"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X
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domingo, 15 de setembro de 2013

50 VERDADES SOBRE A REVOLUÇÃO CUBANA

Símbolo dos desejos de independência da América Latina e do Terceiro Mundo, a Revolução Cubana marcou a história do século 20.

1. O triunfo da Revolução Cubana, no dia 1 de janeiro de 1959, é o acontecimento mais relevante da história da América Latina no século 20.

2. As raízes da Revolução Cubana remontam ao século 19 e às guerras de independência.

3. Durante a primeira guerra de independência, de 1868 a 1878, o exército espanhol derrotou os insurgentes cubanos atolados em profundas divisões internas. Os Estados Unidos apoiaram a Espanha, vendendo ao país armas mais modernas e se opôs aos independentistas perseguindo os exilados cubanos que tentavam dar sua contribuição à luta armada. No dia 29 de outubro de 1872, o secretário de Estado Hamilton Fish compartilhou com Daniel Sickles, então embaixador estadunidense em Madrid, seus “desejos de êxito para a Espanha na supressão da rebelião”. Washington, contrário à independência de Cuba, desejava tomar posse da ilha.

4. Cuba é efetivamente uma das mais antigas inquietudes da política exterior dos Estados Unidos. Em 1805, Thomas Jefferson observou a importância da ilha, salientando que sua “posse [era] necessária para assegurar a defesa de Luisiana e da Flórida porque [era] a chave do Golfo do México. Para os Estados Unidos, a conquista seria fácil”. Em 1823, John Quincy Adams, então Secretário de Estado e futuro presidente dos Estados Unidos fez alusão ao tema da anexação de Cuba e elaborou a teoria da “fruta madura”: “Cuba, separada pela força de sua própria conexão desnaturalizada com a Espanha, e incapaz de sobreviver por si própria, terá necessariamente que gravitar ao redor de união norte-americana, e unicamente ao redor dela”. Assim, durante o século 19, os Estados Unidos tentaram 6 vezes comprar Cuba da Espanha.

5. Durante a segunda guerra de independência, entre 1885 e 1898, os revolucionários cubanos, unidos em volta de seu líder José Martí, tiveram de enfrentar outra vez a hostilidade dos Estados Unidos, que deu sua ajuda à Espanha vendendo-lhe armas e prendendo os exilados cubanos que tentavam apoiar os independentistas.

6. José Martí, em uma carta profética ao seu amigo Gonzalo de Quesada, escrita no dia 14 de dezembro de 1889, advertiu sobre a possibilidade de uma intervenção estadunidense. “Sobre a nossa terra, Gonzalo, há outro plano mais tenebroso [....]: a iníqua de forçar a Ilha, de precipitá-la à guerra, para ter o pretexto de intervir nela, e com o crédito de mediador e garantidor, ficar com ela”.

7. Em 1898, apesar de sua superioridade material, a Espanha estava à beira do abismo, vencida no campo de batalha pelos independentistas cubanos. Em uma carta ao presidente estadunidense William McKinley, datada de 9 de março de 1898, o embaixador Woodford, de Madrid, disse que “a derrota” da Espanha era “segura”. “[Os espanhóis] sabem que perderam Cuba”. Segundo ele, “se os Estados Unidos desejam Cuba, devem consegui-la mediante a conquista”.

8. Em abril de 1898, depois da explosão misteriosa do navio de guerra estadunidense The Maine na baía de Havana, o presidente McKinley solicitou autorização do Congresso para intervir militarmente em Cuba e impedir que a ilha conseguisse sua independência.

9. Vários congressistas denunciaram uma guerra de conquista. John W. Daniel, senador democrata do estado da Virginia, acusou o governo de intervir para evitar uma derrota dos espanhóis: “Quando chegou a hora mais favorável para um êxito revolucionário e a mais desvantajosa para a Espanha, [...] se exige ao congresso dos Estados Unidos entregar o exército dos Estados Unidos ao Presidente para impor um armistício pela força às duas partes, enquanto uma delas já entregou as armas”

10. Em três meses, os Estados Unidos tomaram controle do país. Em dezembro de 1898, os Estados Unidos e a Espanha assinaram um tratado de paz em Paris sem a presença dos cubanos, destroçando assim seu sonho de independência.

11. De 1898 a 1902, os Estados Unidos ocuparam Cuba e obrigaram a Assembleia Constituinte a adotar a emenda Platt na nova Constituição, sob pena de prorrogar a ocupação militar.

12. A emenda Platt proibia Cuba de assinar qualquer acordo com um terceiro país ou contrair dívida com outra nação. Também dava direito aos Estados Unidos de intervir em qualquer momento nos assuntos internos de Cuba e obrigava a ilha a conceder indefinidamente a Washington a base naval de Guantánamo.

13. Em uma carta de 1901, o general Edward Wood, então governador militar de Cuba, parabenizou o presidente McKinley. “Desde então há pouca ou nenhuma independência para Cuba sob a emenda Platt e a única coisa importante agora é buscar a anexação”.

14. De 1902 a 1958, Cuba tinha o status de república neocolonial, política e economicamente dependente, apesar da revogação da emenda Platt em 1934, então obsoleta.

15. Os Estados Unidos interviram militarmente em Cuba em 1906, 1912, 1917 e 1933, depois da queda do ditador Gerardo Machado, e cada vez que um movimento revolucionário ameaçava o status quo.

16. A Revolução de 1933, liderada por Antonio Guiteras, foi frustrada pela traição de um sargento chamado Fulgencio Batista, que se tornou general e colaborou com a embaixada dos Estados Unidos para manter a ordem estabelecida. Dirigiu o país nos bastidores até sua eleição como presidente em 1940.

17. Depois das presidências de Ramón Grau San Martín (1944-1948), e Carlos Prío Socarrás (1948-1952), gangrenadas pela violência e pela corrupção, Fulgencio Batista pôs fim à ordem constitucional no dia 10 de março de 1952, orquestrando um golpe de Estado militar.

18. No dia 26 de junho de 1953, um jovem advogado chamado Fidel Castro, membro do Partido Ortodoxo fundado por Chibás, se pôs à frente de uma expedição de 131 homens e atacou o quartel Moncada na cidade de Santiago, a segunda fortaleza militar do país, assim como o quartel Carlos Manuel de Céspedes, na cidade de Bayamo. O objetivo era tomar o controle da cidade — berço histórico de todas as revoluções — e lançar um chamado à rebelião em todo o país para derrubar o ditador Batista.

19. A operação foi um fracasso e numerosos combatentes — 55 no total — foram assassinados depois de serem brutalmente torturados pelo exército. De fato, apenas 6 deles morreram em combate. Alguns conseguiram escapar graças ao apoio da população.

20. Fidel Castro, capturado alguns dias depois, deveu a vida ao sargento Pedro Sarría, que se negou a seguir as ordens de seus superiores e executar o líder de Moncada. “Não disparem! Não disparem! As ideias não se matam!”, exclamou frente a seus soldados.

21. Durante sua histórica alegação intitulada “A História me Absolverá”, Fidel Castro, que se encarregou de sua própria defesa, denunciou os crimes de Batista e a miséria em que se encontrava o povo cubano e apresentou seu programa para uma Cuba livre.

22. Condenado a 15 anos de prisão, Fidel Castro foi liberado em 1955 depois da anistia que lhe concedeu o regime de Batista e se exilou no México, onde organizou a expedição de Granma, com um médico argentino chamado Ernesto Guevara.

23. No dia 2 de dezembro de 1956, Fidel Castro desembarcou na província oriental de Cuba comandando 81 revolucionários com o objetivo de desatar uma guerra de guerrilhas nas montanhas de Sierra Maestra.

24. Ao contrário do que se diz, os Estados Unidos jamais deram apoio ao Movimento 26 de Julho, organização político-militar dirigida por Fidel Castro, durante toda a guerra insurrecional, de 2 de dezembro de 1956 a 1 de janeiro de 1959.

