"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

As 101 vidas de Niemeyer

Hoje, no aniversário do arquiteto, o Correio apresenta uma cronologia de fatos do mundo e feitos do mestre que marcaram esse período:

Érica Montenegro
Da equipe do Correio

O arquiteto Oscar Niemeyer completa 101 anos hoje. Neste período, viu duas guerras mundiais e dezenas de revoluções. Ergueu mais de 500 edifícios. Revoltou-se com injustiças. Assinou manifestos. Foi homenageado com os mais importantes prêmios de arquitetura do mundo. Casou-se duas vezes. Teve uma filha. Inventou prédios-monumento para Brasília, para capitais cosmopolitas e para municípios do interior. Conviveu com intelectuais, artistas, presidentes, chefes de Estado e operários. Filiou-se ao Partido Comunista. Desfiliou-se. Permaneceu acreditando que a desigualdade entre as pessoas é um dos piores males da sociedade. Fez desenhos no ar. Fumou cigarrilhas. Domou o concreto. Acrescentou curvas brasileiras ao mundo. Construiu. No aniversário de 101 anos do poeta das formas, o Correio apresenta uma pequena coleção de fatos do mundo e feitos do artista durante este período.
1907 – O escultor do concreto nasce em 15 de dezembro, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Filho de Oscar de Niemeyer Soares e Delfina de Almeida de Niemeyer Soares.
1910 – Começa a Revolução Mexicana. Intelectuais, classe média urbana, operários e agricultores lutam contra a ditadura do general Porfirio Díaz
1916 – Einstein divulga a Teoria Geral da Relatividade. Os estudos de Einstein eram na área da física, mas o bordão "Tudo é relativo" influenciaria todo o pensamento da humanidade.
1917 – Entre fevereiro e outubro, explode a Revolução Russa. Os operários querem o controle das fábricas. Os camponeses, a divisão de terras de maneira igualitária. Os soldados, o fim das guerras intervencionistas.
1918 – Acaba a Primeira Guerra Mundial iniciada quatro anos antes. Saldo: 10 milhões de mortos.
1919 – Walter Gropius cria a Bauhaus, escola alemã de arquitetura e artes que se tornaria referência. Mais tarde, Niemeyer criticaria a preocupação da Bauhaus com a reprodução em série.
1922 – Na semana entre 13 e 18 de fevereiro, os paulistas ficam escandalizados com a Semana de Arte Moderna. A exposição tem quadros de Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro e Anita Malfatti, entre outros. Nos saraus, o público vaia os poemas de Mário e Oswald de Andrade.
1923 – O americano Edwin Powell Hubble descobre que o universo é maior que a Via Láctea.
1925/1927 – O Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos Prestes, percorre o país em um movimento de insatisfação com a República Velha.
1928 – Niemeyer se casa com Annita Baldo. Na França, o arquiteto Le Corbusier constrói a Villa Savoye e formaliza os principais pontos de uma nova linguagem arquitetônica: construção sobre pilotis, terraço-jardim, janelas de fora a fora e economia de colunas.
1929 – Oscar Niemeyer entra para a escola de Belas Artes no Rio de Janeiro. O mundo está convulsionado pela crise econômica.
1930 – Getúlio Vargas assume a Presidência da República depois de um golpe de estado que depôs o paulista Washington Luís.
1935 – Recém- formado, o arquiteto bate à porta do escritório de Lucio Costa e Carlos Leão. Ouve que não há vagas. Então, se oferece para trabalhar de graça. “Era um favor que eles me faziam”, diria depois.
1936 – Gustavo Capanema, ministro da Educação de Getúlio, encomenda ao escritório de Lucio Costa um prédio para o Ministério da Educação. Le Corbusier vem ao Brasil como consultor do projeto. Niemeyer é o homem designado para acompanhá-lo. Durante o encontro, faz sugestões – aumentar a altura dos pilotis, colocar brises-soleil nas janelas e ajardinar a cobertura, que são acatadas.
1937 – Pablo Picasso pinta Guernica em protesto à Guerra Civil Espanhola. Niemeyer faz seu primeiro projeto-solo, o prédio da Obra do Berço no Rio de Janeiro.
1939 – Começa a Segunda Guerra Mundial, a mais sangrenta da história. O conflito só acabaria em 1945 e deixaria mais de 33,4 milhões de mortos. O fim da guerra inauguraria uma nova divisão de forças no mundo. De um lado, o bloco socialista liderado pela União Soviética. Do outro, o capitalista sob o comando dos Estados Unidos.
1940 – Em um jantar, o arquiteto conhece Juscelino Kubitschek , então prefeito de Belo Horizonte. No encontro, os dois conversam sobre propostas para ocupar as cercanias da Lagoa da Pampulha, em Minas Gerais. Ao se despedir, Juscelino diz que deseja ver o projeto de Niemeyer no dia seguinte. Sob o signo da urgência, a parceria dos dois começa.
1942 – A igreja da Pampulha, uma das encomendas feitas por Juscelino, fica pronta. A revolução arquitetônica de Niemeyer estava iniciada. A partir da inventividade dele, o concreto teria de se submeter às curvas.
