"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

terça-feira, 16 de maio de 2006

Salomão Malina

Salomão Malina, o último secretário-geral do PCB e primeiro Presidente de Honra do PPS, completaria hoje 84 anos de vida. Como sempre fazíamos, hoje realizaríamos na sede do Partido mais uma festa modesta - como era do agrado de sua natureza - para comemorar seu aniversário. Em volta da mesa, seus amigos e camaradas e, sobre ela, uns comes e bebes recheados com uma informal discussão sobre temas históricos e atuais, além de curiosidades e piadas em torno da longa trajetória dos comunistas brasileiros.

O Capitão, como era carinhosamente chamado, era o complexo traduzido no simples. No IX Congresso, por exemplo, diante da ala conservadora do PCB que na plenária final criticava o projeto de Resolução Política por esta não descrever qual seria "o nosso socialismo" e contentar-se "apenas em descrever o capitalismo", foi essa a intervenção de Juliano Siqueira, Malina, ao defender o projeto de Resolução, disse: "Afinal, como se chama a maior obra de Karl Marx? O Socialismo ou "O Capital"?. Era o gigante manifesto na modéstia. Em 1999, na homenagem realizada pela Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, por iniciativa do então deputado pelo PPS, José Augusto, Malina, após ouvir inúmeras intervenções enaltecendo seus feitos, simplesmente falou: "Olhem, creio que há muito exagero em tudo o que foi dito aqui. De certa maneira, sou um dos produtos e um dos produtores dessa história recheada de acertos e erros, avanços e recuos, altos e baixos, alegrias e tristezas. Não posso deixar de dizer que esta homenagem se estende a todos aqueles que tombaram na luta por uma sociedade nova. Eles fizeram a história deste Partido e do País". Era a riqueza intelectual e política a nos tirar da miséria das trevas da ignorância.

Apesar de sempre lembrar da debilidade teórica do Partido, Malina era um poliglota estudioso e, por isso, produtor de reflexões que ajudaram ao Partido atravessar mares revoltos. Não se contentava com orelhas de livros ou um capítulo de uma obra - lia-os por inteiro. E nessa leitura, anotava com dificuldade, nas próprias páginas dos livros ou em folhas à parte, as coisas que lhe pareciam mais importantes. Tais anotações, rascunhos e pequenas observações não se perdiam em suas gavetas. Eram logo socializadas com seus camaradas, chamados a discutir esse ou aquele ponto. Não era um intelectual por "ouvir dizer", mas pela labuta da leitura. Com a humildade e modéstia combinadas com a férrea disciplina adquirida no Exército e no modelo de Partido que vivenciou, sempre que podia reunia-se com os camaradas do Partido nos estados em que era chamado a dar uma palestra ou cumprir uma tarefa.

Cultivava o espírito de Partido acima dos interesses grupais e individuais. Ainda no IX Congresso, deixa a presidência do PCB por entender que o Partido, para avançar, necessitava de uma outra cara para aquele momento histórico e tinha certeza que o Partido escolheria - como escolheu - o melhor camarada para dirigir o legado de 1922.

Colocava a necessidade de o coletivo guiar o partido e as personalidades. Em 2001, numa das várias reuniões que mantinha com um núcleo de antigos comunistas paulistas, advertia sobre a necessidade da manutenção do "princípio da direção coletiva. Não podemos perdê-la, dizia. A direção coletiva é o melhor caminho para enfrentarmos a contento os desafios que se colocam na ordem do dia. Isso é muito mais importante do que se ficar discutindo a saída ou a entrada deste ou daquele camarada na direção do Partido. Não sei se isso resolve nosso problema - penso que não! (...) Tudo isso, remete a uma questão: nós ainda não conseguimos formar um coletivo forte que tenha influência. Na Bíblia está escrito que a tragédia dos povos são os reis. Isso é válido também para um partido como o nosso. A construção e consolidação de uma direção coletiva forte está, portanto, colocada na ordem do dia. Não é um processo fácil, mas temos de realizá-la. Nós temos, assim, que construir uma direção coletiva que elabore uma política e saiba conduzir democraticamente o Partido - e não permitir a existência de uma Liga de Grupos, que acabará, assim nos ensina a história, por enfraquecer ainda mais o Partido". Era nítida, portanto, sua convicção sobre a capacidade heurística e perene do saber coletivo frente aos brilhos efêmeros das individualidades.

Era indeclinável seu compromisso com a verdade ao invés da dissimulação ou da omissão para com o partido e com o povo. Logo após as eleições municipais de 2000, por exemplo, numa reunião do Diretório Nacional do PPS, o querido e saudoso camarada Sergio Arouca dizia que a vitória de César Maia à prefeitura do Rio de Janeiro era a "vitória da política do PPS". Malina, da tribuna, contestou-o: "Sou pela verdade. Nós não tivemos nenhuma vitória eleitoral no Rio de Janeiro. Nós não elegemos nenhum vereador. Há que se dizer sempre a verdade para o partido".
Malina queria sempre saber o que estava acontecendo com o Partido. Ouvia a todos com atenção, sem distinção. Não se contentava com uma fonte ou fontes restritas. Era capaz de compreender que no interior das fileiras do partido existem fios visíveis e invisíveis que estabelecem a teia capaz de compreender os espíritos coexistentes no Partido. Não gostava que o bajulassem. Desconfiava de quem praticava tal expediente. Cultivava sua independência e abominava qualquer rotina, à hipocrisia e às fórmulas convencionais e abraçava a ousadia de pensamento e audácia na ação.

Era dotado da capacidade de apreciar, após colocar o pensamento na trilha da labuta, os fenômenos, as crises, os acontecimentos, as tendências e contra-tendências, discernir o essencial e o importante desprezando as inutilidades e os pormenores, completar através da sua experiência as lacunas do conjunto, antever o pensamento dos outros e, em particular e sobretudo, prever o pensamento dos adversários. Em relação a esta última característica, com feliz precisão, ainda no embate do primeiro turno presidencial de 2002, anteviu: "Lula poderá vir a ser o candidato das classes dominantes!".

Neste momento, não temos mais Salomão Malina, mas temos o seu exemplo e o coletivo partidário. E será com este coletivo partidário que haveremos de caminhar por vias desconhecidas e ainda ignoradas. E se o coletivo cumprir realmente seu papel, poderemos então afirmar que o PPS não precisará de reis e poderá, enfim, caminhar na construção de algo novo para o Brasil e o mundo.

Guarulhos/São Paulo, 16 de maio de 2006
Dina Lida Kinoshita
Eduardo Rocha

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