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sábado, 24 de setembro de 2011

Quem ganhou a guerra na Líbia?



Quem ganhou a guerra na Líbia?

Por Jeremy Salt*





A história já está sendo reescrita para acomodar a nova realidade provisória na Líbia" - a realidade de hoje, isto é, porque ninguém pode prever o tempo exato em que o povo líbio colocará para correr o novo governo de traidores e mercenários financiados por potências ocidentais. 

De acordo com Hussein Agha e Robert Malley, escrevendo no New York Review of Books, a Otan "ajudou" os rebeldes a "derrubar Kadafi". Esta é uma inversão da realidade porque na verdade os rebeldes ajudaram a Otan, e não o contrário. 

Incapazes de derrubar o governo com suas próprias forças, pois não passavam de grupos dispersos financiados por potências estrangeiras, eles abriram as portas para um colossal ataque ao seu país por forças estrangeiras. Em troca, a Otan pavimentou o caminho para seu avanço para o oeste até a Trípoli e permitiu-lhes assumir o crédito pela vitória. 

Foi a Otan – a serviço das potências estrangeiras – que salvou uma pequena insurreição que não duraria mais do que algumas semanas, transformando-a em uma guerra total na qual dezenas de milhares de vidas foram sacrificadas. Foi a Otan que, em nome da proteção aos civis, assassinou milhares de civis indefesos num processo de saturação de bombardeios à Líbia (admitiram 7.500 mísseis militares até o mês passado), destruindo qualquer possibilidade do governo legítimo se defender. 

O confronto entre o governo da Líbia e a Otan não foi uma guerra, mas um ataque monstruoso, de proporções gigantescas, utilizando a mais moderna tecnologia militar do planeta, e a força econômica, política e diplomática das potências mais poderosas. O destino da Líbia poderia ser o destino de qualquer outro país pequeno, como tem sido o destino de muitos pequenos países durante os últimos dois séculos de agressão ocidental contra o mundo não-europeus e não americanos.

Chamar essa agressão de guerra é uma afirmação enganosa por parte da mídia ocidental para desviar a opinião pública sobre a verdade dos fatos e beneficiar os agressores - financiadores. Basicamente, esta foi uma guerra decidida pelos governos da Grã-Bretanha, França e Estados Unidos, com outros países (Canadá, Itália, Bélgica, Dinamarca e Noruega) utilizando a Otan como camuflagem. Cameron e Sarkozy têm negado interesse próprio, mas a disputa sobre o direito prévio aos recursos de petróleo da Líbia já começou dentro do novo consórcio chamado de "Amigos da Líbia". A Líbia descobriu que tinha amigos que nunca suspeitou que existissem.

Intervenção externa em socorro a Benghazi

Foi muito rápida a mobilização de forças estrangeiras para atacar a Líbia, revelando que não foi por acaso, mas algo planejado e preparado ao longo dos últimos anos.Os governos das potências imperialistas França, Grã-Bretanha e os EUA começaram a mobilização para conseguir a ONU a legitimação da guerra para ocupar a Líbia. A exemplo do que a ONU fez na Coreia, Afeganistão e Iraque, a ONU foi novamente manipulada pelas grandes potências e aprovou a Resolução 1970, (26 de fevereiro) que trata de imposição de sanções e um embargo de armas: resolução 1973 (17 de março) declarada zona de exclusão aérea sobre os governos da Líbia e autorizado a tomar todas as medidas necessárias para "proteger a vida civil", neste caso, trata-se da mais pura hipocrisia: assassinaram milhares de pessoas em nome da proteção a essas mesmas pessoas. Seria cômico se não fosse trágico.

A partir deste ponto de partida a imposição de uma zona de exclusão aérea abriu a oportunidade para os primeiros aviões estrangeiros bombardearem a Líbia. As primeira bombas a caírem na Líbia para "proteger o povo" foram despejadas por aviões franceses, país que tem péssimo histórico de crimes de guerra na colonização e saque de nações africanas. Acostumados – ao longo da história - a assassinar os negros para roubar suas riquezas naturais, os franceses sentiram-se como se "voltassem ao lar".

