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sábado, 10 de dezembro de 2011

Mensagem da América Latina ao mundo árabe


Fonte: Do Exílio

Dilma Roussef aos 22 anos


Olhem bem essa foto de 1970.

Essa moça de 22 anos está diante de um bando de inquisidores subtropicais, para ser interrogada.

Foi torturada com choques elétricos e sofreu simulação de afogamento – práticas que, para Dick Cheney, são apenas “interrogatório estimulado” – durante 22 dias.

E não cedeu.

Hoje, essa mulher, Dilma Rousseff, é presidenta do Brasil – aquele perene “país do futuro”, a 7ª maior economia do mundo (à frente de Grã-Bretanha, França e Itália), país-membro dos BRICS, mestre de um soft power que vai além da música, do futebol e da alegria de viver.

Essa foto acaba de ser divulgada, como parte de uma biografia de Rousseff, exatamente quando o Brasil afinal cria uma Comissão da Verdade, para saber o que realmente aconteceu durante a ditadura militar (1964-1985). A Argentina já fez esse trabalho, bem antes do Brasil – julgando e punindo os inquisidores de uniforme sobreviventes.

Esse sábado, Rousseff estará em Buenos Aires, para a cerimônia de posse de Cristina Kirchner, reeleita presidenta da Argentina. Esses dois países chaves da América do Sul têm mulheres na presidência. Contem lá àquele Tantawi da junta que governa o Egito – ou àqueles exemplares paradigmáticos de democracia da Casa de Saud.

Essas coisas demoram...

Os egípcios talvez não saibam que os brasileiros tiveram de esperar 21 anos para livrarem-se de uma ditadura militar. Equivalentes de Dilma, a que não quebra e que se vê na foto dos anos 1970s, hoje da geração Google, estão lutando por melhor democracia, do Cairo a Manama, de Aleppo ao leste da Arábia Saudita.

Liberdade é o nome que se dá ao que resta quando já nada se tem a perder – além de tempo, muito tempo. No Brasil, uma verdadeira democracia estava começando a avançar, quando, em 1964, foi esmagada por um golpe militar ativamente supervisionado por Washington. O coma durou duas longas décadas.

Então, nos anos 1980s, os militares decidiram dar um pequeno passo, numa transição em ritmo de lesma, “lenta, gradual e segura” (segura para eles mesmo, claro) na direção de alguma democracia. Mas foi a rua – ao estilo da Praça Tahrir – que finalmente fez a coisa andar adiante.

O fortalecimento das instituições democráticas demorou mais uma década – e incluiu impeachment, por corrupção, de um presidente eleito. E passaram mais oito anos, para que um presidente eleito – o presidente Lula, imensamente popular, que Obama reverenciou como “o cara” – abrisse o caminho para Dilma Roussef.

A estrada foi longa, até que um dos países mais desiguais do mundo – governado por séculos por uma elite arrogante e corrupta, que só tinha olhos para o Norte rico – afinal consagrasse a luta pela inclusão social como questão essencial da política nacional.

O progresso no Brasil foi semelhante ao de várias outras partes da América do Sul.

Semana passada alcançou-se um clímax parcial, quando a nova Comunidade dos Estados Latino-americanos e do Caribe (conhecida pela sigla CELAC, em espanhol), reuniu-se em Caracas. A CELAC começou como ideia luminosa ante a emergência – num novo sistema-mundo, como diria Immanuel Wallerstein – de uma nação latino-americana integrada, baseada na justiça, no desenvolvimento sustentável e na igualdade. Dois homens foram essencialmente importantes nesse processo: o presidente Lula do Brasil e o presidente Hugo Chavez da Venezuela. A visão desses dois convenceu todos, do presidente Pepe Mugica do Uruguai, ex-guerrilheiro, ao presidente do Chile, Sebastian Piñera, banqueiro.

Assim, hoje, em meio à crise agônica que consome o Norte Atlanticista, a América Latina surge como possibilidade de uma verdadeira ‘terceira via’ (que nada tem a ver com o que Tony Blair inventou).

Enquanto a Europa – onde o Deus Mercado governa – constrói meios para miserabilizar cada vez os povos europeus, a América Latina acelera no seu impulso rumo a inclusão social cada vez mais ampla.

E, enquanto virtualmente todas as latitudes, do Norte da África ao Oriente Médio sonham com democracia, a América Latina pode, realmente exibir os frutos, duramente buscados, de suas conquistas democráticas.

Não percam o foco, não esperem presentes caídos do céu.

A CELAC é aposta poderosa nas possibilidades do diálogo sul-sul. Será dirigida, nesse estágio inicial, por Chile, Cuba e Venezuela.

Pepe Mugica, presidente do Uruguai e ex-líder dos guerrilheiros Tupamaro, disse, muito claramente em Caracas, que a estrada, até que se alcance o sonho da integração latino-americana não será um mar de rosas. Inúmeras batalhas ideológicas ainda terão de ser lutadas, antes que tome forma algum projeto político e econômico amplo.

A CELAC complementa a UNASUR – União Latino-americana – que o Brasil domina. A UNASUR também está começando; por hora, é, essencialmente, um fórum.

E há também o MERCOSUL – mercado comum de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, ao qual, em breve, a Venezuela também se integrará. Em Caracas, Dilma e Cristina selaram a futura integração com Chavez.

O principal parceiro comercial do Brasil é a China; antes, foram os EUA. Em breve, a Argentina alcançará a posição de segundo principal parceiro comercial do Brasil – deixando os EUA para trás. O comércio dentro do MERCOSUL está crescendo rapidamente – e mais ainda crescerá com a incorporação da Venezuela.

Não que faltem obstáculos no caminho da integração. O Chile prefere acordos bilaterais. O México olha, sempre antes, para o norte – por causa do NAFTA. E a América Central está convertida em virtual satrapia dos EUA, por causa do CAFTA.

Mesmo assim, a UNASUR acaba de aprovar projeto estratégico crucialmente importante em termos geopolíticos: uma rede de 10 mil quilômetros de fibra ótica, administrada por empresas estatais locais, para livrar-se da dependência dos EUA.

Atualmente, nada menos que 80% do tráfego internacional de dados na América Latina viajam pelos cabos submarinos até Miami e a Califórnia – duas vezes a porcentagem da Ásia e quatro vezes a da Europa.

As taxas cobradas pela Internet na América Latina são três vezes mais caras que nos EUA. Nessas condições, é difícil falar de soberania e integração.

Washington – que exporta três vezes mais para a América Latina que para a China – está e terá de continuar focada em outros pontos: na Ásia, continente ao qual o governo Obama tanto se empenha para vender a agenda do “Século do Pacífico”.

A verdade é que Washington – como as várias direitas latino-americanas – nada tem a propor aos povos da América Latina, nem em termos políticos nem em termos econômicos. Portanto, cabe aos latino-americanos aperfeiçoar suas democracias, fazer avançar a integração regional e construir modelos de democracia social que se possam apresentar como alternativas ao velho neoliberalismo hardcore.

Por um desses truques do Anjo da História, de Walter Benjamin, talvez seja hora, agora, de os latino-americanos partilharem sua experiência com os irmãos e irmãs do Oriente Médio, no sul global.

Que a estrada é longa, é. Começa com uma moça de 22 anos, que não baixou a cabeça frente à ditadura e aos ditadores. E é caminho adiante, sem volta.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Aos 19, 20 anos, achava que eu estava salvando o mundo

Da Folha de São Paulo

Dilma diz não ter a mesma cabeça da época em que era guerrilheira, mas se orgulha de não ter mudado de lado, e sim de métodos


FERNANDA ODILLA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA


UMA DAS três sentenças de prisão de Dilma Rousseff, de 1971, a descreve como a inimiga que "jamais esmoreceu" desde que ingressou na luta armada contra o regime instalado pelo golpe de 31 de março de 1964 e dissolvido 21 anos depois.

Leia a entrevista da ministra sobre a vida na clandestinidade durante a ditadura.

FOLHA - A sra. se lembra dos planos para sequestrar Delfim e montar fábrica de explosivos?
DILMA ROUSSEFF
- Ah, pelo amor de Deus. Nenhuma das duas eu lembro. Nunca ninguém do Exército, da Marinha e da Aeronáutica me perguntou isso. Não sabia disso. Acho que não era o que a gente [queria], não era essa a posição da VAR.

FOLHA - A sra. logo percebeu que a clandestinidade seria o caminho natural?
DILMA
- Percebi. Todo mundo achava que podia haver no Brasil algo muito terrível. O receio de que um dia eles amanheceriam e começariam a matar era muito forte. Sou bem velha, comecei em 1964. Com o passar do tempo, o Brasil foi se fechando, as coisas foram ficando cada vez mais qualificadas como subversivas. Era subversivo até uma música, uma peça de teatro, qualquer manifestação de rua. Discutir reforma universitária era subversivíssimo. Coisas absolutamente triviais hoje eram muito subversivas.