25. Ao contrário, Washington perseguiu cruelmente todos os simpatizantes do Movimento 26 de Julho exilados nos Estados Unidos, que tentavam fornecer armas aos rebeldes.

26. Ao mesmo tempo, o Presidente Dwight D. Eisenhower seguiu fornecendo armas ao exército de Batista, inclusive depois da instauração do embargo de fachada, em março de 1958.

27. No dia 23 de dezembro de 1958, a uma semana do triunfo da Revolução, enquanto o exército de Fulgencio Batista estava em plena debandada apesar de sua superioridade em armas e homens, aconteceu a 392ª reunião do Conselho de Segurança Nacional, com a presença do presidente Eisenhower. Allen Dulles, então diretor da CIA, expressou claramente a posição dos Estados Unidos: “Temos de impedir a vitória de Castro”.

28. Assim como aconteceu em 1898, o Presidente Eisenhower estava a favor de uma intervenção armada para impedir o triunfo de Fidel Castro. Perguntou se o Departamento de Defesa tinha pensado em uma “ação militar que poderia ser necessária em Cuba”. Seus assessores tiveram êxito em dissuadi-lo.

29. Assim, a hostilidade dos Estados Unidos para com a Revolução Cubana não tem nada a ver com o contexto da Guerra Fria. Começou antes de Fidel Castro chegar ao poder, antes da aliança com Moscou, em maio de 1960, e continuou depois de desaparição do bloco soviético em 1991.
30. No dia primeiro de janeiro de 1959, cinco anos, cinco meses e cinco dias depois do ataque ao quartel Moncada no dia 26 de julho de 1953, a Revolução Cubana triunfou.

31. Em janeiro de 1959, os Estados Unidos acolheram com os braços abertos os partidários do antigo regime, incluindo os criminosos de guerra, que haviam roubado 424 milhões de dólares do Tesouro cubano.

32. Desde o começo, a Revolução Cubana teve de edificar seu projeto de sociedade em um contexto de estado de sítio permanente, frente à crescente hostilidade dos Estados Unidos. Desde 1959, Cuba nunca desfrutou de um clima de paz para construir seu futuro. Em abril de 1961, Cuba teve de enfrentar a invasão armada da Baía dos Porcos organizada pela CIA, e em outubro de 1962, a ilha foi ameaçada de desintegração nucelar durante a crise dos mísseis.

33. Desde 1959, os Estados Unidos, decididos a derrotar Fidel Castro, deram início a uma campanha de terrorismo contra Cuba com mais de 6 mil atentados, que custaram a vida de 3.478 civis e incapacitaram 2.099 pessoas. Os danos materiais são avaliados em vários bilhões de dólares e Cuba teve de gastar somas astronômicas em sua segurança nacional, o que limitou o desenvolvimento dos programas sociais. O próprio líder da Revolução foi vítima de 637 tentativas de assassinato.

34. Desde 1960, Washington impõe sanções econômicas sumariamente severas, ilegais de acordo com o Direito Internacional, que afetam as categorias mais vulneráveis da população, ou seja, as mulheres, as crianças e os idosos. Este estado de sítio, condenado pela imensa maioria da comunidade internacional (188 países de 192), constitui o principal obstáculo ao desenvolvimento da ilha, que a Cuba custou mais de um bilhão de dólares.

35. Apesar de todos esses obstáculos, a Revolução Cubana é um inegável êxito social. Ao dar prioridade aos mais desfavorecidos com a reforma agrária e com a reforma urbana, ao erradicar o analfabetismo, ao desenvolver a educação, a saúde, a cultura e o esporte, Cuba criou a sociedade mais igualitária do continente e do Terceiro Mundo.

36. De acordo com a Unesco, Cuba tem a mais baixa taxa de analfabetismo e a mais alta taxa de escolarização da América Latina. A organização das Nações Unidas nota que “a educação tem sido prioridade em Cuba há [mais de] 40 anos. É uma verdadeira sociedade de educação”. Seu relatório sobre a educação em 13 países da América Latina classifica Cuba como primeira em todas as disciplinas. De acordo com a Unesco, Cuba é a nação do mundo que usa a maior parte de seu orçamento em educação, cerca de 13% do PIB.

37. Cuba tem uma taxa de mortalidade infantil de 4,6 por mil, ou seja, a mais baixa do continente americano, mais baixa que a do Canadá ou a dos Estados Unidos.

38. Cuba é a nação que tem o maior número de médicos per capita do mundo. Segundo o New England Journal of Medicine, a revista médica mais prestigiada do planeta, “o sistema de saúde [de Cuba] resolveu problemas que o nosso [o dos Estados Unidos] não conseguiu resolver”. A revista destaca que “Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante que os Estados Unidos”.

39. Segundo a Unicef, “Cuba é um exemplo na proteção da infância” e um “paraíso para a infância na América Latina”, e enfatiza que Cuba é o único país da América Latina e do Terceiro Mundo que erradicou a desnutrição infantil.

40. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Cuba é o único país da América Latina e do Terceiro Mundo que se encontra entre as dez nações do mundo com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano sobre os três critérios: expectativa de vida, educação e nível de vida, durante a última década.

41. A Revolução Cubana fez da solidariedade internacional um pilar essencial de sua política exterior. Cuba acolhe dezenas de milhares de estudantes procedentes de países pobres, lhes oferece formação universitária gratuita de alto nível e se encarrega de todos os gastos. A Escola Latino-americana de Medicina de Havana é uma das mais famosas do continente americano e formou vários milhares de profissionais de saúde procedentes de mais de 123 países.

42. Desde 1963 e da primeira missão internacionalista na Argélia, cerca de 132 mil médicos cubanos e outros funcionários de saúde trabalharam voluntariamente em 102 países. Atualmente, 38.868 médicos colaboradores, entre eles 15.407 médicos, oferecem seus serviços em 66 nações do Terceiro Mundo.

43. Graças à Operação Milagre lançada por Cuba em 2004, que consiste em operar gratuitamente populações pobres vítimas de doenças oculares, cerca de 2,5 milhões de pessoas de 28 países recuperaram a visão.

44. O programa de alfabetização cubano “Sim, eu posso” (“Yo, sí puedo”), lançado em 2003, permitiu que 7 milhões de pessoas dos cinco continentes aprendessem a ler, escrever e somar.

45. De acordo com a World Wild Fund for Nature (WWF), organização mais importante de defesa da natureza, Cuba é o único país do mundo que alcançou um desenvolvimento sustentável.

46. Cuba desempenhou um papel chave na luta contra o apartheid, com a participação de 300 mil soldados em Angola entre 1975 e 1988 para enfrentar a agressão do exército suprematista sul-africano. O elemento decisivo que pôs fim ao apartheid foi a abrupta derrota militar que as tropas cubanas infringiram ao exército sul-africano em Cuito Cuanavale, no sudeste de Angola, em janeiro de 1988. Em um discurso, Nelson Mandela rendeu homenagem a Cuba: “Sem a derrota infringida em Cuito Cuanavale, nossas organizações não teriam sido legalizadas! A derrota do exército racista em Cuito Canavale tornou possível que hoje eu possa estar aqui com vocês! Cuito Cuanavale é um marco na história da luta pela libertação da África Austral!”.

47. Ao contrário do que se diz, a Revolução Cubana teve quatro presidentes diferentes: Manuel Urrutia, de janeiro de 1959 a julho de 1959, e Osvaldo Dorticós, de julho de 1959 a janeiro de 1976, sob o antigo regime da Constituição de 1940, e Fidel Castro, de fevereiro de 1976 a julho de 2006, e Raúl Castro, desde 2006, depois da adoção da Constituição de 1976.

48. A imprensa ocidental, propriedade de conglomerados econômicos e financeiros, vilipendia a Revolução Cubana por uma razão muito precisa que não tem nada a ver com a democracia ou os direitos humanos: o processo de transformação social iniciado em 1959 sacudiu a ordem das estruturas estabelecidas, levou a juízo o poder dos dominantes e propõe uma alternativa social onde os recursos são destinados à maioria e não à minoria.

