"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X
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quinta-feira, 27 de abril de 2017

Golpe na OEA, conspiração contra a Venezuela

Em apenas 14 minutos, esse vídeo resume o motivo pelo qual a Venezuela decidiu se retirar da OEA. Essa entidade que tem tradição de golpes e conspirações contra países latinoamericanos.



Assistam!



#PorDignidadNosVamosDeOEA





segunda-feira, 8 de junho de 2015

A Revolução não será televisionada - Hoje em Brasília!

Exibição do documentário "A Revolução não será televisionada"  e posterior debate com a participação da Embaixadora da República Bolivariana da Venezuela e do Jornalista Renato Rovai.


Clique para ampliar


Segunda-feira 08/06/2015 às 19h
Teatro dos Bancários 314/315 Sul
Entrada franca


Sobre o evento, na Rádio Cultura FM de Brasília:

terça-feira, 10 de março de 2015

Declaração de Cuba em apoio à Venezuela

Fonte: OlheparaCuba




Fidel e o Governo Revolucionário de Cuba com a Venezuela frente às agressões dos EUA



Carta de Fidel para Maduro


Caro Nicolás Maduro

Presidente da República Bolivariana da Venezuela,

Quero parabenizá-lo por seu discurso brilhante e corajoso frente aos planos brutais do governo dos EUA.

Suas palavras entrarão para a história como prova de que a humanidade pode e deve saber a verdade.

Fraternalmente,  

Fidel Castro Ruz

(09 de marco de 2015, 11:24 h)



Declaração do Governo Revolucionário da República de Cuba


O Governo Revolucionário da República de Cuba teve conhecimento da arbitrária e agressiva Ordem Executiva promulgada pelo Presidente dos Estados Unidos contra o Governo da República Bolivariana da Venezuela, que classifica o país como uma ameaça à sua segurança nacional, em retaliação às medidas adotadas em defesa de sua soberania, contra as ações intervencionistas de autoridades governamentais e do Congresso dos Estados Unidos.

Como a Venezuela ameaça os EUA? Estando a milhares de quilômetros de distância, sem armas estratégicas e sem o uso de recursos ou pessoal para conspirar contra a ordem constitucional estadunidense, a afirmação parece pouco plausível e desnuda os fins de quem as emite.

No entanto, tal afirmação em um ano em que haverá eleições legislativas na Venezuela reafirma, uma vez mais, o caráter intervencionista da política externa norte-americana.
A gravidade desta ação executiva tem colocado em alerta os governos da América Latina e do Caribe que em janeiro de 2014, na Segunda Cúpula da CELAC em Havana, declararam a região como uma Zona de Paz e repudiaram qualquer ato que atente contra ela, pois acumulam experiências suficientes de intervenção imperial em sua história.

O Governo Revolucionário da República de Cuba reitera mais uma vez o seu incondicional apoio e do nosso povo à Revolução Bolivariana, ao governo legítimo do presidente Nicolas Maduro e ao heroico povo irmão da Venezuela.

Ninguém tem o direito de intervir nos assuntos internos de um Estado soberano nem a declará-lo, sem fundamento algum, como uma ameaça à sua segurança nacional.

Como Cuba nunca esteve sozinha, a Venezuela também não estará.


Havana, 09 março de 2015


segunda-feira, 18 de março de 2013

Chávez: o adeus a uma nêmesis do neoliberalismo

Fonte: RedeCastorPhoto



7/3/2013, Chris Nineham, Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Morreu uma das maiores figuras do século 21. Em tempos de universal mediocridade e ortodoxia neoliberal à venda por toda parte, o Presidente Hugo Chávez da Venezuela impôs-se pela personalidade de independência, princípios e coragem. Não apenas falou sobre socialismo e justiça social: tomou medidas para que, em seus vários governos, houvesse meios para melhorar de fato a vida de milhões em seu país, sobretudo dos mais pobres. Foi homem de tal carisma e tão radical, que não seria exagero dizer que produziu governos e movimentos progressistas por toda a região.

