"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

sábado, 18 de abril de 2009

Com a palavra, Leonardo Boff

Em entrevista ao Diário de Pernambuco, teólogo defende a renúncia do papa Bento XVI e questiona a ação dos padres carismáticos.

Jailson da Paz


O teólogo Leonardo Boff, 70 anos, é um pensador de posicionamentos firmes. Condenado pelo Vaticano a dois


Foto: Hélder Tavares/DP/D. A Press
anos de silêncio por suas teses ligadas à Teologia da Libertação, nos anos 80, ele acredita que agora o melhor para Igreja Católica seria a renúncia de Bento XVI. Boff não esconde as razões de seu entendimento. Para ele, o papa é sectário e leva a Igreja a fechar-se. Ao risco de ser uma instituição mariana, valorizando-se Maria mais do que Jesus.

Boff não deixa perguntas sem respostas. O ex-frade franciscano, que deixou a vida religiosa nos anos 90 porque estava sob a ameaça de uma nova condenação pelo Vaticano, defende o programa Bolsa Família. Questiona as ações dos carismáticos, a exemplo de Marcelo Rossi, que valorizam a "aeróbica" em detrimento do social. Condena o capitalismo e seus excessos, aos qual atribui as causas da atual crise.

O teólogo concedeu a entrevista ao Diário ao participar do lançamento do livro Leituras críticas sobre LeonardoBoff, no Recife, na última quinta-feira.


Dom José

Fica ridículo excomungar hoje. Ao anunciar a excomunhão dos médicos, responsáveis pelo aborto legal, e da mãe da garota abusada sexualmente e grávida, dom José Cardoso agiu na direção oposta à atitude básica de Jesus: acolher os pobres e oprimidos. Se o arcebispo fosse pastor, ia ver a garota e a mãe da garota. Mas ele preferiu a lei. Preferiu ser um juiz severo e sem piedade, falando de excomunhão. Assim, ficou a um milímetro do Direito Canônico e a quilômetros de Jesus.


Teologia da Libertação

Não mudaria nada do que escrevi. Ao contrário, radicalizaria. Seria mais radical do que fui. A pobreza aumentou. A cada quatro segundos morre uma pessoa de fome no mundo. Um mundo, segundo o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), em que os 20% mais ricos possuem 82,4% da riqueza e os 20% mais pobres, apenas 1,6%. A situação do mundo piorou. Há mais famintos e injustiçados do que quando escrevi os livros da Teologia da Libertação.


Carismáticos

Quando quero ter raiva, ligo a televisão nos programas religiosos. São de mau gosto e medíocres. Não estão à altura da mensagem cristã. São mais próximos de Xuxa do que do Evangelho. Falta experiência para lidar com a mídia e a Igreja não se preparou para isso. O que fazem é manipular sentimentos. Nunca vi padre Marcelo Rossi dizer que tem 1,1 milhão de desempregados em São Paulo ou pedir para Deus guiar os governantes no caminho da justiça e da ética. Mas já o vi dançar aeróbica.


Lula e Obama

O mundo se ressente de líderes inspiradores. Líderes com carisma, capazes de levar as pessoas a crerem em mudanças e que forneçam foco e senso de direção. Lula e Barack Obama representam isso. Remetem à esperança. Captam os anseios profundos do momento. O resto, quase todos, com raras exceções, como Fernando Lugo (presidente do Paraguai) e Evo Morales (presidente da Bolívia), são meros técnicos, burocratas.


Economia

A crise econômica atual é só um aspecto da uma crise de civilização que atravessamos. De um modelo que pode nos leva à uma tragédia, com os efeitos do aquecimento global. Paul Krugman, Nobel de economia de 2008, deve ser ouvido. Para ele, estamos vendo a "vingança do excesso". E que o excesso nos atolou nesse caos.


Bolsa Família

Chego no interior do Piauí e vejo que uma senhora pobre abrir o armário onde há arroz, feijão, açúcar. São coisas que não víamos antes e está sendo possível graças ao Bolsa Família. Para mim, isso é libertação. Garantir o mínimo a que as famílias têm direito. Mas é preciso dar e cobrar. Não se pode agir somente com paternalismo. O governo precisa, cada vez mais, exigir contrapartidas. Cobrar a matrícula e a presença das crianças das famílias beneficiadas nas escolas, criar alternativas de sobrevivência e determinar prazos para que se autonomizem.


Bento XVI

O papa está mais próximo do tradicionalismo de Marcel Lefebrev (bispo católico francês) do que ao Concílio Vaticano II. Éramos muitos próximos. Fui amigo dele, discípulo dele. Ratzinger ajudou a publicar a minha tese. Mas regrediu. Resgatou valores medievais, como celebrações em latim. Se eu fosse convidado para celebrar em latim, eu também faria a homilia em latim e faria perguntas em latim para os fiéis. Quem sabe latim hoje? Outro aspecto é que Bento XVI não tem habilidade, tendo criado atritos com muçulmanos e judeus. Tendo 82 anos, o papa deveria reconhecer que está cansado. Ele faria um bem renunciando.


Fundamentalismo

O atual pontífice rebaixou as outras igrejas negando-lhes o título de igrejas. Afirma que só existe um caminho para a salvação: a Igreja Católica. Para Bento XVI, como disse-me durante meu processo de julgamento pelo Vaticano, a Igreja Católica é a única casa. As outras roubaram uma porta, uma janela. E terão que devolver. É uma visão fundamentalista, na qual a minha concepção é a verdadeira e as demais erradas. E o erro é condenado. Basta dizer, as religiões estão por trás dos grandes conflitos.


Hierarquia

A Igreja não é só a hierarquia. Não vou deixá-la por causa do papa ou da Cúria Romana. A Igreja é dom Pedro Casaldáliga (bispo emérito de São Félix do Araguaia, Mato Grosso), dom Erwin Kräutler (presidente do Conselho Indigenista Missionário - Cimi), conhecidos por suas defesas firmes dos pobres. É irmã Dorothy Stang, assassinada por lutar pelo direito à terra, irmã Dulce, dom Helder Camara, São Francisco de Assis. A Igreja é maior do que a hierarquia. É o povo de Deus.


Escritor

Sou um trabalhador da palavra. Passo de 12 a 14 horas no meu ofício. Com as palavras tento reconstruir o mundo. É um trabalho penoso, pois quem escreve está sempre atrasado. Aproveito o sábado e o domingo para recuperar o tempo.

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