49. A principal conquista da Revolução é ter feito de Cuba uma nação soberana e independente.

50. A Revolução Cubana, edificada por várias gerações de cubanos, possui todas as virtudes e defeitos da condição humana e nunca teve a pretensão de ser um modelo. Segue sendo, apesar das dificuldades, um símbolo de dignidade e resistência no mundo

*é doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Seu último livro se chama Cuba. Les médias face au défi de l’impartialité, Paris, Editions Estrella, 2013, com prólogo de Eduardo Galeano.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Abdicar de pensar - por Frei Betto

Em nome da ambição de galgar os degraus do poder, de manter uma função pública, de usufruir da amizade de poderosos, muitos abdicam do pensamento crítico, engolem a seco abusos de seus superiores, fazem vista grossa à corrupção, se abrem em sorrisos para quem, no íntimo, desprezam
15/08/2013
Frei Betto (no Brasil de Fato)
Está em cartaz, em alguns cinemas do Brasil, o filme “Hannah Arendt”, direção de Margarethe Von Trotta. Por ser uma obra de arte que faz pensar não atrai muitos espectadores. A maioria prefere os enlatados de entretenimento que entopem a programação televisiva.
Hannah Arendt (1906-1975) era uma filósofa alemã, judia, aluna e amante de Heidegger, um dos mais importantes filósofos do século XX, que cometeu o grave deslize de filiar-se ao Partido Nazista e aceitar que Hitler o nomeasse reitor da Universidade de Freiburg. O que não tira o valor de sua obra, que exerceu grande influência sobre Sartre. Hannah Arendt refugiou-se do nazismo nos EUA.
O filme de Von Trotta retrata a filósofa no julgamento de Adolf Eichmann, em 1961, em Jerusalém, enviada pela revista “The New Yorker”. Cenas reais do julgamento foram enxertadas no filme.
De volta a Nova York, Hannah escreveu uma série de cinco ensaios, hoje reunidos no livro “Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal” (Companhia das Letras, 1999). Sua ótica sobre o réu nazista chocou muitos leitores, em especial da comunidade judaica. 
Hannah escreveu que esperava encontrar um homem monstruoso, responsável por crimes monstruosos: o embarque de vítimas do nazismo em trens rumo à morte nos campos de concentração. No entanto, ela se deparou com um ser humano medíocre, mero burocrata da máquina genocida comandada por Hitler. A grande culpa de Eichmann, segundo ela, foi demitir-se do direito de pensar.
Hannah pôs o dedo na ferida. Muitos de nós julgamos que são pessoas sem coração, frias, incapazes de um gesto de generosidade os corruptos que embolsam recursos públicos, os carcereiros que torturam presos em delegacias e presídios, os policiais que primeiro espancam e depois perguntam, os médicos que deixam morrer um paciente sem dinheiro para custear o tratamento. É o que mostram os filmes cujos personagens são “do mal”.
Na realidade, o mal é também cometido por pessoas que não fariam feio se convidadas para jantar com a rainha Elizabeth II, como Raskólnikov, personagem de Doistoiévski em “Crime e castigo”. Gente que, no exercício de suas funções, se demite do direito de pensar, como fez Eichmann. 
Elas não vestem apenas a camisa do serviço público, da empresa, da corporação (Igreja, clube, associação etc.) no qual trabalham ou frequentam. Vestem também a pele. São incapazes de juízo crítico frente a seus superiores, de discernimento nas ordens que recebem, de dizer “não” a quem estão hierarquicamente submetidas.
Lembro de “Pudim”, um dos mais notórios torturadores do DEOPS de São Paulo, vinculado ao Esquadrão da Morte chefiado pelo delegado Fleury. Ele foi incumbido de transportar o principal assessor de Dom Helder Camara, monsenhor Marcelo Carvalheira (que mais tarde viria a ser arcebispo de João Pessoa), do cárcere de São Paulo ao DOPS de Porto Alegre, onde seria solto. 
Antes de pegar a estrada, a viatura parou à porta de uma casa de classe média baixa, em um bairro da capital paulista. Marcelo temeu por sua vida, julgou funcionar ali um centro clandestino de tortura e extermínio. Surpreendeu-se ao se deparar com uma cena bizarra: a mulher e os filhos pequenos de “Pudim” em torno da mesa preparada para o lanche. O preso ficou estarrecido ao ver o torturador como afetuoso pai e esposo...
Uma das áreas em que as pessoas mais se demitem do direito de pensar é a política. Em nome da ambição de galgar os degraus do poder, de manter uma função pública, de usufruir da amizade de poderosos, muitos abdicam do pensamento crítico, engolem a seco abusos de seus superiores, fazem vista grossa à corrupção, se abrem em sorrisos para quem, no íntimo, desprezam.
Essa a banalidade do mal. Muitas vezes ele resulta da omissão, não da transgressão. Quem cala consente. Ou do rigoroso cumprimento de ordens que, em última instância, violam a ética e os direitos humanos. 
Assim, o mal viceja graças ao caráter invertebrado de subalternos que, como Eichmann, julgam que não podem ser punidos pelo genocídio de 6 milhões de pessoas, pois apenas cuidavam de embarcá-las nos trens, sem que elas tivessem noção de que seriam levadas como gado ao matadouro das câmaras de gás.
Dois exemplos da grandiosidade do bem temos, hoje, em Edward Snowden, o jovem estadunidense de 29 anos que ousou denunciar a assombrosa máquina de espionagem do governo dos EUA, capaz de violar a privacidade de qualquer usuário da internet, e no soldado Bradley Manning, de 25, que divulgou para o WikiLeaks 700 mil documentos sigilosos sobre a atuação criminosa da Casa Branca nas guerras do Iraque e do Afeganistão. 
Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Fechando a semana - uma homenagem a um dos últimos mestres de nosso tempo

The months in Berlin made me a lifelong communist, or at least a man whose life would lose its nature and its significance without the political project to which he committed himself as a schoolboy, even though that project has demonstrably failed, and, as I now know, was bound to fail. The dream of the October Revolution is still there somewhere inside me, as deleted texts are still waiting to be recovered by experts, somewhere on the hard disks of computers. I have abandoned, nay, rejected it, but it has not been obliterated. To this day I notice myself treating the memory and tradition of the USSR with an indulgence and a tenderness which I do not feel towards communist China, because I belong to the generation for whom the October Revolution represented the hope of the world, as China never did. The Soviet Union's hammer and sickle symbolised it.

Interesting Times, Little Brown, 2002




Eric Hobsbawn em visita ao Brasil, Paraty(RJ), 1995

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Reflexão


Albert Einstein

"O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um Ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo - uma espécie de sentimento exaltado da mesma natureza que os laços do filho com o pai, um ser com quem também estabelecem relações pessoais, por respeitosas que sejam. Mas o sábio, bem convencido, da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da harmonia das leis da natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos."

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O poder é como água


 O poder é como água

1945. O Brasil inaugura a redemocratização. Hermes Lima, fundador da UDN, deputado constituinte, ex-presidente do STF, foi ao Nordeste conseguir apoio de democratas ilustres para fundar outro partido, o Partido Socialista Brasileiro. Em João Pessoa, procurou Luís de Oliveira :

- Luís, o socialismo é como aqueles gramados dos castelos da Inglaterra. Cada geração dá por eles um pouco de si. Um jardineiro planta, o filho cuida, o neto poda. E vai assim, de geração em geração, até que, um século depois, torna-se o que é.

- Doutor Hermes, me desculpe, mas não vou entrar não. Gosto muito do socialismo, mas vai demorar muito. Eu quero é o poder. E o poder é como água. A gente tem que beber na hora.