Sua presença e sua política de esquerda já eram, elas mesmas, produto de ampla radicalização nos movimentos de base. As políticas neoliberais que Pinochet começou a implantar brutalmente no Chile nos anos 1970s, começaram a ser difundidas para todo o continente, a partir do início dos anos 1980. Na Venezuela, foi o Presidente Carlos Andrés Pérez quem introduziu o programa, gerido pelo FMI, “A Grande Virada”, no final dos anos 1980s. Entre 1981 e 1997, os 10% mais ricos na Venezuela viram sua fatia da renda bruta nacional crescer, de 22 para 33%. Os pobres venezuelanos responderam àquela “virada” com ocupações, protestos de massa e agitação: o “Caracazo”.

Inspirado por esses movimentos, o jovem Hugo Chávez, então jovem oficial do exército venezuelano, lançou uma tentativa de golpe, longamente planejada, em 1992. O golpe tinha apoio popular, mas foi contido pelo governo de Pérez. Ao ser preso, Chávez fez uma de suas típicas declarações de coragem: “Infelizmente”, disse, “não alcançamos, por hora, os objetivos que definimos. Novas possibilidades surgirão, e o país conseguirá andar na direção de futuro melhor”. Instantaneamente, a boina vermelha do uniforme do regimento de paraquedistas que Chávez usava e a expressão “por hora” tornaram-se símbolo de resistência para os pobres do país.

Marcha à esquerda

O golpe falhado desestabilizara o regime. A esquerda cresceu e a classe rica dividiu-se internamente. Chávez saiu da prisão em 1994 e lançou o Movimento 5ª República, que concorreu e venceu as eleições de 1998 e fez dele, filho de professores que sobreviviam com salários de miséria, o símbolo da oposição à austeridade que os EUA haviam conseguido impor ao país: era Presidente da Venezuela. Diferente de tantos líderes progressistas, Chávez moveu-se para a esquerda depois de eleito e empossado.

Um dos pontos cruciais desse processo foi a tentativa de golpe contra seu governo, em 2002. O golpe foi coordenado por generais, líderes religiosos e grandes empresários, com ativo apoio das empresas de imprensa e discretamente apoiado pelos EUA. Chávez foi sequestrado no palácio e levado de lá num helicóptero que decolou da cobertura do próprio prédio. Mas o golpe foi contido pela mobilização espontânea de dezenas de milhares de moradores dosbarrios. Em cenas magnificamente gravadas e reunidas no documentário “Por dentro do golpe” [orig. Inside the Coup (2003), divulgado sob o título A revolução não será televisionada - assista logo abaixo edição legendada em português], a multidão cercou o palácio presidencial onde os líderes do golpe festejavam. À vista daquelas centenas de milhares de pessoas, o clima de festa mudou rapidamente. Houve negociações e Chávez foi trazido de volta ao palácio, no mesmo helicóptero que o sequestrara, para alegria da multidão.

Uma segunda tentativa de golpe aconteceu no final daquele ano, ligada a um movimento de lockout das grandes petroleiras que operavam no país. Dessa vez, um movimento de massa de trabalhadores restabeleceu condições para que o governo, afinal, assumisse o controle sobre o petróleo nacional.

Depois disso, e beneficiando-se dos preços crescentes do petróleo, Chávez lançou vários programas sociais que em muito melhoraram a vida dos pobres da Venezuela. Programas de moradias, de subsídios para alimentação, novos centros médicos e um programa de alfabetização em massa, todos organizados através de “missões” populares, e que tiveram impacto gigantesco na vida de milhões de pessoas. Quase metade da população, em momentos diferentes, por exemplo, passaram a receber subsídios estatais regulares para alimentação.

Chávez tomou, é claro, várias medidas para proteger-se contra golpes e golpistas. Mas o segredo de seu sucesso político nunca dependeu disso. Sempre foi homem de imensa energia. Manteve um programa semanal de televisão, “Alô Presidente”, no qual cantava, lia, contava histórias e falava, literalmente, por horas. Dizer que sabia falar ao povo é subquantificar e subqualificar esse processo. Mas nem por isso Chávez descuidou da atenção sempre ativa que sempre dedicou aos movimentos internacionais.

