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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Reconsiderar o discurso de Ruffato em Frankfurt

Valter Campanato /Agência Brasil

Por Juliana MSC
"O que significa ser escritor em um país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo 'capitalismo selvagem' definitivamente não é uma metáfora"

A polêmica abertura da Feira do Livro de Frankfurt protagonizada por Luiz Ruffato em 2013 - que levou Ziraldo a uma quase síncope nervosa - precisa ser revista (com mais lucidez agora) e refletida por todos nós. O texto duro, considerado "inadequado" para a abertura de uma feira literária que, ainda por cima, naquele ano homenageava nosso país, adquiriu ares de profecia se considerarmos o que ocorreu em nossa conjuntura desde então.

"Embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro - é a alteridade que nos confere o sentido de existir - o 'outro' é também aquele que pode nos aniquilar"

Me chama a atenção o quanto esse atual cenário de ruptura está nos levando a legitimar, de maneira alarmante, violências subjetivas como a misoginia característica de parcela da nossa sociedade, sem que esse recrudescimento seja percebido pela maioria dos homens (e boa parte das mulheres). Com exceção daqueles poucos que compreendem a luta feminista para além do "mundo feminino" que só existe no imaginário do Vice.

Tantos anos de luta por direitos, à custa de muitas lágrimas (e perdas) e as mulheres precisarão reiniciar os debates, refazer caminhos, reeducar seus meninos e meninas. Estamos caminhando surpreendentemente rápido nessa "ponte para o passado", uma regressão (até mesmo psicológica) que vai contaminando as pessoas sem que elas percebam.



Em alguns casos reflito se todas essas "bestas" internas já não estavam ali, guardadas, enrustidas, aguardando a oportunidade de se sentirem libertas de tantas amarras ideológicas que foram tornadas leis, políticas públicas ou cultuadas politicamente em uma conjuntura social de um governo popular.

"Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê (...) o semelhante torna-se o inimigo"

Já não bastavam jovens cultuando personagens nefastos como 'Bolsonaros' e cia - na contramão inclusive do que é típico da juventude, que é a identidade libertária - parece que vamos ter de lidar também com piadas preconceituosas renovadas, agressões naturalizadas, o machismo tornado "institucional".

"E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença."

Até mesmo personalidades como Marta Suplicy, que um dia foi referência vanguardista por trazer o diálogo sobre o feminismo para a televisão brasileira (em plena ditadura militar!), se apequenou para legitimar a sucessão de violências que foram e ainda estão sendo cometidas. Não só contra as mulheres, mas também contra a diversidade, a cultura, a educação, os direitos humanos.

Ou seja, além do acúmulo de ódio de classe, de gênero, racismo, da xenofobia, da intolerância que nos levou (como sociedade) a este estado de coisas, caminhamos a passos largos para um aprimoramento não do que temos de melhor como nação, mas sim do que há de pior, daquilo que antes era vergonha e que hoje vem sendo, pouco a pouco, tornado sinônimo de "sucesso". Uma inversão de valores gritante e que é amplificada pelo tratamento antiético  da mídia de massa que embarcou no golpe de Estado e se recusa a narrar os fatos com o mínimo de honestidade intelectual. O resultado é que uma população, como lembra Ruffato, "formada por uma maioria de analfabetos funcionais" sequer é capaz de fazer a crítica da informação-produto que consome.

Ou não lemos Gilberto Freyre, Nelson Werneck Sodré, Jorge Amado, Darcy Ribeiro e outros teóricos de nossa identidade cultural, ou escolhemos esquecer tudo o que vivemos e, se é assim, "estaremos condenados a repetir nosso passado", como nos ensina o filósofo George Santayana.

Daí porque volto a mencionar Ruffato que, em Frankfurt, escolheu não dourar a pílula e falar do que realmente nos faz brasileiros.

Para quem quiser ouvir os quase 12 minutos em que  o escritor Luiz Ruffato coloca o dedo em nossas feridas:


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Marina Silva, a carranca e o estado laico - por Cynara Menezes