FOLHA - Foi escolha da sra. o trabalho no setor de mobilização urbana?
DILMA
- Qual era a outra alternativa?

FOLHA - Havia a expropriação.
DILMA
- Disso eu nunca quis ser. Nós não achávamos isso grande coisa. A partir de um determinado momento houve uma visão crítica disso, do que a gente chamava militarismo. É muito difícil falar isso porque as pessoas ficam achando que a gente está limpando a barra. Não me interessa ficar falando nisso, é da época e deu. Eu sei que havia uma tensão eterna. Nunca concordávamos uns com os outros porque pensávamos diferente. Bota todo mundo junto, você imagina. Não posso dizer o que aconteceu dentro da direção.

FOLHA - No Rio, a sra. acompanhou a fusão e acompanhou o racha [da VAR] em Teresópolis.
DILMA
- Na minha cabeça, eu só lembro que a gente conversava e discutia muito, debatia. Tinha uma infraestrutura complexa porque a gente não saía de lá, não podia aparecer. Bom não era. Mas, naquela época, você achava que estava fazendo tudo pelo bem da humanidade. Nunca se esqueça que a gente achava que estava salvando o mundo de um jeito que só acha aos 19, 20 anos. Sem nenhum ceticismo, com uma grande generosidade. Tudo fica mais fácil. Tudo fica mais justificado, todas as dificuldades. Você não ter roupa não tem problema. Às vezes, andava com uma calça xadrez e uma blusa xadrez.

FOLHA - A sra. faz algum mea-culpa pela opção pela guerrilha?
DILMA
- Não. Por quê? Isso não é ato de confissão, não é religioso. Eu mudei. Não tenho a mesma cabeça que tinha. Seria estranho que tivesse a mesma cabeça. Seria até caso patológico. As pessoas mudam na vida, todos nós. Não mudei de lado não, isso é um orgulho. Mudei de métodos, de visão. Inclusive, por causa daquilo, eu entendi muito mais coisas.

FOLHA - Como o quê?
DILMA
- O valor da democracia, por exemplo. Por causa daquilo, eu entendi os processos absolutamente perversos. A tortura é um ato perverso. Tem um componente da tortura que é o que fizeram com aqueles meninos, os arrependidos, que iam para a televisão. Além da tortura, você tira a honra da pessoa. Acho que fizeram muito isso no Brasil. Por isso, minha filha, esse seu jornal não pode chamar a ditadura de ditabranda, viu? Não pode, não. Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha e é torturado. Porque essa quantidade de líquidos que nós temos, o sangue, a urina e as fezes aparecem na sua forma mais humana. Não dá para chamar isso de ditabranda, não.

FOLHA - Quando a sra. foi presa, foram apreendidos documentos falsos, desenho da VAR e um bilhete de amor com as iniciais TG. Era do Cláudio Galeno Linhares?
DILMA
- Não, era do Carlos Araújo. Era apelido dele. Se você quiser me mandar, eu agradeço. Onde que está isso, hein?

FOLHA - No inquérito arquivado no STM. O bilhete está assim: "Nêga querida, infelizmente não poderei estar aí [no Natal]. Verás na prática, prometo-te..." DILMA - Essa quantidade de te, você acha que é de mineiro, pô? Isso é de gaúcho. Tudo no te... Não falei do Carlos no depoimento. Eles acreditavam que era o Galeno. Carlos era da direção, eu não podia abrir a boca. Depois eles descobriram.

FOLHA - Como foi, durante os dias de Oban, para conseguir proteger a direção? Pelo que vi, alguns nomes não foi possível proteger como Maria Joana Telles, Ruaro, Vicente...
DILMA
- Eles sabiam deles porque tinha caído outra pessoa que era da direção. Foi por isso que caí. Eu caí porque caiu outra pessoa.

FOLHA - Era com quem a sra. teria um encontro. O José Olavo?
DILMA
- Essas coisas eu não quero falar, minha filha. Não quero dar responsabilidade para ninguém. Estou muito velha para fazer isso.

FOLHA - No depoimento da Justiça, a sra. cita os quatro como tendo caído em consequência direta de sua queda. A sra. dá os quatro nomes?
DILMA
- É. Caíram, ponto.

FOLHA - Eu conversei com o hoje coronel, antigo capitão Maurício...
DILMA
- Ele existe ainda? Ele já não batia bem da bola. Ele continua sem bater?

FOLHA - Eu perguntei se ele votaria na sra. para presidente. Primeiro, disse não. Depois, pediu para retificar dizendo que "depende com quem vai concorrer".
DILMA
- Minha querida, pelo amor de Deus. A vida é um pouquinho mais complicada que isso. Mas respeito o que ele falou.

FOLHA - Ele participava das sessões [de tortura]?
DILMA - Ele era da equipe de busca, nunca participou. Mérito dele. Pelo menos enquanto estive na Oban. Não posso dizer depois. Você tinha aquele negócio de dar ponto para parar de apanhar, e ele levava as pessoas. Ele fez a busca em toda a minha casa. Pegava minhas coisas e perguntava sobre elas.

FOLHA - No depoimento à Justiça, a sra. cita ele como responsável pelas sessões de torturas.
DILMA
- Que ele torturava pessoalmente, nunca vi. A mim não foi. Que ele entrava na sala e via tortura, tenho certeza. Qualquer um entrava. Te torturavam com a porta aberta.

FOLHA - Li uma entrevista em que a sra. diz que fez treinamento no exterior, mas não consegui encontrar o período em que isso pode ter acontecido. Deu tempo de sair do Brasil para treinar?
DILMA
- Acho engraçadíssimo porque quando me perguntaram isso, eu neguei que tivesse feito. É que nem aquela lista que sai aí dizendo que eu fiz dez assaltos armados. Nunca fiz uma ação armada. Se tivesse feito, eu estaria condenada por isso. É a mesma coisa essa história do treinamento. Nunca fiz nem treinamento no exterior nem ação armada. É só perguntar para as pessoas.

FOLHA - Incomoda a sra. atribuírem essas ações a seu nome?
DILMA
- É chato. Não sou supermulher para dizer que não me incomoda. Agora não perco a cabeça por isso. Estão mentindo, têm segunda intenção.

FOLHA - Não teve treinamento no exterior, mas o básico todo mundo sabia como montar e desmontar uma arma. Era questão de segurança do dia a dia?
DILMA
- Sempre fui muito dedicada, mas não achava isso grande coisa. Nunca fiquei avaliando se devia fazer isso ou aquilo. Não se colocava assim para nós. Falavam assim: "Vai ali e aprende a montar e desmontar a arma". Você ia e aprendia. "Vai ali e escreve um documento." Você também ia.

FOLHA - Como era o dia a dia da prisão? Algumas companheiras de cela dizem que a sra. dava aula de macroeconomia, mas não gostava muito dos trabalhos manuais de tricô e crochê...
DILMA
- Aprendi bem. Sei fazer tricô e crochê. Você sabe que faço tapete? Mas não aprendi tapete lá, não. Fazia muito bem crochê. Podem falar que eu não fazia... (risos) No fim, gostava de fazer crochê. A gente lia muito, escutava muita música, conversava muito, jogava vôlei. [As aulas] estão fantasiando...

FOLHA - A sra. tinha consciência que continuava na mira da polícia mesmo depois da prisão?
DILMA
- Tinha. Não podia fazer aniversário que ficavam pendurados nas árvores, olhando.

FOLHA - Quando tem o racha, quem assume a VAR?
DILMA
- Não me lembro. Se o Espinosa tá dizendo que eu estava... Não sei se fui, se não fui [do comando]. É um período muito pequeno até a queda. Fui uma das primeiras a cair. Eu lembro que eu fui em outubro para São Paulo e nunca mais voltei [ao Rio]. Fiquei lá junto com todo mundo que dirigia a VAR na época. Só me lembro do José Olavo e de mais um. Tinha mais. Tinha quatro.

FOLHA - Muita gente dizia que a sra. era a responsável pelo dinheiro da organização. A sra. era o caixa de São Paulo, para manter militantes, aparelhos?
DILMA
- Também não me lembro disso, não, que eu era do dinheiro. Se eu fosse do dinheiro, eles tinham me matado a pau. Tudo o que eles queriam era o dinheiro. Não lembro isso, não. Não me lembro de ter caído com um tostão. Se eu tivesse dinheiro, ia ser um festival.

FOLHA - O delegado ficou bem impressionado com a sra. depois do interrogatório. A ponto de defini-la como uma pessoa com dotação intelectual apreciável.
DILMA
- Interessante... Da onde ele tirou isso, né? Nem me lembro dele. A gente não dava importância para o delegado do Dops, só para a Oban. Deve ter vindo da Oban. Tinha um juiz auditor louco (risos). Ele fez uma denúncia dizendo que eu era a Joana d'Arc do terror. Era ridículo. Ele era dado a essas...