Conheci Chávez pessoalmente em 2006, como membro de uma delegação internacional de ativistas antiguerra. Típico dele, havia conseguido que Caracas recebesse aquela edição do Fórum Social Mundial, imenso conclave internacional antiglobalização. Falou-nos por quase uma hora, sobre socialismo, a história do movimento sindical nos EUA, as ideias de Chomsky, a questão campesina na América Latina e muito mais.

Entendia como poucos a dinâmica do imperialismo. Reconheceu, com alguma humildade, que a guerra do Iraque e os movimentos antiguerra dentro dos EUA haviam sido fatores determinantes, que de fato impediram que os EUA agissem mais ativa e mais diretamente contra seu governo

Eleito e reeleito

A imprensa o acusa de autoritarismo, provavelmente porque Chávez venceu mais eleições que qualquer outro presidente eleito, no mundo. Foi apoiado, consciente e profundamente por seus eleitores até seu último dia. Em dezembro passado, seu partido venceu as eleições regionais em todos os governoratos, exceto num. Hoje, até os jornalistas mais empenhados em derrotá-lo reconhecem que seu vice-presidente Nicolas Maduro dificilmente será derrotado nas novas eleições marcadas para dentro de 30 dias.

Chávez nunca atuou diretamente contra a elite de direita na Venezuela – nem por isso ela lhe fez oposição menos feroz. Quando nos recebeu, contou que o bem protegido palácio presidencial era o único local satisfatoriamente seguro, onde podia trabalhar. Sua força sempre veio de sua conexão com os pobres e os trabalhadores. Chávez foi presidente posto e mantido no poder por um sentimento popular de solidariedade, que periodicamente emergiu como movimento de massas. A continuação de seu trabalho e a transformação da sociedade venezuelana estão em andamento, longe de estarem concluídos e terão de continuar a ser disputadas. Chávez faz corar de vergonha muitos líderes ditos progressistas em todo o mundo, que se escondem atrás da opinião pública fabricada, para justificar a subserviência aos mercados e à direita reacionária. Provou que suas políticas radicais funcionam e geram votos. Mostrou que é possível – e muito popular – desafiar o império norte-americano.

É homem que será lembrado por muito tempo em cada esquina do mundo dos pobres [assim, portanto, os ricos não conseguirão esquecê-lo].

Comunicado da Vila Vudu: Aqui damos por encerrada a nossa homenagem ao Presidente Hugo Chávez Frías; todos trabalhamos sem parar durante mais de 48 horas, para encontrar e traduzir, distribuir e postar informação séria e pensamento progressista sobre o presidente Chávez. Pequena homenagem, para homem tão grande. Os pobres resistimos e vencemos, simplesmente, cada vez que não nos deixamos matar, nem calar, nem engambelar... Mas uma coisa é certa: em nenhum veículo da dita “grande imprensa” -- a imunda imprensa-empresa brasileira -- alguém encontrou melhores análises, melhor jornalismo e melhores comentários sobre o presidente Chávez, do que aqui, nessa blogosfera de trabalho comunista, voluntário e solidário, onde operamos. Só a luta ensina!

