"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Professor, posso falar?

Esse texto está no blog do Gonzum, mas merece ser reproduzido. 


Buscar a conciliação me parece o mais sensato a fazer agora. Essa brigalhada na web gerou muita energia negativa e desagregou a blogosfera progressista. É ingenuidade, porém, querer encerrar a polêmica através de um silêncio forçado, uma paz artificial. Os assuntos precisam ser debatidos até o fim. Em seuúltimo post sobre o tema, o Idelber adotou posições das quais continuo discordando, e faço-o aqui com a maior educação e respeito, para expandir o debate e tentar, como se diz, fazer desse limão uma limonada.
O texto de Idelber, com toda sua pompa, faz uma série de generalizações rasas. Ele usa a reação de alguns comentaristas de seu blog como exemplo, além das observações de botequim de uma amiga, para fazer um julgamento absolutamente empírico sobre todos os homens do planeta Terra, acusando-os por sua vez de emitir opiniões empíricas e rasas sobre o feminismo. Ou seja, ele pode fazer um julgamento empírico, os “homens” não.
Confiram trecho:
(…) quando homens emitem “opiniões” sobre o feminismo, elas não costumam vir embasadas em bibliografia ou sequer em escuta da experiência das mulheres narrada por elas próprias. Arma-se alguma capenga simetria entre machismo e feminismo, decreta-se que “as” feministas são isso ou aquilo e encerra-se o assunto sob viseiras, em geral acompanhado de algum choramingo contra “elas”, que são “radicais” ou “patrulheiras” (confesso que “barraqueira” eu ouvi pela primeira vez esta semana), sem que nenhum esforço tenha sido despendido na escuta do outro, neste caso na escuta da outra. Note-se, por favor (já que malentendido, teu nome é Internet), que não me refiro a uma opinião sobre tal ou qual leitura feminista de tal ou qual texto de Clarice Lispector, mas às emissões de “opinião” sobre o que “é” o feminismo. Essas, invariavelmente, são um desastre.
A que homens se refere? A que opiniões? Por que opiniões vem entre aspas? Quando eu emito uma opinião sobre um assunto político eu tenho que obrigatoriamente me embasar na bibliografia citada pelo interlocutor? Idelber parece confundir debate político (e feminismo é uma questão política, e das mais populares, não há sentido compará-la ao estudo da “hermenêutica” ou “fenomenologia”) com a formulação de uma tese acadêmica.
Essa postura (equivocada, a meu ver) será aprofundada nos parágrafos seguintes:
Essa prática sempre me pareceu espantosa, porque ninguém, nem mesmo um daqueles jornalistas mais caras-de-pau de MOSCOU, se arriscaria a ter “opinião” sobre, digamos, fenomenologia ou hermenêutica sem antes equipar-se minimamente para tanto. Todavia, sobre o feminismo, uma constelação de pensamentos, escritas e práticas políticas das mulheres não menos complexa, multifacetada, ampla e profunda que aquelas duas escolas, e sem dúvida mais influente que ambas, os homens, em geral, e com visível desconforto e pressa, acham que podem ter “opinião”, passar juízo, assim, sem mais nem menos, sem sequer dar um checada nas estatísticas de violência doméstica, estupro ou diferença salarial entre homens e mulheres ou ouvir uma feminista. Não falemos de ler alguma coisa de bibliografia, uma Beauvoir ou Muraro básica que seja. Acreditam sincera e piamente que essa sua atitude não tem nada a ver com o machismo.
Quem os homens pensam que são para ousar ter opinião (que vem novamente entre aspas; eu queria saber por que vem entre aspas, que têm uma função neste caso notoriamente pejorativa)? Sobre checar as estatísticas de violência doméstica, etc, ou ouvir uma feminista, Idelber novamente generaliza: ele cria um personagem caricatural, que não tem noção de nada, que nunca leu uma notícia sobre violência doméstica nem sobre diferença salarial, que nunca conversou ou ouviu uma feminista, e pespega essa imagem em todo homem que tem opinião (com aspas). Daí ele nos brinda com uma condescendência paternal, abordando novamente a não leitura do cânone feminista. Ora, me desculpe, mas para mim isso é pedantismo puro e descarado, na pior acepção do termo, pois um intelectual que se preza deveria nos trazer ao menos uma síntese, ou resumo, de alguns conceitos contidos naqueles livros. É assim que se produz cultura. É assim que se instiga as pessoas a procurarem os livros mencionados.
