"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

terça-feira, 1 de março de 2011

SOBRE A LÍBIA

"In an age of universal deceit, telling the truth becomes a revolutionary act." George Orwell 
(Numa época de mentiras universais, dizer a verdade torna-se um ato revolucionário)



(Publicado em 22/02/2011)

DIÁRIO DA ÁFRICA: LÍBIA: Reportagem da TV Brasil sobre a Líbia exibida em junho de 2009. Estou recomendando esse vídeo, bem como a leitura de outros textos referentes à Líbia no blog do jornalista Carlos Alberto Jr por ele já ter trabalhado no país algumas vezes como correspondente e ser um conhecedor do continente africano. Estou preparando também um texto sobre minha opinião acerca dos últimos acontecimentos.

Recomendo também a leitura do artigo do professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17462 sobre o mesmo assunto.


UPDATE :

(Publicado em 01/03/2011)

Encontrei, no Portal Vermelho, dois bons artigos que falam sobre a crise na Líbia. Um deles, publicado hoje pelo jornalista  Manlio Dinucci, é elucidador por detalhar internamente o conflito sob o aspecto das forças que se antagonizam no país nesse momento. O outro, do também colega Beto Almeida (publicado originalmente na Carta Maior), considero importante por expor outras facetas desse conflito, em especial a relação da mídia brasileira com o fato. Beto Almeida é membro da Telesur, veículo cuja transmissão dos acontecimentos na Líbia tem sido bastante diferente do que grande parte do restante da mídia vem fazendo e ele explica, em seu texto, os motivos. Pessoalmente, também tenho acompanhado as notícias pela Al Jazeera.

Aos comentários deles, eu acrescento: converso quase todos os dias com amigos líbios e brasileiros que moram na Líbia e estão, para começar, diariamente online pelo Skype. Nenhum deles teve sua internet bloqueada como tem sido dito por parte da mídia internacional e sim, todos me relatam as condições no país de forma diferente do que a mídia vem fazendo.

É perceptível que desestabilizar a Líbia, país com renda per capita  maior que inúmeros países desenvolvidos, num continente de maioria miserável e com as reservas de petróleo que a Líbia possui, deveria nos deixar a todos com "os pés atrás" nesse jogo de informações desencontradas. Não havia até poucos dias, veículos de imprensa no país com informações confiáveis e ainda assim, choviam notícias todos os dias sobre imagens que correspondentes sediados na Europa, comentavam em "off". Num claro distanciamento da imparcialidade e apuração jornalísticas.

É importante ressaltar também que o Conselho da ONU que aí está não é referência de construção de processos de paz. Vejam Afeganistão e Iraque, com os resultados desastrosos da ocupação americana, que já ameaça fazer o mesmo na Líbia. O mesmo engodo dos americanos "salvadores do mundo", que esconde o real propósito de exploração e ingerência geopolítica. Aos céticos, há dezenas de documentários a respeito mas recomendo, para os iniciantes, os produzidos pelo americano Michael Moore, como o "Fahrenheit 11/9" que destrincha em linguagem simples as relações de interesse (inclusive bélicos) entre poderosos americanos e magnatas afegãos, só para citar um exemplo.

Por outro lado, é fato que existe um conflito interno no país, mas para quem não conhece o regime criado por Khadafi - que não é o presidente da Líbia, mas um líder militar - fica difícil mesmo entender. A Líbia, com a falha (que pessoalmente considero grave) de não possuir uma Constituição, implantou o sistema, chamado por Khadafi de "Terceira Teoria" (e publicado no "Livro Verde"), cujo conteúdo é verdadeiramente inovador (ainda que alguns críticos queiram ridicularizá-lo sob o pretexto de ele não ser um "pensador" nos moldes aceitos pela "academia"). Nesse modelo, que funcionou todos esses anos, todos os aparelhos públicos de estado são ocupados por colegiados de pessoas comuns escolhidas em "congressos populares". Por meio de assembléias, se revezam periodicamente os grupos de  lideranças. E à despeito de tudo que vem sendo dito, não dá para não reconhecer o caráter revolucionário de um sistema político que coloca as pessoas comuns, cidadãos, para decidirem seus destinos, sem a interferência de políticos ou ainda considerando à todos como seres políticos e partícipes do processo político-decisório. Há mais de 40 anos a Líbia vem funcionando assim. 