quinta-feira, 7 de março de 2013

SEM CHÁVEZ


Fonte: Maria Frô
Por LEANDRO FORTES

Não tenho dúvidas de que a História irá fazer bom juízo de Hugo Chávez, o comandante de uma revolução pacífica e democrática, a desmembrar e expor em praça pública o complexo e cruel pacto de permanência das elites locais. Antes de Chávez, a Venezuela não existia no mapa geopolítico mundial, parecia ser anexo na América do Sul, um país-satélite dos Estados Unidos, a ponto de amar mais o beisebol que o futebol. Uma elite que tinha Miami como um condomínio de luxo, ao qual voltavam às sextas-feiras, depois do trabalho, empresários, políticos, cidadãos.
Minha fé na justiça da História reside não só no argumento da força popular renascida entre a massa, essa palavra endurecida, e um governante mestiço, meio índio, meio nada. Essa “ninguendade”, sobre a qual se debruçou Darcy Ribeiro, a explicar o significado filosófico das misturas étnicas de base lusitana da qual descendemos quase todos nós, brasileiros, assim como do matiz hispânico vem a “nadiedad” de Chávez e da imensa nação de esquecidos que o elegeu e o manteve firme no poder, até que, morto o comandante, se enrolaram na bandeira venezuelana e foram chorar, aos milhões, em todas as cidades do país.
Antes de Chávez, a Venezuela mantinha-se dentro de uma estrutural social paralisante, dentro da qual os privilégios do petróleo, maior riqueza do país, eram distribuídos entre apenas 1% da população. Em pouco mais de uma década, o líder bolivariano tirou, de um universo de 24,6 milhões de pessoas, 5 milhões delas da pobreza absoluta. Universalizou a saúde e a educação, criou mercados subsidiados de alimentos, ensinou política aos pobres, tirou os arreios da Venezuela em relação aos Estados Unidos e, certa vez, na sede da ONU em Nova York, diante das câmaras, disse o seguinte sobre o lugar que George W. Bush havia ocupado antes de sua fala: “Ainda cheira a enxofre”. Tinha cojones, o comandante.
Hugo Chávez fez trocentas eleições livres na Venezuela, todas monitoradas por observadores estrangeiros e, mais ainda, por uma mídia sequiosa de sangue, mas é uma tarefa inútil bater nessa tecla. Fixar a pecha de “ditador” em Chávez foi uma tentativa do Departamento de Estado americano e da mídia em geral para iniciar o processo de demonização do presidente venezuelano. Nem é preciso dizer na nossa triste contribuição nesse processo, dando notícia de como Chávez era perigoso para o mundo livre, branco e cristão. Embora Chávez, o índio, o negro, o zé-ninguém, acreditava em um socialismo baseado nas origens do cristianismo.
Então, tinha que ser “ditador”, mesmo, já que a fé em Cristo impedia que lhe imputassem, também, a pecha de “comunista”.
A reação dos conservadores a Chávez, confesso, me interessava mais do que a figura do presidente, a histeria da direita latino americana, a forma primária como a propaganda contra o presidente venezuelano se disseminava pelo noticiário da mídia brasileira, as opiniões de bonecos de ventríloquos disfarçados de especialistas, o ódio dos liberais contra a erradicação de privilégios.
Chávez combateu a todos, e a todos venceu. Tinha o riso largo dos vencedores, não disfarçava o desprezo pela tibieza de seus adversários, dos que lhe acusavam de ser um tanto caricato em seu uniforme militar. Estes mesmos que, no entanto, eram suficientemente espertos para entender o significado daquela farda. Chávez deu ao Exército de onde veio um novo significado de Pátria, onde estão todos, não somente uns.
Não sou ninguém, nem tenho conhecimento o suficiente, para prever o futuro da Venezuela. Mas uma coisa é certa: ela nunca mais será a mesma, depois de Chávez.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Chávez, o homem que viveu múltiplos personagens