FOLHA - É muito divertido o perfil que o delegado traça.
DILMA
- Essa parte não era pública, essa parte do delegado. Você conseguiu um documento único. A Oban classificava a gente pelo nível de perigo. O major Linguinha [Waldir Coelho] só interrogava quem ele achava que era direção. Ele falava comigo sempre.

FOLHA - A sra. não pegou o delegado Sérgio Fleury no Dops?
DILMA
- Quando entrei no Dops, o Fleury estava em viagem. Passei quase um mês na Oban e um mês no Dops. Eu custei a ir embora da Oban. Achava estranho eu não ir embora. Todo mundo ia, e eu ficava. Eu não lembro a data. Vai ficando muito obscuro, como foi e como é que não foi.

FOLHA - Vocês passavam por um treinamento intensivo para deletar as coisas. Tinha que esquecer para não contar?
DILMA
- Uma parte você tentava esquecer. Sabe que teve uma época em que eu falei uma coisa que eu achava que era verdade e não era. Era mentira que eu tinha contado e aí depois eu descobri que era mentira. Você conta e se convence.

FOLHA - Informação obtida sob tortura é de responsabilidade de quem tortura e não de quem fala? Dá para culpar a pessoa que falou?
DILMA
- Não dá mesmo. Até porque ali, naquela hora, tinha uma coisa muito engraçada que eu vi. Aconteceu com muita gente, não foi só comigo. É por isso que aquela pergunta é absurda, a do senador [Agripino Maia, do DEM]. A mentira é uma imensa vitória e a verdade é a derrota. Na chegada do presídio [Tiradentes], estava escrito "Feliz do povo que não tem heróis", que era uma frase do Brecht que tem um sentido amplo. Esse fato de não precisar de heróis mostra uma grande civilidade. É preciso que cada um tenha um pouco de heroísmo.

FOLHA - Quando a sra. chegou à Oban, houve muitos gritos?
DILMA
- Teve. Fazia parte do script. É uma luta eterna entre a sua autodestruição e sua luta para ficar inteiro psicologicamente. A palavra correta é uma disputa moral no sentido amplo da palavra moral. É uma disputa entre éticas diferentes, entre princípios diferentes. Uma pessoa que se dispõe a fazer a outra ter dor tem um processo de difícil identificação. Fico imaginando o que foi Abu Ghraib, porque bota de um lado americanos e de outro lado um outro mundo. Você tem de ser desqualificado como ser humano para ser torturado, santa, senão você não é.

FOLHA - E a família da sra., como reagiu a isso tudo?
DILMA
- Minha mãe foi absolutamente fantástica. Eles tinham horror de mãe.

FOLHA - Só para deixar claro, a sra. não se recorda desse plano para sequestrar o Delfim?
DILMA
- Não. Acho que o Espinosa fantasiou essa. Sei lá o que ele fez, eu não me lembro disso. E acho que não compadece com a época, entendeu? Nós acabamos de rachar com um grupo, houve um racha contra a ação armada e vai sequestrar o Delfim? Tem dó de mim. Alguém da VAR que você entrevistou lembrava-se disso? Isso é por conta do Espinosa, santa. Ao meu conhecimento jamais chegou. Não me lembro disso, minha filha. E duvido que alguém lembre. Não acredito que tenha existido isso, dessa forma. Isso está no grande grupo de ações que me atribuem. Antes era o negócio do cofre do Adhemar, agora vem o Delfim. Ah, tem dó. Todos os dias arranjam uma ação para mim. Agora é o sequestro do Delfim? Ele vai morrer de rir.

FOLHA - De qualquer forma, obrigada por tocar nesse assunto delicado...
DILMA - Eu estou te fazendo uma negativa peremptória. Para mim, não disseram. Tá?

sexta-feira, 13 de março de 2009

GREGÓRIO BEZERRA: O CENTENÁRIO DE UM VALENTE

*Sérgio Augusto Silveira

Há 17* (hoje 26 anos) morria em São Paulo aquele que, já em vida, passou a ser considerado como um dos maiores heróis populares da política brasileira, Gregório Bezerra. No dia 13 deste mês, Gregório, que morreu aos 83 anos depois de uma vida de militância comunista contra o capitalismo e as ditaduras no País desde os anos 30, completaria 100 anos de nascimento. Este
centenário vem sendo comemorado desde o ano passado, quando mereceu uma placa na calçada do monumento Tortura Nunca Mais, no Recife, por iniciativa da Associação Pernambucana de Anistiados Políticos, partidos de esquerda e ex- colegas do PCB, como o ex-vereador Roberto Arrais.

O mito em torno de sua figura, capaz de mobilizar entidades, inspirar escritores e até disputa pela ‘paternidade’ das comemorações do seu centenário, deve-se ao seu exemplo de firmeza no cumprimento das missões que recebia do PCB, ao enfrentar 20 anos de prisão, as torturas da polícia e do Exército e a discriminação no partido. Gregório organizou e pôs em funcionamento pelo menos uma centena de sindicatos rurais de orientação marxista em quase todos os Estados. Seu exemplo é reconhecido até pelos antigos inimigos ideológicos. Quem o conheceu de perto no corpo a corpo da militância, vê mais uma razão para o carisma: seu discurso coloquial de velho camponês e de imediata comunicação com o povo. Esta foi sua grande arma, temida pelos governos que se sucederam até o regime dos generais, derrubado em 1985.

Integrante do Comitê Central do PCB, ao lado do lendário chefe comunista no País, Luiz Carlos Prestes, Gregório sempre disse que “um revolucionário deve ser, antes de tudo, um audacioso”, e deu exemplo disto quando, no Recife, deflagrou o movimento de insurreição planejado pela Aliança Nacional Libertadora para assumir o poder, tomando de assalto o CPOR, do qual era
sargento-instrutor. o movimento fracassou, ele ficou preso 10 anos até o final da ditadura Vargas, em 1945, mas o sargento criou fama, principalmente em suas ações para organizar e trazer para o partido os trabalhadores do campo. Com este discurso, Gregório sai, em 1946, candidato a deputado federal constituinte pelo PCB legalizado. É eleito com a maior votação na Região Metropolitana. Os trabalhadores, assim como parte da classe política, têm, até hoje, um juízo dúbio acerca deste líder, ora evitando falar em seu nome devido ao estigma de comunista, ora vendo nele uma espécie de Robin Hood.

Gregório sensibilizou de fato o Recife e o País para o seu nome no momento em que foi vítima de tortura em público, logo após o golpe de 1964, quando, aos 64 anos, foi preso e arrastado por um destacamento militar, acorrentado e espancado nas ruas do bairro de Casa Forte. A cena chocou a cidade. Mas o calvário de Gregório aconteceria também em suas fileiras, já que o Comitê Central do PCB o hospedou, mas nunca reconheceu sua capacidade de decidir e projetar ações políticas, vendo nele um velho camponês experiente, disciplinado, mas simplório, pronto apenas para cumprir tarefas. Nascido no município de Panelas, no Agreste pernambucano, paupérrimo, menino de rua que teve mais tarde só a instrução recebida no Exército e a doutrinação partidária, Gregório não era um in tel ectual como Prestes. Esta simplicidade o fez ser o preterido até no uso do microfone nos comícios, esquecido por quem se dizia seu aliado, a ponto de ser forçado a assumir uma candidatura errada nas eleições de 1982. Filiado ao PMDB, após acusar o PCB de desvio direitista e sair da legenda, concorreu a deputado federal, obtendo apenas 12.156 votos sendo uma vítima do grande confronto que começava entre Jarbas Vasconcelos e Miguel Arraes. Ambos se desafiavam para ver quem seria mais votado, e nisso concentraram mais de 350 mil votos.

Alto, rosto avermelhado, olhos verdes e fala compassada, Gregório tinha uma forte compleição física, que o ajudou a resistir aos maus tratos. Casado com uma mulher também de origem camponesa, dona Maria, Gregório teve um casal de filhos que não herdaram seu ímpeto político, e ainda tem parentes em sua cidade natal, a exemplo de seu sobrinho João Alves dos Santos, de 80 anos, agricultor. E de sua sobrinha Aurelino Azevedo, que faz questão de orientar seus alunos, no colégio estadual Gregório Bezerra, em Panelas, sobre quem foi o “Homem de ferro e flor”, na expressão do poeta maranhense Ferreira Gullar. De ferro mas frustrado em certos momentos, como confessou ao jornalista Geneton Morais Neto, em 1983. “Em 1964, a frustração foi tamanha, pois a massa camponesa estava pronta para agir e repelir o golpe militar terrorista. Mas não tínhamos armas. Ainda tentei buscar armas no Palácio das Princesas. Desgraçadamente, quando cheguei Arraes já estava preso. Voltei de mãos vazias ao campo, para desfazer todo um trabalho de conscientização da massa camponesa para o confronto. Meu problema não foi o sofrimento, mas a frustração”. E mais adiante: “Não me arrependo. Tenho plena consciência de
que meus atos revolucionários foram justos e oportunos. O que posso ter feito, e aí faço autocrítica, é que sempre fui tarefeiro, não tinha boa formação teórica”.