Não acho democrático que, diante de um tema político (e popular, repito, não posso conceber que se compare o tema “feminismo” com o estudo da fenomenologia alemã do século XIX), se exija do interlocutor a leitura de uma determinada obra como pré-condição para participar do debate. Se a pessoa acha essa obra tão fundamental, que exponha, então, os seus principais conceitos.
A atitude de Idelber nada mais é do que uma “carteirada” acadêmica. Ele cria um interlocutor imaginário, uma figura caricata, que ele se empenha em detonar. Ao não pessoalizar o ataque, contudo, ele parece estar dando socos intelectuais num boneco de ar, que não pode responder, e ao mesmo tempo posa de campeão de boxe.
Que eu saiba, existem zilhões de livros no mundo e acho impossível alguém lê-los todos. Pior, lembrar deles. Schopenhauer tinha uma frase engraçada sobre isso: dizia que pretender guardar tudo o que se lê na memória corresponderia a segurar no estômago tudo que se comeu ao longo da vida. Ou seja, o sujeito pode ter lido Simone de Beauvoir há vinte anos e hoje não se lembrar de nada, de maneira que para participar do debate sobre feminismo, teria que não apenas ler os livros mencionados, como relê-los, anotá-los, estudá-los detidamente para depois fazer a prova no blog do Idelber.
Essas exigências todas, a meu ver, transformariam o debate feminista numa conversa incrivelmente restrita, uma panelinha acadêmica, mesmo entre as mulheres. Trata-se de uma visão antidemocrática, elitista, e também profundamente antifilosófica, pois inibe o diálogo e a participação de quem não seria “iniciado” nas teorias do “feminismo”.
Mesmo sem leitura nenhuma no assunto, creio que qualquer pessoa tem potencial para dar uma contribuição criativa, a partir de sua experiência pessoal. Você não percebe, Idelber, que seus critérios produziriam uma hierarquia absurda, inclusive e sobretudo entre as próprias mulheres? Haveria uma categoria de sábios ou sábias que se arvorariam donos da verdade na questão do “feminismo”, por terem lido esses livros. Mas quem garante que esses livros não contém uma série de conceitos equivocados? Quer dizer, entendo que existe um feminismo enquanto tese acadêmica ou ciência, mas existe sobretudo, a experiência viva de todo ser humano diante da condição da mulher no mundo. E o homem deve ser estimulado a falar, a dar uma opinião franca e espontânea sobre o tema, e não ser censurado e intimidado como se pretende em seu blog.
Ele continua assim:
Quando esses homens são confrontados por uma feminista, seja em sua ignorância, seja em sua cumplicidade com uma ordem de coisas opressora para as mulheres, armam um chororô de mastodônticas proporções, pobres coitados, tão patrulhados que são. Todos aqueles olhos roxos, discriminações, assédios sexuais, assassinatos, estupros, incluindo-se estupros “corretivos” de lésbicas (via Vange), objetificações para o prazer único do outro, estereotipia na mídia, jornadas duplas de trabalho, espancamentos domésticos? Que nada! Sofrimento mesmo é o de macho “patrulhado” ou “linchado” por feministas! A coisa chega a ser cômica, de tão constrangedora.
Idelber faz insinuações, por mais melífluas que sejam, ao post anterior, onde eu figurei como um dos debatedores. Ele continua batendo no boneco de ar, mas na sua imaginação (e na dos leitores), os rostos ali projetados são de pessoas conhecidas, que não são dignas, porém, de serem nomeadas. Não é da gente que ele está falando. O que ele chama de chororô é a reclamação que fizemos de que nossas intervenções não foram respondidas com argumentos, e sim com respostas evasivas, esnobes, além de criativas variações em torno da palavra “ignorante”. Além de não podemos falar de feminismo sem antes ler os livros da estante do Idelber, temos que aguentar calados que nos esculachem. Noto ainda uma visão “machista” do homem, pois ele dá a entender que não podemos ter sensibilidade, não podemos nos sentir ofendidos, não podemos chorar.
