"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Refletindo sobre identidades em crise

As identidades estão em crise, segundo afirmam vários estudiosos do gênero. No passado haviam identidades determinadas, todo mundo sabia para qual finalidade havia nascido. Na pós-modernidade, as identidades se tornam não determinadas.

Na antiguidade o homem nascia com um propósito, com um destino. E isso não podia ser questionado. A partir do Iluminismo começa a haver o questionamento desta identidade pré-determinada. Aliás, essa é a crítica às sociedades no Oriente Médio - à parte todos os preconceitos existentes -, que elas aparentemente não fizeram essa "transição" (do Iluminismo) e são ainda muito centradas no gênero masculino como condutor social.

Rousseau já apontava para isso no século XVII. A despeito de afirmar que o homem era essencialmente bom e depois era corrompido pela sociedade (sabe-se hoje, que isso não é uma verdade absoluta), a análise do comportamento social naquele século pode, espantosamente, ser apontada como algo atual. Muito da narrativa de Rousseau, lembra o que acontece hoje, na pós-modernidade, o que demonstra que grande parte da essência humana não mudou ao longe dos séculos. Ainda assim, Rousseau é controverso em alguns momentos e não é a toa que ele é disputado como "teórico" tanto pela esquerda, quanto pela direita.

Etienne de la Boétie, em O discurso da servidão voluntária, parecia descrever relações de poder da atualidade:

"(...)Há três tipos de tiranos: uns obtém o reino por eleição do povo; outros pela força das armas; outros por sucessão de sua raça. Como se sabe bem, os que o adquiriram pelo direito da guerra comportam-se nele como se estivessem em terra conquistada. Comumente os que nascem reis não são melhores, pois tendo nascido e sido criados no seio da tirania, sugam a natureza do tirano com o leite, e agem com os povos a eles submetidos como com seus servos hereditários; e segundo a compleição a que estão mais inclinados, são avaros ou pródigos, tratando o reino como à sua herança. Parece-me que aquele a quem o povo deu o estado deveria ser mais suportável e creio que o seria; mas assim que se vê elevado acima dos outros, lisonjeado como um não sei quê que chamam de grandeza, decide não sair mais - comumente ele age para passar a seus filhos o poderio que o povo lhe outorgou; e desde que adotaram essa opinião, é estranho, superam os outros tiranos em vícios de todo tipo e até em crueldade, não vendo outro meio de garantir a nova tirania senão estreitando bastante a servidão e afastando tanto seus súditos da liberdade que, embora sua lembrança seja fresca, possam fazer com que a percam. Assim, para dizer a verdade, vejo que existe entre eles alguma diferença; mas escolha nenhuma vejo; pois se diversos são as meios de aos reinados chegar, quase sempre semelhante é a maneira de reinar. Os eleitos as tratam como se tivessem pegado touros para domar; os conquistadores os consideram presa sua; os sucessores pensam tratá-los como seus escravos naturais(...) Mas eles querem servir para ter bens, como se não pudessem gerar nada que fosse deles, pois não podem dizer de si que sejam de si mesmos; e como se alguém pudesse ter algo de seu sob um tirano, querem fazer com que os bens sejam deles e não se lembram que são eles que lhe dão a força para tirar tudo de todos e não deixar nada de que se possa dizer que seja de alguém. Vêem que nada senão os bens torna os homens sujeitos à crueldade dele, que para ele só a riqueza é crime digno de morte. Ama só as riquezas e só despoja os ricos, que ainda assim vêm se apresentar como que diante do açougueiro, gordos e fortes, para se oferecerem e despertarem seu apetite. Esses favoritos não devem se lembrar tanto dos que em torno dos tiranos receberam muitos bens, mas sim dos que tendo acumulado durante algum tempo ali perderam depois os bens e as vidas. Não deve passar-lhes tanto pela cabeça quantos ali receberam riquezas, mas quão poucos as conservaram. Que se percorram todas as histórias antigas, que se considerem as de nossa lembrança, e ver-se-á plenamente como é grande o número dos que, tendo ganho por meios espúrios a confiança dos príncipes, tendo usado de sua maldade ou abusado de sua simplicidade, finalmente foram por eles mesmos aniquilados; e assim como neles tinham achado um meio para elevá-los, mais tarde neles também encontraram a inconstância que os destruiu. Com certeza, entre as muitas pessoas que já se acharam próximas de tantos reis maus, poucas ou quase nenhuma foram as que alguma vez não experimentaram em si mesmas a crueldade do tirano, que antes haviam atiçado contra os outros: tendo enriquecido com os despojos de outrem à sombra de seu favoritismo, no mais das vezes elas acabam enriquecendo-o com seus despojos(...)"