(Trecho de Sebastião Nery)

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Che — Carta de Despedida a Fidel



1965

Havana. “Ano da Agricultura”

Fidel

Neste momento lembro-me de muitas coisas – de quando o conheci na casa de María Antonia, quando me propôs juntar-me a você; de todas as tensões causadas pelos preparativos.

Um dia vieram me perguntar quem devia ser notificado em caso de morte, e a possibilidade real desse fato causou um impacto. Mais tarde, soubemos que era verdade, que numa revolução se vence ou se morre (se ela for autêntica).

Atualmente, tudo tem um tom menos dramático, porque somos mais maduros. Mas o fato se repete. Sinto que cumpri com a parte do meu dever que me prendia à revolução cubana em seu território e me despeço de você, dos camaradas, do seu povo, que agora é meu.

Renuncio formalmente a meus cargos no Partido, a meu posto de ministro, à minha patente de comandante e à minha cidadania cubana. Legalmente nada me vincula a Cuba, só laços de outra ordem que não se podem quebrar com nomeações.

Recordando minha vida passada, acho que trabalhei com suficiente integridade e dedicação para consolidar o triunfo revolucionário. Minha única deficiência grave foi não ter tido mais confiança em você desde os primeiros momentos na Sierra Maestra e não ter percebido com devida rapidez suas qualidades de líder revolucionário.

Vivi dias magníficos e, ao seu lado, senti o orgulho de pertencer ao nosso povo nos dias brilhantes, embora tristes, da crise caribenha. Raramente um estadista foi mais brilhante do que você naqueles dias, orgulho-me também de te ter seguido sem vacilar, me identificado com a tua maneira de pensar e de ver e apreciar os perigos e os princípios.

Outras serras do mundo requerem meus modestos esforços. Eu posso fazer aquilo que lhe é vedado devido à sua responsabilidade à frente de Cuba, e chegou a hora de nos separarmos.

Quero que se saiba que o faço com uma mescla de alegria e pena. Deixo aqui minhas mais puras esperanças de construtor e os meus entes mais queridos. E deixo um povo que me recebeu como filho. Isso fere uma parte do meu espírito. Carrego para novas frentes de batalha a fé que você me ensinou, o espírito revolucionário do meu povo, a sensação de estar cumprindo com o mais sagrado dos deveres: lutar contra o imperialismo onde quer que seja. Isso me consola e mais do que cura as feridas mais profundas.

Declaro uma vez mais que eximo Cuba de qualquer responsabilidade, a não ser aquela que provém do seu exemplo. Se minha hora final me encontrar debaixo de outros céus, meu último pensamento será para o povo e especialmente para ti, que te digo obrigado pelos teus ensinamentos e pelo teu exemplo, ao que tentarei ser fiel até ás últimas consequências dos meus atos; que estive sempre identificado com a politica externa da nossa revolução, e continuo a estar; que onde quer que me detenha sentirei a responsabilidade de ser revolucionário cubano, e como tal atuarei. Não lamento por nada deixar nada material para minha mulher e meus filhos. Estou feliz que seja assim. Nada peço para eles, pois o Estado os proverá com o suficiente para viverem e para terem instrução.

Teria muitas coisas que dizer a ti e ao nosso povo, mas sinto que não são necessárias as palavras e não podem expressar o que eu desejaria; não vale a pena deitar mais borrões no papel.

Hasta la victoria siempre! Patria o muerte!
Abraço-te com todo o meu fervor revolucionário.
Che

Texto original lido por Fidel Castro:



Carta del Che a Fidel Castro.
« Año de la Agricultura »
Habana, 1 abril 1965

Fidel:
Me recuerdo en esta hora de muchas cosas, de cuando te conocí en casa de María Antonia, de cuando me propusiste venir, de toda la tensión de los preparativos. Un día pasaron preguntando a quién se debía avisar en caso de muerte y la posibilidad real del hecho nos golpeó a todos. Después supimos que era cierto, que en una revolución se triunfa o se muere (si es verdadera). Muchos compañeros quedaron a lo largo del camino hacia la victoria.
Hoy todo tiene un tono menos dramático porque somos más maduros, pero el hecho se repite. Siento que he cumplido la parte de mi deber que me ataba a la Revolución cubana en su territorio y me despido de ti, de los compañeros, de tu pueblo que ya es mío.
Hago formal renuncia de mis cargos en la Dirección del Partido, de mi puesto de Ministro, de mi grado de Comandante, de mi condición de cubano. Nada legal me ata a Cuba, sólo lazos de otra clase que no se pueden romper como los nombramientos.
Haciendo un recuento de mi vida pasada creo haber trabajado con suficiente honradez y dedicación para consolidar el triunfo revolucionario.
Mi única falta de alguna gravedad es no haber confiado más en ti desde los primeros momentos de la Sierra Maestra y no haber comprendido con suficiente celeridad tus cualidades de conductor y de revolucionario.
He vivido días magníficos y sentí a tu lado el orgullo de pertenecer a nuestro pueblo en los días luminosos y tristes de la Crisis del Caribe.
Pocas veces brilló más alto un estadista que en esos días, me enorgullezco también de haberte seguido sin vacilaciones, identificado con tu manera de pensar y de ver y apreciar los peligros y los principios.
Otras tierras del mundo reclaman el concurso de mis modestos esfuerzos. Yo puedo hacer lo que te está negado por tu responsabilidad al frente de Cuba y llegó la hora de separarnos.
Sépase que lo hago con una mezcla de alegría y dolor, aquí dejo lo más puro de mis esperanzas de constructor y lo más querido entre mis seres queridos… y dejo un pueblo que me admitió como un hijo; eso lacera una parte de mi espíritu. En los nuevos campos de batalla llevaré la fe que me inculcaste, el espíritu revolucionario de mi pueblo, la sensación de cumplir con el más sagrado de los deberes; luchar contra el imperialismo dondequiera que esté; esto reconforta y cura con creces cualquier desgarradura.
Digo una vez más que libero a Cuba de cualquier responsabilidad, salvo la que emane de su ejemplo. Que si me llega la hora definitiva bajo otros cielos, mi último pensamiento será para este pueblo y especialmente para ti. Que te doy las gracias por tus enseñanzas y tu ejemplo al que trataré de ser fiel hasta las últimas consecuencias de mis actos. Que he estado identificado siempre con la política exterior de nuestra Revolución y lo sigo estando. Que en dondequiera que me pare sentiré la responsabilidad de ser revolucionario cubano, y como tal actuaré. Que no dejo a mis hijos y mi mujer nada material y no me apena: me alegra que así sea. Que no pido nada para ellos pues el Estado les dará lo suficiente para vivir y educarse.
Tendría muchas cosas que decirte a ti y a nuestro pueblo, pero siento que son innecesarias, las palabras no pueden expresar lo que yo quisiera, y no vale la pena emborronar cuartillas.
Hasta la victoria siempre.
¡Patria o Muerte!
Te abraza con todo fervor revolucionario.
“Che”

quarta-feira, 29 de abril de 2009

RESENHA CRÍTICA - A ordem do discurso

A aula inaugural de Foucalt ao assumir a cátedra no Collège de France, segundo seu posfácio, pode ser considerada como um texto de ligação entre três de suas obras anteriores: A História da loucura; As palavras e as coisas e A arqueologia do saber, todas focadas em analisar as possibilidades das ciências humanas e suas condições.

Um dos principais desafios de Foucalt, é provar que a verdade e o poder estão mutuamente interligados, através de práticas específicas e contextualizadas à produção do discurso, que por sua vez é regulado, selecionado, organizado e redistribuído, reunindo poderes e perigos em qualquer sociedade, existindo relações de classes que implicam em determinadas posições políticas que determinam o que pode e o que deve ser dito - principalmente no âmbito da política e da sexualidade – campos sociais onde o discurso é naturalmente mais controlado.

