"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

terça-feira, 6 de abril de 2010

Estação derradeira

Quando eu era adolescente e tinha por ocupação apenas ir à escola e frequentar os treinos de volleyball, lembro que às vezes saía da Gávea, onde estudava, e ia andando até o apartamento onde morava com meus avós em Ipanema.

Outro dia comentei isso na redação e um colega, que também é carioca, duvidou que eu andasse tanto. Ora bolas, eu tinha 14-15 anos! Não só andava da Gávea até Ipanema (passando pelo Jardim Botânico e depois pegando pela praia até lá), como almoçava em casa e depois caminhava até Laranjeiras (descendo pelo túnel, passando por Botafogo).

E fazia tudo isso "com os pés nas costas"! Primeiro porque era atleta (e bem mais jovem) e depois porque, ironicamente, essa era uma forma de economizar a grana do transporte para depois - pasmem! - gastar com sorvete. Eu era atleta "federada" e o controle sobre nossa alimentação, sono e outros era muito rígido. Com a idade que tinha, é natural que tentasse burlar a regra de vez em quando. E fazia isso parando, uma vez por semana pelo menos, numa sorveteria famosa que existe até hoje no Leblon.

Eu costumava levar na mochila o material da escola, junto com o que usaria no treino à tarde. Mas, quando conseguia parar em casa para o almoço, deixava tudo lá e saía já vestida com o uniforme de jogadora e o dinheiro do ônibus guardado nas meias. Aliás, guardar o dinheiro dentro da meia era corriqueiro pra mim. Naquela época o Rio já sofria com os assaltos em ônibus. Não os que acontecem agora, com requintes de crueldade, mas os moleques entravam e pediam a grana. Se tivesse alguma na mão (ou um relógio, uma bolsa...) "dançava" na certa. Ou seja, sempre que possível, guardava meu rico dinheirinho na meia ou no tênis. E, sempre que possível, nem pegava o coletivo, saía caminhando pra curtir a paisagem.


Orla carioca

O Rio de Janeiro sempre foi mágico pra mim. Pensando bem, acho que é pra qualquer um. Creio serem raros os seres que não encham os olhos com a paisagem. O Rio é exuberante, solar, iluminado mesmo. E considero um doce privilégio do destino que a vida tenha me proporcionado esses momentos. São imagens literalmente impressas na minha retina. Quase sinto o cheiro da maresia trazida pelo vento quente do verão carioca.

Hoje pela manhã apresentei o programa Música&Informação pela Rádio Cultura FM em Brasília - onde sou repórter mas estou substituindo, como âncora, a jornalista Graça Araújo durante suas férias - e, chegando lá às 6h, corri pra buscar os noticiários das agências, para saber o que diria ao longo do programa, os destaques do dia.

Ao ler o que diziam a maioria dos sites e agências de notícias, senti um arrepio. Grande parte da minha família mora no Rio de Janeiro, incluindo minha mãe e irmã, sem falar nos inúmeros amigos queridos. Liguei pra minha mãe e soube que está tudo bem. Ela mora em Petrópolis e nem chegou a descer a serra. Seu chefe, professor da UERJ, mora em frente à universidade e não conseguiu atravessar a rua! Soube depois que suspenderam as aulas na rede pública, bem como não há repartições funcionando na cidade.

Fico vendo o Rio assim e me dá um aperto sem medidas...

Lembro também que depois que mudei para Brasília, o que mais notei - de forma significativa - a cada vez que viajava para o Rio, era a quantidade de lixo acumulado próximo à Baía de Guanabara.


Também ficava assustada com o avanço de comunidades que margeiam as linhas amarela, vermelha e outras vias da cidade. Cada vez que o avião pousava no Galeão ou no Santos Dummont, tinha a nítida impressão, visual mesmo, de mais lixo e mais casas amontoadas em comunidades pobres ao longo das rodovias que dão acesso à cidade. Isso sem falar nas favelas que antes não eram tão grandes. Só que infelizmente, isso não é passado, é perceptível até hoje e vem aumentando gradualmente.