Advogada lembra trajetória de lutas do líder comunista

A estudante concluinte de Direito e professora, Mércia Albuquerque, passava pela praça de Casa Forte, no dia dois de abril, logo após o golpe militar de 1964, justo no momento em que um homem idoso estava sendo arrastado na rua e espancado por um coronel e vários sargentos, sob o olhar horrorizado dos que passavam. “Naquele momento eu decidi que iria defender aquele homem que estava sendo torturado em público. E foi o que fiz”, conta Mércia, que se tornou advogada de presos políticos e, em especial, de Gregório Bezerra, com quem aprendeu a dimensão dos problemas políticos e sociais brasileiros. Hoje titular da Ouvidoria da Secretaria de Justiça do Estado, ela sofreu maus tratos e foi jogada no xadrez, mesmo gestante, várias vezes, por defender os inimigos do novo regime.

“Quando eu vi aquela cena, lá em Casa Forte, com o coronel Darcy Villoc Viana (o oficial que comandou a prisão de Gregório) gritando ensandecido e ameaçando o ancião, enquanto soldados muito jovens arrastavam aquele homem cambaleando, eu senti que deveria deixar minha profissão de professora de menores abandonados e passar a fazer algo por aquele homem torturado”, lembra a advogada.

Ela localizou Gregório no Parque de Motomecanização, um quar el em Casa Forte. “Ele estava numa cela, com os pés queimados por soda cáustica e a cabeça quebrada. O coronel Villoc disse que eu era uma atrevida. E falou: “Com este ferro eu espanquei seu cliente. O que a senhora acha?”. Eu respondi: “O senhor tem a força, mas...”. aí ele falou: “Mas o quê?”. E eu disse: “Mas mesmo! Posso ir?”. E ele falou: “Dane-se!”. Para ela, naquele momento o País vivia “uma síndrome de sangue”.

Passados 36 anos daquelas cenas, Mércia ainda lembra com emoção, assistindo à movimentação das comemorações dos 100 anos de seu amigo e ex-cliente. “Todos temiam aproximar-se de mim porque eu defendia os presos políticos”, revela, fazendo questão de mencionar o então escrivão da Vara de Homicídios, Décio Magalhães que, em 1967, aceitou, com riscos, levar para casa as razões de defesa de Gregório, rascunhadas por ela, para datilografar. Ainda sem experiência profissional, Mércia pedia ajuda dos advogados Rui Antunes e Cláudio César Andrade. Eles iam para uma granja, de madrugada para não serem vistos pela férrea vigilância policial, onde preparavam as petições. Naquele momento, Gregório estava doente da próstata e tinha sido removido para o hospital onde hoje é o Ipsep. Conta que havia policiais com metralhadora apontando para ela até dentro do quarto do paciente. “Eles queriam ficar até dentro da sala de cirurgia, mas o coronel-médico César Montezuma os expulsou. Eu rendo homenagens ao falecido coronel”.

Sabe-se que, antes mesmo de ser preso, Gregório esteve escondido durante um dia numa usina, enquanto aconteciam centenas de prisões no Recife e no campo. Passadas três décadas daquela noite, a advogada, que sabe detalhes contados por seu cliente, evita revelar quem foi o usineiro que escondeu o líder comunista. Indagada a respeito, ela limita-se a dizer: “Este usineiro foi um
político muito importante no Estado, é vivo e às vezes se fala nele”.

Segundo Mércia Albuquerque, a vida de Gregório esteve por um foi também antes de ser entregue ao Exército. Conta que o capitão PM Álvaro Rêgo Barros prendeu Gregório na Usina Pedrosa, em Ribeirão, mas, no caminho, o usineiro José Lopes Siqueira, acompanhado de pistoleiros, exigiu que o oficial lhe entregasse o pistoleiro. Era para trucidá-lo no canavial. O capitão não aceitou. Quase houve tiroteio, mas Rêgo Barros venceu a parada e, como diz Mércia, “ele não sujou as mãos com o sangue da história”.

A advogada diz que nunca comungou da mesma ideologia de seu cliente, mas reconhece que “tratava-se de um líder autêntico, que assumiu corajosamente suas posições, ainda que isso tenha sido causa de muitas privações e sofrimentos”. Revela que ele sempre foi o remediador nos confrontos entre os presos. Respeitava a todos, independente de facção. E mais, revela Mércia: “As mulheres se apaixonavam por ele. Médicas, advogadas lhe mandavam cartas. Eu recebia e as rasgava. Achava que a mulher dele, Maria da Silva Bezerra (dona Maroca) não podia ser maculada. Um dia Gregório descobriu que eu rasgava as cartas. Continuei rasgando. A esposa dele, uma camponesa maternal, sempre deu todo apoio a ele, criou os filhos Jandira e Jurandir com dignidade. Eu contei a ela sobre as cartas. Hoje eu me arrependo de as ter rasgado”.

Mércia conta que, em 1969 na Casa de Detenção, disse a Gregório que ele se preparasse para sair, pois era um dos presos que iam ser trocados pelo embaixador dos Estados Unidos, Burke Elbrick, sequestrado pela guerrilha urbana. Gregório, que já estava com 69 anos, não aceitou ser solto, dizendo que a decisão era do partido. A advogada disse que ele não poderia prejudicar outros presos que estavam na lista. Ele, então, seguiu para o exílio.


CRONOLOGIA


1900 – Nasce Gregório Lourenço Bezerra, no dia 13 de março, no sítio Mocós, município de Panelas, no Agreste pernambucano. Aos quatro anos começa a trabalhar na roça, aos oito fica órfão de pai e mãe e aos 10 vira empregado de senhor de engenho.

1911 – Revolta-se contra os maus tratos e foge para o Recife, onde vira menino de rua. No ano seguinte, começa a trabalhar como gazeteiro.

1916 – Como ajudante de pedreiro começa a participar do sindicato. No ano seguinte, acusado de agitação, é preso na Casa de Detenção do Recife, onde passa quatro anos e oito meses.

1922 – É libertado, enquanto no Rio de Janeiro era fundado o PCB.

1923 – Gregório entra no Exército, no antigo 21º Batalhão de Caçadores. É transferido para a 1ª Cia. de Carros de Assalto, no Rio. Conhece Luiz Carlos Prestes.

1925 – Alfabetiza-se matriculando em curso noturno.

1930 - Filia-se ao PCB.

1935 – Instrutor de educação física do CPOR, no Recife, o sargento Gregório participa da Aliança Libertadora Nacional (ALN), toma de assalto o quartel do CPOR. O plano fracassa e Gregório é preso.

1945 – Depois de passar pelas prisões de Fernando de Noronha e Ilha Grande, Gregório é libertado no processo de redemocratização e decretação da Anistia. É eleito deputado federal constituinte pelo PCB, o mais votado no Recife e o segundo no Estado.

1946 – Gregório é preparado para ser candidato a prefeito do Recife. Prevendo a vitória comunista, a Câmara dos Deputados aprova intervenção no Recife, Santos, São Paulo e Rio.

1947 – O PC é posto na ilegalidade, Gregório é preso, com outros membros do partido. É solto no Recife, depois de quase dois anos.

1964 – Novamente preso, no dia dois de abril, logo após o golpe militar.

1967 – Gregório é condenado a 19 anos de prisão. É levado para a Casa de Detenção.

1969 – É libertado junto com outros presos políticos em troca do embaixador norte-americano Burke Elbrick. Exila-se inicialmente no México, onde já estava o fundador das Ligas Camponesas, Francisco Julião. Inicia seu exílio em Moscou.

1979 – É decretada a Anistia e Gregório retorna ao Brasil.

1980 – Juntamente com Prestes, Gregório sai do PCB acusando o partido de “desvios direitistas”.

1982 – Candidata-se a deputado federal em Pernambuco e é derrotado, obtendo apenas 12.156 votos.

1983 – Cardíaco, tem uma crise e é levado a São Paulo , onde falece.


DEPOIMENTOS

Arquiteto Oscar Niemeyer (PCB), autor do projeto do Memorial a Gregório: “Gregório

Ferreira Gullar, poeta, autor do poema “História de um valente” exaltando Gregório: “Das figuras revolucionárias que conheci e que queriam mudar o Brasil, Gregório era o que representava o povo humilde. Ele acendeu a consciência de que é necessário mudar o Brasil. Nenhum outro revolucionário brasileiro representou tão bem as camadas mais distantes dos problemas políticos e ideológicos, ele que nasceu na roça e aprendeu a cortar cana. Ele, na sua biografia, canta a alegria quando começa a chover. Ele é um exemplo para todo jovem. Este tem que saber que houve, no Brasil, este homem e há na nossa história. Assim, ele é permanente, porque representa o passo adiante da consciência humana que é a liberdade. Não vejo ninguém
comparável, hoje, a Gregório”.

