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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Consideração

De vez em quando eu comento por aqui sobre o budismo. Eu sou budista, do Shin Budismo, uma escola idealizada pelo mestre Shinran Shonin (1173-1263), um dos mais importantes pensadores do Japão. Ele não fundou templos mas é considerado o responsável pela enorme contribuição japonesa às escolas budistas existentes já que criou uma interpretação nova e particular desta doutrina.


Shinran Shonin foi um monge que escolheu difundir e explicar os  princípios budistas para os analfabetos e pessoas que não tinham acesso aos templos, os quais só podiam ser frequentados por samurais e senhores feudais. No Japão daquele tempo, foi algo bastante revolucionário.

Essa é uma das coisas interessantes que me aproximaram dessa escola budista. Curiosamente, Monge Sato, do Templo da Terra Pura em Brasília, é um ex-militante que participou ativamente de parte de nossa história combatendo a repressão e lutando pela democracia que vivemos hoje. Sua formação marxista é um complemento interessante que torna a interpretação dos textos e cartas dos mestres uma experiência diferente e muito rica. 

Mas ser budista é muito dificíl. Um professor de karatê que frequenta o Templo, respondeu esses dias ao ser perguntado se era budista: "Eu tento, você conhece alguém que realmente é?". Eu, confesso que estou longe também, mas como os mestres, continuo tentando. E o esforço exigido é imenso, diário e constante. E a responsabilidade, absolutamente individual. Ainda que possamos compartilhar nossas experiências com o Dharma, o caminho é trilhado sem apego a nada, nem mesmo à sua própria natureza.

"Não são nossos acertos ou méritos que nos levam ao nirvana, à Terra do Buda. Ao contrário, a preocupação pela virtude e o esforço para acumular méritos podem fortalecer o ego e dificultar a aceitação da felicidade. A aceitação da felicidade está em reconhecer nossos erros com humildade e mudar: mudar de pensamento, de postura, de ação. Mudar até as palavras, o modo de ser. Ao abrigo do Buda, aprender a ser feliz, ser parte da lei universal e interdependente da causalidade. Ao abrigo do Buda, assumir essa responsabilidade." (Monge Sato)

Para compreender a fundo os preceitos budistas pode-se levar uma vida inteira. Se adaptar aos princípios, mais ainda. Por outro lado, nada é regra, nada é definitivo. Todas as coisas, até nós mesmos estamos em constante mutação.



Se oriente, rapaz 

Pela constelação do Cruzeiro do Sul 
Se oriente, rapaz 
Pela constatação de que a aranha 
Vive do que tece 
Vê se não se esquece 
Pela simples razão de que tudo merece 
Consideração
...

(Gilberto Gil)


O budismo é universal. Apesar de suas várias escolas, a idéia principal, comum a todas, é a Compaixão do Buda, a verdade última dentro de nós.


Na tradição budista, a cada aniversário, começamos um novo ano. É o marco zero para renovação e recomeço. Esse post é uma homenagem ao amigo e mestre que tão bem representa a integração oriente/ocidente.


Feliz Ano Novo Monge Sato!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Para um Ano realmente Novo

Aos amigos, familiares, camaradas.

Que 2011 chegue com muita saúde, paz, amor e percepção. Obrigada a todos os seres que - direta ou indiretamente - contribuíram esse ano para que eu comesse, me vestisse, vivesse enfim. Que  Budha nos ilumine o caminho para a Terra Pura. O texto abaixo, do poeta Drummond, é quase uma reflexão budista sobre a responsabilidade que reside apenas em nós.

Namandabu
Juliana MSC



Receita de ano novo

Por Carlos Drummond de Andrade



Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 



Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumidas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 



Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sobre o budismo

O texto abaixo, pode ser considerado um "clássico". Para quem é budista, ele não é novo. Mas como descreve bem o conceito do "ser budista", resolvi postar aqui. Talvez como uma resposta a tantas pessoas que me perguntam como é, porque sou, o que significa...





DESFAZENDO EQUÍVOCOS


(Monja Yvonette Silva Gonçalves)



Se você quer milagres, não procure o Budismo. O supremo milagre para o Budismo é você lavar seu prato depois de comer.

Se você quer curar seu corpo físico, não procure o Budismo. O Budismo só cura os males de sua mente: ignorância, cólera e desejos desenfreados.

Se você quiser arranjar emprego ou melhorar sua situação financeira, não procure o Budismo. Você se decepcionará, pois ele vai falar sobre desapego em relação aos bens materiais. Não confunda, porém, desapego com renúncia.

Se você quer poderes sobrenaturais, não procure o Budismo. Para o Budismo, o maior poder sobrenatural é o triunfo sobre o egoísmo.

Se você quer triunfar sobre seus inimigos, não procure o Budismo. Para o Budismo, o único triunfo que conta é o do homem sobre si mesmo.

Se você quer a vida eterna em um paraíso de delícias, não procure o Budismo, pois ele matará seu ego aqui e agora.

Se você quer massagear seu ego com poder, fama, elogios e outras vantagens, não procure o Budismo. A casa de Buda não é a casa da inflação dos egos.

Se você quer a proteção divina, não procure o Budismo. Ele lhe ensinará que você só pode contar consigo mesmo.

Se você quer um caminho para Deus, não procure o Budismo. Ele o lançará no vazio.

Se você quer alguém que perdoe suas falhas, deixando-o livre para errar de novo, não procure o Budismo, pois ele lhe ensinará a implacável Lei de Causa e Efeito e a necessidade de uma autocrítica consciente e profunda.

Se você quer respostas cômodas e fáceis para suas indagações existenciais, não procure o Budismo. Ele aumentará suas dúvidas.

Se você quer uma crença cega, não procure o Budismo. Ele o ensinará a pensar com sua própria cabeça.

Se você é dos que acham que a verdade está nas escrituras, não procure o Budismo. Ele lhe dirá que o papel é muito útil para limpar o lixo acumulado no intelecto.

Se você quer saber a verdade sobre os discos voadores ou sobre a civilização de Atlântida, não procure o Budismo. Ele só revelará a verdade sobre você mesmo.

Se você quer conhecer suas encarnações passadas, não procure o Budismo. Ele só pode lhe mostrar sua miséria presente.

Se você quer se comunicar com espíritos, não procure o Budismo. Ele só pode ensinar você a se comunicar com seu verdadeiro eu.




Para os que pretendem saber mais, recomendo o: http://www.terrapuradf.org.br/ onde também é possível saber sobre as atividades do Templo Budista da 316 sul, para quem mora em Brasília.

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