Por isso, há alguns dias, o embaixador líbio no Brasil, Dr Salem Ezubed, durante seu pronunciamento (quando declarou que não renunciaria ao cargo), explicou aos jornalistas que não era um diplomata tradicional, mas sim um professor universitário que tinha sido escolhido, pelos comitês populares na Líbia, para conduzir o (como eles chamam) "bureau" brasileiro diplomático. E o fez, um dia depois de haver se reunido com outros diplomatas que decidem com ele coletivamente a gestão do bureau. Prova disso é que dois deles, mesmo depois de terem perdido no voto (na reunião anterior) o posicionamento que seria dado, protestaram aos jornalistas após a coletiva. Curiosamente, nem a fala do embaixador, nem mesmo esses protestos dos funcionários descontentes, receberam destaque na mídia. Provavelmente porque só mereceria espaço, se  o embaixador tivesse se juntado aos outros diplomatas que renunciaram em outros países.

Usando ainda de uma analogia, o modelo líbio é muito parecido com um grupo gestor de condomínios, como conhecemos aqui no Brasil, com um síndico, conselho fiscal, conselho administrativo etc. Quem já participou de grupos colegiados como esse, pode imaginar o que significa pessoas que pensam de forma absolutamente diferente tendo que negociar, não num condomínio, mas em um país, cada macrodecisão, exatamente como o fazem nossos parlamentares, com o acréscimo de que lá, poderíamos imaginar inúmeras, incontáveis, "câmaras" espalhadas pelas cidades formadas por grupos de pessoas e tribos (comuns na Líbia) diferentes. Com a ausência de partidos (sem grandes embates ideológicos) e a extinção do estado islâmico, outra conquista de Kadhafi que incomoda países vizinhos, os debates eram feitos geralmente, apenas de forma temática (saúde, segurança, etc) e deliberatória, no voto.

Numa estatística onde se pudesse mensurar o exercício democrático, a Líbia seria o país africano com o maior índice de participação popular do continente africano. As Universidades, por exemplo, são administradas por comitês populares, colegiados compostos de estudantes, professores e funcionários administrativos. Nas fábricas, além dos salários básicos, a participação acionária é total, com acréscimo de que os trabalhadores líbios recebem o excedente dos lucros. Isso porque Khadafi, numa das primeiras medidas após a revolução, "cooperativizou" na marra as empresas dividindo-as entre os trabalhadores. E a maioria dos trabalhadores na Líbia, ou trabalham nessas empresas, ou são funcionários públicos.

Há uma hierarquização no sistema, comitês de bairro passam as decisões para comitês de cidades e assim por diante, assim como os que representam classes profissionais. Infelizmente, o que acontece agora no país, também mostra que o sistema possui suas falhas. Principalmente a de que grupos de interesse rivais podem se infiltrar e desestabilizá-lo, como vem acontecendo. Isso quer dizer que a relação do governo líbio era, até então, uma relação de confiança entre as pessoas que participavam rotativamente dos processos decisórios já que não eram "autoridades" ou políticos tradicionais (como os conhecemos) que ocupavam espaços de poder, mas o povo. Por isso também foi tão fácil para os rebeldes, tomarem alguns desses espaços (e isso inclui quartéis e órgãos de segurança até porque o povo líbio é quase todo militarizado, treinado para a guerra como boa parte dos povos do Oriente Médio). E sobre isso, ainda que considere legítima também a revolta dos que discordam do regime, o primeiro artigo abaixo, é esclarecedor.



A Líbia no grande jogo da nova divisão da África

Fogem da Líbia não apenas famílias que temem pelas suas vidas e imigrantes pobres de outros países norte-africanos. Há dezenas de milhares de "refugiados" que estão a ser repatriados pelos seus governos por meio de navios e aviões: são principalmente engenheiros e executivos de grandes companhias de petróleo.

Por Manlio Dinucci*


Não só a ENI, a qual realiza cerca de 15% das suas vendas a partir da Líbia, mas também outras multinacionais europeias – em particular, a BP, Royal Dutch Shell, Total, Basf, Statoil, Repsol. Centenas de empregados da Gazprom foram também forçados a deixar a Líbia e mais de 30 mil trabalhadores chineses da sua companhia de petróleo e de construção. Uma imagem simbólica de como a economia líbia está interconectada com a economia global, dominada pelas multinacionais.

