"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Sobre o debate ontem

Uma das discussões que tive com alguns professores do curso de jornalismo foi de que, em alguns momentos, faltei as aulas para participar de eventos como o que aconteceu ontem no auditório da Fenajufe (promovido pelo Sindicato dos Jornalistas, sobre o diploma e a decisão do STF). E mais, eu achava que eles deviam estimular que todos os alunos também fossem.

Para mim, na dinâmica do aprendizado jornalístico, é fundamental inserir experiências mais do que "pedagógicas", mas fundamentais para o exercício da profissão e para o exercício de pensar o papel do jornalismo.

Tem sido assim, por exemplo, nas audiências públicas que temos tido para discutir a Conferência Nacional de Comunicação. Isso é ou não é importante como atividade complementar para os futuros profissionais que estão na faculdade? Ou ainda, em quê um debate como esse, foge da proposta acadêmica do curso?

A resposta, creio eu, depende muito do professor ter a visão do significado disso. Mas também depende do quanto a universidade pretende que seus alunos sejam atuantes, pensantes, e não meras "vaquinhas de presépio" do mercado.

Alguns velhos companheiros de luta, da década de 70/80 na UnB e outros fóruns, hoje são coordenadores de cursos de comunicação e, curiosamente, não estimulam seus alunos a participarem de nenhum debate. Não consigo encontrar uma resposta exata para isso, mas creio que as pessoas vão mudando e abrindo mão de certos esforços.

Esta não é uma crítica pessoal à ninguém, é uma reflexão de como estar somente dentro da sala de aula, ao invés de estar em um debate como esse, pode significar conduzir o aluno para o ostracimo intelectual que tanto serve aos futuros patrões e donos das mídias.

Falando no debate ontem, achei que o Hélio Doyle deu uma aula, em especial quando disse (se contrapondo aos que falaram antes defendendo a necessidade do diploma), que não acha nenhuma "tragédia" ter acontecido isso e que ele não acredita que vai se iniciar uma "invasão" de pessoas sem qualificação nas empresas, porque, para começar a pensar na queda da qualidade da informação, temos que pensar se existe hoje um nível considerável de qualidade, ou seja, como ele mesmo disse, "não dá pra cair mais". Eu, concordo. É só pegar qualquer jornal disponível hoje nas bancas (com raras exceções) e ver o festival de assassinatos à língua mãe, sem falar nas notícias "bomba" (e sem apuração...) que depois morrem como se nunca tivessem existido (ditabranda, ficha da Dilma, boxeadores cubanos, etc).

Ele ainda frisou que defende o curso, mas que o debate necessário é sobre a qualidade deles. E, no meu entendimento, matou a questão quando afirmou que, comparando a formação de dois filhos, uma formada em comunicação e o outro ainda estudando ciências sociais, que ele entende que o último estaria mais bem preparado para a profissão. Não tecnicamente, claro, ele explicou, para isso seria necessário um curso de especialização na área de comunicação. Mas, que um sociólogo pode compreender melhor o mundo, isso pode, daí a aprender a "traduzir" para a sociedade como fazem os jornalistas, seria mais fácil. E olha que ele não comentou - e acho que como professor, ele sabe - a profusão de alunos de jornalismo que, simplesmente, não gostam de ler (???).

Eu também defendo essa idéia, de que é necessário rever o curso, o conteúdo, a qualidade, a orientação vocacional para o acesso à ele (já que muitos, pude ver de perto, não deveriam mesmo estar nessa profissão) e, mais, observar a qualificação também dos professores. O entendimento do MEC no tocante à exigência de titulação não é suficiente para qualificar um bom professor de redação jornalística que, por exemplo, jamais tenha pisado numa redação mas seja portador de um doutorado na área. Essa é uma outra boa discussão do assunto.

Uma das afirmações que ouvi ontem, é que a "defesa do diploma é o mesmo que defender a liberdade de imprensa", ora, eu penso exatamente o contrário e o próprio Hélio afirmou com propriedade que defender isso é defender um discurso dos patrões. Até porque antes da seleção do vestibular, existe a "seleção econômica", ou seja, apto mesmo para cursar comunicação hoje, é quem pode se preparar (leia-se: $) no ensino médio para ocupar uma vaga numa federal, ou quem pode pagar depois por uma particular. Então, essa "liberdade" garantida pelo canudo, só vem depois da garantia de que o aluno pode, literalmente, pagar por isso. A meu ver, uma liberdade totalmente questionável.

Também fiquei me cutucando pra entrar na dividida do debate (não pude ficar muito tempo), em relação aos discursos montados para defender a tese do diploma, nascidos da conceituação da relação capital-trabalho. Vi muitos colegas defenderem isso, em função da formação na ala sindical, que eu aliás, respeito. No entanto, eu penso exatamente o contrário, no meu entender, o excesso de regulamentações é que serve ao capital!! Eu sou pela abertura total sim, acredito que ninguém vai manter eternamente numa redação de jornal um semi-analfabeto portador de diploma que, aliás, é o que mais vejo por aí (em diversas profissões, diga-se).

Se eu tivesse tempo, teria também colocado fogo em outro ponto que acho fundamental (e eu já tinha feito um post sobre isso antes), reafimo que nossa pose de "formadores de opinião" precisa ser revista. O fato de termos perdido essa batalha, é a prova de que os jornalistas estão perdendo espaço na guerra de poderes (no sentido "Foucaultiano").

E, pra finalizar, como comecei falando da importância do estímulo dos professores para que os alunos participem desses eventos, parabenizo o Prof. Fábio Lucas, coordenador do curso de comunicação do Unicesp que estimulou ontem que os alunos fossem ao debate. Isso sim, é bacana. Isso sim é sala de aula para o futuro profissional de comunicação. Com ou sem diploma.

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