"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

quarta-feira, 7 de abril de 2010

7 de abril - Dia do Jornalista

Segundo a maioria das "fontes", hoje é nosso dia. Tem gente que defende a data de 29 de janeiro mas, o fato é que a Fenaj preparou para esta semana um calendário com uma série de ações em homenagem à essa profissão que já foi até comparada à arte de fazer um belo assado de vitela ao molho de ervas. Nada contra, exceto o fato de que sou vegetariana. Mas, sinceramente, o ambiente de uma redação é muito, mas muito mais do que cortar pepinos ou confeitar bolos.


Por exemplo, nesse momento, enquanto escrevo essas linhas (tá certo que não é uma "matéria", mas poderia ser), a redação está em polvorosa. Tem cinco pessoas falando ao mesmo tempo sobre o aniversário de Brasília, a Caixa de Pandora e outros assuntos, tudo misturado e com música de todo tipo rolando ao fundo nos alto-falantes. Operadores que entram e saem gritando sobre coisas que precisam ser concluídas... e eu aqui, olhando para o computador, totalmente ligada na conversa (opinando!) e, ao mesmo tempo, concentrada no que estou escrevendo. 


Jornalista trabalha assim o tempo todo, com o acréscimo de que alguns chefes ainda tem a feliz idéia de entrar berrando de meia em meia hora, cobrando a matéria e no minuto seguinte pedem pra você mudar tudo, com o mesmo prazo que você tinha antes. Não à toa, a profissão é considerada insalubre e, pelas leis trabalhistas, o jornalista trabalha oficialmente algumas horas a menos que outras profissões. Oficialmente mesmo, porque levante a mão aquele jornalista que não costuma ficar bem depois de sua hora "oficial" concluindo uma matéria de última hora ou aquele que nunca fez um "pescoção" na vida (passar a madrugada fechando a edição de um jornal, revista ou programa).


E, detalhe, em jornalismo, a "notícia" fica velha muito rápido. Quem tiver curiosidade de puxar a lista das manchetes dos principais jornais de hoje, verá que em pelo menos quatro de circulação nacional, o número de mortos na enchente do Rio de ontem, foi impresso na capa, de forma totalmente diferente uns dos outros e, apenas um deles acertou com a estatística dos órgãos oficiais. Mas, por incrível que pareça, faz parte. Essa é também uma característica da notícia: ela muda a todo momento.

Lamentavelmente, nem todos os jornalistas percebem a seriedade e responsabilidade inerentes ao exercício da profissão. Até porque, para começo de conversa, como em qualquer profissão, é preciso ser dotado de valores que não se aprendem tão rapidamente e, em geral, deveriam ter sido muito bem treinados antes, com a família.


Também não basta, simplesmente, a posse do famigerado (e agora proibido) canudo. Anos de prática é que realmente vão forjar a alma do sujeito que, em poucas linhas, traduz o acontecimento, o fato, a notícia para que qualquer um, desde o presidente da república à uma simples dona de casa, possam compreender todos os detalhes do ocorrido.  Muitas vezes,  resumido no lead (a primeira parte de toda matéria). Ou seja, o jornalista também economiza o seu tempo.

Um jornalista, como também mandam os manuais, jamais é o centro da notícia. Jamais. Isso não quer dizer que, necessariamente, ele tenha que ser um robô sem emoções ou sentimentos mas, quando o jornalista emite uma opinião, corre o risco de transformar uma matéria em artigo. Alguns veículos de imprensa usam isso de forma não muito ética, valendo-se do fato de que o espectador/leitor/ouvinte, não sabe desse pequeno "detalhe" que muda tudo e aproveitam a figura do jornalista para transmitir também a opinião do "dono do jornal" sobre a notícia. Numa visão distorcida da tal "linha editorial".


Comparando com modelos de passarela que apenas servem de, segundo os estilistas, "cabides" para as roupas (e com isso justifica-se a obrigatória magreza), os jornalistas são apenas porta-vozes do que precisa ser noticiado (por isso não deveriam, a princípio, julgar o que estão transmitindo).