Uma coisa interessante é observar que, ao longo de sua análise, Foucalt demonstra que qualquer contato humano já contém uma relação de poder intrínseca pré-estabelecida. A partir do momento em que se é apresentado a alguém, por exemplo, imediatamente e mesmo antes de ser dito qualquer coisa entre essas duas pessoas, estabelece-se uma relação de poder entre elas, de forma subjetiva, que entra em variação, como pratos de uma balança, à medida que coisas diversas vão sendo ditas. Cada um reconhece no outro, um tipo de poder temporário ou não, em que o olhar, as palavras e até o que se está vestindo, tornam-se elementos nesta relação de poder relativo.

Em seu texto, Foucalt apresenta a hipótese de que a produção de um discurso pode ser controlada pelo número de procedimentos que dominam um acontecimento aleatório e apresenta para isso, três procedimentos de controle/exclusão que se notam na sociedade moderna: a interdição (os tabus, como a sexualidade), a separação (encontrada na relação razão x loucura, pois o discurso do "louco" não pode circular livremente, porque ou ele é nulo ou possui estranhos poderes) e a oposição verdadeiro/falso (o controle institucionalizado do discurso).

Em sua análise, ele lembra que durante o princípio da civilização ocidental, verdadeiro era o discurso que era proferido pelo "indivíduo habilitado", ou seja, a verdade era de quem tinha autoridade para proferí-la. A partir de Aristóteles, a verdade passa a ser aquela que pode ser comprovada por metodologias e raciocínios criados pelo próprio Aristóteles (a lógica e as regras de silogismo e argumentação), num debate dialético em forma de "investigação".

Ainda assim, aponta ele, ainda hoje existe por parte de diversas instituições a intenção de controlar a verdade. Para tanto, é interessante observar que a partir de uma visão fenomenológica dos fatos, apenas, a própria verdade torna-se uma construção de um discurso científico, ou seja, somente os pesquisadores passam a ser autorizados a "criar" a verdade independente do campo da ciência ou do objeto de pesquisa. Ou seja, apesar do fato em si, o controle sobre as teorias, meios de divulgação e a hegemonia da informação (somados à velocidade de hoje), nos impõem algumas "verdades". Nesse ponto, a mídia passa a ser responsável direta por isso (a manipulação da verdade do fato).

Indivíduos considerados loucos pela sociedade – justamente por não dizerem o esperado – expõem seu discurso, mas a palavra do louco não é ouvida, ainda que, quando escutada, possa ser tida como uma palavra de verdade. O louco, noção recente na história da humanidade, é aquele sujeito cujo discurso é impedido de circular como o dos outros. Como ele mesmo frisa, “não se tem o direito de dizer tudo, não se pode falar tudo em qualquer circunstância, qualquer um não pode falar de qualquer coisa ”. Por mais que o discurso aparente seja pouca coisa, as interdições que o atingem, revelam logo sua ligação com o desejo e o poder. Para tanto, surgem, mesmo à despeito da falta de definição, instituições que pretendem "controlar a loucura". Da mesma forma, as insituições passam a controlar a sexualidade e outras formas de manifestação humanas e para isso Foucalt dedica anos de sua vida, vindo a publicar os volumes de História da Sexualidade.

Foucault chama a atenção para "aspectos da verdade usados como forma de controlar e regular a sociedade". Ao conceituar poder e saber, ele foge das definições convencionais, onde o poder pode funcionar negativamente, distorcendo a verdade e com isso desafiando a dominação do poder opressor. Essa forma de “ameaça” se dá através do saber, que pode ser encarado como um contra-ataque aos males provocados por ele.

Por outro lado, é interessante observar como o mesmo saber tem sido instrumento de dominação, humilhação e distorções diversas das relações humanas. Ganha destaque, nesse contexto, o poder da educação, que ao mesmo tempo em que propicia, restringe o acesso ao discurso, pois ela nada mais é que uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação do mesmo e, consequentemente, dos seus saberes e poderes. Percebe-se que a veneração do discurso paradoxalmente o anula, em parte devido ao temor que ele suscita.

Foucault defende o questionamento da vontade de verdade, a restituição do caráter de acontecimento ao discurso e a suspensão da soberania do significante (mesmo que em uma filosofia da experiência originária). Deve-se encarar o discurso como prática descontínua, como uma violência que fazemos às coisas e, o que é pior, uma violência institucionalizada. O que tradicionalmente é considerado como fonte do discurso, deve ser encarado como um jogo negativo de rarefação dele. Para tanto, Foucault aponta dois estudos a serem realizados: o conjunto crítico, responsável por analisar os processos de rarefação, reagrupamento e unificação dos discursos; e o conjunto genealógico, que analisa a formação de séries de discursos a partir da sua interação com os sistemas de coerção (os que induzem, pressionam ou compelem alguém a fazer algo pela força), existentes nas mais variadas relações entre indivíduos e instituições.


FOUCALT, Michel. A ordem do discurso, Loyola, 15ª ed, Paris, 2007.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A ética prescinde qualquer valor

O que faz alguém gostar ou não de política? Conversando hoje sobre o tema com uma nova amiga e colega de profissão (que vem sofrendo diversas pressões inerentes à atividade de assessoramento de imprensa à políticos), pensava em como é difícil fazer as pessoas compreenderem a diferença de se ter um ideal, de fazer política por esse ideal (que, no meu caso, compreende um conjunto enorme de idéias, claro) e o exercício de participar da política com o único propósito de fortalecer um político para depois se beneficiar da estrutura construída por ele. Por outro lado, refleti, esse raciocínio não é muito diferente do perfil de militância que temos hoje em todos os partidos, não importando a cor da bandeira. É uma distorção óbvia do que tínhamos antes, mas é inegável. Só não vê quem não quer.

De um lado, nós que nascemos com essa "sina", nos inspiramos nas lutas de antecessores diversos, desde Zumbi à Tiradentes, Olga Benário, Antonio Conselheiro, Mariguella... uma indescritível energia (muitas vezes utópica, eu sei) nos impulsiona a acreditar que podemos, aos poucos, mudar a ordem das coisas, do capital que torna 30% da população mundial em afortunados (incluindo nós, é, eu e você) e o restante transita entre as faixas da miséria e da pobreza. Discípulos que somos de Sócrates, moldados pelo gosto à política, negamos a velha ordem. É uma convicção indelével e eu acredito piamente que se nasce assim, incapaz de ser indiferente. Até por isso, milito em partido mas nunca fiz propaganda de filiação para as pessoas que me conhecem. Aliás, ainda acho que vamos encontrar uma alternativa democrática mais soberana, justa e participativa (sim, sou fã do Comparato e também tento imaginar como seria uma sociedade sem Estado).

De outro lado, num paradoxo entre o discurso e a prática, há pessoas que se entregam com a mesma paixão à construção de um projeto individualista, em busca de circunstâncias que lhe sejam favoráveis ou a seu grupo. O resultado é o abandono total, por alguns políticos, de todos os ideais que existiam no início de sua história, o abandono das utopias (como bem ilustra Eduardo Galeano) e a lenta e total entrega às seduções do poder, se ocupando inclusive dos espaços públicos de forma personalística. E o melhor, encontram terreno fértil também em função do desânimo generalizado dos eleitores que, cansados da dureza diária na vida moderna, não têm tempo ou ânimo para observar o que fazem seus "representantes".

No entanto, acredito que erradicar a pobreza e a miséria e lutar pela redução das desigualdades, ou seja, sob a bandeira socialista, são tarefas imprescindíveis para a construção de um mundo mais justo. E isto, vide a crise econômica mundial, dispensa ideologias, é hoje uma necessidade para sobrevivência da raça humana. Quem imaginaria ver americanos de classe média dormindo em barracas, espalhados por acampamentos à perder de vista? Sim, é preciso fazer a crítica ao modelo econômico que perdura desde a ditadura, à concentração de renda, ao barateamento da mão-de-obra, à verticalização do processo produtivo (apregoada por Henry Ford), ao desenvolvimentismo que achata camadas da sociedade, incapazes de se encaixar em qualquer fatia do modelo, tornando-se o que Marx descrevia como lupen.

