"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Desinformação

Quero citar dois exemplos de como a TV pode prestar um desserviço quando seus apresentadores ou "jornalistas" resolvem dar opinião sobre coisas sobre as quais eles absolutamente desconhecem.

Há alguns dias, estava zapeando pelos canais quando vi uma reportagem no programa da Ana Maria Braga que acompanhava as enchentes em SP. Em dado momento, depois da repórter mostrar e entrevistar alguns desabrigados, a apresentadora iniciou um discurso mais ou menos assim: "gente, eu sei que é difícil, mas quando a Defesa Civil chegar na sua casa, não fica, muda daí, sai porque a casa pode cair". Olha, me desculpem os que acham que isso é informação relevante à ser oferecida na TV, mas essa senhora não tem a menor idéia do que é uma favela. Ela deve estar pensando que é uma meia dúzia de barracos. Ou então, quem sabe, pretende oferecer o quintal de sua bela casa para abrigar as milhares de famílias que vivem em situação de risco eminente.

Claro que não quero com isso desqualificar o trabalho da Defesa Civil. Aliás, já fui voluntária da mesma na região serrana carioca. A questão é: além de alertar a população para que saia do local, num trabalho de "apoio" à atividade da defesa civil, não deveria uma apresentadora com o alcance que tem essa sujeita na Globo todas as manhãs, ouvir os responsáveis por essas calamidades que ficam por aqui em Brasília fingindo que o problema não é deles? O caos ambiental, urbano e econômico que provoca essa calamidade é de responsabilidade de todos sim. Mas numa situação como essa, é urgente que o Estado se manifeste e rapidamente apresente soluções já que ninguém pede para morar assim, muito menos pra perder tudo desta forma. Dizer isso é desconhecer o problema. O dia que a Ana Maria Braga subir o morro, pra conduzir seu programa lá de cima e não de dentro do seu confortável estúdio no Projac, começarei a acreditar que ela pretende querer enxergar o público para o qual ela fala todos os dias de manhã.

Daí hoje, qual não foi minha surpresa assistindo o Jornal da Record pela manhã. Não me lembro o nome da âncora mas a reportagem era sobre a rebelião no presídio de menores, da Fundação Casa de SP. Quando a câmera volta para a âncora na bancada, aliás, âncoras porque eram duas antas à conduzirem o jornal. Uma começa a comentar com a outra, à despeito das declarações de promotores e familiares dos menores. Esses últimos, reclamavam da falta de cuidados, dos abusos, de relatos de que os meninos apanham durante a noite, têm seus pertences como sabonetes e roupas retirados acintosamente pelos agentes.O representante do MP, falava sobre as investigações que pretendem apurar os acontecimentos e identificar e punir os responsáveis.

As referidas "colegas", em seguida, começaram a comentar entre si "quem irá pagar os colchões que eles queimaram",  "mas e os objetos que eles quebraram dentro da cadeia"? Pois vou fazer o favor de responder às moçoilas: vocês! Nós, iremos pagar!!! E sabe porque? Porque é isso que está na Constituição!! Vocês podem, de repente, sugerir que a Carta Magna seja rasgada e aí sim vocês propõem outra solução, mas até lá, esse é o formato de "higienização social" que a sociedade brasileira escolheu, tá entendendo? Ao invés de falar sobre o que não sabem, porque essas "jornalistas" também não chamam à bancada os representantes do Estado, cujo abandono produz essas crianças? Sim, porque é de uma insensibilidade nazista, creditar à mães, ou às famílias, a culpa pela ausência de políticas públicas que incham o sistema penitenciário e não dá alternativas aos meninos. Fora o ECA que é desconsiderado pelo poder público e não garante aos menores os mínimos direitos.

Sugiro voltarem para a sala de aula, para aprender o que é jornalismo e o que é coluna de opinião. Mas se quiserem mesmo ser "palpiteiras", ao invés de jornalistas, antes de culpar os meninos pelo que eles se tornaram, recomendo que leiam o livro do Falcão ou outros do gênero (existe uma vasta literatura sobre o tema). Quanto à Ana Maria, bem essa não tem jeito mesmo.

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Juliana Medeiros é jornalista e sente vergonha alheia todos os dias ao ligar a TV.

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