Os versos célebres dedicados por Ferreira Gullar ao líder comunista, constantes do poema “A história de um valente”:

“Mas existe neste terra
muito homem de valor
que é bravo sem matar gente
mas não teme matador,
que gosta de ser gente
e que luta a seu favor, como Gregório..."


Ex-governador e presidente nacional do PSB, Miguel Arraes: “Conheci Gregório Bezerra em 1934, quando eu tinha 17 anos e fazia serviço militar no tiro de Guerra do Recife. Ele era sargento e foi meu instrutor. Depois nos encontramos em muitos momentos das lutas políticas que travamos ao longo desses anos todos. Embora pudéssemos ter divergências pontuais quanto às táticas, sabíamos ter em comum a convicção de que era preciso afirmar a dignidade de nosso povo e lutar contra a injustiça e a opressão. Guardo dele principalmente a lembrança de sua simplicidade e da força com que defendia suas convicções. Vítima da tirania que prende e tortura, nunca vacilou na afirmação do que acreditava. Sua característica mais marcante era a coragem
e a convicção”.

Luiz Carlos Prestes Filho, coordenador do projeto artístico comemorativo do Centenário: “O exílio teve um lado feliz para mim. Convivi com Gregório nove anos. Ele era pessoa frequente na nossa casa, a partir de junho de 1970. Presenciei uma coisa magnífica: um homem que já tinha 70 anos participando das aulas de russo com as crianças. Aprendeu a língua. Importante foi a atuação dele em defesa dos direitos humanos, viajando pela Europa e dando depoimentos à Anistia Internacional. Tinha mais vigor que muitos jovens. Ele não dava chance da gente ficar triste e desanimado. Viajava com um passaporte cubano. Jornalistas russos perguntaram a ele sobre qual a coisa da vida brasileira da qual mais sentia saudade, e ele respondeu, “sinto mesmo é saudade de comer jaca”.

Transcrito do JORNAL DO COMÉRCIO – Recife, 12.03.2000

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

AI-5 deu início aos "Anos de Chumbo" da ditadura militar

da Folha Online

No dia 13 de dezembro de 1968, há 40 anos, o governo de Costa e Silva baixava o Ato Institucional nº5. O decreto, que vigoraria por prazo indefinido, dava ao presidente o poder de cassar políticos, fechar o Congresso, suspender o habeas corpus, impor censura prévia à imprensa, aposentar compulsoriamente professores universitários e prender dissidentes.

Naquela sexta-feira 13, ficaram para trás o mundo das passeatas, da irreverência anárquica, dos festivais de música e do tropicalismo e se intensificaram as cassações, o exílio, a tortura e a censura. A repressão passou a ser a regra do jogo a partir do episódio, que ficou conhecido como "o golpe dentro do golpe".

Leia abaixo trecho do livro "A História do Brasil no Século 20: 1960-1980" , da Publifolha, sobre a decretação do AI-5. O livro traça um panorama das décadas de 60 e 70, desde a eleição de Jânio Quadros, passando por João Goulart, pela ditadura, pela tortura e pela guerrilha, até a fundação do PT, em 1980. Saiba mais sobre o livro e sobre a série Folha Explica A História do Brasil no Século 20.


Leia abaixo trecho do livro sobre a decretação do AI-5:


A DECRETAÇÃO DO AI-5

Os militares linha-dura, com influência crescente no governo, mal escondiam o desígnio de fazer o regime caminhar para o fechamento. Só precisavam de um pretexto para pressionar o presidente. A oportunidade surgiu no início de setembro, com um discurso, na Câmara, do deputado Marcio Moreira Alves, do MDB da Guanabara.

Moreira Alves criticava a invasão da Universidade de Brasília, no final de agosto, quando tropas da Polícia Militar, empunhando metralhadoras, prenderam alunos e bateram em deputados. A ação foi considerada uma vitória dos radicais, pois pouco tempo antes o próprio presidente demonstrara procurar entendimento com os estudantes ao receber em seu gabinete uma comissão escolhida durante a Passeata dos 100 Mil.

Em protesto contra a invasão, Moreira Alves propôs um boicote ao tradicional desfile do Dia da Independência, em 7 de setembro. Sugeriu também que as moças não namorassem os jovens oficiais enquanto durasse a repressão. A fala do deputado deveria passar despercebida: o plenário estava quase vazio, e a imprensa, salvo um registro na Folha de S.Paulo, ignorou a intervenção. O próprio deputado, 25 anos depois, consideraria aquele um "discurso inútil", com "recomendações vazias". Mas nos quartéis, onde circularam muitas cópias da transcrição do discurso, a reação foi de indignação.

Representantes da linha dura, os três ministros militares aproveitaram o clima de inquietação entre os oficiais para tentar punir Moreira Alves. Para tanto, precisavam da anuência do Congresso, uma vez que, como deputado, o jovem emedebista gozava de imunidade parlamentar. Pelos cálculos dos ministros, não seria difícil, com a ajuda da Arena, obter autorização para que a imunidade de Moreira Alves fosse suspensa.

Mas a Comissão de Justiça da Câmara, em que a Arena tinha maioria, rejeitou o pedido. À frustração dos radicais se somava o agravamento do confronto entre os estudantes e a repressão. No início de outubro, a violência tornou a eclodir, dessa vez em São Paulo. O palco dos choques foi o centro da cidade, na rua Maria Antônia, com a Faculdade de Filosofia da USP numa calçada e a Universidade Mackenzie na outra. Tratava-se de redutos da esquerda e da direita, respectivamente. Os dois grupos se enfrentaram quando alunos do Mackenzie, com apoio do CCC, atacaram os da USP, que levantavam, junto a transeuntes, recursos para financiar o XXX Congresso da UNE. Houve pedradas, explosões de bombas caseiras, uso de gás lacrimogêneo e tiros. Um estudante secundarista, que ajudava os alunos de filosofia, morreu baleado.

Apesar das condições adversas, as lideranças estudantis decidiram levar adiante o congresso. Em meados de outubro, cerca de mil jovens se reuniram num sítio em Ibiúna, São Paulo. Operando na ilegalidade, a UNE planejara um encontro clandestino. A grande concentração de pessoas num local pacato, porém, chamou a atenção da polícia, e o evento terminou com a prisão de todos os participantes.

Vitoriosa, a linha dura não sossegou. Continuava insatisfeita com o encaminhamento do caso Moreira Alves. Sob pressão dos radicais, o presidente Costa e Silva cedeu, alterando a composição da Comissão de Justiça, de modo a viabilizar a suspensão da imunidade do deputado. A autorização para punir Moreira Alves foi finalmente concedida em 11 de dezembro, mais de três meses depois do discurso.

O episódio talvez não merecesse mais que uma nota de rodapé da história do Brasil, não fosse o surpreendente desdobramento que teria. No dia seguinte, a proposta foi rejeitada pelo plenário da Câmara, apesar da maioria arenista. Os deputados festejaram o resultado, sem saber que aquela seria a última manifestação de alegria de 1968. Na manhã de 13 de dezembro, uma sexta-feira, enquanto a população lia nas manchetes dos jornais relatos da decisão histórica da Câmara, o presidente Costa e Silva, em resposta à atitude audaciosa dos políticos, preparava-se para baixar o ato institucional que jogaria o país numa ditadura escancarada.

Historiadores debatem se Costa e Silva usou os radicais ou se foi por eles usado. As hipóteses não se excluem. O presidente tinha uma relação de dependência mútua com a linha dura. "Colocara-se como estuário das frustrações de todos aqueles que achavam
necessário aprofundar o processo arbitrário e punitivo", como escreveu Elio Gaspari. Mas nem sua trajetória foi sempre próxima desse grupo, nem sua biografia, até os anos 50, indicava o caminho que seguiria.

Gaúcho, Costa e Silva estudara em Porto Alegre, no Colégio Militar, onde foi colega de Castello Branco. Enquanto o "Cearense" se dedicava aos estudos, Costa e Silva se destacava nos esportes. Sem ser aluno brilhante, não se saiu mal na escola. Mais tarde, acomodou-se intelectualmente, preferindo corridas de cavalo, jogo de pôquer e palavras cruzadas a livros. Sempre se envolveu com a política que se fazia nos quartéis. No levante frustrado do Forte de Copacabana, em 1922, ficou ao lado dos tenentes revoltosos e acabou preso por um curto período. Na Revolução de 30, que pôs fim à República Velha, estava alinhado com as forças de Getúlio Vargas. Em 1955, chegou a defender a democracia, ao apoiar o general Lott no contragolpe que garantiu a posse de Juscelino.

O caminho do poder, no entanto, passou pela associação com os radicais, e, naquele 13 de dezembro, essa circunstância pesou mais que o passado do presidente. Diante do revés do governo no Congresso, Costa e Silva convocou uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, do qual faziam parte o alto escalão do Executivo, o chefe do Estado-maior das Forças Armadas e o chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI). O texto do AI-5, do ministro da Justiça, Gama e Silva, foi colocado em votação. Com exceção de Pedro Aleixo, vice-presidente, todos assinaram o documento, desde o chefe do SNI, Emílio Garrastazu Médici, até o ministro da Fazenda, Antônio Delfim Netto.