Desfila-se todo o rosário dos melhores momentos do sexista: como posso ser machista se tenho mãe, mulher e filha, como posso ser machista se quem passa minhas roupas é uma mulher, como posso ser machista se de vez em quando ‘divido’ o serviço doméstico com ela, como podem considerar o feminismo um elogio se o machismo é um insulto, por que as feministas ficam nos dividindo, por que as feministas ficam sendo radicais demais e a longa lista de etecéteras bem conhecida das mulheres que têm um histórico de discussão do tema. Os caras sequer são capazes de renovar os emblemas frasais de sua ignorância.
No meu egocentrismo paranóico, senti aquele “rosário” como mais alfinetada em minha pessoa. Agora não apenas sou machista, como também sexista. Maravilha. E usa a tática recorrente de outros comentaristas do seu post anterior, sobre a qual protestamos reiteradamente. Só faltou botar aspas, como fez a outra, para nosso pensamento. Ninguém falou isso que Idelber disse. Ele novamente está batendo num joão-bobo. Eu, por exemplo, dei o exemplo de minha mulher não para vir ao debate com o argumento infantil: “tá vendo? minha mulher concorda comigo”, mas porque minha opinião vinha sendo sistematicamente discriminada pelo fato d’eu ser homem, a ponto de sequer ter o direito de ser chamado de “homem”. A interlocutora (para ser mais preciso, a senhora Lola), passou a nos chamar simplesmente de “machos”, o que, já disse, considerei ofensivo naquele contexto. Nunca me passaria pela cabeça chamá-la de “fêmea”. O que eu quis dizer, e creio que expliquei direitinho, mas se recusaram a entender, é que minha mulher é, na minha opinião, uma feminista. Ela faz uma revista voltada (ao menos nos seus primeiros números) para o público feminino, uma revista que luta abertamente em prol da autoestima e da valorização da mulher. Mas ela também luta contra esse feminismo pedante, acadêmico e agressivo, que, na opinião dela, apenas atrapalha a vida pessoal da mulher e gera estereótipos negativos e contraproducentes para o feminismo.
Quando eu falo em agressividade, não é porque peço um feminismo “dócil”. Não peço nada. Apenas contesto uma maneira de debate fundamentada em acusações de que o outro é ignorante, sem que o interlocutor se disponha a formular sequer UM conceito criativo. Aliás, ainda tem isso, essa falta de criatividade, esse pendurar-se em pensamentos alheios, em conceitos criados nos Estados Unidos há trinta anos, sem atualizá-los à luz dos novos tempos e da realidade brasileira.
Continuando, Idelber aprofunda a generalização e transforma um debate que nem é mais tanto sobre o feminismo, mas que se torna quase um debate sobre a liberdade de expressão, numa crítica abstrata e superficial aos “blogueiros progressistas”.
Foi o caso, nestes últimos dias, de alguns dos blogueiros autoidentificados, a partir de um encontro recente em São Paulo, como “progressistas” (não está muito claro de onde vem nem para onde vai esse “progresso” nem em que consiste o “progredir”, mas é evidente que sou ferrenho defensor da primazia da autoidentificação: que cada um se chame como gosta, contanto que me incluam fora desta; este é um blog de esquerda). O progressismo blogueiro é visivelmente masculinista, e que ele reaja com tão ruidosa choradeira ao mero aflorar de uma crítica feminista é só mais uma óbvia confirmação do fato.
