CC: Che foi um assassino frio e cruel? Tinha prazer em matar?
JLA: Che queria mudar o mundo. Não foi cruel. Foi, isto sim, uma pessoa muito rigorosa e teve um período severo (mas totalmente justificado pelas normas da guerra) na guerrilha cubana com traidores, desertores e demais. Executou algumas pessoas e ordenou a execução de outras. Depois do triunfo, presidiu os tribunais para criminosos acusados de delitos pelo antigo regime, tais como tortura, violação e assassinato. Centenas deles foram julgados e justiçados. Posteriormente, houve uma tentativa de um grupo de críticos da revolução cubana de reviver essa época para apresentar o Che como uma espécie de assassino em série, como fez Veja. A verdade é que Che se portou como um soldado encarregado de uma tropa em precárias condições e com a responsabilidade de um oficial. Não fez nem menos nem mais do que qualquer outro militar confrontado com situações de vida ou morte. Não se regozijou de matar, assumiu-o como um mal necessário da guerra, por sua vez necessária para mudar o regime cubano de Fulgencio Batista. Ninguém nunca acusou Che e seus combatentes de haver matado soldados inimigos capturados, nem os feridos que encontraram. Ao contrário: Che os socorreu pessoalmente ou providenciou para que fossem socorridos. Em alguns casos liberou soldados presos, à diferença da tropa de Batista, que assassinou rebeldes capturados e civis simpatizantes também. Descontextualizar as ações de Che na guerra, além de tendencioso, é totalmente absurdo do ponto de vista histórico.
CC: Alguns soldados criticam a atuação de Che como líder, dizendo que foi fraca, desastrosa. Ele não sabia liderar?
JLA: Os líderes nem sempre são populares com todos os seus subordinados. Alguns podem ter se ressentido com Che por sua língua afiada e tendência a não perdoar os idiotas nem os frouxos – podia ser muito ácido. Mas outros respeitaram este mesmo rasgo da personalidade do Che e o definiram como um fator de seu crescimento pessoal. Aceitaram a crítica e trataram de melhorar para também receber o beneplácito de Che, a quem respeitaram muito por sua coragem, honestidade e incorruptibilidade. Em resumo, sim, sabia liderar, mas era muito exigente.
CC: Che matou gente com suas próprias mãos?
JLA: Que soldado não mata? A guerra é um teatro bélico no qual os homens enfrentam sua própria morte e tentam matar os inimigos para que não os matem.
CC: A biografia do Che é a história de um fracassado, como defendem alguns?
JLA: Isso depende da ótica política de cada um, obviamente. Eu acho que o legado do Che é mais inspirador que derrotista. Quer dizer, é certo que ele não triunfou em seus esforços para fomentar a revolução em países como o Congo e a Bolívia. Mas o legado que deixou, de que um homem pode tentar mudar o mundo e que pode deixar um exemplo que estimule outros a segui-lo – inclusive depois de morto –, é mais duradouro. Universalmente, o Che é, fracassado em vida ou não, visto como um herói, um símbolo de rebeldia e princípios diante de um status quo injusto. Isto é o que enlouquece os de direita, o que os incomoda: que o Che siga potente como um símbolo, um mártir, um herói. Que herói eles têm para ostentar à raiz da Guerra Fria, alguém que a garotada queira pôr em camisetas? Pinochet???
CC: Em sua opinião, quem matou Che, a CIA ou o Exército boliviano?
JLA: Está comprovado que foram os dois. A CIA esteve presente. O agente Félix Rodríguez admite ter recebido a ordem de executar Che do Alto Comando militar boliviano e de haver pedido a um voluntário para cumprir a ordem. O sargento boliviano Mario Terán levantou a mão e o fez. A responsabilidade é conjunta, compartilhada.
CC: O senhor é um fã de Che? Acredita que ele seja um herói?
JLA: Sou seu biógrafo, não um fã. Os fãs são totalmente acríticos, são groupies para quem seus heróis podem fazer qualquer coisa e o aceitam. Eu não sou fã de ninguém porque ninguém é infalível. O Che tem meu respeito, isso é verdade. Havia aspectos nele dos quais eu não gostava, e outros que sim. Se no meu julgamento tinha aptidões de herói? Sim. Viveu de uma forma muito heróica, sobretudo ao final. E morreu com valentia. Isso, como sempre foi para a humanidade através da história, o faz um herói. Assassinar um homem ferido e depois esconder seu cadáver, isso é covardia. Qualifica- se como um crime de guerra.
*Reportagem originalmente publicada em CartaCapital em 11/10/200