A questão é: qual o limite entre o cinismo e o destempero? Diante dos últimos acontecimentos (farra das passagens e bate-boca no STF), pensei em como é difícil também, encontrar o tom certo para defesa desses mesmos ideais, sem ultrapassar a linha do equilíbrio que precisa haver nas relações humanas. Não importa de qual camada isso venha, o fato é que nossa condição humana, já é precedente para os excessos. Sim, existe o "jogo de cintura" cínico que se utiliza de argumentos estéticos para suplantar a ética. Mas também existe, nas palavras de Frei Betto, o militante que "sonha em construir o mundo novo adotando comportamentos típicos do homem velho: a ira, a inveja, a sede de vingança, o autoritarismo". E, em outras esferas, onde se exige um mínimo de compostura, a ferramenta utilizada com frequência nas disputas por espaços de poder, é a vaidade.

Foi Tomás de Aquino quem disse que "uma revolução é justificável quando fecham-se todas as vias institucionais e manter a tirania é mais insuportável que o risco de a enfrentar por derrubada". Infelizmente (porque talvez essa fosse mesmo a solução), esse não é o momento para isso. Vivemos a era da comunicação (mais que informação) e neste momento, o que mais vale é a própria comunicação, o contato, além de qualquer bem material: o líder hoje deve ser a expressão de uma cultura. Por isso, acho que estamos mesmo carentes de líderes...

O bate-boca, segundo O Estadão, foi o mais grave reflexo da insatisfação que corre solta nos corredores do STF e do CNJ onde integrantes usam adjetivos como "brucutu", "exibido", "grosseiro" para se referir à Gilmar Mendes. Numa casa parlamentarista, um ministro age com postura presidencialista, como "estrela", daí o clima de descontentamento que deixou o tribunal suscetível à críticas de todos os lados. Mais do que isso, tenho uma pessoa bem próxima na família, que já esteve trabalhando em Diamantino onde o referido ministro, de fato, tem capangas (juntamente com seu irmão, pistoleiro famoso na região) e onde, de fato, não existe lei. Mas o ministro Joaquim Barbosa, alçado ao posto de pop star pela mídia (até, pasmem, pelo JN que fez uma edição sem cortes), também perdeu o limite saindo do campo das idéias e partindo para o campo pessoal. Nas relações políticas que estabelecemos todos os dias com as pessoas, até na hora do cafezinho, é importante diferenciar as duas coisas (eu, confesso, bem sei como isso é difícil). Para dois ministros da mais alta Côrte do país, isso é obrigação. O ministro Joaquim já cometeu excessos em outros momentos, como quando chamou o ministro Eros Grau de "velho caquético" e foi alvo da mídia com o boletim de ocorrência de sua ex-mulher que o acusou de agressão física. Sinceramente não acho que, dizer o que disse, da forma que disse, é a melhor maneira de resolver a questão. O tom vaidoso em debates políticos em geral, transforma-se em proselitismo em causa própria, onde um lado sempre quer ser mais puro e destituído de pecados que o outro. Cito apenas, com elogio, a postura de Gabeira que, na farra das passagens, abriu mão do discurso para apenas admitir que errou. Simples, objetivo e ético.

Com os exemplos que temos, não é difícil entender porque a população não quer saber de política. A própria Soninha no quadro "Fala na Cara" do CQC admite, a partir de sua própria experiência como vereadora, que 70% funciona na mesma lógica de favorecimentos. Ou seja, a corrupção já é mesmo institucionalizada e generalizada. Daí, sobram os que fazem parte desse ou daquele grupo e que, com êxito, passam a ocupar espaços de trabalho em cargos que servem não à instituição em que trabalham e, muito menos, ao cidadão, mas sim ao interesse da correlação de forças de que fazem parte. Neste contexto, muitos órgãos públicos funcionam como meras extensões dos escritórios políticos e tornam-se estrutura para a continuidade do projeto eleitoreiro. Dessa forma, ou se odeia a política com todas as forças (e, portanto, torna-se vítima das decisões que vêm dela), ou se faz política para obter benesses e vantagens pessoais. É a lógica dos "tempos modernos". Na outra ponta, os que fazem política por ideal, são os "ultrapassados", os que "não avançaram no tempo". Aliás, sempre que penso nisso, me sinto recém-saída do Jurassic Park...

Acho que gostar de política é gostar de participar, de estar presente, de ser parte da história, como protagonista e não coadjuvante dela. Eu abraço as idéias em que acredito todos os dias, em cada coisa que faço. Posso abrir mão de algumas ao longo do tempo, após reflexão, amadurecimento. Até porque é possível mudar de opinião mantendo um eixo de coerência. E, mais, eu faço questão de ser co-responsável pelo que me acontece, seja bom ou ruim, eu não sou vítima, eu sou parte integrante do processo. Se eu eleger um bandido e só notar isso depois, posso não permitir isso novamente. Enquanto esse for o modelo que tivermos, democrático representativo, é necessário preservar as instituições que garantem que ele continue funcionando porque muitos morreram nesse processo de alcançar o que temos agora. Essa epidêmica alienação nunca fez parte da minha vida, mas sou, infelizmente, atingida por ela. Seja pelos indiferentes, seja pelos oportunistas. Como tais coisas se enraizam em nossa cultura, a resistência é diária e a posição é de desvantagem.

Mas, queria dizer pra essa pessoa que conheço há muito tempo virtualmente, mas só hoje conheci pessoalmente, que me anima muito saber que mesmo alguém que não possui formação alguma em qualquer cânone, é capaz de escolher, voluntariamente o lado mais ético e resistir. E, mesmo trabalhando em uma estrutura em que lida, diariamente, com forças que tentam cooptar sua dignidade em prol de projetos que nada têm a ver com seus princípios, consegue provar que a ética prescinde qualquer valor. Sem saber, ela faz política todos os dias. A boa política, claro.

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Juliana Medeiros é jornalista e atua em comunicação institucional pública.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Alguma semelhança com os dias de hoje?

"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que serão nacionalizados pelo Estado."



Karl Marx (Das Kapital) 1867

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Lançamento de Excessos e Exceções no Café com Letras


No dia 06 de novembro, quinta-feira, a partir das 20h, o filósofo Hilan Bensusan estará no Café com Letras autografando seu último trabalho: Excessos e Exceções – Por uma ontologia sem cabimento.

Bensusan é brasiliense e o primeiro filósofo da cidade a lançar um livro em nível nacional. Professor, trabalha no Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília (UnB) e há muito tempo investiga e escreve sobre pensamento, experiências, singularidades, multiplicidades e ontologias não-convencionais. Neste ensaio, ele faz uma crítica ao esforço – ou à lógica inerente a ele – de trazer singularidades ao pensamento, o que evoca uma grande quantidade de questões em filosofia. Baseado em estudos de filósofos como Davidson, Deleuze, Evans, Foucault e McDowell, o autor desenvolve uma perspectiva histórica das tradições contemporâneas em filosofia que raramente são consideradas simultaneamente e procura com isso encontrar recursos para lidar com as muitas faces de como o pensamento pode ficar indiferente à singularidade. O livro é composto por capítulos que se entrelaçam como um mosaico e que apresentam a questão de maneiras diferentes.

O Café com Letras tem a honra em receber o autor Hilan Bensusan para esse lançamento e convida a todos para a experiência única em participar desta noite especial.


Serviço:

Noite de autógrafos com Hilan Bensusan
Excessos e Exceções – Por uma ontologia sem cabimento, Idéias & Letras, 368 pg., R$ 40.
Local: Café com Letras, SCLS 203 sul bloco C loja 19 – Asa Sul.
Data: 06 de novembro, quinta-feira.
Horário: a partir das 20h.
Entrada franca.