Reblogado de: Socialista Morena


Marina Silva, a carranca e o estado laico

carranca
(A carranca do rio São Francisco no saguão do ministério da Cultura)
Não tenho medo da vitória de Marina Silva. O povo é sábio e soberano. O que ele decidir, será. Irei respeitar e torcer para que dê certo, porque o País é o mesmo. Mas não voto em Marina. Obviamente, como pessoa de esquerda, me preocupa uma possível guinada neoliberal no governo com sua chegada ao poder assessorada por economistas que seguem esta cartilha. Existe, porém, uma razão mais forte que me impede de votar nela. O projeto de Brasil de Marina não é o meu, mas não voto nela principalmente porque não sinto confiança de que governará, sendo evangélica da Assembleia de Deus, a partir da concepção de um estado laico, como promete.
Há uma história que circula no ministério da Cultura desde a época de Gilberto Gil que para mim é emblemática. Gil ganhara uma carranca de madeira, daquelas que ficam na proa dos barcos no rio São Francisco, e chamou Marina, sua colega de prédio e ministra do Meio Ambiente, para “inaugurar” a obra, no hall de entrada comum a ambos ministérios. As carrancas são utilizadas pelos pescadores do rio como adorno e com a crença de que espantam maus espíritos. Marina teria se recusado a participar da cerimônia dizendo que a obra representava o “diabo”. Teria inclusive pedido para que fosse retirada do saguão. Se foi assim que ocorreu, o episódio não abalou sua proximidade com Gil, porque ele vai votar na ex-colega para presidente.
Em outra versão da história, contada em reportagem da revista Época de maio de 2008, a própria Marina teria sido presenteada pelos prefeitos da região do rio São Francisco com a carranca e teria se negado a receber o regalo, que ficou coberto até o final da cerimônia. Na mesma reportagem, uma bióloga do ministério do Meio Ambiente conta que, com Marina Silva à frente da pasta, reuniões técnicas chegavam a ser interrompidas para a realização de cultos evangélicos. Seu assessor Pedro Ivo, um dos coordenadores da campanha de Marina atualmente, negou os cultos durante o expediente, mas admitiu que, na hora do almoço, “funcionários se juntavam para rezar nas salas de reunião” (leia aqui).
Marina não me assusta. Fundamentalistas, sim. Estamos assistindo atônitos, nos últimos anos, à forte investida deles contra as bandeiras progressistas: a descriminalização do aborto como questão de saúde pública, a defesa dos direitos dos cidadãos LGBTs, a descriminalização das drogas. No segundo turno da última eleição, em 2010, os fundamentalistas jogaram as trevas sobre nós ao acusar Dilma Rousseff de ser “abortista”, levando a campanha ao mais baixo nível da história.
Eleita Dilma, não lhe deram trégua: à base de ameaças e chantagens, conseguiram barrar um kit educativo anti-homofobia por eles batizado como “kit gay”. Depois, no Congresso, os fundamentalistas lançaram sobre a Nação a praga de projetos medievais como o da “cura gay” e o Estatuto do Nascituro, apelidado de “bolsa-estupro” por seus críticos, porque prevê o pagamento de uma pensão à mulher que, vítima de estupro, decidir não abortar.
Por que falo em “fundamentalistas” e não “evangélicos”? Porque existem evangélicos progressistas. Gente cristã de verdade, que segue na vida o preceito de amar ao próximo como a si mesmo, e não odiar, como pregam alguns destes pastores insanos. É preciso separar o joio do trigo, distinguir os fiéis destes falsos “servos do Senhor”, interessados apenas em poder e dinheiro. Tenho certeza que muitos evangélicos não os suportam e conseguem enxergar com clareza a falta de cristianismo em suas palavras.
Marina é evangélica, mas honestamente não acredito que seja fundamentalista. De qualquer maneira, a história da carranca me deixou com o pé atrás. Também me chama a atenção o fato de nunca ter visto Marina em uma só foto que seja junto a representantes das religiões de matriz africana, alvos frequentes da intolerância dos fundamentalistas, embora tenha participado de uma campanha presidencial inteira em 2010. Eduardo Campos, sim. Inclusive sancionou em 2012, quando governador, um projeto que tombou terreiros de candomblé em Pernambuco.
Nos últimos dias, tivemos a notícia de que a campanha de Marina Silva voltou atrás e apagou do seu programa de governo o trecho que defendia o casamento gay –e justamente após um dos fundamentalistas mais fanáticos e repulsivos, o pastor Silas Malafaia, tê-la criticado no Twitter. Malafaia, aliás, declarou voto na candidata. Marina também ganhou a declaração de voto no segundo turno de outro pastor fundamentalista, o deputado federal Marco Feliciano, já defendido por ela como “vítima” de hostilidades por ser evangélico e não por ser o autor de frases de cunho homofóbico e racista.
Se, ameaçada por esta gente, a presidente Dilma Rousseff foi capaz de recuos em projetos importantes para a comunidade LGBT, como acreditar que, tendo eles a seu lado e professando do mesmo credo, Marina Silva não fará igual? Ou pior?
O fundamentalismo religioso e sua perseguição aos homossexuais, à esquerda e aos progressistas de maneira geral são a minha maior preocupação no Brasil hoje. Tenho falado constantemente sobre a importância de o PT aproveitar este momento histórico para se livrar deles, definitivamente –até porque preferem Marina. E conquistar a simpatia dos evangélicos que pensam de maneira diferente, mais condizente com o mundo moderno do que com preceitos ultrapassados ou mal interpretados propositalmente por pastores manipuladores.
Se Marina ganhar, espero de todo coração que eu esteja errada e que ela saiba de fato diferenciar Estado de religião. Que consiga domar os fundamentalistas a seu redor. Que lute pela tolerância com os gays e os adeptos de religiões de matriz africana com tanto fervor quanto prega por tolerância em relação aos evangélicos. E que cumpra sua promessa de fazer o governo laico que eu, infelizmente, não acredito que seja capaz de fazer.
Publicado em 5 de setembro de 2014

Em BLOG

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Por que voto em Dilma - por João Brant

Compartilho aqui no blog, uma excelente análise do João Brant (publicada no Facebook) e que vai de encontro aos mesmos argumentos que tenho para votar em Dilma Roussef novamente. Obrigada João, por nos ajudar a organizar as ideias! ;)

PS: grifos meus.

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Por que voto em Dilma (post longo, advirto)

Eu teria muitos motivos para não votar em Dilma: seu governo é mais conservador do que eu gostaria, houve poucas tentativas articuladas para mudar a cultura política do país e sua interlocução com a sociedade é muito limitada. No meu tema histórico de atuação, a comunicação, permaneceu tudo como dantes, sem nenhum esforço real para incidir sobre um sistema de mídia concentrado e conservador. Na cultura, houve retrocessos notáveis em relação ao governo Lula.

Mas a realidade é mais complexa. É preciso lembrar onde estávamos em 2002 e o que significou o ciclo inaugurado em 2003. O Brasil abandonou a rota neoliberal e reorganizou seu rumo na economia e no campo social para buscar diminuir a miséria e a pobreza no país. Fez isso, é verdade, sem romper com o capital financeiro e sem aprofundar processos de mudanças estruturais necessários para avançar mais. Mas não há dúvidas de que PT e PSDB fizeram opções muito distintas, que colocaram o Brasil em rumos opostos nos governos Lula e FHC.

O governo Dilma manteve as bases do governo Lula. No essencial, naquilo que tem capacidade de influir em escala na vida dos trabalhadores, houve poucas mudanças significativas. A conjuntura internacional mudou, e o governo teve méritos e deméritos no processo de adaptação. Conseguiu retardar e mitigar os efeitos da crise de 2008, mas seguiu apostando numa política de exportação de commodities que, aliada à falta de uma política industrial, tem efeitos negativos para o país em médio e longo prazo. De toda forma, diminuímos a desigualdade, mantivemos o desemprego em níveis bem baixos e 36 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema.

Explico porque, pra mim, Marina Silva e Luciana Genro não são opções. Em relação à Marina, vejo três problemas centrais. O primeiro é que ela opta por um programa econômico claramente liberal, vinculado à agenda do setor financeiro, que aponta na direção contrária do caminho de enfrentamento às desigualdades que tortuosamente estamos seguindo. Essa opção é estrutural, e com ela vêm todo um pacote cujos efeitos são sentidos diretamente pelos trabalhadores. Não que o programa de Dilma não assuma parte da agenda liberal, mas é só ver a resistência do setor financeiro à sua candidatura para ver que ela contraria interesses poderosos. Além disso, essa opção de Marina tende a neutralizar a oportunidade real de avanços que dependem de outra estrutura econômica. Seu programa tem vários pontos progressistas, alguns mais do que os do programa de Dilma, mas o papel aceita qualquer combinação. No mundo real, não vejo condições de a maior parte da agenda progressista ser mantida com essas bases.

