"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Copa, BRICS e o revival do complexo de vira-latas

Esse texto está em um comentário meu no facebook, mas vou postar aqui (adaptado) por que não resisto em falar sobre tudo que tenho visto/lido/ouvido. A mídia (cada vez mais) influencia tanto mentes e corações que consegue mudar até a história da humanidade! Afeta nossa memória e mesmo o discernimento de algumas pessoas. Mas vamos lá:

Imagine que você tem uma família que vive por gerações e gerações em um lugar. Sua casa é bela, exuberante, tem múltiplas riquezas naturais e você convive com tudo isso de forma harmoniosa. Um pouco mais distante, vive um vizinho cuja família tem milênios de existência a mais do que a sua, tendo alcançado já alguma riqueza e desenvolvimento. Um belo dia ele "descobre" vocês por ali, ainda vivendo da terra e do que a natureza pode lhes dar. Enfim ele aparece e num primeiro momento se finge de amigo, lhe dá presentinhos, mas depois lhe rouba, estupra suas filhas, assassina os resistentes, retira na marra seus recursos naturais, a ponto de extinguir alguns, saqueia seus minérios, extermina árvores, fontes de alimento, sua beleza, sua força, e ainda forma em sua terra uma colônia onde, por séculos, irá explorar o trabalho de membros de sua família e de outros "selvagens" que ele trouxe de outros lugares mais pobres, para ajudar no trabalho de torná-lo ainda mais rico e poderoso.

Com tudo que lhe roubou, eles (e outros vizinhos ricos, que chegaram para ampliar o saque que o primeiro iniciou) investem em suas belas casas, seus templos de poder e na estrutura e formação de suas famílias. E você que ficou com a sua em frangalhos, segue tentando se reerguer. Eventualmente tentando preservar alguma altivez para seguir em frente, outras vezes tentando dialogar, se integrar, perdoando e esquecendo as dores do passado. Mas o tempo é cruel, corre contra você e é difícil, quase impossível, alcançar-lhes o mesmo patamar.

Você consegue se libertar depois de séculos de luta por direitos, mas ainda tem muito o que recuperar do prejuízo. Transformam em produto e consomem sua alegria, mas inserem à força valores (culturais e religiosos) que procuram desqualificar suas raízes e tradições. E você ainda tem que passar todo esse tempo de labuta ouvindo piadinhas, de que você "não vale nada", é inferior, mais feio, mais burro, mais preguiçoso. Até elaboram teses na tentativa de provar que você é geneticamente destinado ao insucesso. Mas você segue tentando preservar sua dignidade, e tentando transmitir aos seus a importância de seguir em frente e, mais ainda, a importância de buscar a felicidade. 

O tempo passa, não há mais conflitos extremos entre vocês. Seu vizinho "rico" então, se achando o detentor "natural" do direito de se sobrepor a tudo e a todos, se junta com outros parceiros "predestinados" e inventa uma guerra com outras vizinhanças e culturas e simplesmente mata praticamente TODOS, rouba deles TODA a riqueza, móveis e imóveis, de roupas a joias, mata-lhe os filhos reconfigurando gerações futuras, não respeitando absolutamente nada, nem mesmo a Carta de Direitos. Mas, felizmente, acabam vencidos por outras vizinhanças (e até uma ajudinha sua) que, juntas, colocam um ponto final nisso e toda essa comunidade volta, aos poucos, a viver novamente com alguma harmonia. Ainda assim, jamais tirariam deles aquilo que roubaram, não haverá julgamento ou compensação. A liga dos "vizinhos ricos unidos", fará sempre aquela cara blasé de quem tinha o "direito" de fazer o que fizeram e continuarão a multiplicar suas riquezas, sem remorso algum do sangue que derramaram. Afinal, estavam apenas "expandindo seu território", são "conquistadores", merecem até uma estátua no centro da sua maior cidade para que seus filhos aprendam que "corajosos" são eles, que desbravaram essa "terra selvagem". E você lá, correndo, arfando, suando, estudando, investindo em seus filhos, sonhando, tentando "chegar lá" enquanto lhe xingam, ridicularizam, o chamam de pobre, subdesenvolvido.