O AI-5, que, ao contrário dos atos anteriores, vigoraria por prazo indefinido, dava ao presidente, entre outras prerrogativas, o poder de cassar políticos, fechar o Congresso, suspender o habeas corpus, impor censura prévia à imprensa, aposentar compulsoriamente professores universitários, prender dissidentes. Costa e Silva faria tudo isso. Qualquer vestígio de oposição seria sufocado. Como definiria a crônica política, o AI-5 foi o golpe dentro do golpe, o início dos Anos de Chumbo.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

AI-5: 40 anos depois


No próximo sábado, dia 13 de dezembro, completar-se-á 40 anos da edição do Ato Institucional nº 5 pela ditadura militar. Para lembrar a data será realizado um debate às 9h, no Campus II da Universidade Católica de Brasília, na 916 norte, sobre a luta política daquela época e as consequências daquele ato.

Vários militantes políticos da resistência à ditadura estarão presentes, incluindo o ex-membro do MR-8 e ex-presidente do PPS do Piauí, Acilino Ribeiro, o subsecretário de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Perly Cipriano, e a ministra de Estado Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

sábado, 15 de novembro de 2008

Duas macroeconomias, dois judiciários

Escrito por Milton Temer no Correio da Cidadania

Para quem, do Brasil neoliberal, pretendia enterrar a luta de classes como dado permanente do desenvolvimento humano: dois exemplos recentes fortíssimos se destacam para incomodar os apóstolos do "pensamento único" que inundam as páginas e espaços de economia nos jornais e telejornais. Dois exemplos que mostram macroeconomias e judiciários distintos, com o funcionamento dependendo de quem é o agente provocador.

O dinheiro público jogado nos bancos privados, sempre sob o argumento de que crise financeira põe em risco o sistema como um todo, comprova existir uma macroeconomia para o grande capital e outra para o mundo do trabalho e da produção. Porque a ninguém ocorre que, na série quase infindável de lucros pantagruélicos, tenham os banqueiros cogitado reduzir seus juros ou suas taxas por serviços inerentes à essência da própria atividade. A despeito de todas as declarações da área econômica do governo, não se tratou de outra coisa que não a privatização do lucro, garantida pela socialização do prejuízo.

Por outro lado, a insólita sessão em que a quase totalidade dos ministros do Supremo Tribunal Federal se concentrou no ataque ao juiz De Sanctis, pelo pecado mortal de ter decretado a prisão preventiva do predador social Daniel Dantas - simultânea ao inexplicável procedimento em que segmentos da Polícia Federal se empenham para desqualificar o excelente trabalho do delegado Protógenes Queiroz no combate aos inatingíveis de até então - comprova haver uma justiça para o grande capital e outra para o mundo do trabalho e da produção.

Não é de pouca importância lembrar que o presidente daquela egrégia corte, o causídico Gilmar Mendes, vinha de pronunciamento não menos preocupante, ao comparar torturadores e resistentes à ditadura como criminosos anistiados pela mesma lei de anistia. Refutando, então, a opinião dos que não se permitem absolver a tortura da condição de crime imprescritível.

Também não é de menor importância lembrar que na campanha contra o delegado Protógenes surgiu a denúncia de um suposto grampo, flagrando uma conversa de Gilmar Mendes com o senador Demóstenes, do PFL. Bizarro grampo que, divulgado pela sempre suspeita revista Veja, apontava conversa entre dois "virtuosos" homens públicos. Ou seja, estávamos diante de um exemplo raro de grampo a favor, pois, pela divulgação do ali registrado, só trazia benefícios às supostas vítimas do "Estado policial" que o ministro dizia estar se instalando no Brasil.

Bizarro grampo, aliás, porque resultou em fita até hoje nunca comprovada de existência, um verdadeiro ET carente de atestado de existência real.

Como nada ocorre por acaso, sem dúvida, por trás dos dois episódios citados está a conivência do Planalto, por conta da incontestável contaminação de alguns dos seus principais ocupantes, ou de seus parentes próximos, com os fatos citados. Comprovando, enfim, a serviço de que classe social o atual governo está operando.


Milton Temer é jornalista e presidente da Fundação Lauro Campos.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

PAPAGAIO DOS CARRASCOS

Por Celso Lungaretti (*)

Comentando a declaração da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) de que a tortura é crime imprescritível, o presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes disse outra obviedade: "Essa discussão sobre imprescritibildade tem dupla face. O texto constitucional também diz que o crime de terrorismo é imprescritível".

Resvalando para a retórica característica das viúvas da ditadura, Gilmar Mendes insinuou que haveria uma equivalência entre a luta armada contra o regime militar e as práticas hediodas cometidas pelos órgãos de repressão política: "Direitos humanos valem para todos: presos, ativistas políticos. Não é possível dar prioridade a determinadas pessoas que tenham determinada atuação política. Direitos humanos não podem ser ideologizados, é bom que isso fique claro".

Também seria bom que ficasse bem claro para Gilmar Mendes que, desde a Grécia antiga, é reconhecido o direito que os cidadãos têm de resistirem à tirania.

Então, a ninguém ocorre qualificar de "terroristas" os membros da Resistência Francesa que descarrilaram trens, explodiram pontes e quartéis, justiçaram colaboracionistas, etc., atuando com violência incomparavelmente superior à dos resistentes brasileiros. São, isto sim, merecidamente reverenciados como heróis e mártires da França.

A situação era a mesmíssima no Brasil, onde um grupo de conspiradores militares obteve sucesso em sua segunda tentativa (1964) de usurpar o poder, aproveitando bem as lições da primeira (1961) para corrigirem os erros cometidos.

Seus governos ilegítimos sempre sufocaram as diversas formas de resistência à tirania mediante a utilização de força maior do que aquela que se-lhes opunha, terminando por impor o terrorismo de estado sem limites a partir da assinatura do Ato Institucional nº 5, ao abrigo do qual foram cometidos o extermínio sistemático de militantes capturados com vida, torturas as mais bestiais e generalizadas, estupros, sequestros de parentes dos opositores (inclusive crianças) para chantageá-los, ocultação de cadáveres e outros horrores.

É claro que, ao enfrentar essas bestas-feras, os resistentes daqui incorreram em alguns excessos, como sempre ocorre nas lutas desse tipo, travadas em condições de extrema desigualdade de forças. À Resistência Francesa também acontecia de errar o alvo ou exagerar na dosagem.

Mas, isto não basta para que uns e outros sejam tidos como "terroristas". O termo, historicamente, designa grupelhos isolados que tentavam, tiros e bombas, intimidar os governantes, disseminando o caos. E não, de nenhuma forma, os combatentes que recorreram à propaganda armada para levantar o povo contra governos tirânicos, como era o óbvio objetivo da resistência ao nazi-fascismo na Europa e ao totalitarismo de direita no Brasil.

Foram os serviços de guerra psicológica da ditadura de 1964/85 que semearam essa confusão, caluniando as vítimas para justificar as atrocidades contra elas praticadas.

Um presidente do STF midiático e que, como papagaio, repete falas dos carrascos, mostra-se indigno da posição que ocupa. Deveria renunciar ou ser expelido, como o corpo estranho que se tornou numa instituição que deve primar pela discrição e compostura.

* Celso Lungaretti, 58 anos, é jornalista, escritor e ex-preso político. Mantém os blogs O Rebate, em que disponibiliza textos destinados a público mais amplo; e Náufrago da Utopia, no qual comenta os últimos acontecimentos.

http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/

domingo, 24 de agosto de 2008

Fodam-se!

O deputado Jair Bolsonaro, ao falar da ditadura, diz que "o grande erro foi torturar e não matar". Quando recebeu gritos de "Punição já" respondeu com "Fodam-se! Fodam-se!". Esse foi o manifesto pela revisão da Lei de Anistia com a participação da UNE, famílias de desaparecidos e o grupo Tortura Nunca Mais (de Goiás). Assista ao vídeo:

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

"A Loira 90": uma homenagem

Na manhã do dia 4 de Setembro de 1969 dava-se início ao sequestro do então embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick, planejado cuidadosamente alguns meses antes, por membros da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), ALN (Aliança Libertadora Nacional), DI/GB (Dissidência do PCB / Guanabara) e seu braço armado a FTA (Frente de Trabalho Armado) DI/GB.Vera Sílvia Araújo de Magalhães, membro da FTA DI/GB, conhecida como “Marta”, “Andréia”, e outros), única mulher a participar do sequestro, faleceu ontem, de câncer, aos 58 anos.No filme “O que é isso companheiro?” duas mulheres encenam partes de sua participação no episódio, Fernanda Torres (“Maria”) e Cláudia Abreu (“Renée”).