O segundo problema é que a maneira como ela monta o discurso de mudanças na política é ilusória e, a meu ver, despolitizante. Ao dizer que vai governar com os melhores do PSDB e os melhores do PT, ela propõe ao Brasil ignorar que estes são dois projetos opostos para o Brasil, inconciliáveis se mantidas suas características essenciais. Ao mesmo tempo, ao se fixar no bordão da ‘nova política’, Marina transforma as necessárias mudanças na cultura política em um ato de vontade, que pula toda a parte de dar respostas concretas a problemas duros e reais. Não gosto da lógica de governabilidade assumida pelo PT e não acho que ela seja a única maneira de se governar, mas acho que sua superação só pode acontecer em um processo complexo de enfrentamento a essa lógica, que depende de uma articulação social potente. Que nova política é essa a que só teremos acesso depois das eleições? Por que ela depende de se estar no governo para ser praticada? Como acreditar em uma nova política que é mais personalista (baseia-se em quadros) e individualista e menos coletiva? No que Heraclito Fortes, Bornhausen e Roberto Freire se diferenciam de Renan, Maluf e Crivella?

O terceiro problema é o mais explorado nas redes, e tem a ver com um conservadorismo comportamental da candidata. Confesso que esse ponto nem é pra mim o principal, não porque não o considere importante, mas porque não me parece que Dilma e seu governo tenham feito (ou farão) avançar essa agenda de qualquer forma. São necessários casos emblemáticos e comoções gerais com muita luta social para que haja qualquer chance de mudança.

Mas frente a esse cenário por que não votar no PSOL? A opção feita pelo PSOL nos seus 10 anos de existência foi se fixar como um partido que não busca dialogar com um número significativo de brasileiros. Faz um discurso voltado para o eleitorado de extrema esquerda, que não alcança 2% da população, e não se propõe a construir um discurso e um programa que o aproxime das massas. Enquanto parte do petismo exagera na interpretação sobre a correlação de forças, o PSOL parece ignorar esta avaliação.

É preciso compreender como pensa o país. Mesmo sendo considerado um moderado por alguns amigos, eu estou provavelmente nos 2% mais à esquerda do Brasil. Não por ser extremamente radical, mas porque o povo, mesmo com valores de esquerda, é moderado. Essa opção de enclausuramento do partido é aceitável na atuação parlamentar, onde em geral o partido vai bem e cumpre um papel fundamental (vide Ivan Valente e Jean Wyllis), mas é insustentável no âmbito da disputa pelo Poder Executivo.

Ajuda a explicar a situação o fato de parte significativa do PSOL entender que o principal adversário a ser combatido é o PT. Psicanaliticamente dá pra aceitar, politicamente não. 

Frente a esse quadro, acho que a opção por Dilma significa uma opção viável pelos mais pobres. Significa também ir por um caminho em que algumas mudanças estruturais podem vir a ser disputadas (embora o governo tenha se fixado em bases nas quais há pouco espaço para elas). E significa deixar longe do governo o PSDB, que representa a agenda orgânica do setor financeiro. Parecem-me motivos suficientes.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Copa, BRICS e o revival do complexo de vira-latas

Esse texto está em um comentário meu no facebook, mas vou postar aqui (adaptado) por que não resisto em falar sobre tudo que tenho visto/lido/ouvido. A mídia (cada vez mais) influencia tanto mentes e corações que consegue mudar até a história da humanidade! Afeta nossa memória e mesmo o discernimento de algumas pessoas. Mas vamos lá:

Imagine que você tem uma família que vive por gerações e gerações em um lugar. Sua casa é bela, exuberante, tem múltiplas riquezas naturais e você convive com tudo isso de forma harmoniosa. Um pouco mais distante, vive um vizinho cuja família tem milênios de existência a mais do que a sua, tendo alcançado já alguma riqueza e desenvolvimento. Um belo dia ele "descobre" vocês por ali, ainda vivendo da terra e do que a natureza pode lhes dar. Enfim ele aparece e num primeiro momento se finge de amigo, lhe dá presentinhos, mas depois lhe rouba, estupra suas filhas, assassina os resistentes, retira na marra seus recursos naturais, a ponto de extinguir alguns, saqueia seus minérios, extermina árvores, fontes de alimento, sua beleza, sua força, e ainda forma em sua terra uma colônia onde, por séculos, irá explorar o trabalho de membros de sua família e de outros "selvagens" que ele trouxe de outros lugares mais pobres, para ajudar no trabalho de torná-lo ainda mais rico e poderoso.

Com tudo que lhe roubou, eles (e outros vizinhos ricos, que chegaram para ampliar o saque que o primeiro iniciou) investem em suas belas casas, seus templos de poder e na estrutura e formação de suas famílias. E você que ficou com a sua em frangalhos, segue tentando se reerguer. Eventualmente tentando preservar alguma altivez para seguir em frente, outras vezes tentando dialogar, se integrar, perdoando e esquecendo as dores do passado. Mas o tempo é cruel, corre contra você e é difícil, quase impossível, alcançar-lhes o mesmo patamar.

Você consegue se libertar depois de séculos de luta por direitos, mas ainda tem muito o que recuperar do prejuízo. Transformam em produto e consomem sua alegria, mas inserem à força valores (culturais e religiosos) que procuram desqualificar suas raízes e tradições. E você ainda tem que passar todo esse tempo de labuta ouvindo piadinhas, de que você "não vale nada", é inferior, mais feio, mais burro, mais preguiçoso. Até elaboram teses na tentativa de provar que você é geneticamente destinado ao insucesso. Mas você segue tentando preservar sua dignidade, e tentando transmitir aos seus a importância de seguir em frente e, mais ainda, a importância de buscar a felicidade. 

O tempo passa, não há mais conflitos extremos entre vocês. Seu vizinho "rico" então, se achando o detentor "natural" do direito de se sobrepor a tudo e a todos, se junta com outros parceiros "predestinados" e inventa uma guerra com outras vizinhanças e culturas e simplesmente mata praticamente TODOS, rouba deles TODA a riqueza, móveis e imóveis, de roupas a joias, mata-lhe os filhos reconfigurando gerações futuras, não respeitando absolutamente nada, nem mesmo a Carta de Direitos. Mas, felizmente, acabam vencidos por outras vizinhanças (e até uma ajudinha sua) que, juntas, colocam um ponto final nisso e toda essa comunidade volta, aos poucos, a viver novamente com alguma harmonia. Ainda assim, jamais tirariam deles aquilo que roubaram, não haverá julgamento ou compensação. A liga dos "vizinhos ricos unidos", fará sempre aquela cara blasé de quem tinha o "direito" de fazer o que fizeram e continuarão a multiplicar suas riquezas, sem remorso algum do sangue que derramaram. Afinal, estavam apenas "expandindo seu território", são "conquistadores", merecem até uma estátua no centro da sua maior cidade para que seus filhos aprendam que "corajosos" são eles, que desbravaram essa "terra selvagem". E você lá, correndo, arfando, suando, estudando, investindo em seus filhos, sonhando, tentando "chegar lá" enquanto lhe xingam, ridicularizam, o chamam de pobre, subdesenvolvido.