Idelber resolveu implicar com o termo “progressista”, uma preocupação que semelha a busca frenética de pêlos em ovo. Ora, e “esquerda”, não é um termo etimologicamente muito mais estranho? Esquerda também é um termo “resolvido”? Até entendo que ele queira criticar o termo “progressista”, mas a maneira como ele o faz, no contexto da luta política que vivemos, e da posição que ele, Idelber, tem assumido, é desagregadora e desleal. Ora, o termo “progressista” é um tema em aberto. O importante não é tanto o nome do personagem, mas a sua ação, o que ele faz, o que ele pensa. Sobre esse “visivelmente masculinista”, é uma acusação ou qualificação puramente pernóstica. Mais que isso, é enfadonho, como se alguém quisesse desqualificar a revolução francesa por ter sido liderada por homens. É um feminismo barato. Esse sim, a meu ver, é o pior tipo de sexismo. Idelber insinua, por acaso, que os blogueiros progressistas “vetam” deliberadamente a participação de mulheres no movimento? O Encontro Nacional trouxe um enorme número de mulheres. Claro, os blogueiros “grandes” são homens, e certamente pode-se encontrar em toda parte alguma espécie de machismo. Mas é um processo. As mulheres estão ganhando participação e esse tipo de divisionismo sexual, essa tentativa de criar uma guerra entre os sexos, me parece profundamente antipático.
Aí o post sai do estágio do pedantismo e envereda para o da arrogância pura:
Uma das características do masculinismo progressista é sua tremenda dificuldade em entender a lição de Ana que, escrita num contexto de discussão do racismo, também se aplica aqui: não é sobre você que devemos falar. Não é sobre seu umbiguismo, não é sobre seu desconforto, não é sobre a sua necessidade de que as feministas sejam dóceis (ou não “divisionistas”) o suficiente para que possam carimbar e avalizar o seu tranquilizador atestado de boa consciência. Pra isso o Biscoito Fino e a Massa recomenda outra coisa: psicanálise freudiana. No Brasil de Lula e Dilma, já não é coisa tão cara, pelo menos para a maioria dos que leem esta bodega.
Ã? Masculinismo progressista? O que é isso? O que o caracteriza é não entender a lição de “Ana”? Para sermos alguém na vida e nos libertamos de nossos terríveis preconceitos machistas, bastar-nos-á então ler os textos gentilmente indicados por Idelber? No caso, nem é um texto sobre feminismo, é sobre racismo. Daqui a pouco, Idelber vai dizer que os “blogueiros progressistas” são racistas… Aliás, inúmeros comentaristas nessa polêmica insinuaram isso, ao mencionar blogueiros homens-brancos, sem sequer se preocupar em saber que boa parte de nós, blogueiros progressistas, somos pardos e negros. Idelber menciona também o “umbiguismo”, dando vazão ao que eu considero uma discriminação contra uma maneira de escrever, que eu gosto muito, que é de fundamentar conceitos a partir do que conhecemos de nós mesmos. Eu particularmente acho mais honesto e científico basear-se na minha experiência pessoal, no meu umbigo, do que, num debate sobre liberdade de expessão, discorrer sobre as mulheres negras de Uganda. Sobre a análise freudiana, parece-me um ótimo conselho, mas para o próprio autor.
O texto prossegue com xaropadas sobre sexismo, acusando os homens – reles homens! – de cometer a petulância de organizar um movimento na blogosfera! A linguagem de Idelber assusta. Ele conclui com uma espécie de carteirada final, ao dizer que: “Pessoalmente, sou fã da polêmica que se dá entre as feministas materialistas britânicas, em que uma teoria mais funcionalista das relações entre opressão de classe e opressão de gênero se enfrenta com uma teoria entitulada “sistemas duais”, que argumentava pela independência relativa entre capitalismo e patriarcado (embate sociológico dos bons, nos quais nunca, claro, se fixa uma conclusão, mas durante os quais se exploram hipóteses interessantes).”
Bem, eu imagino que essa polêmica aí das feministas materialistas britânicas deve ser algo tremendamente emocionante, mas neste caso, eu prefiro continuar sendo um ignorante.
Por fim, a pérola derradeira do grande Idelber:
Ninguém é obrigado a ser inteligente o tempo todo, mas quando se trata de aprender a escutar, humildade e decência costumam ser as duas qualidades mais importantes da trinca.
Bem, essa aí é fácil responder: basta mandar a bola de volta para quem chutou. Escutar pessoas, homens ou não, que não são expertise em feminismo materialista britânico dual, mas que tem outras experiências de vida interessantes, também seria saudável para Idelber e companhia.
PS: Não quis ofender ninguém ao usar os termos “pedante” ou “arrogante”, mas um debate fica insuportavelmente chato se a gente não puder ter a liberdade de cutucar o interlocutor.

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