POR BOB FERNANDES


Ele não foi um. Foi muitos. Assim costumam ser os humanos e suas personas, mas poucos, pouquíssimos deixam a vida com a dimensão, polêmica ou não, que deixaram Hugo Rafael Chávez Frías e os personagens que viveu e interpretou.
A mesma mídia do mundo que sempre buscou encolhê-lo, enquadrá-lo tão somente no papel de clown, de animador das massas, uma espécie de Chaves, o mexicano, passado o perigo –ele em vida- admite nas manchetes, linhas e entrelinhas:
- …o populista que reduziu a pobreza…o caudilho que tirou milhões da pobreza e da miséria…o homem que impactou a América Latina…o legado de Chávez…
Vladimir Putin, o presidente da Rússia, o conhecia bem. Empresas russas estão na Venezuela fazendo negócios, erguendo muitos dos milhares de apartamentos que o governo Chávez entregou, entrega de graça para pobres e miseráveis. Putin, como em breve mostrará a história, uma história, conheceu Chávez em situações limite. Conheceu a ponto de poder assim defini-lo após a morte:
- Chávez foi um homem extremamente exigente consigo mesmo…
Dito isso, o mais importante nessa história, Putin ateve-se ao protocolar:
- Chávez foi um homem fora do comum e forte, que olhava para o futuro…
Putin foi dos primeiros a telefonar para Chávez quando, em abril de 2002, o presidente voltou ao poder depois de pouco mais de 30 horas de um golpe de Estado midiático e militar. Ao telefone, Putin então confessou para Chávez sua perplexidade:
- Isso foi inexplicável.
Um privilégio, para um repórter, viver, testemunhar um golpe de Estado e um contragolpe. 
Ver pobres e miseráveis despencarem dos seus morros e favelas para defender o "seu" presidente. E ter a chance de entender profundamente porque fizeram isso com uma paixão e fúria que o jornalismo à distância, asséptico, tenta resumir e embrulhar nas expressões "caudilho"…"populista"…
Não que não possam caber as definições de prateleiras e gavetas, mas elas mais revelam quem delas se vale do que explicam o porquê da paixão e da fúria dos pobres e dos miseráveis. E eles, pobres e miseráveis, eram bem mais do que a metade dos 24 milhões de habitantes da Venezuela naquele março de 2002, exato um mês antes do golpe.
Às sete e quarenta da manhã de um domingo, tocou o telefone no quarto do hotel Tamanaco Intercontinetal. Marisete, assessora do presidente da República, comunicou:
- O senhor deve estar aqui às oito horas. O presidente vai viajar e o senhor irá junto.
A conversa, a entrevista, só começaria à noite, 13 horas depois. Ali, uma primeira lição de Venezuela. Quando alguém garantir que algo irá acontecer "tempranito, tempranito", prepare-se. Esse "cedinho, cedinho", ou "logo, logo", pode demorar. Ou nem acontecer.
A conversa só se deu à noite porque, antes, Chávez queria mostrar a "sua" Venezuela. E apresentar uma ou várias de suas personas.
No Forte Guaicapuro, a 55 quilômetros de Caracas, Hugo Chávez apresentou a alta cúpula militar ao enviado da revista Carta Capital. E apresentou, ao mesmo tempo, o animador de auditório, o comunicador de massas, Hugo Chávez, diretor e apresentador do programa dominical Alô Presidente.
Fundamental aquela manhã e tarde sob sol causticante. Ali estavam muitos dos generais, coronéis e almirantes que, um mês depois, dariam o golpe, ou executariam o contragolpe. As perguntas ao repórter no seu programa, as brincadeiras com a gravata vermelha, facilitariam o trabalho, abririam as portas do Palácio Miraflores um mês depois, no rastro do contragolpe.
Naquela manhã e início da tarde, o presidente/locutor, o "populista" atendeu dezenas de associações de bairro, de comunidades, de sindicatos. Ouviu e respondeu aos remediados, aos pobres e miseráveis.
Ao vivo, depois do programa, ou por telefone durante, autorizou empréstimos bancários, postou-se em favor da senhora enganada na compra de um automóvel, de outra tapeada numa farmácia, entrevistou longamente um corneteiro do Exército.
Diante das câmeras, pediu ao corneteiro o toque da hora do almoço e lembrou: "Vamos às arepas". Arepa, a panqueca que é o feijão com arroz dos venezuelanos.
