"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

sábado, 28 de maio de 2011

OTAN usa bombas para assustar crianças

Hoje pela manhã a OTAN se utilizou de um ataque pouco usual na Líbia – já que nos últimos dias são mais freqüentes os bombardeios noturnos que funcionam como “toques de recolher” para a população das cidades atacadas – tendo bombardeado áreas próximas às escolas da capital.

Crianças em idade escolar, que faziam provas semestrais, estão dispersas pelas ruas de Trípoli tentando escapar dos ataques. Isso só pode ser entendido no sentido de que ou a OTAN não tem informações de inteligência, ou eles estão deliberadamente tentando aterrorizar crianças.

Desde o início dos conflitos, as bombas da OTAN já mataram dezenas de crianças, incluindo bebês, como os três netos de Muammar Kadafi. Aisha, advogada especialista em direito internacional, filha de Kadafi, havia concedido entrevista à imprensa ocidental dias antes, dizendo que à noite contava histórias para seus filhos na tentativa de prepará-los para o pior. Um dos bebês mortos no ataque aéreo da OTAN há duas semanas era seu filho.

Um dado interessante sobre a cobertura desse ataque foi a reprodução por dezenas de canais de TV, incluindo a BandNEWS e GloboNews brasileiras, de imagens de manifestantes nas praças protestando contra os ataques e que eram narrados pelos âncoras como “manifestantes comemoram o ataque à casa de Kadafi”. Em todas elas, as imagens mostravam pessoas com bandeiras verdes nas ruas, sinal claro de apoiadores do governo líbio, mas a imprensa insiste em confundir a opinião pública.

Ainda assim, após 71 dias de bombardeio da Líbia, e algumas tentativas de assassinar o comandante Muammar Kadafi, o ataque mais caro da história falhou como 25 anos antes. A população líbia está a cada dia mais confiante de que uma união de forças cruzando todo o país é a melhor forma de resistir à tentativa estrangeira de nova colonização. Cartas enviadas ao comando da OTAN por grupos rebeldes avisam que não confiam mais na falácia da “ajuda humanitária” propagandeada pelos aliados e pedem o fim dos bombardeios.

Nas últimas semanas, a OTAN tem procurado intensificar os ataques, incluindo o hospital de Sirte e a infra-estrutura civil e pública em Trípoli além de muitos outros locais distantes até 1000km dos focos de conflito em Benghazi. E foi justamente a decisão de bombardear todo o país, e não somente áreas onde denunciava-se o “massacre” contra civis, que provocou um efeito inesperado para os aliados, o da completa indignação que atinge agora, além da população líbia praticamente todos os grupos rebeldes, restando apenas três deles – encabeçados por ex-membros do governo líbio – que sequer estão unidos entre si sobre como conduzir sua já enfraquecida oposição.

O Centro Mundial de Estudos sobre o Livro Verde, um centro acadêmico de pesquisas sobre a democracia, também foi bombardeado pela OTAN destruindo o edifício principal completamente e deixando apenas de pé a biblioteca. Cerca de oito funcionários estavam lá e não há informações se eles sobreviveram. Esse ataque reflete a intenção dos aliados de se atingir a idéia do sistema de comitês populares utilizado na Líbia e pouco compreendido pelo ocidente.

Um jornalista britânico, para a já desacreditada rede de TV do Qatar, Al Jazeera, revelou que o vice-ministro da Líbia estava em um avião para a Tunísia com a intenção de reunir-se com o Serviço Secreto Britânico, o MI6, em nome do governo líbio. 

A mesma TV Al Jazeera que não informa sobre as manifestações que estão ocorrendo no Catar contra a ditadura de lá, e em grande parte permaneceu em silêncio sobre os massacres de manifestantes no Bahrein (massacres apoiados militarmente pelos EUA), afirmou que as negociações da Tunísia, entre o secretário-adjunto do MI6 e da Líbia buscavam "uma estratégia de saída para Kadafi". 

No entanto, uma fonte informou à agência de notícias Mathaba que, na verdade, os britânicos buscam uma estratégia de saída para a OTAN diante dos milhares de dólares sendo gastos sem grandes resultados nesta guerra. E que não há absolutamente nenhuma possibilidade de Kadafi deixar sua casa na Líbia. 

Um comentário sobre isso foi feito também pelo embaixador da Líbia no Brasil, Salem Omar Ezubeidy, no debate ocorrido na sede da ABI no Rio de Janeiro. Ele afirmou que Kadafi é um cidadão líbio e que até mesmo por sua contribuição na história da Líbia, ele sequer considera a possibilidade de viver em outro país. Ainda segundo o embaixador, o papel de Kadafi na Líbia tem sido o de um velho conselheiro, um símbolo da revolução líbia, já que ele derrubou a monarquia corrupta do rei Idris em 1969 e passou o poder para o povo oito anos mais tarde, em 1977. Desde então, a Líbia é governada por um sistema de democracia direta baseado em conferências populares. Também por isso foi mais simples para os descontentes planejarem a tomada dos armamentos no início dos conflitos, já que a população é quem gere os espaços públicos no país, incluindo hospitais e universidades.

Duas sinistras coincidências entre as ações dos países aliados desde o princípio marcam a história dessa guerra que começou como uma guerra midiática de enfraquecimento político por parte da imprensa ocidental.

A primeira delas é que ainda na primeira semana de conflitos entre as forças rebeldes de oposição e as tropas do governo, a imprensa declarava que já haviam mais de seis mil mortos, sem que qualquer canal de TV conseguisse em momento algum mostrar tantos corpos. Desde o princípio, é latente a ausência de imagens que corroborem a tese de ataque dos aviões líbios sobre a população civil e isso agrava ainda mais a decisão dos ataques estrangeiros sem que observadores tenham sido enviados para a coleta de evidências, como determina a resolução do Conselho de Segurança da ONU.

A outra – e possivelmente a mais grave delas – foi o comunicado oficial do exército russo avisando que não havia em momento algum captado ataques dos aviões líbios contra a população civil, motivo que serviu de base para a decisão da “No Fly Zone” e que permanece sendo o principal. Ou seja, a decisão “humanitária” de proteção aos civis líbios foi fundamentada na idéia de que Muammar Kadafi havia ordenado que aviões do governo atacassem cidades e população civil no intuito de combater os focos opositores.

No entanto, a Rússia declarou oficialmente que seus satélites não haviam captado essa movimentação, apenas a alegada pelo próprio governo líbio, de que seus aviões estavam bombardeando estoques militares no deserto (muito distantes das áreas civis), na tentativa de evitar que eles fossem acessados pelos rebeldes. Ora, a maior parte dos países desenvolvidos e certamente todos os que compõem a coalizão estrangeira, possuem seus próprios satélites que podem a qualquer momento captar qualquer movimento em qualquer parte do planeta. E ainda assim, nenhum deles conseguiu mostrar ao mundo, qualquer imagem que provasse que a Líbia estivesse massacrando sua população.

Essa confusão entre as informações, usada propositalmente para justificar o avanço estrangeiro na Líbia, convenceu até mesmo parte das esquerdas no mundo (incluindo o Brasil), como aliás, afirma o jornalista Michael Collon em seu artigo. Parece mesmo que não aprendemos nada com a história.

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