"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Bolívia, Diário de Viagem - Yo creo en signos (em espanhol: eu acredito em sinais)

Estou viajando rumo a Vallegrande, município de Santa Cruz de La Sierra, Bolívia, em um microônibus cheio de representantes do MR-8 (antigo), do MST, da ALN, do PT, do PSB do PCdoB, de movimentos sociais diversos, de correntes religiosas diversas, além é claro da nossa equipe. Posso dizer que estou entre amigos. Mas, a pessoa mais importante que encontrei nesse lugar, foi eu mesma há 15 anos atrás. E eu estou muito feliz com esse "reencontro".

Bom, melhor começar do início... Há cerca de um mês fui convidada por um amigo e ex-companheiro de partido, Acilino Ribeiro, a trabalhar na produçao de um documentário sobre Che Guevara. Topei na hora, claro. Além de mim, dois outros amigos entraram na produçao: o Sérgio (direçao de fotografia) e o Miguel (fotógrafo e produtor). Mergulhamos na literatura disponível, analisamos as quase 40h de imagens que ele acumulou em anos de pesquisa, o material fornecido pela famìlia do Che, enviamos mais de 50 ofícios e fizemos um sem número de reunioes com possiveis patrocinadores. O problema é que o tempo que tivemos para nos planejar para esta viagem foi quse nenhum já que exatamente hoje, 08 de outubro de 2007, se realizaria em Cuba e na Bolivia, as homenagens aos 40 anos da morte do Che. Ou seja, tínhamos que estar lá (ou melhor aqui) de qualquer jeito. Corre-corre geral para conseguir um apoio mirrado e muitas promessas. Mas, como nesse caso nao tínhamos escolha, viemos com a cara, a coragem e apenas a grana das passagens. Existia, claro, a perspectiva de que sendo a Bolívia um país relativamente barato para alguns dias (cerca de U$ 20/dia pra quem encara o mochilao), reservamos alguns trocados para despesas "menos importantes" como hospedagem e alimentaçao e.. estamos aqui!

Agora, essa é a parte boa porque a parte que deu errado... aff... chegamos a pensar que uma grande "uruca" tinha pousado de vez sobre nós, ou seria a "maldiçao dos inimigos do Che"? Como tínhamos certeza de que éramos todos admiradores dele entao, realmente chegamos a pensar que alguém nao queria que chegassemos... Nao vou entrar em detalhes porq nao vale a pena, até porq agora está tudo bem. Mas imaginem que além de todos os percalços para conseguir apoio financeiro e logístico para o filme, ainda enfrentamos 12h de viagem para entrar na Bolívia. Como assim? Brasília - Santa Cruz com escala dura no máximo oito horas! O que aconteceu foi que na hora do embarque, ou como diz meu amigo Trappa, na cara do gol, nos barraram por estarmos com 9 dias de vacina contra febre amarela quando deveríamos ter 10. E nao teve jeito, tivemos que trocar as passagens (o que conseguimos depois de brigar por cerca de 4 horas com diversos funcionários da Gol que simplesmente nos disseram que perderíamos as passagens pagas à vista). Só que apenas haviam passagens para a outra semana e tinhamos q estar na Bolivia em no máximo 2 dias!... Resumo: trocamos por passagens para Cuiabá na intençao de fazer o resto do trajeto de ônibus, a partir de Cárceres, mas quando chegamos lá nao dava p/passar na fronteira e tivemos que voltar, pegar um aviao para Campo Grande e dali para Santa Cruz. Encontramos no ônibus de Cárceres um jornalista brasileiro que vive em Londres e que, vendo como estávamos um pouco "perdidos" nos deu... um guia da América Latina! Ele achou incrível estarmos sem um guia... nós também! Com tanto planejamento ninguém pensou no óbvio ululante...

