"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

RENAN, NÓS E A DEMOCRACIA

A democracia parece ser mais misteriosa do que supõe nossa vã filosofia...

O "caso Renan" - que aliás, ontem descobri, frequentava muito o "Recanto Bezerra Neto" do Beirute, aquela mesa estrategicamente atrás da árvore - me lembrou alguns outros fatos recentes que ainda precisam de melhor explicação. Vejamos:

- Jáder Barbalho e o falecido ACM provaram, publicamente, que ambos eram meliantes públicos. Eram tantas as evidências apresentadas por cada um deles contra o outro que nenhum dos dois resistiu e acabaram por renunciar para não serem cassados. Na eleição seguinte ambos se (re)elegeram nos seus estados. Jáder é deputado, ACM morreu senador. As pessoas dizem que o "povo não sabe votar", eu não acredito nisso. ACM foi enterrado com honras de estado - e de herói - e com a participação maciça e emocionada do povo baiano e de artistas e autoridades de vários estados.

- Vários mensaleiros e sanguessugas foram (re)eleitos apesar da exposição pública de seus nomes. Pelo menos um deles do qual agora me lembro (Paulo Rocha-PT/PA) renunciou mas se (re)elegeu logo na eleição seguinte. Palocci se (re)elegeu, assim como João Paulo Cunha, ambos por SP. Não é surpreendente?

- Falando em Sampa, Paulo Maluf, já formalmente condenado em mais de um processo, por corrupção continua sendo uma herói simbólico para boa parte da população paulista que ainda hoje o elege com votação significativa. E provavelmente ele permanecerá elegendo também qualquer um apresentado por ele aos paulistas.

- José Roberto Arruda cometeu um atentado contra a democracia (no episódio da violação do Painel do Senado), renunciou, mas se (re)elegeu deputado federal e depois governador do DF. Desde aquela época eu classifico o que ele fez como sendo muuuuito pior do que "matar ou roubar" como ele vinha se justificando. Hoje, ao que parece, ninguém lembra mais do que ele fez.

Há muitíssimos outros casos iguais ou semelhantes espalhados por aí na nossa História. É muito difícil dar uma explicação ÚNICA que englobe todos esses casos, mas alguns traços comuns podem ser identificados.

Cito alguns:

1- "Opinião pública", em definitivo, não é o mesmo que "opinião publicada".

2- As relações entre "mídia e democracia" são menos óbvias do que parece. Ainda bem, porque a liberdade de imprensa é tão vital para a democracia quanto se manter em mente que A IMPRENSA NÃO É a democracia. Jornais, revistas, televisões e outras empresas do ramo são apenas isso mesmo: empresas em busca do lucro. Não mais e não menos do que isso. A mercadoria especial que existe para produzirem - informação - é usada por essas empresas para lhes garantir lucro e não para produzir qualquer outro valor transcendente. Os jornalistas simplesmente não conseguem "furar o cerco" do interesse dos patrões. A democracia é mais ampla do que a imprensa.

3- "Opinião pública" e "opinião publicada" não são sinônimo de "intenção de voto" nem, muito menos, de voto efetivo do eleitor que constituiu o espaço político e institucional que existe de fato.

4- Ninguém tem um manual que explique, satisfatoriamente, a trilha que vai da "opinião pública", passa pela "opinião publicada", pela intenção de voto, pelo voto efetivo e resulta no espaço político institucional que temos.

A absolvição do Renan é chocante para um segmento da população mas não se pode concluir que ela torna nossa democracia pior. Apenas mais complexa. MAS QUEM DISSE QUE ELA - A DEMOCRACIA - É SIMPLES?

Melhor faremos se nos esforçarmos mais para entender os fenômenos produzidos pela democracia, afastado todo milenarismo, toda visão apocalíptica e moralista barata.

A absolvição de Renan, com certeza, acarretará consequências, mas todas muito difíceis de prever, ou mesmo de reconhecer quando acontecerem, mas todas ficarão dentro dos limites da democracia que temos e que vai muito bem, obrigado. Pelo menos no tocante às liberdades garantidas conquistadas muitas vezes com o sangue dos que tombaram em nossa história, em especial na mais recente, a partir de 68. E com o resultado das urnas não dá pra dizer que ao povo não tem chance de escolha.

Desconfio que, nos limites da democracia real que temos, com o tempo, vai se provar que o Renan tornou-se um fardo maior do que imaginamos para o próprio governo Lula - que ajudou a "blindá-lo". Daí, abre-se mais uma oportunidade para avanços na democracia... Como nos posicionaremos?

A democracia não promete resultados de qualquer tipo para quem quer que seja, não é o reino da certeza, mas da INCERTEZA e sequer garante, por si mesma, que o seu resultado final seja a justiça ou a eqüidade. Apenas tenta criar condições para que esses objetivos sejam perseguidos por quem lhes dá valor.

Se inferirmos que não vivemos em uma democracia e que gostaríamos de construir uma nova proposta para ela, então também precisamos ter em mente o quê exatamente queremos e que o caminho passa por uma conscientização pública que demanda uma educação popular que já deveria ter acontecido secularmente mas não aconteceu. REPITO: NÃO ACONTECEU. O regime militar fez questão de colocar uma pedra sobre isso ao alterar o currículo das escolas que até hoje tentam recuperar o tempo perdido. Há uma lacuna gigantesca na formação política da sociedade brasileira que não pode ser preenchida em pouco tempo. Como essa mesma população pode ser preparada para entender o tipo de democracia que tem vivido e ser "treinada" para exigir mudanças? Lembrando que outro efeito profundo (construido a partir do regime militar) nas mentes e corações brasileiros foi justamente a "preguiça de saber", com o adicional embotamento ocasionado pela globalização que vivemos hoje. Antes, nossa sociedade enxerga quais as mudanças necessárias?

Buscar entender o processo que vivemos hoje - incluindo um apanhado de como chegamos aqui - é, a meu ver, o primeiro passo para que possamos nos "situar" no tempo e história e, a partir daí sim, lutar por algo que consideremos melhor, mais justo, mais democrático. A liberdade de buscar esse conhecimento nós já temos. A pergunta é: teremos disposição para ir até o fim?

Juliana de Souza é estudante de jornalismo na capital do Brasil.
(com a colaboração do companheiro Homero de Brasília)

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