O homem enquanto sujeito "sociológico", pretende uma melhor identificação. Existe ainda hoje essa necessidade: "sou um homem, uma mulher, um profissional de tal área..." O que muitas vezes determina a pessoa é a profissão ou o lugar que ocupa na sociedade. Brasília, aliás, é o reflexo exato desse conceito. Aqui, muitas vezes, só se é "alguém", quando se ocupa um cargo qualquer no serviço público, sendo essa a principal vocação da cidade, ou seja, ser um servidor concursado, tornou-se um símbolo de "status" social.

A identidade então surge desse choque, entre nossas vontades e o que a sociedade determina para a gente, de antemão. Torna-se portanto, um desafio para o homem, ser maior que esses dogmas, tornar-se alguém a despeito do que se é para a sociedade em que vive. Quantas pessoas conseguem compreender sua própria identidade sem estarem amarradas à conceitos externos do papel que precisam cumprir ou do que esperam que ela seja? Marx já apontava para o fato de que o homem não consegue ser o que quer, de fato, porque está atrelado à sociedade em que vive.

O sujeito pós-moderno, ainda em construção, se torna uma identidade em transformação, que não existe como EU fixo e determinado. Stuart Hall diz que não podemos mais identificar as pessoas, que essa identificação se tornou mais fluida. As pessoas se tornam camaleoas porque têm que se adequar ao local em que estão.

Freud também chama atenção para o inconsciente, o ser que tem "desejos". Esse ser, se contrapõe ao sujeito do Iluminismo, que é estritamente racional. O desejo, segundo Freud, muitas vezes é mais forte que a razão. Essa subjetividade no entendimento das relações humanas também tornou-se corriqueira na pós-modernidade. Aprofundar o conceito sobre si mesmo e sobre como cada um se relaciona com o mundo virou uma necessidade do homem pós-moderno, demonstrando que, a despeito da antiguidade do estudo da filosofia, antagonicamente, é agora que os homens se vêm fazendo de fato, reflexões filosóficas a todo momento. Tentando encontrar sentido em tudo que fazem. Até porque "filosofar" era um privilégio de poucos abastados que, com escravos para cuidarem de si, tinham tempo para tais reflexões. O homem hoje busca isso, mas a celeridade da vida moderna não o permite fazer ainda, da forma que gostaria. Daí, as inúmeras "frustrações e angústias da vida moderna"

No campo religioso, hoje muitos se dizem cristãos mas ao mesmo tempo recusam algumas identidades, questionam os dogmas, existem até católicos "encarnacionistas"! Esse sincretismo religioso, tão mais fortemente característico no Brasil, faz com que as pessoas misturem liturgias cristãs, com o I Ching, práticas do Candomblé e outros. A religiosidade também não é mais canônica e se permite, aos poucos, questionar-se.

Existem grupos que ainda pautam seus valores pelos valores da pós-modernidade, mas esse processo de transformação não acontece da mesma forma pra todo mundo. A idéia de modernidade já é formalmente ligada ao capitalismo e, claro, muito ligada ao Ocidente e à Europa. Para os índios, por exemplo, o processo acontece de outra forma. Ainda assim, mesmo que Kalungas sejam "tradicionais" em seus quilombos, eles não conseguem viver fora da realidade capitalista. Queiram ou não as pessoas estão inseridas, vide o exemplo do conflito na "Raposa Serra do Sol", com uma comunidade indígena totalmente alheia ao mundo capitalista, no entanto, sendo forçosamente inserida porque o STF é quem acaba decidindo sobre suas vidas.

Nossa sociedade brasileira é constituída por outras culturas de inúmeros lugares, que são utilizadas como elementos para formar nossa identidade, múltipla. O interessante é pensar se isso é bom ou ruim. Por um lado, ficamos perdidos porque não existe mais um conceito fixo, não somos mais mineiros, ou paulistas, mas cidadãos do mundo que se permitem ser várias pessoas. Por outro, buscamos padrões estéticos de identificação social, o que é uma inversão desses valores pós-modernos. Por exemplo, já foi mais fácil identificar as pessoas a partir da forma em que se vestiam. Hoje as pessoas se vestem de acordo com o lugar em que estão. Ainda assim existem muitos estereótipos, pasteurizados pela mídia, o que faz com que todo mundo queira ser igual dentro de um padrão pré-estabelecido(!). Dentro da pós-modernidade, esse é um fenômeno à ser estudado ainda com mais atenção, já que seria, teoricamente, um movimento inverso ao que aconteceu ao longo da evolução social. As pessoas passaram a criar formatos que tornam-se "moldes" do que é considerado "ideal", para ambos os gêneros. A mulher loira e siliconada, o homem yuppie, ubberman.. curiosamente tornando-se, aos poucos, "regras" de como se deve ser, numa volta ao passado feudal, às distinções sociais de classe a partir das vestimentas...

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