Os tais vizinhos privilegiados se reorganizam em uma grande força militar que ameaça todo o resto que não faz parte do mesmo "clube dos ricos". Com isso, estabelecem políticas de "ajuda humanitária" que na verdade são uma fachada para que continuem (até hoje) roubando, matando, expropriando outros vizinhos mais pobres (afinal, tanta terra ainda a explorar), controlando inclusive a COMUNICAÇÃO, que é para convencer todo mundo de que eles são "no fundo" tão bonzinhos quanto o 'Meu Malvado Favorito', na verdade eles são a "força do bem contra o mal" e fazem isso para "salvar o mundo dos terroristas". Tornam-se então nossos heróis, vultos que passam a ser doutrinados em nossas escolas (enquanto aqueles que lutaram por liberdade e direitos são completamente apagados da nossa memória). A tal ponto que qualquer crítica aos "métodos" passa a ser um tabu, coisa de "radicais". Seus filhos (e até você) começam a acreditar que precisam mesmo é agradecer a toda essa "proteção" que eles lhe dão sem cobrar quaaaase nada (só uma ou outra relação comercial injusta, mas isso é próprio do "mercado", da "livre concorrência", faz parte).

E mesmo depois de ter sido roubado e humilhado por séculos, você se aproxima do 5º lugar em riqueza e desenvolvimento em relação a todos os outros vizinhos, na verdade você até que está em situação bacana agora, seus filhos viajam e estudam nas terras "rycas" e eles, que agora estão um tantinho quebrados, ficam felizes vendo vocês chegarem lá e gastarem a rodo.

E você vai além, se une àqueles que estão em um mesmo estágio que você, e buscam estratégias para se ajudarem mutuamente e encontrarem maneiras de ajudar outros povos, com condições mais justas, mais humanas. Mas, novamente, sua própria mídia tenta provar o quanto todos vocês aí, pobres, são ridículos, tentando mudar as regras do jogo. Te espionam descaradamente, conspiram e, desta vez, não para te roubar, mas para não deixar que você se aproxime. A palavra agora é competição, uma das benesses da "democracia".

Nesse meio tempo, seus filhos, no esporte, conquistam CINCO vezes um campeonato. Nenhum dos outros, nem mesmo os mais ricos conseguem o mesmo feito. Mas um dia vocês organizam um mega campeonato na sua casa e seus filhos perdem feio, vexame total. "Logo você que era o melhor nisso, nem isso você faz direito seu mané?"... E você embarca novamente na onda derrotista. 

Até que você pára e pensa que tem duas opções: entender que é só um esporte e tocar em frente o trabalho de continuar crescendo e corrigir as falhas (inclusive aprendendo com o que os campeões fizeram de positivo), OU se sentir um lixo, vender isso todos os dias na sua própria mídia como uma hipnose coletiva, convencendo cada criança de que somos "a cara do fracasso", e reconhecer que eles sim, é que "sempre foram melhores em tudo", nós é que somos "atrasados mesmo".

A questão, meus caros, é que para vencer esse "atraso" devemos tirar a máscara, mas não é a "de dormir", por que aqui as pessoas sempre trabalharam muito, não tiveram muito tempo para dormir, e até "ergueram edifícios onde hoje não podem entrar", como diz o poeta. Sobrevivemos à exploração, à colônia, à escravidão, estamos buscando a integração com vizinhos mais próximos, estamos buscando aprender com cada cultura, preservando o que temos de melhor. Perdoamos, nos relacionamos com respeito até mesmo com aqueles que um dia nos exploraram, somos parceiros, e mais, temos condições de ajudar outros mais pobres (ajudar e não fazer proselitismo com a dor alheia). Mesmo assim, até hoje lutamos contra mentiras que convencem muitos dos outros (e dos nossos) de que não somos nada. Foi preciso realizar um mega evento, atraindo 600 mil estrangeiros de uma só vez, e vê-los encantados com cada traço de nossa cultura, querendo "exportar" para seus países coisas tão singelas quanto um simples ABRAÇO, para que as pessoas - até brasileiros! - passassem a ver que "até que somos legais".

A máscara que precisamos tirar minha gente, é realmente essa do "complexo de vira-latas", como sacramentou Nelson Rodrigues em 1950. Por que se a gente parar para prestar atenção (e me perdoem a expressão, mas não encontro outra melhor), nós somos mesmo é foda pra caralho.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A Onda

Quando li o artigo de Antonio Prata na "Falha de SP", cheguei a comentar no twitter que muita gente não iria compreender a ironia. Para meu espanto, isso de fato ocorreu mas em uma proporção inimaginável. Até o "superdotado" roqueiro Roger chegou a elogiar sinceramente a coragem (ou os "culhões") do autor de Guinada à Direita. Sensacional a quantidade de análises antropológicas e sociológicas que as reações a esse artigo ainda podem gerar, especialmente pela profusão de comentários elogiosos(!?) a tamanha lambada em nosso classe média way of life. Mas para não restar dúvidas, reproduzo o artigo abaixo (cujo autor se viu obrigado a confirmar que é uma ironia!) e em seguida, uma análise não menos brilhante do Kiko Nogueira no DCM sobre a Caixa de Pandora aberta por Antonio Prata e sua falsa guinada à direita. E tenho que dizer, juntando esses fatos à matéria e video da Veja SP que circularam por esses dias nas redes sobre o "Sultão dos Camarotes", ainda resta a dúvida: existirá limite para a boçalidade de nossos periódicos?


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ANTONIO PRATA
Guinada à direita
Você, cidadão de bem: junte-se a mim nesta nova Marcha da Família com Deus pela Liberdade
Há uma década, escrevi um texto em que me definia como "meio intelectual, meio de esquerda". Não me arrependo. Era jovem e ignorante, vivia ainda enclausurado na primeira parte da célebre frase atribuída a Clemenceau, a Shaw e a Churchill, mas na verdade cunhada pelo próprio Senhor: "Um homem que não seja socialista aos 20 anos não tem coração; um homem que permaneça socialista aos 40 não tem cabeça". Agora que me aproximo dos 40, os cabelos rareiam e arejam-se as ideias, percebo que é chegado o momento de trocar as sístoles pelas sinapses.