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A Onda

Quando li o artigo de Antonio Prata na "Falha de SP", cheguei a comentar no twitter que muita gente não iria compreender a ironia. Para meu espanto, isso de fato ocorreu mas em uma proporção inimaginável. Até o "superdotado" roqueiro Roger chegou a elogiar sinceramente a coragem (ou os "culhões") do autor de Guinada à Direita. Sensacional a quantidade de análises antropológicas e sociológicas que as reações a esse artigo ainda podem gerar, especialmente pela profusão de comentários elogiosos(!?) a tamanha lambada em nosso classe média way of life. Mas para não restar dúvidas, reproduzo o artigo abaixo (cujo autor se viu obrigado a confirmar que é uma ironia!) e em seguida, uma análise não menos brilhante do Kiko Nogueira no DCM sobre a Caixa de Pandora aberta por Antonio Prata e sua falsa guinada à direita. E tenho que dizer, juntando esses fatos à matéria e video da Veja SP que circularam por esses dias nas redes sobre o "Sultão dos Camarotes", ainda resta a dúvida: existirá limite para a boçalidade de nossos periódicos?


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ANTONIO PRATA
Guinada à direita
Você, cidadão de bem: junte-se a mim nesta nova Marcha da Família com Deus pela Liberdade
Há uma década, escrevi um texto em que me definia como "meio intelectual, meio de esquerda". Não me arrependo. Era jovem e ignorante, vivia ainda enclausurado na primeira parte da célebre frase atribuída a Clemenceau, a Shaw e a Churchill, mas na verdade cunhada pelo próprio Senhor: "Um homem que não seja socialista aos 20 anos não tem coração; um homem que permaneça socialista aos 40 não tem cabeça". Agora que me aproximo dos 40, os cabelos rareiam e arejam-se as ideias, percebo que é chegado o momento de trocar as sístoles pelas sinapses.

Como todos sabem, vivemos num totalitarismo de esquerda. A rubra súcia domina o governo, as universidades, a mídia, a cúpula da CBF e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, na Câmara. O pensamento que se queira libertário não pode ser outra coisa, portanto, senão reacionário. E quem há de negar que é preciso reagir? Quando terroristas, gays, índios, quilombolas, vândalos, maconheiros e aborteiros tentam levar a nação para o abismo, ou os cidadãos de bem se unem, como na saudosa Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que nos salvou do comunismo e nos garantiu 20 anos de paz, ou nos preparemos para a barbárie.

Se é que a barbárie já não começou... Veja as cotas, por exemplo. Após anos dessa boquinha descolada pelos negros nas universidades, o que aconteceu? O branco encontra-se escanteado. Para todo lado que se olhe, da direção das empresas, aos volantes dos SUVs, das mesas do Fasano à primeira classe dos aviões, o que encontramos? Negros ricos e despreparados caçoando da meritocracia que reinava por estes costados desde a chegada de Cabral.

Antes que me acusem de racista, digo que meu problema não é com os negros, mas com os privilégios das "minorias". Vejam os índios, por exemplo. Não fosse por eles, seríamos uma potência agrícola. O Centro-Oeste produziria soja suficiente para a China fazer tofus do tamanho da Groenlândia, encheríamos nossos cofres e financiaríamos inúmeros estádios padrão Fifa, mas, como você sabe, esses ágrafos, apoiados pelo poderosíssimo lobby dos antropólogos, transformaram toda nossa área cultivável numa enorme taba. Lá estão, agora, improdutivos e nus, catando piolho e tomando 51.

Contra o poder desmesurado dado a negros, índios, gays e mulheres (as feias, inclusive), sem falar nos ex-pobres, que agora possuem dinheiro para avacalhar, com sua ignorância, a cultura reconhecidamente letrada de nossas elites, nós, da direita, temos uma arma: o humor. A esquerda, contudo, sabe do poder libertário de uma piada de preto, de gorda, de baiano, por isso tenta nos calar com o cabresto do politicamente correto. Só não jogo a toalha e mudo de vez pro Texas por acreditar que neste espaço, pelo menos, eu ainda posso lutar contra esses absurdos.