Naquele Alô Presidente de número 99, ao tempo em que entrevistava o corneteiro, Chávez anunciou uma linha de crédito para militares, no valor de US$ 100 milhões:
- Não é justo que vocês permaneçam sem chances de ascensão nas Forças Armadas, é preciso dar lugar aos jovens que vêm das classes baixas…
Era tarde. O golpe contra ele já estava em andamento. E seria dado por alguns dos que estavam ali, no Forte Guaicapuro.
À noite, na entrevista feita no gabinete presidencial, Chávez, um apaixonado por História, deixaria claro ter a percepção do que se avizinhava.
- O senhor conhece História. (…) Não parece claro que haverá um confronto final?
A essa pergunta, o tenente-coronel eleito presidente quatro anos antes, respondeu:
- (…) teremos o trabalho de derrotar a guerra suja inimiga.
- (…) o senhor cederá?
- Não cederei, não podemos ceder…
Em meio à conversa, a frase que iria para a capa de Carta Capital. Frase profética, não sabíamos o quanto até esse 5 de Março de 2013:
- Sou um soldado. Fico até 2013, ou…
Naquela conversa, outro Chávez. Num lique-lique, tradicional traje que lembra os safáris de Jânio Quadros e as fardas maoístas, ladeado por óleos com Simón Bolívar, António Paes… heróis da Libertação. Em quase tudo diferente do líder de massas, daquele quase "Chaves", do animador de programa de televisão que não poupava nem a si mesmo nos momentos de galhofa.
À noite, no Palácio, um homem de olhar arguto, duro, mas sereno. Algo de acuado que o entorno militarizado e extremas regras de segurança no acesso a ele não negam. Em apenas um momento, uma concessão ao personagem da manhã. E logo à primeira pergunta, também, uma citação a quem seria inspirador e cada vez mais um parceiro estratégico:
- Quem é Hugo Chávez?
- "Sou um tipo que anda por aí". Isso me disse Fidel em certa ocasião e eu gostei da frase: "Sou um tipo que anda por aí".
Um mês depois, na noite do golpe, Chávez receberia um telefonema e conselhos de Fidel Castro. Conselhos que se revelariam sábios:
- Não se imole nem aos seus homens. Venha para Cuba e o receberemos com um milhão de homens e mulheres nas ruas. Isso não terminará assim…
Não terminou. Chávez foi preso, em alguns momentos viveu ações, a tensão e a expectativa de quem seria assassinado, mas voltou ao Palácio Miraflores na noite do sábado, 13 de abril.
Dos 37 chefes de Estado de quem recebeu ligações e cumprimentos, o primeiro foi Fidel Castro.
O experimentadíssimo homem que liderou a queda de Fulgêncio Batista, que, em 2002, desafiava há 43 anos a maior potência da Terra, os Estados Unidos, e que sobreviveu há mais de uma centena de tentativas de riscá-lo do mapa, assim como Putin confessou a Chávez:
- Isso foi incrível. Estou estupefato.
A brincadeira com a gravata vermelha um mês antes, a curiosidade, o desejo de conhecer por dentro um golpe e um contragolpe levariam a quatro dias, noites e madrugadas no Palácio Miraflores. A ouvir quem tivesse histórias para contar naqueles momentos em que as línguas ainda estão soltas pela euforia da vitória.
Daquela história emergiu um outro extraordinário personagem. O general Raúl Isaías Baduel.
Baduel comandava a 42ª Brigada de Paraquedistas, em Maracay, a uma hora e meia de Caracas.
Maracay, onde estavam os caças, a força com capacidade de bombardear, de decidir aquele ensaio de guerra civil. O general entraria para a História com suas ações, e com uma frase.
Final da manhã do sábado. O governo de Pedro Carmona Estanga, o empresário depois conhecido como "El Breve", em menos de 24 horas havia dissolvido todos os poderes.
A oposição que acusava Chávez de ser um ditador, que detonara o golpe liderado por militares e por grande porção da mídia, em especial emissoras de televisão, ao tomar o Poder, fechou a Assembleia Nacional, o Judiciário, o Ministério Público…
Estão todos no Miraflores neste final de manhã do sábado, 13 de abril de 2002, inclusive a mais alta cúpula da influente Igreja Católica. Não mais os mestiços, os descendentes de negros, índios e mulatos, os zambos de até a antevéspera. Os novos ocupantes do Palácio, está na pele, têm traços caucasianos.