Graças às suas ricas reservas de petróleo e gás natural, a Líbia tem uma balança comercial positiva de US$27 mil milhões por ano e um rendimento per capita médio-alto de US$12 mil, seis vezes maior que o do Egito. Apesar de fortes diferenças entre rendimentos altos e baixos, o padrão de vida médio da população da Líbia (apenas 6,5 milhões de habitantes em comparação com os cerca de 85 milhões no Egito) é, portanto mais elevado do que o do Egito e de outros países da África do Norte. Testemunho disso é o fato de que cerca de um milhão e meio de imigrantes, principalmente norte-africanos, trabalha na Líbia. Uns 85% das exportações líbias de energia vão para a Europa: a Itália em primeiro lugar com 37%, seguida pela Alemanha, França e China. A Itália também está em primeiro lugar em exportações para a Líbia, seguida pela China, Turquia e Alemanha.

Esta estrutura agora explodiu devido ao que pode ser caracterizado não como uma revolta das massas empobrecidas, tal como as rebeliões no Egito e na Tunísia, mas como umas guerra civil real, em consequência de uma divisão no grupo dominante. Quem quer que seja que tenha feito o primeiro movimento explorou o descontentamento contra o clã Kadafi, que prevalece especialmente entre as populações da Cirenaica e entre jovens nas cidades, num momento em que toda a África do Norte tomou o caminho da rebelião. Ao contrário do Egito e da Tunísia, contudo, o levantamento líbio foi planeado previamente e organizado.

As reações na arena internacional também são simbólicas. Pequim disse estar extremamente preocupada acerca dos desenvolvimentos na Líbia e apelou a "um rápido retorno à estabilidade e normalidade". A razão é clara: o comércio sino-líbio experimentou crescimento forte (cerca de 30 por cento só em 2010), mas agora a China verifica que toda a estrutura das relações econômicas com a Líbia, da qual importa quantidades crescentes de petróleo, foram postas em causa. Moscovo está numa posição semelhante.

O sinal de Washington é diametralmente oposto: o presidente Barack Obama, que quando confrontado com a crise egípcia minimizou a repressão desencadeada por Mubarak e apelou a uma "transição ordenada e pacífica", condenou o governo líbio em termos inequívocos e anunciou que os EUA está a preparar "o conjunto completo de opções que temos disponíveis para responder a esta crise", incluindo "ações que possamos empreender por nós próprios e aquelas que possamos coordenar com os nossos aliados através de instituições multilaterais". A mensagem é claro: há a possibilidade de um intervenção dos EUA/Otan na Líbia, formalmente para interromper o banho de sangue. As razões também são claras: se Kadafi for derrubado, os EUA seriam capazes de fazer ruir toda a estrutura das relações econômicas com a Líbia, abrindo o caminho para multinacionais com base nos EUA, até agora quase totalmente excluídas da exploração das reservas de energia na Líbia. Os Estados Unidos poderiam então controlar a torneira de fontes de energia sobre as quais a Europa depende amplamente e que também abastecem a China.

Trata-se de acontecimentos no grande jogo da divisão dos recursos africanos, pelos quais uma confrontação crescente, especialmente entre a China e os Estados Unidos, está a verificar-se. A potência asiática em ascensão – com a presença na África de cerca de 5 milhões de administradores, técnicos e trabalhadores – constrói indústrias e infraestrutura, em troca de petróleo e outras matérias-primas. Os Estados Unidos, que não podem competir a este nível, podem utilizar a sua influência sobre as forças armadas dos principais países africanos, as quais são treinadas através do Africa Command (Africom), o seu principal instrumento para a penetração do continente. A Otan agora também está a entrar no jogo, pois está prestes a concluir um tratado de parceria militar com a União Africana, a qual inclui 53 países.

A sede da parceria da União Africana com a Otan já está em construção em Adis Abeba: uma estrutura moderna, financiada com 27 milhões de euros da Alemanha, batizada "Edifício paz e segurança".

*Manlio Dinucci é jornalista


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A Folha e o neocolonialismo petroleiro

Com o título de “TV Companheira”, o jornal Folha de São Paulo – que tem o nome marcado por ter defendido e colaborado com operações da ditadura em torturas e mortes de prisioneiros políticos - publicou artigo de Eliane Cantanhede tentando atingir, sem o lograr, a credibilidade jornalística da Telesur, "La nueva televisión del sur", em seu esforço de cobrir a crise na Líbia.