O fracasso da Anistia Internacional

A Anistia Internacional elaborou um relatório que detalha os crimes cometidos pelos rebeldes até a entrada em Trípoli. O que a Anistia Internacional omite, atendendo a interesses do porta-voz da Otan, são os crimes cometidos pelos poderes de intervenção externa contra a população civil. Uma lista curta incluiria o bombardeio de abastecimento de água, clínicas, armazéns, mercados, pelo menos, um hospital, escolas, a Universidade Nasser, em Tripoli, casas de civis, os escritórios da Sociedade da Líbia para tratamento da Síndrome de Down, uma pousada em Brega onde um grupo de imãs católicas foram assassinadas porque se colocaram na frente de uma passeata que pedia paz em Benghazi.

As vítimas de ataques aéreos da Otan, incluídas mulheres e crianças, somam milhares. Todos os dias cometeram- e cometem – crimes contra civis indefesos, e em todos esses crimes o porta-voz da Otan afirma que o objetivo dos ataques eram alvos militares, apesar da evidência visual ao contrário: em poucas ocasiões em que eles admitiram vítimas civis, disseram, cinicamente, que lamentavam os erros de segmentação ou sistema de armas.

A Anistia Internacional deveria questionar o quadro de violações do direito internacional na Líbia por parte da Otan, começando com o fato da intervenção ter excedido e extrapolado o mandato (espúrio em si mesmo) emitido pelo Conselho de Segurança da ONU. 

Por que não questionam, por exemplo, sob a luz do direito internacional, o ataque a casa de Saif al Arab al Kadafi em Trípoli, em primeiro de maio. O comando militar da Otan sabia que havia mulheres e crianças na residência, mas ainda assim matou seu filho e três de seus netos. O argumento de que casa de Saif al Arab seria um comando militar ou centro de controle é uma escandalosa mentira. O escritório da Sociedade para tratamento da Síndrome de Down na Líbia foi bombardeada, aparentemente porque o comando militar da Otan pensava que Kadafi estivesse naquele local. Estas tentativas claramente deliberadas para assassiná-lo levantam um outro aspecto do direito internacional que a Anistia não se sente inclinada a investigar.

Sobre a questão da perda de vidas de civis resultantes de ataques aéreos, a Anistia acha que a Otan "admitiu uma série de erros fatais, incluindo uma em 19 de junho, em Tripoli que levaram à morte de civis". A passagem posterior refere-se a vários civis 'supostamente' ser morto (em vez de realmente ser morto como parece ter sido o caso) quando um "projétil" (uma telha solta?) atingiu suas casas. A Anistia permite que um porta-voz da Otan explique o que aconteceu. Havia uma "falha no sistema de armas" que "poderia ter causado [sic.] a perda de vidas inocentes" e, por essa perda de vidas o porta-voz da Otan diz – novamente – que lamenta.

Há também uma referência a um ataque aéreo perto de Trípoli em 20 de junho.O alvo era um conglomerado pertencente a "um dos associados de Kadafi" (ou seja, um alto funcionário do governo da Líbia). Pelo menos uma mulher e duas crianças foram mortas porque o "conglomerado" teria implicações militares, mas na verdade tratava-se de um conglomerado de casas. De acordo com o porta-voz da Otan, no entanto, apesar do assassinato da mulher e das crianças, este foi um "ataque de precisão", lançado contra um "alvo militar legítimo". No mínimo, a questão da proporcionalidade surge novamente. Se a Otan tinha provas de equipamento militar dentro do complexo (nunca mostrado) também tinha provas da presença de mulheres e crianças. O alvo provável era o alto funcionário do governo, que escapou ileso.