Como todos sabem, vivemos num totalitarismo de esquerda. A rubra súcia domina o governo, as universidades, a mídia, a cúpula da CBF e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, na Câmara. O pensamento que se queira libertário não pode ser outra coisa, portanto, senão reacionário. E quem há de negar que é preciso reagir? Quando terroristas, gays, índios, quilombolas, vândalos, maconheiros e aborteiros tentam levar a nação para o abismo, ou os cidadãos de bem se unem, como na saudosa Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que nos salvou do comunismo e nos garantiu 20 anos de paz, ou nos preparemos para a barbárie.

Se é que a barbárie já não começou... Veja as cotas, por exemplo. Após anos dessa boquinha descolada pelos negros nas universidades, o que aconteceu? O branco encontra-se escanteado. Para todo lado que se olhe, da direção das empresas, aos volantes dos SUVs, das mesas do Fasano à primeira classe dos aviões, o que encontramos? Negros ricos e despreparados caçoando da meritocracia que reinava por estes costados desde a chegada de Cabral.

Antes que me acusem de racista, digo que meu problema não é com os negros, mas com os privilégios das "minorias". Vejam os índios, por exemplo. Não fosse por eles, seríamos uma potência agrícola. O Centro-Oeste produziria soja suficiente para a China fazer tofus do tamanho da Groenlândia, encheríamos nossos cofres e financiaríamos inúmeros estádios padrão Fifa, mas, como você sabe, esses ágrafos, apoiados pelo poderosíssimo lobby dos antropólogos, transformaram toda nossa área cultivável numa enorme taba. Lá estão, agora, improdutivos e nus, catando piolho e tomando 51.

Contra o poder desmesurado dado a negros, índios, gays e mulheres (as feias, inclusive), sem falar nos ex-pobres, que agora possuem dinheiro para avacalhar, com sua ignorância, a cultura reconhecidamente letrada de nossas elites, nós, da direita, temos uma arma: o humor. A esquerda, contudo, sabe do poder libertário de uma piada de preto, de gorda, de baiano, por isso tenta nos calar com o cabresto do politicamente correto. Só não jogo a toalha e mudo de vez pro Texas por acreditar que neste espaço, pelo menos, eu ainda posso lutar contra esses absurdos.

Peço perdão aos antigos leitores, desde já, se minha nova persona não lhes agradar, mas no pé que as coisas estão é preciso não apenas ser reacionário, mas sê-lo de modo grosseiro, raivoso e estridente. Do contrário, seguiremos dominados pelo crioléu, pelas bichas, pelas feministas rançosas e por velhos intelectuais da USP, essa gentalha que, finalmente compreendi, é a culpada por sermos um dos países mais desiguais, mais injustos e violentos sobre a Terra. Me aguardem.

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A caixa de pandora aberta por Antonio Prata e sua falsa guinada à direita

Postado em 05 nov 2013
Cena do filme "A Onda"
Cena do filme “A Onda”

“Caralho. Esse tem culhão.”
A reação do roqueiro Roger, no Twitter, ao artigo de Antonio Prata na Folha foi entusiasmada. Prata escreveu uma coluna chamada “Guinada à Direita”. Confessava que, às vésperas de completar 40 anos, havia tomado juízo e arejado as ideias.
“A rubra súcia domina o governo, as universidades, a mídia, a cúpula da CBF e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, na Câmara. O pensamento que se queira libertário não pode ser outra coisa, portanto, senão reacionário”, escreveu.
“Quando terroristas, gays, índios, quilombolas, vândalos, maconheiros e aborteiros tentam levar a nação para o abismo, ou os cidadãos de bem se unem, como na saudosa Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que nos salvou do comunismo e nos garantiu 20 anos de paz, ou nos preparemos para a barbárie”.
Mais: “O branco encontra-se escanteado”.
“Contra o poder desmesurado dado a negros, índios, gays e mulheres (as feias, inclusive), sem falar nos ex-pobres, que agora possuem dinheiro para avacalhar, com sua ignorância, a cultura reconhecidamente letrada de nossas elites, nós, da direita, temos uma arma: o humor.”
Era uma farsa. Uma boa provocação. Ainda que o autor tivesse deixado de ser, como dizia, meio intelectual, meio de esquerda, aquilo era um evidente exagero apocalíptico.
Mas a reação ao amontoado de clichês direitosos foi espantosa. Prata teve de escrever no Painel do Leitor que estava sendo irônico. “A intenção, ao criar tal persona retrógrada, racista, machista e homofóbica, era apontar tais preconceitos em nossa sociedade. Parece que funcionou, pois a maioria dos e-mails equivocados que recebi me parabenizava pela ‘coragem’ de ‘assumir’ essas deprimentes opiniões”.
Roger (que virou motivo de piada pelo tuíte animadão) não estava sozinho. Centenas de pessoas se sentiram à vontade para disparar obtusidades do mesmo quilate.
Na seção de cartas:
“Realmente é essa gentalha, protegida por um poder totalitário instalado em nossa nação há mais de uma década, que impede o pleno desenvolvimento do país. Parabéns. Aguardo ansioso por novas colunas raivosas.”
No Facebook:
“Ele diz que os índios lá estão, agora, improdutivos e nus, catando piolho e tomando 51. Cade a ironia ai? Por acaso alguém já viu algum índio produzir algo útil e bom para a sociedade nas terras deles?”
Tá tudo dominado
Tá tudo dominado
“A mídia não fala nada sobre a implantação do comunismo no Brasil que vem sendo desenvolvida a (sic) mais de 30 anos no Foro de São Paulo”.
“O único poder capaz de impedir que o comunismo se instale no Brasil e não nos torne escravos são os militares”.
“Não importa se é ou não um texto irônico, o importante é que tudo isso que foi dito é verdade! O pior cego é aquele que não quer ver!”
E por aí afora. Prata abriu uma caixa de pandora. Eu me lembrei do filme “A Onda”.
Conhece? Se passa numa escola na Alemanha. Os alunos têm de escolher entre duas disciplinas: anarquia e autocracia. O professor Rainer Wenger decide formar um modelo de governo fascista na classe para mostrar, na prática, como ele se organiza. Dá o nome de “A Onda” ao movimento. 
A coisa se espalha para a cidade. Eles começam a gostar de ser subjugados e de subjugar os outros. Depois de algumas situações limites, Wenger acha que provou seu ponto e resolve dar sua experiência por encerrada. Claro que aí já é tarde demais.
Prata foi bem ao se explicar. A burrice e a paranóia estão por aí, cheias de amor pra dar, à procura de um motivo. Como naquele aforismo de Charles Colton: “Há fraudes tão bem elaboradas que seria estupidez não ser enganado por elas”.
Sobre o Autor
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

“Snowden foi um herói de nosso tempo”

Na Revista Piauí

“Snowden foi um herói de nosso tempo”

A pedido de piauí, o historiador Perry Anderson – autor do artigo A pátria americana, publicado nesta edição de outubro – enviou os seguintes comentários a respeito das recentes revelações sobre a espionagem cibernética dos Estados Unidos.