Hoje em dia, esse conceito deu um salto gigantesco, já que qualquer coisa que eu diga, ou escreva, pode ser ouvida/lida no segundo seguinte por algum japonês do outro lado do planeta. E, mais, pode ser comentada!

Os fatalistas podem afirmar que é justamente aí que morre nossa bela profissão. Mas, damos o desconto para quem nunca leu os teóricos da Escola de Frankfurt (viu onde começa a ser necessário o diploma? Aposto que não distribuem Adorno para jornalistas nas redações). Eles não sabem que os conceitos gerados há séculos como o da indústria cultural previam, de certa forma, esse momento que vivemos agora, da comunicação ou jornalismo "colaborativo". Mas isso, não quer dizer que, por exemplo, qualquer cidadão de posse de um celular que fotografe a enchente no seu bairro e a foto venha a ser reproduzida no Jornal Nacional, transforme-se instantâneamente de fotógrafo amador em jornalista profissional de carteirinha. No way.

Aliás, a "carteirinha" também é um problema discutido aos montes entre a categoria. Usar ou não usar? Sindicalizar ou não? Pagar por ela ou não? Segundo a Fenaj, a regra ainda é a mesma, só tem direito à portar a carteira com o título "Jornalista", quem mostrar o canudo. Do contrário, pode até se chamar de, mas fica sem a carteira. Por outro lado, muitos jornalistas profissionais não fazem a menor questão de se registrar e nem por isso ficam sem trabalho.

Ainda iremos discutir por muito tempo o papel da profissão e sua importância para a sociedade, e mais, para a humanidade. Não fosse a imprensa, sabe-se lá Deus o que (mais) os políticos estariam fazendo com nossas vidas. Esse foi o primeiro papel, intermediar Estado e Sociedade. Para que o primeiro soubesse sempre que estava sendo vigiado e a segunda pudesse saber de tudo sem precisar sair em busca das informações sobre, por exemplo, o aumento do material escolar. 


A caneta do jornalista fez a imprensa ser chamada de "Quarto Poder". Isso ilustra bem o peso que pode ter um fato narrado por uma pessoa que tem credibilidade para espalhar a notícia por todos os meios possíveis. Se for na TV então, é quase impossível corrigir um erro, mesmo que não intencional. Dessa brecha se aproveitam jornalistas de poucos escrúpulos que usam sua ferramenta de trabalho como arma para atacar pessoalmente seus inimigos. E pobre de quem for a vítima.


Mas, sem o jornalista, a vida das pessoas seria muito diferente, o mundo seria muito diferente. Resumidamente porque praticamente todas as mazelas conhecidas da sociedade, foram noticiadas e reproduzidas por repórteres e veículos de imprensa, sem os quais continuaríamos na ignorância. Agora com a internet, muito menos é claro, mas o que teríamos? Um monte de pessoas emitindo opiniões diferentes e sem qualquer fundamentação sobre um mesmo assunto? Podem apostar, seria uma loucura. Partindo do princípio que o ser humano naturalmente julga o que vê, dá pra imaginar o imbróglio que seria a vida sem os jornalistas à colocarem as vírgulas em seus devidos lugares.


Para ilustrar um pouco a importância do papel da imprensa, posto dois vídeos abaixo.


O primeiro feito pela CNN sobre as caracterísiticas que um jornalista deveria ter.  Curiosidade, ética, boa formação cultural e acadêmica, gostar de pessoas, de ouvir e contar histórias, são algumas das características elencadas. Ele explica bem o que é preciso para começar a querer ser um jornalista. Portanto, coleguinhas que - pasmem! - não gostam de ler, por favor, escolham outra profissão!






O segundo é uma entrevista com um repórter português sobre cobertura de guerra. Se você só tiver tempo de ver um, veja esse último. Ele explica (em parte) porque não é todo mundo, mesmo com canudo na mão, que pode ser considerado um Jornalista por excelência.



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