Senhores em trajes de fino corte, senhoras de vestes e joias faiscantes, tudo registrado pelas câmeras de um casal de jovens irlandeses. Que flagram o momento em que as taças de champanhe, garrafas e copos são abandonados sobre as mesas. O telefonema do general Baduel é decisivo:
- Eu não negocio. Eu me apego à Constituição. O presidente Chávez me garantiu que não renunciaria, eu acredito nele. E, se ele renunciasse, o vice-presidente é quem deveria tomar posse. Vocês golpearam o presidente. Isso é um golpe de Estado…
No telefonema, dado para um militar de patente superior à sua, Baduel, que moveu-se todo o tempo atento aos ensinamentos de A Arte da Guerra, de Sun Tzu, dá a estocada final:
- Meu general, se vocês não devolverem vivo o presidente Hugo Rafael Chávez Frías, faltarão postes na Venezuela para pendurá-los.
O general Raúl Baduel é hoje, e já há quatro anos, um prisioneiro do governo que foi de Chávez e agora é de Nicolás Maduro. 
Amigo pessoal há mais de 30 anos, colega de Academia Militar, compadre de Chávez, ministro do Exército e da Defesa depois do golpe, Baduel está condenado e preso em Ramo Verde, prisão em Los Teques, a uma hora de Caracas.
Acusado de corrupção, Baduel nega com veemência. Em 2007, ele se opôs – e venceu – à mudança da Constituição que permitiria outra reeleição. Baduel, hoje diz ser "um preso de consciência". Um preso político.
Terra Magazine tem ouvido personagens decisivos da História recente e atual da Venezuela. Nos próximos dias, Baduel contará aqui detalhes da história e do rompimento do amigo e presidente que ajudou a salvar do golpe de 2002.
Nesse sábado, 13 de abril, o contragolpe se completa na sequência do telefonema de Baduel.
Vindos pelo subterrâneo que liga ao outro lado da Avenida Urdaneta e ao Palácio Branco, onde se aquartelam, jovens oficiais e soldados da guarda pessoal de Chávez tomam de volta o Miraflores.
No início da tarde de sábado, via CNN, a imagem corre o mundo. No telhado do Miraflores, o tenente K, 39 anos, fuzil numa das mãos, faz o V da vitória.
Amontoada, espremendo-se contra as grades do palácio, a multidão enlouquecida. Eles, como se diz com uma ponta de respeito e temor, "baixaram dos cerros". Desceram das montanhas, das favelas de Caracas, para defender seu líder:
- Devuelvan Chávez… Con Chávez hasta la muerte… Chávez, muero por ti…
Pouco mais de dois anos depois. Quinze de agosto de 2004. Onze e meia da noite. No mesmo gabinete presidencial, acompanho com Chávez os minutos finais do Referendo que, de maneira arrasadora, confirma seu mandato.
Estamos a sós, por quase uma hora. O Chávez apaixonado por História aponta para o óleo com António Paes e discorre sobre seu desejo de fazer reparos na saga da libertação da América Espanhola:
- Esse nasceu pobre e morreu rico, em Nova York. Traiu o bolivarianismo. Quando fazendeiro, foi contra a libertação dos escravos. Já procurei um pintor. Falei: "Você faz um quadro no mesmo estilo". Estou pensando em tirá-lo daí, em colocar Ezequiel Zamora ou Francisco de Miranda no lugar de Paes…
O resultado é proclamado extra-oficialmente. César Gaviria, secretário-geral da OEA, a Organização dos Estados Americanos, não quer aceitar a vitória de Chávez. Ouve a oposição e fala em fraude.
Jimmy Carter, presente em mais de 50 países com seu Centro Carter, está em Caracas como observador internacional. Para atestar, ou não, a legalidade da eleição. Carter fala com Chávez ao telefone e o felicita pela "vitória limpa". E segue para um encontro com Gaviria.
O ex-presidente dos Estados Unidos diz ao secretário-geral da OEA que não existem "sequer indícios" de fraude:
- O processo foi limpo, nós acompanhamos.
Quarenta e oito horas depois, ao entrar no Limoncello, fino restaurante da capital, Carter é vaiado.
Néstor Kirchner, o presidente argentino, telefona. Fidel Castro também. E Lula?
- Ele me ligou ontem à noite, de Brasília, ia para a República Dominicana e depois ao Haiti, onde vai jogar a seleção brasileira. Ele me convidou para ir ao futebol, mas nesse jogo não dá para ganhar dos brasileiros…
Chávez considera seus erros:
- O mais grave, no exercício do poder, foi descuidar da comunicação lá no início.