Na foto, Vera Sílvia sentada na cadeira devido às torturas - quando presa, após o sequestro do embaixador americano -, que haviam lhe prejudicado a locomoção. Ao seu lado, agachados, da direita para a esquerda: Fernando Gabeira e Carlos Minc.Vera, certa vez, em depoimento emocionado sobre o porquê de continuarem a luta na época, disse: “Eram meus amigos, era minha vida – e minha morte. Essa contradição eu tinha de viver. Fora dali eu era o quê? Não tinha identidade.”

Clique aqui para ver a entrevista realizada com Vera Sílvia na TV Câmara.

OBS: No vídeo a informação de que Franklin Martins é comentarista da TV Globo está desatualizada. Hoje, Franklin é ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

Do blog de Flávio Costa: http://prenhederazao.blogspot.com/


(...)

Isso me lembra uma história. Minha mãe me conta que uma amiga do colégio (ativista do movimento secundarista) certa vez desapereceu, naqueles anos de chumbo. Ninguém da família, nenhum amigo tinha idéia do que havia acontecido. Mas todos sabiam que ela tinha ligações com algum movimento político da época, ela era uma pessoa engajada e misteriosa.
Ficou desaparecida por muitos meses até que um dia apareceu na casa da mãe, completamente desfigurada. Com marcas de queimadura, hematomas, o cabelo havia sido cortado de maneira desigual, as roupas em frangalhos. Ela falava rapidamente, tentava conter o choro, com movimentos rápidos pegava algum dinheiro e algumas roupas. Dizia que tinha conseguido fugir do lugar em que estava mas que tinha que sair logo porque "estavam" atrás dela. A mãe, desesperada, chocada com a visão da filha naquele estado, não sabia o que dizer, mas achava que essa seria uma chance de algo assim não acontecer mais à ela e, mesmo com o coração em pedaços, não contestou e deixou que ela se fosse tão rápido quanto reapareceu. Mas essa pessoa, essa estudante, essa menina de 17 anos, nunca mais apareceu. Essa história tem mais de 30 anos. Se ela tivesse conseguido fugir, certamente já teria reaparecido.
E ainda tem gente que diz que essas coisas nunca aconteceram no país...

Juliana de Souza
Socialista!

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Defendendo a gloriosa Revolução de 1964




Como diz o Mello, o Bolsonaro é o Roque Santeiro da ditadura, pois foi, sem nunca ter sido. Infelizmente, uma coisa é verdade em meio ao monte de besteiras que esse pústula diz: a imprensa sempre acaba ficando do lado dos canalhas e corruptos. É uma lástima.

domingo, 25 de março de 2007

PCB FAZ HOJE 85 ANOS DE HISTÓRIA



Fundado em 25 de março de 1922 com o nome de Partido Comunista do Brasil, o PCB tem em sua origem a luta dos trabalhadores brasileiros do começo do século e as idéias socialistas de Karl Marx e Friedrich Engels - o que transformou a história do partido numa eterna briga para se manter na legalidade e para fugir da perseguição política e do patrulhamento ideológico promovido pelas forças mais retrógradas e conservadoras da sociedade.

Poucos meses após sua fundação, o PCB é posto na ilegalidade (julho de 1922). Torna-se um partido legal apenas em 1945, com a derrota do nazi-fascismo na Europa e a queda do Estado Novo no Brasil. Volta à clandestinidade dois anos depois (maio de 1947), quando tem seu registro cassado pelo governo Dutra. 

Mesmo clandestino, participa ativamente da política nacional. Em 1961, depois do V Congresso, muda seu nome para Partido Comunista Brasileiro. Apenas em meados da década de 80 conquista definitivamente sua legalidade.

Durante toda a sua trajetória, o Partido deixou a sua marca na História do Brasil. Iniciou a discussão da reforma agrária quando o assunto ainda era tabu, assim como lançou o movimento pela unidade e autonomia sindical. Contribuiu decisivamente para a cultura brasileira - na bossa nova, nos CPCs, no Cinema Novo. Foi o primeiro partido a levantar a bandeira da democracia como saída para o regime militar instaurado em 1964.

O PCB teve grande parte de sua militância presa, torturada e morta nos porões da ditadura. Foi o pioneiro, na esquerda brasileira, a integrar-se às amplas e profundas mudanças que ocorreram no mundo, no final dos anos 80, início dos anos 90. 


A HISTÓRIA

No ano de 1922, pelo menos três grandes acontecimentos varreram o Brasil de ponta a ponta, com sua influência e reflexos de cunho cultural e político: a Semana de Arte Moderna, a eclosão da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, que descortinou o forte e influente movimento tenentista posterior, e a Fundação do PCB, com a denominação de Partido Comunista do Brasil. Conforme acentuam historiadores, os três fatos não tiveram necessariamente nenhuma ligação entre si, mas no processo histórico acabariam, de alguma forma, por se encontrar. Representavam uma grande "sacudida" do País em direção à modernidade.

O PCB foi fundado em 25 de março de 1922, data de abertura de seu I Congresso, no Rio de Janeiro. Nove delegados, representando 73 comunistas, muitos deles egressos do movimento anarquista, deram vida à organização, como Seção Brasileira da Internacional Comunista, cujo centro revolucionário irradiador era ocupado pelo Partido Comunista da então União Soviética. Os delegados representavam as cidades de Porto Alegre, Recife, São Paulo, Cruzeiro, Niterói e Rio de Janeiro; Juiz de Fora e Santos não puderam enviar representantes.

Segundo o livro Memória Fotográfica (Editora Brasiliense, 1982), a "fundação do PCB coroa um processo que, arrancando das mobilizações operárias e grevistas do fim da guerra, potenciadas pelo exemplo da Revolução Russa, derivou na formação de vários grupos comunistas no país (Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Pernambuco) e que, antes, já articulara um efêmero Partido Comunista de traço anarquista". Portanto, o PCB era a ultrapassagem histórica do movimento revolucionário que se empreendia no Brasil na época, fortemente hegemonizado pelos anarquistas. Esta hegemonia passa para o PCB, a partir de 1930.
Fundaram o PCB os seguintes revolucionários: Abílio de Nequete (barbeiro), Astrojildo Pereira (jornalista), Cristiano Cordeiro (contador), Hermogêneo Silva (eletricista), João da Costa Pimenta (gráfico), Joaquim Barbosa (alfaiate), José Elias da Silva (funcionário público), Luis Peres (operário vassoureiro), Manuel Cendón (alfaiate). Além de Nequete, foram eleitos para compor a primeira executiva as seguintes pessoas: Astrojildo Pereira, Antônio Canellas, Luís Peres, Antônio Gomes (efetivos); e Cristiano Cordeiro, Rodolfo Coutinho, Antônio de Carvalho, Joaquim Barbosa e Manuel Cendón. 
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“Eles eram poucos / e nem puderam cantar muito alto a Internacional/ naquela casa de Niterói em 1922./ Mas cantaram e fundaram o partido (...)/ O PCB não se tornou o maior partido do Ocidente./ Nem mesmo do Brasil. / Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis/ tem que falar dele. / Ou estará mentindo”.
Poema de Ferreira Gullar, de 2002, que alude à fundação do PCB
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É uma tarefa árdua, que certamente ficará a cargo dos historiadores, descrever e enumerar com precisão os dirigentes históricos do PCB. Todos deram vida ao partido, alguns se tornaram homens públicos reconhecidos mas outros continuam ainda anônimos para a história. Vários passaram pelo PCB e também dele se distanciaram, ou para integrar outras correntes de pensamento, à direita e à esquerda, ou simplesmente para se dedicar a outros projetos de caráter pessoal. Centenas perderam suas vidas, em função da luta generosa pela justiça e pelo socialismo.

O dirigente pioneiro é Astrojildo Pereira, intelectual e então líder anarquista e considerado até hoje como um dos mais originais pensadores do socialismo em nosso País. Morreu em 1967.
 
Na linha dos líderes históricos, o mais destacado deles é Luis Carlos Prestes, que ocupou por várias décadas as secretaria-geral do partido. 
O PCB , na verdade, é uma galeria histórica de grandes líderes revolucionários. Desde os seus fundadores, passando por Agildo Barata, Leôncio Basbaun, Gregório Bezerra, Apolônio de Carvalho, Mário Alves, Carlos Marighella, Maurício Grabois, Arruda Câmara, Mário Alves, Davi Capistrano, Roberto Morena e tantos outros.