Nesse meio tempo quebramos o pau algumas vezes, ficamos de molho em quatro aeroportos, teve gente que pensou em desistir e voltar para casa e ficamos todos exaustos. Eu, como tenho aquele componente psicológico obsessivo e nao desisto nunca, ficava só no "discurso de resistencia" e conseguia com jeitinho convencer a galera a continuar. Vamos pensar numa alternativa! E agora em outra! E podemos achar uma soluçao (de novo)!... Claro que meus companheiros de viagem também foram todos, cada um à sua hora, providenciais. Todo mundo em algum momento "salvou" a viagem de alguma forma. Mas acho que o mais complicado foi lidar com o péssimo atendimento da Gol, com raríssimas exceçoes. Tao raras que acho até que vale citar pelo mérito: a gerente Raquel que estava no plantao da última sexta-feira em Brasília, dois rapazes do check-in em Campo Grande quando embarcávamos para a Bolívia e só. Acreditem, foram os únicos. Aliás, entre todos os brasileiros que encontrei na Bolívia, nao faltam piadas sobre o atendimento cada vez mais decadente da companhia aérea "dos Constantino". Foi tao desgastante esse processo, que quando chegamos na Bolivia só pensávamos que estávamos entrando no país às 3 da manha (claro que o vôo atrasou) e ainda tinhamos que procurar um hotel. Foi aí que tudo mudou (incluindo nossa sorte). Descobrimos o porque de termos dado tantas voltas...

Encontramos o Stédile no mesmo aviao e o Acilino foi por muitos anos advogado do MST lá no Piauí, ou seja, eles ja se conheciam. Daí que o Stedile estava com a delegaçao que falei no início desse texto. Todos convidados pela Fundaçao Che Guevara para participar das homenagens e foi nesse ônibus que entramos - acolhidos calorosamente por todos que la estavam -, fomos para o mesmo hotel e estamos com eles até hoje. Detalhe: alguns, como o monge Marcelo Barros, eram pessoas com quem eu já tinha trabalhado há muitos anos quando diagramava o Boletim da Rede em Petrópolis. Pessoas ligadas aos articulistas daquela época, das mesmas entidades estao agora nesse momento viajando comigo para essa excursao por um pedaço da historia da América Latina. Me vi entrando num ônibus em Petrópolis, numa noite chuvosa (sem avisar minha mae) descendo sozinha para o Rio de Janeiro para assistir ao Jose Rainha receber a medalha da Câmara Legislativa. Me vi fazendo o mesmo outra noite, com apenas uma mochila e um punhado de cópias de um texto do Guilherme Delgado (IPEA) contra a venda da Vale e entrando no meio da multidao que protestava na mesma praça da Camara Legislativa e sentidndo pela primeira (e ate agora unica) vez o gosto amargo do gás lacrimogeneo.

Sei que mantive meus ideais (e minha militância) ao longo desses anos. Mas acho que em alguns momentos esqueci dessa "outra" pessoa. Especialmente quando encontrei pelo caminho companheiros que trocaram sua militancia e sua historia por alguns trocados ou benesses do poder. Hoje, sentada no fundo desse ônibus e olhando as cabeças brancas a minha frente fico pensando que além de sobreviventes, eles nao desistiram e se mantiveram coerentes com suas historias, como Dom Tomaz Balduíno do alto dos seus 84 anos nesta viagem com pouquissimo conforto para chegar ao ato de homenagem ao Che, como o casal Capiberibe injustiçados mas firmes nos seus ideais revolucionarios, como o Monge Jo Shin que apóia a resistencia pacífica no Tibet... e todos os outros. Vi o Acilino encontrando ali com velhos companheiros de luta e combate de uma epoca que deixou poucas lembranças mas deixou sementes. Olhei para o Trappa e o Miguel e concordamos: estamos no lugar certo e na hora certa. E se tínhamos alguma dúvida do que estávamos fazendo, agora nao resta mais nenhuma.

Volto com a descriçao da viagem, do culto ecumenico realizado no local onde enterraram Che e outros boletins emocionantes desta viagem que só está começando. E, claro, fotos. Muitas fotos. A única coisa que tenho a lamentar agora é nao ter me empenhado em aprender castelhano tanto quanto o inglês. 

Juli de Souza
Vallegrande - Bolívia
Nos 40 anos da queda em combate do guerrilheiro heróico Che Guevara.

P.S.: companheiro Homero, essa é p/vc.

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