“O fato de nenhum país ocidental ter ousado dar asilo a Snowden diz muito sobre a realidade da Pax Americana”

por PERRY ANDERSON


O artigo A pátria americana está voltado para a política interna dos Estados Unidos, não para a ordem imperial americana no exterior. Mas um feito distintivo do governo Obama tem sido o de apagar a fronteira entre essas duas esferas em um grau inédito. Sob Obama, foi criado um sistema global de vigilância que abarca implacavelmente tanto chefes de Estado estrangeiros – como os presidentes do Brasil e do México descobriram – quanto o mais humilde cidadão americano. Ao expor essa espionagem cibernética universal, Edward Snowden foi um herói de nosso tempo. O fato de que nenhum país ocidental – nem mesmo o Brasil, uma vítima desse sistema – tenha ousado dar asilo a Snowden é mais revelador das realidades da Pax Americana do que o orçamento militar dos Estados Unidos, que é maior do que os orçamentos combinados de todas as outras potências com alguma pretensão de ter um papel internacional.
Numa sequência de A pátria americana que será publicada no fim deste mês na New Left Review, eu discuto a atuação externa do Estado norte-americano desde os anos 1930. A seguir, adianto um trecho sobre o atual governo:
“O que distingue o governo Obama como uma nova etapa do Império Americano? Durante a Guerra Fria, a Presidência dos Estados Unidos acumulou poder discricionário num ritmo crescente. Entre a época de Harry Truman [1945-1953] e a de Ronald Reagan [1981-1989], a equipe da Casa Branca se multiplicou por dez. Hoje, o Conselho de Segurança Nacional – com mais de 200 integrantes – é quase quatro vezes maior do que era sob Richard Nixon, Jimmy Carter ou mesmo Bush pai. A CIA atua como um exército privado à disposição do presidente e, embora o tamanho da agência seja um segredo, ela também cresceu exponencialmente desde que foi criada em 1949. Desde os dias de John Kennedy, seu orçamento aumentou mais de dez vezes, de 4 bilhões de dólares em 1963 para 44 bilhões em 2005, em valores atualizados. As chamadas “declarações de promulgação” – objeções feitas por escrito pelo presidente no ato de assinatura de uma lei – agora permitem invalidar legislação aprovada pelo Congresso e que não é do agrado da Casa Branca. Atos do Executivo ao arrepio da lei são regularmente endossados pelo Escritório de Assessoria Legal do Departamento de Justiça, o mesmo que [no governo George W. Bush] providenciou memorandos defendendo a legalidade da tortura. Mas mesmo esse grau de subserviência foi considerado insuficiente pelo Salão Oval, que criou sua própria assessoria para carimbar incondicionalmente tudo o que a Presidência decidir fazer.
Obama herdou esse sistema arbitrário de poder e violência e, como a maioria de seus antecessores, o ampliou. As operações Odisseia da Aurora e Stunext, o programa Prism e a campanha de assassinatos seletivos são da lavra do atual presidente: uma guerra [contra o líbio Muammar Khadafi em 2011] em que nem hostilidades chegaram a se configurar; um ataque de longa distância com um vírus eletrônico [ao programa nuclear do Irã]; a ampla espionagem de comunicações nacionais e estrangeiras; o assassinato de cidadãos americanos e estrangeiros. O Algoz-em-Chefe relutou até mesmo em abrir mão da prerrogativa de ordenar a morte sem julgamento de cidadãos dos Estados Unidos [acusados de atividades terroristas no exterior].
Ninguém pode acusar este presidente de não ter sentimentos humanos – as lágrimas pelas crianças mortas numa escola da Nova Inglaterra comoveram a nação; os apelos pelo controle do porte de armas foram convincentes para não poucos. Se muitas outras crianças, a maioria sem escolas sequer, morreram por suas mãos em Ghazni, no Afeganistão, ou no Waziristão paquistanês, isso não é motivo para a perda do sono presidencial. Os aviões não tripulados Predators têm a mira mais acurada do que armas automáticas, e o Pentágono sempre pode expressar pedidos de desculpas quando considerar conveniente. A lógica do império, e não a unção do governante, estabelece o padrão moral.”  

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Os médicos cubanos que viriam ou virão ao Brasil não são médicos formados na ELAM


Estive em Cuba há duas semanas onde conheci uma jovem diplomata cubana (formada em Economia c/pós-graduação em Relações Internacionais), que nos explicou que o conteúdo das universidades em Cuba, em todos os cursos, há muitos anos, é baseado no conteúdo programático de universidades da Espanha. São realizados convênios e com isso, inclusive o material didático é o mesmo. Dessa maneira eles mantiveram a atualização do conteúdo mesmo sob o bloqueio.

Do ponto de vista da metodologia, a aplicada no curso de medicina mas também em outros cursos é construtivista (portanto, bem menos expositiva) e de fato estimula a experiência profissional na prestação de serviços desde o início do curso, também vi isso lá. No curso de medicina da Escola Superior de Ciências da Saúde, aqui em Brasília, é utilizado um método parecido e lembro que durante um bom tempo houve um embate com os docentes da UnB (e mesmo alunos) que consideravam o método falho. Isso por que, por exemplo, alunos da ESCS desde o 1º ano são orientados a atuarem como observadores ou com tutoria nos hospitais (e não somente no final do curso). Isso faz com que os alunos pareçam (e são) inexperientes perto dos que estão cumprindo estágio em nível avançado. Não sei como está agora esse debate por aqui, mas em Cuba ficou claro, que até mesmo em estudantes norte-americanos (tem um grupo se formando lá agora), o método aliado à experiência de atuarem em hospitais cubanos, sob princípios humanistas e valores que estão sedimentados na cultura cubana (como o inegável compromisso com a solidariedade), contamina todos os recém-formados com o desejo de, prioritariamente, se doarem como médicos à missão de salvar vidas.

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Os médicos cubanos que iriam ou irão vir ao Brasil não são médicos formados na ELAM

Fonte: Maria Frô

Por Maria Leite*


Os médicos cubanos que iriam ou irão vir ao Brasil não eram médicos da ELAM.