1945 – Niemeyer se filia ao Partido Comunista, que havia acabado de voltar à legalidade. Faz amizade com Prestes e cede seu antigo escritório para as reuniões do partido.
1947 – O brasileiro encontra em Nova York os mais importantes arquitetos do mundo para juntos desenharem o prédio sede das Nações Unidas. O projeto escolhido para servir como base para o definitivo é o de Oscar Niemeyer.
1950 – O trompetista Milles Davis lança o disco The birth of the cool. O charme melódico, a delicadeza das texturas e a pureza estética das músicas revigoram o jazz.
1956 – JK, então presidente da República, convida Niemeyer para construir Brasília
1957 – No aniversário de 50 anos de Niemeyer, Lucio Costa o cumprimenta com um texto: “Pelo volume da obra realizada, poderia ser setenta, mas na verdade continua com os mesmos trinta e tantos da época da Pampulha. E pelo jeito será sempre assim. Não se trata, contudo, de nenhum pacto com o diabo. (…) Ele convive com os amigos, brinca com os outros, assume compromissos da maior gravidade, mais já está longe – paira solto do chão, em pleno Parnaso. As horas e os dias não contam mais, não há o desgaste: pelo contrário, recebe carga, acumula vida.”
1959 – A bossa nova é oficialmente lançada com o disco Chega de Saudade, de João Gilberto. Frank Lloyd Wright, um dos pais da arquitetura da funcionalidade, morre aos 89 anos.
1960 – Brasília é inaugurada. Niemeyer não sobe no palanque das autoridades. Assiste à festa com os candangos, operários que vieram de toda parte do país para construir a cidade inventada.
1963 – John Kennedy é assassinado.
1964 – Em 1° de abril, militares derrubam o presidente João Goulart. Começa a ditadura no Brasil. Os tempos sombrios e a quantidade de convites para obras no exterior afastam Niemeyer do país.
1967 – O presidente francês Charles De Gaulle, a pedido do escritor e ministro André Malraux, faz um decreto concedendo a Niemeyer os mesmos direitos trabalhistas dos arquitetos franceses.
1968 – Niemeyer inaugura a sede da editora Mondadori, na Itália. Estudantes invadem as ruas de Paris com a palavra de ordem: É proibido proibir. A variação de tamanho no espaço entre as colunas da Mondadori dá um ritmo musical ao edifício.
1969 – Neil Armstrong, comandante da Apollo XI, pisa na lua.
1973 – Golpe de Estado no Chile derruba Salvador Allende e põe fim ao único governo marxista democrático da América Latina.
1974 – A Revolução dos Cravos, em Portugal, acaba com a longa ditadura iniciada por Antônio de Oliveira Salazar.
1975 – Em outubro, o jornalista Vladimir Herzog é assassinado na sede do Doi-Codi em São Paulo.
1976 – JK morre em um acidente de carro.
1978 – Em 11 de novembro, Niemeyer visita Brasília e reclama que a especulação imobiliária desfigurou a cidade e afastou os operários do centro. “Justamente ele (o operário), que construiu palácios e edifícios, nunca pôde e nem vai poder neles entrar”, afirmou em entrevista ao Correio.
1980 – O arquiteto volta ao Brasil e trabalha na construção do Memorial JK.
1983 – Inaugura o Sambódromo no Rio de Janeiro. Os arcos da passarela lembram uma mulher de costas, de bíquini.
1984 – O Brasil se agita com a idéia de voltar a eleger o presidente. A campanha Diretas Já! reúne um milhão de pessoas em comício no Rio de Janeiro e outro milhão em São Paulo. Mas a emenda de Dante Oliveira não passa na Câmara dos Deputados.
1988 – Niemeyer ganha o prêmio máximo da arquitetura mundial, o Pritzker.
1989 – Cai o murro de Berlim, símbolo da Guerra Fria. Fernando Collor de Mello é o primeiro presidente eleito no Brasil depois da ditadura militar.
1990 – Niemeyer e Luís Carlos Prestes se desligam do Partido Comunista.
1991 – O arquiteto faz integração perfeita entre edifício e paisagem no Museu de Arte Contemporânea de Niterói.
1993 – O mundo fica menor. Desta vez, a revolução vem pelos computadores. A internet começa a se popularizar.
1997 – Niemeyer presenteia Fidel Castro com o desenho do monumento contra o embargo a Cuba.
1998 – José Saramago ganha o Prêmio Nobel da literatura. O comunista português é um dos autores favoritos de Niemeyer. Lucio Costa morre.
2006 – Niemeyer se casa pela segunda vez. A eleita é Vera Lúcia Cabreira, secretária de Niemeyer há 14 anos e amiga há mais de três décadas. O Complexo Cultural da República idealizado pelo arquiteto ainda durante a construção de Brasília é inaugurado.
2008 – O arquiteto passa dois dias em Brasília e declara que espera ver erguidas três obras para as quais já preparou projetos: a Praça do Povo, a Torre de TV Digital e o Sambódromo.

Postar um comentário

Feed do Substantivu Commune

Siga-nos por E-mail