Maiores Informações:
(61) 3322-4070 / 3322-5070

Informações para a Imprensa:
Juliana Medeiros
(61) 8135-0046 / 9999-8843

terça-feira, 16 de setembro de 2008

LANÇAMENTO DE VLADIMIR SAFATLE NO CAFÉ COM LETRAS

No dia 02 de outubro, quinta-feira, o filósofo Vladimir Safatle estará no Café com Letras autografando seu último trabalho: Cinismo e falência da crítica.

Safatle faz em seu ensaio uma crítica ao cinismo ou à lógica inerente a ele em pauta no capitalismo contemporâneo e que não tem sido problematizado nos últimos tempos. Baseado em estudos de Adorno, Freud, Hegel, Foucault e outros pensadores, o autor desenvolve uma perspectiva histórica do cinismo, desde os cínicos gregos que negavam a polis e desejavam a physis. Este cinismo hoje como base das regulações das formas de vida, como anomalia aceita como padrão, que culmina no que Vladimir Safatle chama de “ironização absoluta de condutas e valores”. Ele inclui também elementos da cultura brasileira, lembrando que se o carnaval propõe a inversão da norma, ao final esta mesma norma se recoloca sem conflitos com aceitação generalizada. O carnaval é, portanto, a hora do recreio, patrocinado pelo Estado a título de financiamento às suas incompetências, como todo tipo de “riso crítico”.

Vladimir Safatle é professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), bolsista de produtividade do CNPq e professor-visitante da Universidade de Paris. Lacaniano, é autor de vários livros, dentre eles A paixão do negativo, Sobre arte e psicanálise (este em parceira com Tânia Rivera) e Um limite tenso (lançado no Café com Letras em 2003). É ainda responsável por pesquisas do CAEPM (Centro de Altos Estudos em Propaganda e Marketing).
Serviço:

Noite de autógrafos com Vladimir Safatle
Cinismo e Falência da Crítica, Boitempo Editorial, 216 pg., R$ 36.
Local: Café com Letras, SCLS 203 sul bloco C loja 19 – Asa Sul.
Data: 02 de outubro, quinta-feira.
Horário: a partir das 19h30.
Entrada franca.

Maiores Informações:
cafe.letras@gmail.com
(61) 3322-4070 / 3322-5070

Informações para a Imprensa:
Juliana Medeiros
(61) 8135-0046 / 9999-8843
julianams.webjornal@gmail.com

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Allende: "A História é nossa e a fazem os povos"

No dia 11 de setembro de 1973, o presidente do Chile, Salvador Allende, foi assassinado na sede do governo, durante o golpe de Estado liderado pelo general Augusto Pinochet, com apoio declarado do governo dos Estados Unidos. Em seu discurso derradeiro, Allende pede ao povo chileno que aproveite a lição: "o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição".
Redação - Carta Maior


Discurso do Presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, dia do golpe de Estado que derrubou o governo da Unidade Popular e implantou a sanguinária ditadura militar comandada pelo general Pinochet:

"Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês? A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição."

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Isn´t - Reflexões acerca da Cultura Contemporânea

Cheguei agora há pouco do FIC - Festival Internacional de Cinema de Brasília, onde assisti à uma mostra de curtas, "Cada um com seu cinema", com filmes de países que vão desde o Kamboja à França, Itália, Bolívia... muito bom mesmo. Mas, me chamou a atenção um filme italiano em que um cinéfilo narra sua conversa com o filho tentando demovê-lo da idéia de assistir Matrix para ver um "Felini" ou algo do gênero. O que acontece é que, a partir de alguns "rótulos", as pessoas tendem a achar que qualquer filme "comercial" é ruim. Acho que a coisa não é bem por aí. Eu já vi Matrix (mais de uma vez), todos, apesar de preferir o primeiro. Agora parece piegas, mas quando ele foi lançado, representava uma revolução na maneira de fazer filmes "blockbuster". Matrix foi pensado.

Seu roteiro foi inspirado num livro de J. Baudrillad que versa sobre conceitos abstratos e subjetivos, como "virtual x real", o "caos", o "fim". Ele teoriza sobre a possibilidade de que tudo que estamos vivendo não é real, mas um produto de um software (programa de computador). O real, portanto, segundo Baudrillad seria apenas uma simulação. Isto, tomando o mundo tal como ele é como exemplo, já que não existe quase nada hoje que não tenha sido manipulado de alguma forma pelo homem. Mesmo as florestas em seu estado natural, sofrem as consequências do impacto da nossa presença no planeta. Nosso corpo vem sendo modificado pela ciência na forma de cirurgias plásticas, alimentação e pesquisas genéticas principalmente. Até a morte, ou a tentativa de dribá-la, vem sendo buscada com as pesquisas criogênicas.

Como diz o próprio autor: "não há necessidade de um sujeito do pensamento, de um sujeito da ação, tudo se passa pelo viés de mediações tecnológicas". No mundo "virtual", então, o importante é a informação, os cálculos. A computação do que seria "real", vai tornando o real secundário.

Esses conceitos, na verdade, são também analisados sob a ótica da cultura de massa, do processo pelo qual estamos sendo cada vez mais absorvidos por nossa própria cultura, deixando de perceber quem somos realmente, sem essas "máscaras" de virtualidade. Nossos hábitos, nosso comportamento, nossos valores, são na verdade reflexos da "cultura contemporânea". Quem seríamos nós por trás de tudo isso?

Outra questão importante é o conceito de "fim", ou seja, para onde caminha nossa cultura, a humanidade que ainda existe em nós, dentro de um mundo que valoriza cada vez mais os avanços tecnológicos em detrimento das próprias relações humanas? De certa forma, o filme retrata bem isso no papel do Neal que tem a tarefa de "salvar o mundo real". Por outro lado, alguns personagens confessam preferir o mundo "virtual" com suas "ilusões" de imagens, cores e sabores - numa alusão ao individualismo típico do mundo capitalista.

Conforme Baudrillad, vivemos um momento autofágico em que acabaremos por consumir a nós mesmos. Isso me lembra também que os estudos de Marx sobre o capital, séculos atrás, também previam a falência do modelo capitalista com essa mesma "autofagia". Hoje, estudos científicos já provam que o avanço tecnológico e da predação humana sobre o planeta já é mais veloz que a capacidade da natureza de se recuperar. Mas, segundo Baudrillad, não haveria um término e sim uma "transformação". Para ele "já ultrapassamos o ponto de irreversibilidade", em que tudo se desenvolverá no "vazio", no "infinito".

No limite, antes que tenhamos tempo de perceber qual o propósito da existência humana - dúvida maior de toda a filosofia - perderemos a finalidade de ser. O fim da humanidade seria assim, a "imortalidade virtual", sem que tenhamos conseguido até lá desvendar os mistérios da vida real, da realidade da nossa existência.

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Juliana de Souza

P.S.: inspirado numa pessoa com quem convivi nos últimos seis meses. Inteligente, surpreendente e com humor refinado. Um mestre sem recalques, nem vaidades mesquinhas. Que faz questão de dividir seu conhecimento.... é professor, você está em extinção.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Materialismo Dialético

Em homenagem aos colegas do Curso de Comunicação da Euro, segue uma definição breve (aviso aos puristas de plantão: sim, esta não é a melhor definição atualmente, mas é a q primeiro foi elaborada):

Materialismo Dialético

Em 1848 o método de análise da sociedade sofreu uma transformação radical a partir da construção de uma nova ferramenta, até nossos dias insuperada: O Materialismo Dialético.

“Por burguesia compreende-se a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social, que empregam o trabalho assalariado. Por proletariado compreende-se a classe dos trabalhadores assalariados modernos que, privados de meios de produção próprios, se vêem obrigados a vender sua força de trabalho para poder existir.” (Nota de F. Engels à edição inglesa de 1888)

Leia mais em: http://www.culturabrasil.org/manifestocomunista.htm

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Semiótica e semiologia

Winfried Nöth, professor de lingüística e semiótica, autor de "Semiótica e semiologia: os conceitos e as tradições", descreve em seu texto as várias filosofias e teorias que permeiam os conceitos de semiótica e semiologia. Inicialmente, discorre sobre suas origens, desde a antiguidade, quando os filósofos gregos tentavam teorizar sobre o conhecimento e sua influência nas relações humanas. Posteriormente, analisa seu desenvolvimento através da Idade Média, da Renascença e da época contemporânea.