Os médicos da ELAM não são cubanos. São médicos formados em Cuba, de diversos países, com todos os gastos por conta do estado cubano, de quem recebem moradia, livros, estudo e a ajuda para gastos em dinheiro (bolsa).

Os médicos brasileiros, formados na ELAM, para exercer a medicina no Brasil, tem e terão de fazer exame de revalidação e não se incluem nesses 6000, que viriam ao Brasil, através de um convênio, não trabalhar por conta própria, mas dentro do que estabelecer o contrato.

Em Cuba, existe desde o ano 2000 o conceito de microuniversidade e todos os profissionais, não apenas médicos se formam em serviço. Ou seja, a partir do segundo ano o aluno já trabalha na sua futura profissão, sob orientação de um tutor.

Terceira Revolução Educacional em Cuba é parte de um processo de transformação que envolve vários subsistemas, dentre eles a Formação e o Aperfeiçoamento do Pessoal Pedagógico e a Formação de Médicos, que tem sua base nas experiências de formação emergente que existe em Cuba desde a campanha de Alfabetização dos anos 60. Cada centro é convertido em microuniversidade e as sedes universitárias congregam os professores das universidades e adjuntos. Uma microuniversidade é uma escola, mas também pode ser um hospital, uma fábrica ou uma oficina, porque o conceito de universalização não é exclusivo da formação do professor ou do médico, o que pressupõe colocar o universitário em contato com a realidade onde se desenvolve fisicamente a profissionalização.

Todos os médicos cubanos, formados nas escolas de medicina em Cuba, após se formarem, tem que trabalhar no serviço social, de 4 anos, que implica trabalhar como médico de família, generalista, em locais no campo, nas montanhas, …, de forma que não exista um cubano sem assistência de médicos. Alguns entre os formados vão fazer o serviço social em outros países como a Venezuela e depois ao acabar o serviço social voltam a Cuba para fazer uma especialidade médica, se quiserem, ou seguem como generalistas.”

“Descartamos buscar médicos cujo tempo de formação não é reconhecido nos próprios países. A mera formação universitária não garante o exercício da medicina. São necessários cursos de especialização e residência médica.” Como assim? Os alunos formados médicos no Brasil trabalham em hospitais na residência atendendo pacientes, mas ainda assim há uma grande parcela da população que nasce e morre sem ver um médico no Brasil!”. O que publicou o El Pais, não é confiável e quero crer que o governo de Dilma não cairia nesses equívocos.

Padilha, creio eu, não cedeu à chamada por muitos máfia de branco, ao corporativismo de mercenários, que com exceções, são os médicos no Brasil. Ele, na condição de escolhido por Dilma para esse cargo, veio mais uma vez confirmar que de um governo eleito por uma eleição burguesa, por um sistema eleitoral decidido pelo dinheiro, não irá nunca poder ou fazer nada que crie um grande confronto direto com os interesses da burguesia, de onde saem prioritariamente uma maioria de meninos criados com todinho e leite de pera para se tornarem os médicos, para quem vale uma coisa: send me money!

*Maria Leite (LEITE, Maria do Carmo Luiz Caldas) é professora de Física e autora do trabalho sobre a Educação em Cuba: LOS VALIENTES: A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NA ESCOLA SECUNDÁRIA BÁSICA EM CUBA

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Programa Brasil Pedófilo: a virgindade de nossas meninas a R$ 20

Por Leonardo Sakamoto


A virgindade de meninas indígenas em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, pode ser comprada por um homem branco por R$ 20,00, roupas ou bombons. A Folha de S.Paulo, deste domingo (4), traz importante reportagem de Kátia Brasil sobre o drama, que vem sendo apurado pela polícia há um ano, mas não prendeu ninguém até agora. Entre os acusados, empresários locais e militares. Até ameaças de morte foram feitas para que tudo fique em silêncio.
A reportagem traz depoimentos das vítimas. Uma, de 12 anos, conta que teve a virgindade “vendida” para um ex-vereador, casado e com filhos. “Ele me levou para o quarto e tirou minha roupa. Foi a primeira vez, fiquei triste.” Outra meninas de 12 anos afirma que foi obrigada na primeira vez: “ele me deu R$ 30,00 e uma caixa com chocolates”.
Que a pedofilia encontra no Brasil um terreno fértil com muitos seguidores, isso é sabido. Imaginem o que seria desta nossa sociedade patriarcal e machista sem as revistas e sites que transformam mulheres de 18 anos em meninas de 12? Afinal de contas, se tem peito e bunda, se tem corpo de mulher, está pronta para o sexo, não é mesmo? E se está pronta para o sexo, por que não ganhar uns trocados para ajudar no orçamento familiar? Antes trabalhar do que ficar zanzando na rua, né?
Lembrei-me de histórias que presenciei. Passando o município maranhense de Estreito, cruzando-se a ponte sobre o rio Tocantins e entrando no estado homônimo, há um posto de combustível. Entre bombas de combustível e caminhões estacionados, meninas ofereciam programas. Entravam na boleia por menos de R$ 30,00, deixando a inocência do lado de fora. Já, em Eldorado dos Carajás, no Pará, me levaram a bordéis onde se podia encontrar por um preço barato “putas com idade de vaca velha”. Ou seja, 12 anos.
Retomo aqui um debate já travado tempos atrás neste espaço. Pois essa discussão não é sobre o direito da mulher ao seu corpo (que deveria ser inquestionável e protegido contra qualquer tipo de idiotice), mas defender que crianças e adolescentes não sejam abocanhados pelo mercado do sexo. Não estou tratando de sexo dos adolescentes, mas sim o seu uso comercial. Muito menos a legalidade da prostituição. Estamos falando de meninas de 12 anos que podem ter sido empurradas para essa condição por pressão da situação social ou econômica da família, mas também sofreram influência externa sobre sua sexualidade – da TV, dos amigos, de vizinhos, de músicas, de ofertas irrecusáveis de bens materiais ou dinheiro, que atiçaram desejos ou fantasias sobre si mesmas e o mundo.
Prostituição infantil não é novidade. E nem é vinculada apenas a uma classe social: há denúncias e mais denúncias de políticos e empresários que alugam barcos e hotéis para consumir as crianças que compraram. Ou festas regadas a uísque nas grandes cidades. Mas é ruim quando a gente se depara novamente com isso. Ver meninas que deveriam estar estudando para uma prova de sexta série vender seus corpos e encararem isso como parte da vida dá um misto de raiva e sensação de impotência.
A ocupação violenta da região amazônica durante a última ditadura militar foi realizada sob a justificativa de integrar o país e desenvolver o interior. Ajudou a enriquecer alguns poucos, trouxe outros milhares que perseguiam um sonho de vida melhor e viu milhões serem explorados em fazendas, carvoarias, bordéis, fábricas, garimpos, mineradoras do seu entorno – sejam migrantes, sejam moradores nativos. Nessa fronteira agrícola, convive a riqueza, que manda suas filhas estudarem no exterior, e a pobreza, que empurra as suas filhas para os postos de combustível nas madrugadas quentes.
Apenas um bagre em coma não sabe que um dos principais impactos da instalação de grandes obras de engenharia na região amazônica tem sido o aumento dos casos de prostituição infantil. Mas quem se importa com a dignidade de algumas pessoas quando estamos falando de megawatts e estradas, ou seja, da grandeza de um país? Os recursos investidos em programas de prevenção para garantir qualidade de vida ou monitorar as condições de crianças e adolescentes são sempre reduzidos diante do que é disponibilizado para o “progresso”. E, considerando os envolvidos nas denúncias, o Estado não é ausente. Em alguns casos, ele participa do crime.
Um dia um fazendeiro português com terras no Mato Grosso disse a Pedro Casaldáliga, símbolo da luta pelos direitos do campo no Brasil, para justificar a exploração: “Dom Pedro, o senhor é europeu, o senhor sabe. As calçadas de Roma foram feitas por escravos. O progresso tem seu preço”.
Desculpem mesmo, não é moralismo. Mas não dá para ler uma matéria como a que trata da situação em São Gabriel da Cachoeira e não ter a sensação de falência de um país.