Os tais vizinhos privilegiados se reorganizam em uma grande força militar que ameaça todo o resto que não faz parte do mesmo "clube dos ricos". Com isso, estabelecem políticas de "ajuda humanitária" que na verdade são uma fachada para que continuem (até hoje) roubando, matando, expropriando outros vizinhos mais pobres (afinal, tanta terra ainda a explorar), controlando inclusive a COMUNICAÇÃO, que é para convencer todo mundo de que eles são "no fundo" tão bonzinhos quanto o 'Meu Malvado Favorito', na verdade eles são a "força do bem contra o mal" e fazem isso para "salvar o mundo dos terroristas". Tornam-se então nossos heróis, vultos que passam a ser doutrinados em nossas escolas (enquanto aqueles que lutaram por liberdade e direitos são completamente apagados da nossa memória). A tal ponto que qualquer crítica aos "métodos" passa a ser um tabu, coisa de "radicais". Seus filhos (e até você) começam a acreditar que precisam mesmo é agradecer a toda essa "proteção" que eles lhe dão sem cobrar quaaaase nada (só uma ou outra relação comercial injusta, mas isso é próprio do "mercado", da "livre concorrência", faz parte).

E mesmo depois de ter sido roubado e humilhado por séculos, você se aproxima do 5º lugar em riqueza e desenvolvimento em relação a todos os outros vizinhos, na verdade você até que está em situação bacana agora, seus filhos viajam e estudam nas terras "rycas" e eles, que agora estão um tantinho quebrados, ficam felizes vendo vocês chegarem lá e gastarem a rodo.

E você vai além, se une àqueles que estão em um mesmo estágio que você, e buscam estratégias para se ajudarem mutuamente e encontrarem maneiras de ajudar outros povos, com condições mais justas, mais humanas. Mas, novamente, sua própria mídia tenta provar o quanto todos vocês aí, pobres, são ridículos, tentando mudar as regras do jogo. Te espionam descaradamente, conspiram e, desta vez, não para te roubar, mas para não deixar que você se aproxime. A palavra agora é competição, uma das benesses da "democracia".

Nesse meio tempo, seus filhos, no esporte, conquistam CINCO vezes um campeonato. Nenhum dos outros, nem mesmo os mais ricos conseguem o mesmo feito. Mas um dia vocês organizam um mega campeonato na sua casa e seus filhos perdem feio, vexame total. "Logo você que era o melhor nisso, nem isso você faz direito seu mané?"... E você embarca novamente na onda derrotista. 

Até que você pára e pensa que tem duas opções: entender que é só um esporte e tocar em frente o trabalho de continuar crescendo e corrigir as falhas (inclusive aprendendo com o que os campeões fizeram de positivo), OU se sentir um lixo, vender isso todos os dias na sua própria mídia como uma hipnose coletiva, convencendo cada criança de que somos "a cara do fracasso", e reconhecer que eles sim, é que "sempre foram melhores em tudo", nós é que somos "atrasados mesmo".

A questão, meus caros, é que para vencer esse "atraso" devemos tirar a máscara, mas não é a "de dormir", por que aqui as pessoas sempre trabalharam muito, não tiveram muito tempo para dormir, e até "ergueram edifícios onde hoje não podem entrar", como diz o poeta. Sobrevivemos à exploração, à colônia, à escravidão, estamos buscando a integração com vizinhos mais próximos, estamos buscando aprender com cada cultura, preservando o que temos de melhor. Perdoamos, nos relacionamos com respeito até mesmo com aqueles que um dia nos exploraram, somos parceiros, e mais, temos condições de ajudar outros mais pobres (ajudar e não fazer proselitismo com a dor alheia). Mesmo assim, até hoje lutamos contra mentiras que convencem muitos dos outros (e dos nossos) de que não somos nada. Foi preciso realizar um mega evento, atraindo 600 mil estrangeiros de uma só vez, e vê-los encantados com cada traço de nossa cultura, querendo "exportar" para seus países coisas tão singelas quanto um simples ABRAÇO, para que as pessoas - até brasileiros! - passassem a ver que "até que somos legais".

A máscara que precisamos tirar minha gente, é realmente essa do "complexo de vira-latas", como sacramentou Nelson Rodrigues em 1950. Por que se a gente parar para prestar atenção (e me perdoem a expressão, mas não encontro outra melhor), nós somos mesmo é foda pra caralho.

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