Desta galeria de dirigentes, grande parte deles poderiam ser classificados como heróis. Entretanto, não foi este o sentimento que os moveram.
Foi, isto sim, a certeza de que o Brasil e o mundo poderiam ser transformados para melhor.
LUTAS POPULARES E DEMOCRÁTICAS

Não existe nenhuma luta de conteúdo democrático e de massa travada no Brasil nos últimos século que não tenha contado, de alguma forma, com a participação dos comunistas. 
O PCB nasceu de seus compromissos com os trabalhadores e com o movimento revolucionário por profundas transformações em nossas estruturas econômicas e sociais. Como disse Ferreira Gullar em memorável poema, o PCB não se tornou o maior partido do Ocidente mas ao se contar a história do Brasil é preciso falar dele ou "então se estará mentindo". Enumeremos algumas destas ações: 

Trabalhadores e Sindicatos

Uma das grandes tarefas do PCB, ao ser criado em 1922, foi contribuir para organizar os trabalhadores em sindicatos e associações. Já em 1930 passou a ter a hegemonia do movimento sindical e nele teve presença decisiva até início da década de 80, quando foram criadas a Central Única de Trabalhadores - CUT e a Confederaçao Geral dos Trabalhadores - CGT. Os dirigentes sindicais comunistas deixaram seus nomes fortemente impressos em lutas que redundaram na adoção da jornada de 8 horas, do 13º salário, dos direitos previdenciários, da legislação para o trabalho da mulher e do menor, entre outras conquistas sociais.

Reforma Agrária

Os comunistas também foram pioneiros na luta pela reforma agrária. Particularmente após 1940, o PCB organizou sindicatos de trabalhadores rurais pelo Brasil afora, atuou em parceria e em conflito com as Ligas Camponesas, liderou grandes levantes e movimentos no campo como no Estado do Paraná e em Trombas e Formoso, no Estado de Goiás. Criou a União de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil - ULTAB na década de 50, e, em 1962, fundou a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura - CONTAG, sob a presidência do dirigente comunista e líder camponês, Lyndolpho Silva. Pertenceu aos quadros do PCB um dos mais conhecidos líderes camponeses de todos os tempos, o saudoso Gregório Bezerra. 

Democracia e Liberdade

O PCB esteve na linha de frente no combate a duas ditaduras, ambas extremamente violentas: a de Getúlio Vargas, de 1930 a 1945, e a dos militares, implantada em 1964. Contra elas, o partido deu seus melhores homens e energias. Esteve no comando da democrática Aliança Nacional Libertadora, em 1935, que conseguiu liderar levantes de envergadura como em Natal e Recife; no combate à ditadura militar, teve centenas de militantes presos, muitos torturados, vários exilados, e mais de duas dezenas mortos. Sempre bateu-se, nestes momentos, pela anistia e pelas liberdades. Foi uma das principais forças, em 1965, a criar o MDB que se transformou no principal instrumento político para isolar e derrotar a ditadura. Com a derrota da campanha pelas eleições diretas em todos os níveis e consciente da sua estratégia democrática, aceitou enfrentar o Colégio Eleitoral, que sufragou Tancredo Neves/José Sarney, enterrando o regime militar.

Guerra e Paz

Na década de 30, reafirmando seu caráter internacionalista, foi para as ruas defender a entrada do Brasil na II Guerra Mundial, ao lado das forças aliadas e contra o eixo nazi-fascista. Solidarizou-se com as revoluções chinesa, cubana e com os movimentos libertadores na América Latina (Bolívia, Guatemala, El Salvador e Nicaragua) e na África (Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, além da luta do povo sul-africano), bem como esteve ao lado do Vietnã revolucionário contra o intervencionismo americano. Atuou em várias frentes, organizados pelo movimento socialista internacional, a favor da paz e da amizade entre os povos.

Estado e Investimento

As fileiras do PCB nunca faltaram com o fervor e o apoio à criação de empresas estratégicas como foi o caso da Petrobrás, da Companhia Siderúrgica Nacional, da Eletrobrás e da Telebrás. As cores dos comunistas, juntamente com outros segmentos nacionais, impulsionaram nas ruas a campanha do "Petróleo é nosso". O PCB encorajou aimplantação de organismos como a SUDENE e apoiou o presidente Juscelino Kubitschek na criação de Brasília.
 

Movimentos Sociais

Não se pode falar da história da UNE e dos múltiplos movimentos de mulheres sem se referir ao PCB e aos comunistas. Os comunistas também sempre se fizeram presentes nos movimentos contra a carestia, defesa da Amazônia, pelas reformas de base e por bandeiras como a do parlamentarismo.

Cultura e Liberdade

Uma das grandes contribuições históricas à organização da sociedade brasileira neste século circunscreve-se ao campo da cultura. Em um país pouco dotado de universidades e centros de pesquisa, os comunistas tiveram papel destacado no campo das artes, da pesquisa social/histórica/econômica, e editorial. O PCB criou várias editoras ao longo das últimas décadas, introduziu no Brasil grande parte da literatura socialista e marxista, editou revistas em várias áreas de interesse e chegou a publicar 10 jornais diários diferentes no período da democratização de 1946, constituindo-se em uma grande cadeia de informação e debates, talvez só suplantada pelos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Foi, talvez, a maior escola de jornalismo do Brasil pelo menos até o final da década de 50. Além do que, passaram pelo PCB, entre outros nomes ilustres da ciência e da cultura brasileira: Oswald de Andrade, Patrícia Galvão (Pagu), Jorge Amado,Graciliano Ramos, Raquel de Queiróz, Carlos Drumond de Andrade, Álvaro Moreyra, Afonso Schmidt, Eneida de Moraes, Mário Schemberg, Edson Carneiro, Catulo Branco, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Oscar Niemayer, Vilanova Artigas, Aparício Torely (o Barão de Itararé), Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré, Edgard Carone, Dias Gomes, Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha), Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Pontes, Mário Lago, Leon Hirsmann, João Batista de Andrade, Cláudio Santoro, Silas de Oliveira, Noca da Portela, Bete Mendes, Francisco Milani, Stepan Nercesian, entre muitos outros.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

FERNANDO SANTANNA, o Adorável Comunista, completa 90 anos

Por Nadja Rocha, do Portal do PPS:


Vadinho, Jubiabá, Pedro Arcanjo e Quincas Berro Da Água. Todos esses personagens jorge-amadianos estão encarnados em um certo comunista "arretado" chamado Fernando dos Reis Sant`Anna, um ser múltiplo e uno, uma síntese de muitos comportamentos e valores colocados a serviço do Brasil. São 90 anos bem vividos, comemorados com uma grande festança em Salvador, capital da imensa Bahia, onde o filho mais velho de "Seu" Pompílio e Dona Genésia estará recebendo, com a fidalguia e a distinção de sempre, no Hotel da Bahia, uma imensidão de amigos feitos ao longo da vida.

“Fernando é a fantástica manifestação de uma grande fidelidade a ideais maiores", sintetiza Roberto Freire, presidente nacional do PPS e companheiro de Constituinte. Nascido em berço de ouro em Purificação, hoje, Irará, em 1915, ano de seca braba no Nordeste, Fernando Sant`Anna, tomou caminho diferente de seus contemporâneos. Logo cedo, vendo que não veio ao mundo para ser mais um alienado na vida, começou a se indignar com as desigualdades sociais e a miséria. “Vai, Fernando, ser um comunista na vida”, teriam- lhe cochichado os orixás.

Seguiu para estudar em Salvador no Colégio da Bahia, no famoso Central dos irmãos Mangabeira (Octávio e João), Carlos Marighella, Mário Alves e tantos outros baianos ilustres. Logo estreou no movimento estudantil e torna-se um militante ativo do Partido Comunista Brasileiro. Daí em diante, Sant`Anna integrou-se completamente à vida da cidade. O interiorano transformou-se rapidamente num soteropolitano legítimo, descobrindo o que Salvador tinha e tem de mais importante: a sua cultura, a sua negritude, o seu gosto pela dança e o seu imenso amor pela vida. "Botei pra quebrar", confessou a Antonio Risério, seu biógrafo em "O Adorável Comunista".

“Quem andou por este país nos últimos 70 anos envolvido com qualquer coisa de política, já ouviu falar, conviveu, conversou, votou e se encantou com esta figura política e humana chamada Fernando Sant`Anna”, define Eduardo Santiago, o Dida, presidente do Diretório Metropolitano do PPS de Salvador. Deputado federal três vezes, um deles constituinte pelo Partidão, Fernando teve o mandato cassado pelo golpe militar de 1964. Exilou-se na então Iugoslávia de Tito, mas, um ano depois, retornou ao Brasil. Entendeu que sua trincheira era aqui. Foi preso e ficou incomunicável, mas isso não o amargurou nem o afastou da política, muito pelo contrário.

“Fernando é um homem de braços abertos para demonstrar sua solidariedade, de braços abertos para fugir dos sectarismos empobrecedores da ação política e abraçar todos os que se mostrem com disposição de lutar a mesma luta, o mesmo ideal, construir a mesma utopia, tudo sem hegemonia nem excludências”, define Arildo Dória, outro camarada velho de guerra.

Bom de papo, gosto refinado, tribuno respeitado, boêmio confesso, finíssimo no trato com as mulheres, o menino de Irará também se notabilizou na Câmara pela elegância. Andava numa “estica” de fazer inveja. Dava gosto vê-lo atravessar os corredores do Congresso a caminho do plenário. Vozeirão inconfundível e andar gingando como um ganso, lá ia Fernando, com seu terno branco de linho diagonal legítimo, sapatos lustrosíssimos e cabelos sempre penteados. Impecável.

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