Por Beto Almeida*

Há muitas lições a partir da precária nota da jornalista. Primeiramente, está escancarado que a grande mídia comercial brasileira, seguindo orientações dos conglomerados internacionais midiáticos, editorialmente controlados pelas indústrias bélicas, petroleiras e a ditadura financeira, sempre protegeram os ditadores do Oriente Médio que serviram e ainda servem a estes interesses. A Folha de São Paulo está dentro deste leque de proteção aos “ditadores amigos”. Assim é que durante mais de 30 anos protegeu Mubarak, tratando-o como o árabe moderado, porque transformou o Egito em cúmplice do massacre do povo palestino por Israel, com o apoio de Washington. 

Durante 30 anos a Folha de São Paulo jamais cobrou eleições diretas ou democracia no Egito, mas, revelando a imensa hipocrisia da sua linha editorial de dois pesos, duas medidas, engajou-se na campanha dos oligopólios midiáticos mundiais contra o governo da Venezuela que, em 12 anos, eleito pelo voto, realizou mais de 15 eleições, plebiscitos e referendos livres, vencendo 14 deles e respeitando democraticamente o único resultado eleitoral adverso registrado.

“Ditaduras amigas” foram protegidas

A reportagem de Telesur está sim na Líbia, como esteve no Egito e na Tunísia, para oferecer uma cobertura com linha editorial diferenciada, sem qualquer influência do poder petroleiro comandado pelos países imperialistas. Telesur não descobriu somente agora que Mubarak era um ditador e que saqueou recursos do povo egípcio, bem como seu comparsa Ben Ali, tunisiano, sempre protegidos pelos grandes países imperiais como EUA, França, Inglaterra etc., por se transformarem em peões da política que facilita a intervenção militar imperialista no mundo árabe, com o óbvio objetivo de rapina sobre suas imensas riquezas energéticas, da qual são tão dependentes.

A linha editorial que protegia Mubarak, era a mesma que sempre condenou Kadafi. Não supreende. Kadafi nacionalizou a riqueza petroleira da Líbia e usou esta extraordinária receita para transformar o país , hoje possuidor do mais elevado IDH da África e dos mais elevados no mundo árabe. Este exemplo se chocava com os interesses imperialistas. Preferiam que Kadafi fosse como a oligarquia que reina sobre a Arábia Saudita, a mais maquiavélica das ditaduras da região, sob a proteção da mídia comercial internacional, inclusive a Folha de São Paulo. E sem uma linha sequer da articulista que esboce qualquer reivindicação democrática para este país, cujo petróleo é rigorosamente controlado por empresas dos EUA. Portanto, rigorosamente diferente da Líbia, onde o petróleo foi estatizado permitindo uma elevação do padrão de vida do povo, com progressos reconhecidos internacionalmente nos serviços públicos e gratuitos de educação e saúde, com uma renda per capta e um salário mínimo que superam em muito os registrados no Brasil e na Argentina. Estas informações nunca circularam nem no fluxo internacional da mídia comandada pelos poderes do petróleo, das armas ou do dinheiro, muito menos aqui na submissa Folha de São Paulo.

Ao contrário desta linha editorial complacente com os crimes que se comentem contra os povos árabes, em particular contra o povo palestino, Telesur , em sua curta existência, pouco mais de 5 anos de vida, procura revelar, com critérios jornalísticos, a falsidade e hipocrisia dos discursos “democráticos” que servem sempre de parâmetros para as coberturas que tentam esconder sob o palavreado democrático, o objetivo fundamental que esta mídia cumpre: dar suporte e favorecer o controle total das riquezas energéticas do Oriente Médio pelos trustes imperialistas. 

É por esta razão que a Folha de São Paulo tenta, inutilmente, atacar a Telesur, porque questiona e se diferencia do jornalismo obediente ao poder bélico-petroleiro que tantas vidas ceifa na região, inclusive na própria Líbia, tantas vezes bombardeada, agredida e boicotada pelos países membros da Otan. É a subserviência a esta política imperial que leva a Folha e sua articulista a afrontarem as políticas externas soberanas que os países do eixo sul-sul estão desenhando, com o objetivo de libertarem-se das algemas da OTAN, inclusive postulando a criação de uma Organização do Tratado do Atlântico Sul, proposta defendida por vários países sistematicamente enfrentados pela linha editorial da Folha, inclusive por Kadafi, certamente, uma das tantas razões que o leva a ter sido sempre condenado pelos imperialistas, pela ONU, pela OTAN. Vale lembrar que Kadafi teve sua residência destruída por um bombardeio ordenado por Bill Clinton, no qual morreu sua filha recém-nascida. A articulista escreveu algum protesto na época? Ou lamentou que a pontaria poderia ter sido mais certeira?