Repórteres informaram a Anistia Internacional que "pelo menos alguns dos prédios atingidos no composto parecia ser residencial" e deixaram por isso mesmo. Ela menciona a explosão de três antenas de televisão por satélite como uma eventual infração das leis de guerra sobre a proibição de ataques a infra-estrutura civil, mas não tem nada a dizer sobre violações infinitamente mais graves do direito humanitário internacional por parte da Otan. Não há menção dos 85 mortos no ataque em primeiro de agosto, nenhuma menção sobre o assassinato dos religiosos na cidade de Brega; nenhuma menção sobre o assassinato do filho de Kadafi e netos; nenhuma menção a continuação dos ataques a infra-estruturas civis desde o início da guerra aérea até os dias de hoje. Nem há qualquer menção das ofertas de negociações feitas por Kadafi e pela União Africana, todas elas rejeitadas pelos rebeldes pela simples razão de que, enquanto eles tinham a Otan atrás deles, eles não iam parar até que o governo em Trípoli foi derrubado. Sem a Otan não bombardeasse o país de formacriminosa e terrorista diarimaente ao longo de sete meses, os rebeldes não sairiam de Benghazi , e teriam que negociar. Na medida em que o papel da Otan é central e determinante, o relatório da Anistia é uma farsa vergonhosa.

Os negócios firmados entre os rebeldes e os governos dos Estados Unidos, França e Grã-Bretanha vão permanecer escondidos debaixo da mesa pelo maior tempo possível, e só lentamente é que vamos ver que vai envolver: generosas concessões às grandes empresas petrolíferas ocidentais, contratos para a reconstrução do que os mísseis da Otan estão destruindo, reabertura eampliação das embaixadas, missões militares para treinar e reorganizar o exército da Líbia, e empreiteiros passeando em Humvees e veículos blindados para proporcionar "segurança". Naturalmente os custos da guerra - de 'libertação' da Líbia – será pago pela Líbia.

O estabelecimento de bases militares da Otan na Líbia será o bônus especial para as forças estrangeiras ocidentais ameaçaremcada vezmaisa África. A Líbia vai retornar ao sistema financeiro internacional, o que significa uma economia reestruturada com base nos "conselhos" do FMI e empréstimos. Não haverá mais conversa de um Banco Central Africano e agência de investimento financiado pela Líbia, e outros projetos que Kadafi já tinha colocado em movimento.

A Líbia será como o Iraque, para favorecer a rapina de suas riquezas naturais por parte dos "libertadores". O Conselho Nacional de Transição é internamente fragmentado e mais propenso a implosão antes da consolidação de um governo. A guerra ainda está longe do fim, exigindo a participação da Otan a cada passo do caminho, e os últimos redutos do governo deposto estão se superando, aumentando a resistência dia a dia. Mesmo que Kadafi ou Saif al Islam fossem mortos, é provável que a luta pela libertação da Líbia continue. A guerra à Líbia não se trata de uma guerra de libertação ou de uma revolução popular, mas é um produto da intervenção ocidental. Os sorrisos triunfante em Tripoli de Cameron, Sarkozy e Bernard-Henri Levy, são os sorrisos de um tigre saboreando sua última refeição e contemplando seu próximo. Nenhum ataque ocidental em um país árabe já terminou bem para a população local, e na Líbia é improvável que haja qualquer exceção.

O sucesso da força militar ocidental no Oriente Médio é ameaçador. Iraque e Líbia são precedentes perigosos. Com o apoio dos governos europeus, os EUA têm ameaçado o governo sírio para retardar o crescimento econômico do país nas duas últimas décadas. Seu colapso ou derrubada representaria o maior ganho estratégico para os EUA, Israel, Grã-Bretanha e França desde a Segunda Guerra Mundial, superando o isolamento do Egito através do tratado de paz de Camp David e da destruição do Iraque. As repercussões seriam sentidos em todos os níveis da política árabe. O regime sírio está em apuros e estes poderes podem cheirar sangue. Eles esperam que a pressão interna irá derrubá-lo, mas se não podem expor no mesmo caminho que os levou para a Líbia. Este é certamente na sua agenda, o que eles, eventualmente, devem decidir.

O autor Jeremy Salt é professor associado na história do Oriente Médio e Política na Universidade Bilkent, em Ancara, na Turquia. Anteriormente, lecionou na Universidade do Bósforo em Istambul e na Universidade de Melbourne nos Departamentos de Estudos do Oriente Médio e Ciência Política. Escreveu vários artigos sobre questões do Oriente Médio, especialmente na Palestina, e foi um jornalista para o jornal The Age, quando ele morava em Melbourne. Ele contribuiu com este artigo para PalestineChronicle.com.

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