Cojira participa de evento sobre a falta de representação dos negros/as no Parlamento

 Do Sindicato dos Jornalistas do DF

Dados apontam que dos 513 deputados federais, somente 43 se auto-declaram negros ou pardos. E dos 81 senadores, apenas dois 


No dia 06 de novembro, a Comissão dos Jornalistas pela Igualdade Racial do DF (Cojira-DF) participa do “Seminário sub-representação de negra e negros no Parlamento Brasileiro. O evento, promovido pela Frente Parlamentar Mista pela Igualdade Racial e em Defesa dos Quilombolas e pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), tem o objetivo de discutir a ausência de representantes negros/as no parlamento e será realizado em comemoração ao mês da Consciência Negra.

Durante o evento, especialistas, representantes do governo, parlamentares, acadêmicos, jornalistas, entre outros, irão debater a composição racial no parlamento brasileiro (dados apontam que dos 513 deputados federais, somente 43 se auto-declaram negros ou pardos. E dos 81 senadores, apenas dois). Além disso, os participantes do seminário também objetivam analisar os motivos da sub-representação dos negros e negras no parlamento, bem como, examinar o comportamento dos parlamentares negros que atuam dentro do Congresso Nacional.

Para Daniela Luciana, representante da Cojira que comporá a mesa principal do evento, a luta por essa igualdade dos negros e negras dentro do parlamento brasileiro é um pré-requisito para a consolidação e avanço do processo democrático em nosso país.

“O debate sobre a situação de sub-representação, que encontra paralelo – se pela ausência ou pelos estereótipos recorrentes – na mídia brasileira é uma contribuição de legisladores, profissionais e estudiosos à reversão desse quadro de desigualdade. Para além do diagnóstico, que já sabemos negativo, a contribuição pretendida é indicar as estruturas partidárias, institucionais, os procedimentos vigentes na comunicação política, entre outras situações que não permitem romper com a situação em que estamos, onde o negro e a negra continuam a formar a maioria que vota, mas raramente é eleita", afirma.

A mesa do evento será coordenada pelo presidente da Frente Parlamentar Mista pela Igualdade Racial e em Defesa dos Quilombos, deputado Luiz Alberto (PT/BA) e além de contar com a representante da Cojira, será composta pela ministra de Estado Chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros; pelo professor Doutor da Universidade Federal da Bahia, Cloves Oliveira; pelo membro do colegiado de gestão do Inesc, José Antonio Moroni.



O quê: Seminário “A sub-representação de negras e negros no Parlamento Brasileiro”
Quando: 06 de novembro das 14h às 18h
Onde: Auditório Freitas Nobre – Anexo IV da Câmara dos Deputados

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Unión de Periodistas de Cuba condecora Beto Almeida

Do BlogueDoSouza:



El destacado periodista brasileño, Carlos Alberto Almeida (Beto), en acto solemne en la sede de la Unión de Periodistas de Cuba (UPEC), fue condecorado con la Distinción Félix Elmuza. La medalla que otorga el Consejo de Estado, le fue entregado por Tubal Páez, presidente de esa organización.

La vicepresidenta de la UPEC, Aixa Hevia, destacó la trayectoria del analista brasileño dentro del movimiento de solidaridad con Cuba y su permanente acción en favor del periodismo revolucionario y contra el terrorismo mediático.

Visiblemente emocionado, el homenajeado agradeció el gesto, el cual dijo aceptar como parte de su compromiso irreductible por divulgar la verdad de la patria de José Martí, en un contexto internacional en el que los grandes medios pretenden imponer una visión distorsionada de la realidad.

Beto Almeida es invitado permanente de la Junta Directiva de Telesur, presidente de Televisión Ciudad Libre en Brasil, y de TV comunitaria de Brasilia, corresponsal de Radio de Madres Plaza de Mayo de Argentina, y miembro del Consejo Editorial del “Jornal Brasil de Fato”.

Se encontraban presentes diversas personalidades de la prensa y amigos del galardonado, entre ellos Luis Acosta, vicepresidente primero del Instituto Cubano de Radio y Televisión (ICRT).

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Fechando a semana - uma homenagem a um dos últimos mestres de nosso tempo

The months in Berlin made me a lifelong communist, or at least a man whose life would lose its nature and its significance without the political project to which he committed himself as a schoolboy, even though that project has demonstrably failed, and, as I now know, was bound to fail. The dream of the October Revolution is still there somewhere inside me, as deleted texts are still waiting to be recovered by experts, somewhere on the hard disks of computers. I have abandoned, nay, rejected it, but it has not been obliterated. To this day I notice myself treating the memory and tradition of the USSR with an indulgence and a tenderness which I do not feel towards communist China, because I belong to the generation for whom the October Revolution represented the hope of the world, as China never did. The Soviet Union's hammer and sickle symbolised it.

Interesting Times, Little Brown, 2002




Eric Hobsbawn em visita ao Brasil, Paraty(RJ), 1995

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