"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

sábado, 22 de agosto de 2009

Panis et circenses

Ontem à noite, ouvi uma expressão que me fez chorar de rir (bom, acrescente-se aí umas boas doses de cevada). No entanto, a situação é, infelizmente, pra chorar: "o drama do Mercadante hoje, é pior que a coroa de espinhos de Jesus Cristo". E é.

Sempre que algum descrente da boa política me pergunta a velha máxima: "me aponte pelo menos 13 políticos que prestem, nesse universo de 513 corruptos", um dos que primeiro me vêm à mente, é o Senador Mercadante. Posso hoje, mais do que ontem, dizer isso com certeza. Não pelo pronunciamento dele, lamentavelmente voltando atrás no que antes afirmou ser irrevogável, mas por uma informação recebida de uma pessoa que considero na minha escala máxima de honestidade e seriedade, que me garantiu que trabalhou com ele e que ele é mesmo um político e um homem sério. Afirmou ainda que, conhecendo-o pessoalmente, sente que esse processo todo, provavelmente o está dilacerando internamente, muito mais do que é perceptível publicamente.

Com o desgaste incalculável que ele optou por enfrentar ontem, em nome da governabilidade, em nome do Lula e em nome do PT, não posso deixar de dizer que o cenário para 2010 é agora impossível de prever. Se me perguntassem na semana passada, eu diria que a Dilma seria a sucessora natural de um governo que tem ampla aprovação da maioria da população. Hoje, não tenho mais a menor idéia do que vai acontecer. Colocando na balança ainda a total e absurda falta de tato dele, Mercadante, e dela, Dilma, no episódio com Lina Vieira, a coisa toma proporções inimagináveis. Acho que o único que consegue perceber isso, de fato, é o presidente Lula que, com uma carta, conseguiu tornar menos pior uma crise que já vem cheirando mal há semanas.

Uma coisa é certa: voltamos à 88, voltamos à estaca zero. Todos já provaram do poder e os dois lados, a esquerda e a direita (ainda que hoje esteja difícil distinguí-las), conseguiram demonstrar como atuam com a máquina nas mãos. É hora de saber qual modelo político é o preferido da sociedade brasileira. Ou ainda, se alguém pode propor algo diferente do que já vimos até agora. Pessoalmente, acho difícil. Até porque, é bom lembrar, as instituições estão vivendo uma crise de credibilidade nunca antes experimentada, que vem colocando contra a parede até a nossa - tão cantada em verso e prosa - "democracia" representativa.

Antes de tudo isso, já vinha sendo surpreendente o "corajoso" apoio (no quesito: "sem medo de se enterrar na lama até o pescoço"), do PT à Sarney, em função da mesma governabilidade e da óbvia possibilidade de apoio do PMDB (uma verdadeira máquina de fazer votos), à campanha de Dilma Roussef. Lembrando que é o apoio do novo PMDB, não do velho (leia-se: Pedro Simon).

A novidade - que muda todo o cenário - da semana, é agora, o anúncio da saída de Marina Silva do partido e sua provável filiação ao PV e possível candidatura à presidência.

Minhas ressalvas pessoais à figura da ex-ministra estão ligadas somente à sua devoção máxima à uma corrente das igrejas evangélicas da qual realmente tenho pavor (me perdoem os adeptos). Vejam, não estou falando da igreja em si, mas sim do gradual avanço desta sobre setores da vida política do país. Porque, na minha concepção, o Estado é laico, portanto, essa "mistura", perigosa. No entanto, essa é a única ressalva que tenho à ela, que também é outra pessoa de quem tenho informações de amigos próximos que corroboram sua conhecida e maravilhosa biografia. E a vida pessoal e política de Marina Silva é um modelo sim, falem o que quiser.

No texto abaixo, a jornalista Barbara Gancia, colunista da Folha, traduziu bem a aura que envolve Marina nesse momento e tudo que está sendo dito à respeito dela. Acrescento ainda um comentário que vi no blog da Manu, a deputada Manuela D´Ávila, que falou na falta de argumentação política, em especial quando Marina declara que o Governo Lula não tem sensibilidade com as causas sociais, justamente e talvez a única coisa que ele tenha de bom. O texto da Barbara, vale também como análise da semana. A coisa anda feia no Planalto Central.


Juliana Medeiros, repórter de rádio em Brasília.



Uma Heloísa Helena de verdade

A semana avançou e Dilma foi ficando pelo meio do caminho. Seu prestígio, que já tinha levado um belo tombo, tomou o rumo da porta dos fundos quando os senadores governistas resolveram aceitar a versão “light” dos fatos, de que a ex-chefona da Receita, Lina Vieira, estivera, sim, com a ministra, mas que ela não havia pedido privilégios especiais à família Sarney. E acabou indo para o espaço sideral quando o presidente Lula brecou a divulgação de nota preparada pela ministra-chefe da Casa Civil, em que ela daria sua versão sobre o affair envolvendo Lina Vieira.

Não é só o fato de que Dilma agora ficou marcada como mentirosa, de que não tenha jogo de cintura ou nem mesmo carisma. Não. O que ela não parece ter é paixão, é vontade do fundo do âmago do ser íntimo de ser candidata. A impressão que dá é que ela está lá apenas desempenhando o seu papel de forma burocrática porque o presidente pediu, porque o PT não tem outra opção.

Mas veja como o mundo é redondo. Justo quando Dilma é pega numa mentira grave (aliás, duas, se contarmos a lorota do diploma), exatamente na semana em que o abscesso do PT é lancetado no julgamento de um aliado tão improvável quanto José Sarney, jorrando o pus do clientelismo para todo lado e deixando claro que o processo infeccioso chegou a níveis insuportáveis -o senador Arns que o diga-, surge a figura beatificada de Marina Silva para resgatar uma utopia que já foi monopólio do partido.

O ex-ministro dos Transportes, Mário Andreazza, costumava dizer que nunca se deve trabalhar com idealistas porque com eles não há acordo possível. Faz sentido que ele dissesse isso, não? Pois o PT se deteriorou por conta de suas próprias contradições, e das cinzas surgiu essa figura impoluta, sem posses, sem um escândalo que lhe marque a trajetória, sem fome de poder, com vontade apenas de expor seus ideais, professora e humanista que não cede ao populismo.

Com sua cara de brasileirinha barrada no baile, do ponto de vista pedagógico Marina Silva representa a bandeira que o mundo quer ver o Brasil hastear. Alfabetizada no Mobral, contaminada por metais pesados, vítima das doenças da floresta, alguém que percorreu uma estrada muito similar à de Lula, só que sem a mácula do sindicalismo, o que ela pensa sobre sustentabilidade e o ambiente faz todo o sentido em um país que possui 60% do que resta de hectares “plantáveis” no mundo.

Que se dane se santa Marina não tem um nome para o Banco Central, ideias claras (ou qualquer ideia) sobre a economia e que seja adepta do criacionismo, que nega as teorias de Darwin, não é mesmo? E, para os eleitores que andam aderindo a essa maldição da pregação purista, que está dando à lei antifumo de Serra perto de 80% de aprovação, ou para o cara-pintada dormente que não faz parte da vendida UNE e que está cheio de ficar gritando “Fora, Sarney” na internet para ninguém ouvir, Marina Silva é uma Heloísa Helena de verdade, um Cacareco não avacalhado, o voto de protesto que dignifica.

Definitivamente, não foi a melhor semana da vida da ministra Dilma ou do PT.


Barbara Gancia, colunista da Folha de SP.


Postar um comentário

Feed do Substantivu Commune

Siga-nos por E-mail