"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

sábado, 9 de abril de 2011

O PAI DO HOMEM

Dois textos, um do Eduardo Castro e outro do Flávio Gomes, que reproduzo abaixo, dizem EXATAMENTE o que eu penso sobre a tragédia ocorrida no Rio. Naturalmente o assunto está em todas as rodas e, conhecendo-me, muitos perguntam: "o que você pensa sobre isso"? ou ainda, "o que acha da carta que ele deixou"? talvez numa vã tentativa de que eu reconheça nela qualquer traço da cultura muçulmana que possa justificar o ocorrido. Infelizmente, como lembra o Flávio, sequer muçulmano ele era, não freqüentava mesquitas, não saía de casa, usava o computador (eu também uso várias horas por dia), era apenas "estranho", como adjetivado por sua irmã. Então, o que eu penso sobre isso? Bom, principalmente se você for pai ou mãe, leia os textos abaixo (os grifos são meus).

Podemos pensar, talvez, no que podemos fazer daqui pra frente.

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Sobre as doze crianças



Em cinco minutos, morreram doze crianças!
Dentro da escola, num susto. Por que? Como pode? Queremos justiça!
Doze crianças.
Exatamente o mesmo número de crianças que morrem de fome no mundo em um único minuto. E há muitos anos.
Não causam a mesma indignação. Ninguém clama por justiça ou tenta entender porquê. Não ganham capas de jornal. Não levam especialistas à TV. Nem aí, nem aqui, nem em nenhum lugar do mundo.
Também são doze crianças inocentes mortas – só que a cada minuto. Por hora, são 720. Por dia, 17 mil. Desde quinta-feira, oito da manhã, já são mais de 34 mil.
Com medo de que mais crianças morram, pedimos mais segurança. Detectores de metal. Cercas elétricas. Policiais mais bem armados – e dentro das escolas.
Volto às incômodas comparações: o gasto militar dos EUA para o ano que vem (2012) está orçado U$553 bilhões. Isso porque vai sofrer um corte de cerca de 80 bilhões este ano. A FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) estima que para acabar com a fome no mundo (incluindo adultos, velhos, recém-nascidos, todos) seriam necessários U$ 30 bilhões.
Será que gastar mais com isso vai mesmo evitar que morram mais crianças inocentes?
Ainda há fome no Brasil (como também há nos Estados Unidos e Europa), mas aqui, na África, ela agride sua passividade com mais frequência. Bate no vidro do seu carro no sinal de trânsito – e não tem sopão de igreja, secretaria de bem estar ou bolsa-família. A esmola, se você der, será em metical, que vale 30 vezes menos que o dólar, 20 menos que o real.
As doze crianças de Realengo me doeram, chocaram e entristeceram. Mas as 12 que morrem de fome por minuto – a maioria absoluta aqui da África, mas muitas, ainda, do Brasil – também deveriam ganhar manchetes, provocar revolta.
Afinal, são doze crianças.
Pra quem não gostou do meu texto, recomendo outro, do coleguinha Flávio Gomes, que fechou a conta e passou a régua no assunto (reproduzido logo abaixo).
É um outro jeito de dizer a mesma coisa. Só que muito mais bem escrito, claro.