- Reconheço que, nesse cenário, radicalizamos demais, porque sem ter como falar com as classes médias, perdemos um bom pedaço delas. Por isso, ao voltar do golpe, com o crucifixo nas mãos, pedi perdão ao povo venezuelano e me declarei mais aberto do que nunca ao diálogo.
Dois anos antes, grande parte da mídia embarcou no golpe, ajudou a patrociná-lo. Hugo Chávez teve então todas as provas legais para cassar a concessão de canais de televisão. Por que não o fez?
- Porque as coisas, no poder, não se movem assim, de maneira linear – é a resposta na noite do Referendo.
A propósito. Dois meses antes, num encontro secreto costurado por Jimmy Carter, Chávez conversou com Gustavo Cisneros, o maior milionário da Venezuela e o segundo na América Latina.
Dono da rede de TV Venevisión, e da DirecTV/América Latina, distribuidor da Coca-Cola, etc. Na conversa, Cisneros informou ao presidente Chávez:
- De agora em diante, a minha televisão vai mudar, mas pouco a pouco, porque de outra maneira não seria possível.
A TV de Cisneros, pouco a pouco, mudou.
Chávez me leva à Sala de Crise, onde, com dezenas de televisores, ministros, equipes de analistas e de hackers acompanham, rastreiam a eleição por todo o país.
Chávez consulta aos seus assessores mais próximos. O que fazer primeiro? Falar com os 132 jornalistas estrangeiros e outros 50 venezuelanos credenciados, ou dirigir-se à multidão?
Convocar uma cadeia nacional de rádio e TV? O presidente surpreende o repórter:
- Vou de terno ou sem terno?
Não me cabe responder. Chávez contraria à quase totalidade dos assessores. De camisa vermelha e tênis, discursa no balcão interno do Palácio. Ali, convidados estrangeiros, e milhares dos seus mais próximos amigos e seguidores. No outro lado do Miraflores, a multidão acompanha o discurso em telões.
Pouco antes, o presidente que falava em "conciliação" ouve a sugestão de Jesse Chacon, ministro da Comunicação e antigo companheiro de armas:
- Seja magnânimo.
Chávez arranca gargalhadas ao repetir, em forma de pergunta, a sugestão:
- Magnânimo…?
Antes do discurso, peço licença por alguns minutos. Para ver o que se passa na Avenida Urdaneta, onde o povo começa a chegar junto com as notícias da vitória. Ao meu lado, o deputado argentino Miguel Bonasso, amigo pessoal do presidente Néstor Kirchner.
Os olhos de Bonasso se arregalam diante da multidão que, passada a meia noite, avança pela Urdaneta em direção ao palácio. Ali, um extrato de uma porção do chavismo.
Como se num filme do realismo italiano, homens e mulheres em cadeiras de roda, homens-tronco, descamisados ou em farrapos vermelhos avançam no início da madrugada na violenta Caracas.
Dos alto-falantes vazam os épicos de Alí Primera, o finado poeta e cantor da Revolução Bolivariana. A horda de desdentados ou quase grita, chora, chama por Chávez. O deputado Bonasso gargalha diante de tanta alegria, tanta paixão, e concorda:
- Imaginemos se a bebida estivesse oficialmente liberada nesta eleição.
Dois anos depois, em 2006, novamente no mesmo palácio, na mesma sala, outro longo dia. Outra noite e madrugada com mais uma vitória de Hugo Chávez, a da reeleição.
Outra entrevista. Outras conversas, como muitas outras ainda viriam. Mais revelações, bastidores para uma história a ser contada.


 
Quarta-feira, 6 de março deste 2013. Dez e quarenta e cinco da manhã, hora de Caracas. O corpo de Hugo Rafael Chávez Frías está no caixão coberto pela bandeira da Venezuela. O caixão, carregado pela Guarda de Honra, vai deixar o Hospital Militar.
Hugo Chávez será velado com honras na Academia Militar, dentro do Forte Tiuna, a maior guarnição militar do país. Desde a madrugada, milhares e milhares de venezuelanos fazem fila para, pela última vez, ver o seu presidente.
No hospital, a família se despede do filho, do pai, do irmão. Um Pai Nosso, e o hino que Hugo Chávez tanto amou e que às vezes, sem o perceber, cantarolava em meio a reflexões:
- Gloria al bravo Pueblo que el yugo lanzó/ la ley respetando la virtud y honor…
O povo, à frente do Hospital Militar, em silêncio. Silêncio e lágrimas. Quem lá está ouve, de quando em quando, o grito, puro desconsolo, desespero:
- Que Viva Chávez!

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