Hipocrisia editorial

Mubarai foi protegido e elogiado por este jornalismo tipo Folha de São Paulo - que, aliás, não chamava Pinochet de ditador, mas de presidente - porque comandou o retrocesso das conquistas socioeconômicas que o Egito havia alcançado durante a Era Nasser. Tal como aqui a Folha serve aos interesses estrangeiros e de seus prepostos internos que operaram para demolir as conquistas da Era Vargas; o elogio e a tolerância para com a ditadura de Mubarak deve-se ao fato dele desconstruir o nacionalismo revolucionário de Nasser, aliado da Líbia e da Síria, colocando o Egito na posição de ser um vergonhoso coadjuvante da macabra política israelense na região, a serviço da indústria petroleira imperial. Mas, os milhões de egípcios nas praças estão escrevendo outra história para aquele país!


Telesur conta esta história. Faz jornalismo para revelar o direito histórico da luta dos povos árabes por sua independência, por sua soberania. É por isso que incomoda tanto. É por isso que agressão da Folha não surpreende, faz parte da blitz midiática internacional que sustenta o intervencionismo militar dos grandes países imperialistas. Esta mídia atua como os clarins que anunciam e clamam pela guerra!


Independente do desfecho que esta crise na Líbia produzirá, a esta altura imprevisível, não há como não perceber a imensa hipocrisia jornalística dos que se calam diante dos sanguinários bombardeios que estão caindo agora mesmo sobre a população civil no Afeganistão, ilegalmente ocupado pelos EUA, ou no Iraque, onde mais de um milhão de vidas foram dizimadas a partir de uma guerra iniciada por meio de grosseiras falsificações de notícias sobre a existência de armas químicas naquele país, fraude jornalística que a Folha de São Paulo endossou, o que lhe retira qualquer moral, juntamente à assessoria que prestou à ditadura militar no Brasil, para reivindicar democracia ou clamar por direitos humanos.

Colônia petroleira
Provavelmente, a crise atual na Líbia tenha também explicação pelos erros cometidos pelo seu governo, entre eles, provavelmente o mais grave, o de ter realizado inesperados e improdutivos acordos com os EUA, com a Inglaterra, com o FMI, inclusive dando início a medidas de privatização injustificáveis e abrindo mão, unilateralmente, do programa de energia nuclear, bobagem que o Irã e o Brasil, mesmo sob pressão, indicam não estarem dispostos a cometer. As concessões de Kadafi aos patrocinadores da morte e de opressão contra os povos iraquiano, afegão, palestino, entre eles Bush e Blair, aprofundou, certamente, os conflitos internos, agravando as disputas tribais, facilitando a infiltração dos que nunca aceitaram a nacionalização do petróleo líbio. Agora, a Folha de São Paulo, que se crê tão moderna, apresenta-se aliada aos que levantam novamente a bandeira da Líbia do Rei Idris, demonstrando preferir operar para o retrocesso histórico da república à monarquia, o que faria da Líbia uma colônia petroleira controlada pelos conglomerados anglo-saxões.

Enquanto as grandes redes oligopólicas de tvs comerciais operam para justificar, auxiliar e assessorar a pilhagem dos recursos energéticos dos povos, - por isso assumiram editorialmente as mentiras que justificaram a guerra de rapina contra o Iraque - Telesur coloca seu jornalismo a serviço do direito dos povos de conhecerem na íntegra a versão objetiva dos fatos, inclusive dando voz aos povos que lutam, que buscam construir modelos de sociedade em que a soberania sobre seus recursos e o seu uso em benefício da população sejam sagrados. Telesur tem consciência de quão árdua é a meta de fazer um jornalismo não controlado pelos oligopólios da guerra, do dinheiro e do petróleo. Mas, desta meta não se afastará, pois foi como expressão dos povos que se rebelam na América Latina contra a dominação imperial que nasceu e que assumiu como bandeira o princípio “O nosso Norte, é o Sul”.

* Beto Almeida é membro da Junta Diretiva da Telesur


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P.S.: Nos dois artigos acima, os grifos são meus.

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