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O PAI DO HOMEM


Depois de ler o que pude, ouvir o rádio e ver a TV, peguei meu carro, era dia de folga, jornalista folga de quinta-feira, fui até a oficina, vi os dois Weber que colocaram no Meianov, ligamos o carro, o motor ficou com um ronco legal, depois descemos lá onde eles fazem funilaria e pintura, a peruinha já está toda raspada, sem motor, descobrimos a cor original. Descobrir a cor original de um carro de 55 anos é algo emocionante para quem gosta deles, dos carros. Foi arrancar o forro do teto e lá estava o azul, Azul Firenze, segundo o amigo das cores, intocada a pintura, uma coisa bacana, ajuda muito na restauração, mesmo que o Azul Firenze não seja lindo, eu tinha a ideia de fazer creme e vinho, ou branco Lotus e azul-marinho. Mas ela era azul, ora bolas, e se nasceu assim, que continue assim. Acho que será azul, e também encontrei o número do chassi, é umas das únicas 173 fabricadas em 1956, creio que o mais correto seja mesmo fazê-la como era quando saiu da fábrica e tal.
Depois fui ao centro da cidade, com um trânsito curiosamente bom, atrás de um emblema e de umas calotas, o trânsito curiosamente bom.
As irrelevâncias nos movem. Tudo que fiz hoje foi irrelevante, ver uns carburadores, descobrir uma cor, procurar uns emblemas e umas calotas. Foi tudo que consegui fazer. Mergulhar na irrelevância e na indiferença.
O rapaz que entrou na escola atirando não se encaixa em nenhum perfil que permita esbravejar. Até onde se sabe, não era traficante, ladrão, fugitivo. Não era militante de nenhum partido, não lutava jiu-jítsu, não era um skinhead, não pertencia a nenhuma torcida organizada. Até onde se sabe, não usava drogas, não bebia, não era pedófilo, não era evangélico, não era muçulmano, não era judeu, não era cristão, não era xiita, não era sunita, não tirava racha na rua, não tinha suásticas tatuadas na pele, não pertencia a nenhuma seita, não era gótico, não era punk, não ouvia Bossa Nova, não usava piercing, não era rico, não era pobre, não era gordo, não era magro, não estava em liberdade condicional, não tinha passagem pela polícia, não vivia no Complexo do Alemão, não era do Jardim Ângela, não morava numa cobertura da Vieira Souto, não era nada. Segundo sua irmã, ele era estranho.
Estranho.
Seu nome era Wellington de Oliveira, um nome bem brasileiro, há milhares de Wellingtons, Washingtons, Andersons. O Brasil tem um estranho fascínio por W e por nomes que terminam em “on”. Wanderson, Jackson, Jobson, Richarlyson. Ele era um Wellington de Oliveira.
Quando não se pode culpar traficantes, fugitivos, ladrões, militantes, lutadores, skinheads, nazistas, torcedores organizados, drogados, cristãos, bêbados, pedófilos, muçulmanos, góticos, magros, evangélicos, rachadores, punks, gordos, xiitas, ricos, pobres, nem o prefeito, nem o governador, nem a presidenta, nem o ministro, nem o secretário, nem a polícia, nem o senador, nem o deputado, nem a diretora da escola, nem o médico, nem o professor, culpamos quem?
Culpamos quem?
Quando não podemos culpar ninguém, chegou a hora de assumir o que somos. Uma espécie fracassada, violenta, agressiva, condenada à extinção. Uma espécie habituada à barbárie, e que não se imagine que “nos transformamos em”. Sempre fomos assim, indecentes, obscenos, há séculos nos matando em guerras, inquisições, pogroms, chacinas, massacres, genocídios, atropelamentos, assassinatos, latrocínios, torturas, execuções. E pragas, pestes, terremotos, incêndios, tsunamis, deslizamentos, enchentes. Um moto-contínuo de mortes, mortes, mortes, e vinganças, vinganças, vinganças, ódio.
A criança é o pai do homem. Guardo um pequeno cartão com essa frase no meu carro, há anos está lá, era o convite da formatura do meu mais velho no pré-primário. Não o guardo como mantra ou guia espiritual. Está lá porque está lá, porque o carro que nos levou à formatura do pré ainda está comigo, e lá ficaram o cartão e a frase. De vez em quando uso o cartão, de papel de alta gramatura, cartolina, talvez, porque quando o vidro sobe levanta uma rebarba da forração da porta, e o cartão serve para colocar a forração no lugar. É um uso banal, irrelevante, coloco o cartão entre o vidro e a forração da porta, e tudo fica no lugar, tudo volta ao seu lugar. Um uso banal e irrelevante, mas que me faz ler essa frase todos os dias, ou, pelo menos, quando preciso colocar a forração da porta no lugar.
A criança é o pai do homem.
Wellington ajudou a nos matar mais um pouco hoje. É um erro, Wellington, matar-nos aos poucos. Da próxima vez, Wellington, mate-nos a nós, direto, sem intermediários.
Mate o homem, Wellington, não seus pais.

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