Os termos semiótica e semiologia vêm sendo discutidos ao longo dos tempos dentro dos vários campos da ciência e suas definições ora tem descrições similares, ora são antagônicas. Diversas variações terminológicas surgiram a partir destes dois primeiros mas a maioria caiu em desuso.

Os dois termos têm a mesma raiz: as palavras gregas semeîon, (signo), e sema, (sinal). Porém, convencionou-se — internacionalmente — utilizar atualmente apenas o termo semiótica como definição para o estudo dos signos e sistemas sígnicos.

Na antiguidade, o diagnóstico médico era descrito como “a parte semiótica” da medicina donde se lia o estudo dos sintomas. Posteriormente, o termo surge como teoria geral dos signos evoluindo daí para uma ciência do conhecimento da natureza humana, denominada como semiótica moralis. Mais tarde colocada como um dos três grandes ramos de estudo do conhecimento humano (ao lado da física e da ética), começa a se definir como a ciência que viria a ser adotada como objeto de estudo dos psicoterapeutas e estudiosos do comportamento humano. Locke enfoca como signo mais importante as palavras.

No século XX, o conceito de semiologia surge novamente a partir da obra de Saussure. O fundador do estruturalismo lingüístico define a semiologia como uma nova e futura ciência geral da comunicação humana. Neste espírito, a semiologia começou a se estabelecer a partir dos anos 40 e 50 com uma fama crescente na França, no resto da Europa e na América Latina.

Em outros países a semiótica continuava o seu desenvolvimento de forma independente sob outras influências tais como a semiótica da informática e a da cibernética. Um argumento de purismo lingüístico, era de que o conceito de semiologia é uma melhor tradução do termo inglês semiotics para as línguas romanas e, por isso, seria preferível ao termo semiótica. Porém, a partir do início do século XXI, as distinções entre semiótica e semiologia tornaram-se coisas do passado. A semiótica internacional se desenvolveu sem as restrições propostas por aqueles que acharam uma divisão entre semiótica e semiologia necessárias. No Brasil, por exemplo, há programas de estudos semióticos, mas não de estudos semiológicos. Porém, o progresso da pesquisa feito sob o nome de semiótica não invalida aqueles feitos em décadas anteriores sob o nome de semiologia.

sexta-feira, 28 de abril de 2006

Os últimos dias de Gramsci

Em 27 de abril de 1937 morria o grande pensador Antonio Gramsci. Uma justa e pequena homenagem ao filosófo e militante político, fundador do Partido Comunista Italiano, seria publicar algo que o fizesse ser relembrado pelos mais jovens e, também, pelos mais velhos.

Os últimos dias de Gramsci

Luciano Barca

Roma, fevereiro-março de 1937. Um telefonema de papai nos autorizou a ver mamãe na Clínica Quisisana, onde tinha sido operada na vesícula biliar. A Quisisana é uma das clínicas mais caras, mas papai, que tinha passado por uma dura experiência na Policlínica, quis que mamãe fosse operada pelo Dr. Puccinelli e a recuperação naquela clínica era obrigatória. Logo nos surpreende, chegando a pé, o fato de que a clínica esteja rodeada de guaritas com carabineiros e também que três ou quatro agentes à paisana, os quais não fazem nada para se disfarçarem, estejam parados na entrada. Uma vez que a nossa casa dá para a Via Salaria, constantemente vigiada por carabineiros que são reforçados por agentes à paisana nos dias em que Mussolini se dirige à Vila Savóia, logo pensamos que na clínica está internada alguma alta autoridade. Mas a ansiedade em relação a mamãe nos faz imediatamente deixar de lado o problema. A operação correu bem, embora mamãe sofra muito e esteja com raiva porque Puccinelli, logo depois da operação, desapareceu e não mais se fez presente. Além do mais, ela não gosta muito das freiras: só se converteu ao catolicismo para contentar papai, mas, de fato, continuou sendo uma protestante cheia de suspeitas.

No segundo ou terceiro dia (já tínhamos assumido nós, os três irmãos mais velhos, o turno de acompanhantes das tardes), um certo movimento dos agentes, exatamente na entrada do primeiro andar em que mamãe está internada, nos traz de novo o problema e, quando vem a freira colocar o termômetro em mamãe, pergunto-lhe o porquê de toda aquela vigilância: balança a cabeça na direção do fim do corredor e diz: “Porque lá está internado um subversivo, mas é melhor não falar disso”. Um subversivo? Inutilmente, quando papai aparece, tentamos fazer com que nos diga quem é e por que o chamam de subversivo. “É melhor não se ocupar com estas coisas.” Mamãe é quem, no dia seguinte, depois de ter feito a freira falar, nos informou que é um líder comunista, saído da prisão, muito doente: Antonio Gramsci. E será ainda mamãe quem compreende nossa curiosidade e permite que, a partir daquele momento, um de nós três monte guarda no corredor, na esperança de vê-lo. Várias vezes, de fato, fomos até a porta dele, mas sem conseguir ver nada. No dia seguinte, é Silvano quem dá o alarme a mim e a Liliana: “Saiu do quarto”. Quem passa ao nosso lado, sem dar mostras de nos ver, é um homem baixo, despenteado, com o corpo deformado por duas corcovas. Caminha lentamente, quase se deixando guiar por um dedo que desliza na parede diante das portas dos quartos e que só abandona nas imediações da reentrância que dá acesso à capela. Chega até o fim do longo corredor, depois vira e retorna. Enquanto isso, nós nos movemos até o seu quarto, incapazes de ocultar a nossa deslavada curiosidade e também um pouco de emoção. E, desta vez, não nos ignora. Antes de entrar no quarto, nos observa e nos sorri.

Nota.

Quando, pouco tempo depois, duas linhas de Il Messaggero - do qual, na ausência de livros, lia até os anúncios econômicos - deram a notícia da morte de Antonio Gramsci na Quisisana, minha mãe acusou os médicos, e um em particular - aquele que a havia operado -, de ter deixado Gramsci morrer sem cuidados adequados. Procurei evitar que a questão se tornasse motivo de briga com meu pai, até porque estava convencido de que as responsabilidades cabiam a outros. Mas minha mãe jamais renunciou às suas convicções.

Nota de 1957.

Uma vez, quando Mario Montagnana [dirigente do PCI] me falava de Gramsci, disse-lhe que o tinha visto não muito tempo antes da morte. Mario quis então - estávamos em 1947 ou 1948 - que eu escrevesse sobre aquela visita à Clínica Quisisana em L’Unità. O artigo foi publicado abrindo a página de cultura e suscitou a curiosidade deTogliatti, que me fez perguntas sobre detalhes que infelizmente nãotinha registrado na minha memória. As duas irmãs Schucht [Giulia eEugenia], quando fui visitá-las, com Alfredo Reichlin, em Moscou, em1956, quiseram que repetisse várias vezes a narrativa, ao mesmo tempo que, quase competindo uma com a outra, nos mostravam alguns objetos recuperados do cárcere e do hospital.

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Luciano Barca, respeitado economista italiano, escreveu este precioso depoimento sobre Antonio Gramsci, então internado na Clínica Quisisana, em Roma, na condição de preso sob liberdade condicional, obtida em 1934<http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=123> . O depoimento está no volume autobiográfico "Buscando per mare con la X Mas" (Roma, Ed.Riuniti, 2002), baseado na participação de Luciano Barca na Marinha italiana, durante a II Guerra Mundial, e na consolidação da consciência antifascista que logo depois o levaria a ingressar no antigo PCI.

Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil

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