Longe de mim defender algo como o que pregava Lacerda, "autor" da Cidade de Deus. Aqui mesmo no blog já disse que, como carioca, tenho dificuldade em me adaptar até hoje à Brasília justamente em função dessa organização urbana tão detalhada que, literalmente, colocou os abastados no centro (o Plano Piloto) e o resto da população fisicamente à margem, ao redor do avião que compõe o desenho do mapa do DF.

Continuo achando que a "mistura" existente no Rio, ainda que leve à conseqüências originadas pelo "atrito social", típico das grandes metrópoles, também faz com que as pessoas fiquem mais humanas, mais iguais.

Mas, o que eu senti também é que, ao longo dos anos, com o casal de "Garotinhos" e outras figuras que passaram pela cidade, com a ausência completa de vontade política, foram aos poucos soterrando o que havia de "maravilhoso" na cidade mais solar do país. Desorganização total e zero planejamento também não são bons, aliás, antes o excesso de planejamento de Brasília, com sua aparente frieza que, diga-se, não a livra de encher e sofrer com apagões de vez em quando, mas AINDA não como o Rio. É que aqui os problemas surgem nas raízes de "Caixas" de seres mitológicos, de onde sai de tudo um pouco. Mas isso é outra história.

Dá pra culpar os céus? Por favor, não dá. Também não dá pra culpar somente as autoridades. O problema estrutural é grande sim, mas a população que não tem consciência do que fazer com o lixo, é parte ativa e corresponsável pelo caos que está instalado nesse momento na minha cidade.

Digo isso e olho para a lixeira do condomínio em que moro aqui há 40km da "cidade planejada". Um verdadeiro mafuá de sacos e restos amontoados. O Rio também é aqui.

Em que momento as pessoas terão o insight necessário? Em que momento irão perceber o quanto um saquinho de lixo jogado ali no canto, na rua, é também responsável pelas  enchentes que devastam cidades como o Rio de Janeiro hoje?


Acho que há um bom tempo não se viam autoridades indo à TV pedir às pessoas que não saíssem de casa. São cenas muito tristes.

Mesmo assim me lembro que já naquela época o Rio enchia depois da chuva, em especial nos meses de março e abril. Meu avô ficava acompanhando o noticiário e tentando observar se me via em alguma captura de câmera pela cidade. Com a minha mania de caminhar, frequentemente eu me via atravessando quase "a nado" o bairro Jardim Botânico e o vô ficava apavorado imaginando que eu cairia em algum bueiro. Perigo real até hoje, diga-se.


Mas, sinto que a moçada que tem a faixa etária dos 15 anos, como eu tinha, não pode mais curtir as caminhadas do Rio como eu fazia. A violência, o lixo, a desorganização urbana já não permitem que moças ou rapazes de tão pouca idade andem tranqüilamente e sozinhos pelo Rio. Fora que a água das enchentes da época, não chega perto do oceano que se forma nas ruas hoje.

O tal Lovelock, criador da Hipótese Gaia - de que a Terra seria um organismo vivo - parece ter acertado mesmo suas previsões. A mais recente é de que não precisamos correr pra salvar o planeta, porque ele já está fazendo isso sozinho, por si mesmo. Ou seja, o Planeta se salvará. Já nós humanos...


Ruas alagadas no RJ / Portal G1


Clicando aqui, você pode ler uma reportagem sobre o problema do lixo nas grandes cidades. Nesse outro link, você lê um artigo do Alexandre Mansur da Revista Época sobre o caos que parou o Rio de Janeiro.

Lendo você descobre, por exemplo, que esperamos duas décadas para aprovar no Congresso, a Lei Nacional de Resíduos Sólidos. No update do post, amanhã, acrescento o áudio da entrevista realizada com um dos deputados responsáveis pela aprovação da Lei. Demorou tanto que agora, a corrida é para fazer o "relógio andar pra trás", coisa que mesmo com tantos avanços tecnológicos, ainda não descobrimos como fazer. Infelizmente.

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