Peço perdão aos antigos leitores, desde já, se minha nova persona não lhes agradar, mas no pé que as coisas estão é preciso não apenas ser reacionário, mas sê-lo de modo grosseiro, raivoso e estridente. Do contrário, seguiremos dominados pelo crioléu, pelas bichas, pelas feministas rançosas e por velhos intelectuais da USP, essa gentalha que, finalmente compreendi, é a culpada por sermos um dos países mais desiguais, mais injustos e violentos sobre a Terra. Me aguardem.

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A caixa de pandora aberta por Antonio Prata e sua falsa guinada à direita

Postado em 05 nov 2013
Cena do filme "A Onda"
Cena do filme “A Onda”

“Caralho. Esse tem culhão.”
A reação do roqueiro Roger, no Twitter, ao artigo de Antonio Prata na Folha foi entusiasmada. Prata escreveu uma coluna chamada “Guinada à Direita”. Confessava que, às vésperas de completar 40 anos, havia tomado juízo e arejado as ideias.
“A rubra súcia domina o governo, as universidades, a mídia, a cúpula da CBF e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, na Câmara. O pensamento que se queira libertário não pode ser outra coisa, portanto, senão reacionário”, escreveu.
“Quando terroristas, gays, índios, quilombolas, vândalos, maconheiros e aborteiros tentam levar a nação para o abismo, ou os cidadãos de bem se unem, como na saudosa Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que nos salvou do comunismo e nos garantiu 20 anos de paz, ou nos preparemos para a barbárie”.
Mais: “O branco encontra-se escanteado”.
“Contra o poder desmesurado dado a negros, índios, gays e mulheres (as feias, inclusive), sem falar nos ex-pobres, que agora possuem dinheiro para avacalhar, com sua ignorância, a cultura reconhecidamente letrada de nossas elites, nós, da direita, temos uma arma: o humor.”
Era uma farsa. Uma boa provocação. Ainda que o autor tivesse deixado de ser, como dizia, meio intelectual, meio de esquerda, aquilo era um evidente exagero apocalíptico.
Mas a reação ao amontoado de clichês direitosos foi espantosa. Prata teve de escrever no Painel do Leitor que estava sendo irônico. “A intenção, ao criar tal persona retrógrada, racista, machista e homofóbica, era apontar tais preconceitos em nossa sociedade. Parece que funcionou, pois a maioria dos e-mails equivocados que recebi me parabenizava pela ‘coragem’ de ‘assumir’ essas deprimentes opiniões”.
Roger (que virou motivo de piada pelo tuíte animadão) não estava sozinho. Centenas de pessoas se sentiram à vontade para disparar obtusidades do mesmo quilate.
Na seção de cartas:
“Realmente é essa gentalha, protegida por um poder totalitário instalado em nossa nação há mais de uma década, que impede o pleno desenvolvimento do país. Parabéns. Aguardo ansioso por novas colunas raivosas.”
No Facebook:
“Ele diz que os índios lá estão, agora, improdutivos e nus, catando piolho e tomando 51. Cade a ironia ai? Por acaso alguém já viu algum índio produzir algo útil e bom para a sociedade nas terras deles?”
Tá tudo dominado
Tá tudo dominado
“A mídia não fala nada sobre a implantação do comunismo no Brasil que vem sendo desenvolvida a (sic) mais de 30 anos no Foro de São Paulo”.
“O único poder capaz de impedir que o comunismo se instale no Brasil e não nos torne escravos são os militares”.
“Não importa se é ou não um texto irônico, o importante é que tudo isso que foi dito é verdade! O pior cego é aquele que não quer ver!”
E por aí afora. Prata abriu uma caixa de pandora. Eu me lembrei do filme “A Onda”.
Conhece? Se passa numa escola na Alemanha. Os alunos têm de escolher entre duas disciplinas: anarquia e autocracia. O professor Rainer Wenger decide formar um modelo de governo fascista na classe para mostrar, na prática, como ele se organiza. Dá o nome de “A Onda” ao movimento. 
A coisa se espalha para a cidade. Eles começam a gostar de ser subjugados e de subjugar os outros. Depois de algumas situações limites, Wenger acha que provou seu ponto e resolve dar sua experiência por encerrada. Claro que aí já é tarde demais.
Prata foi bem ao se explicar. A burrice e a paranóia estão por aí, cheias de amor pra dar, à procura de um motivo. Como naquele aforismo de Charles Colton: “Há fraudes tão bem elaboradas que seria estupidez não ser enganado por elas”.
Sobre o Autor
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

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