"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Abdicar de pensar - por Frei Betto

Em nome da ambição de galgar os degraus do poder, de manter uma função pública, de usufruir da amizade de poderosos, muitos abdicam do pensamento crítico, engolem a seco abusos de seus superiores, fazem vista grossa à corrupção, se abrem em sorrisos para quem, no íntimo, desprezam
15/08/2013
Frei Betto (no Brasil de Fato)
Está em cartaz, em alguns cinemas do Brasil, o filme “Hannah Arendt”, direção de Margarethe Von Trotta. Por ser uma obra de arte que faz pensar não atrai muitos espectadores. A maioria prefere os enlatados de entretenimento que entopem a programação televisiva.
Hannah Arendt (1906-1975) era uma filósofa alemã, judia, aluna e amante de Heidegger, um dos mais importantes filósofos do século XX, que cometeu o grave deslize de filiar-se ao Partido Nazista e aceitar que Hitler o nomeasse reitor da Universidade de Freiburg. O que não tira o valor de sua obra, que exerceu grande influência sobre Sartre. Hannah Arendt refugiou-se do nazismo nos EUA.
O filme de Von Trotta retrata a filósofa no julgamento de Adolf Eichmann, em 1961, em Jerusalém, enviada pela revista “The New Yorker”. Cenas reais do julgamento foram enxertadas no filme.
De volta a Nova York, Hannah escreveu uma série de cinco ensaios, hoje reunidos no livro “Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal” (Companhia das Letras, 1999). Sua ótica sobre o réu nazista chocou muitos leitores, em especial da comunidade judaica. 
Hannah escreveu que esperava encontrar um homem monstruoso, responsável por crimes monstruosos: o embarque de vítimas do nazismo em trens rumo à morte nos campos de concentração. No entanto, ela se deparou com um ser humano medíocre, mero burocrata da máquina genocida comandada por Hitler. A grande culpa de Eichmann, segundo ela, foi demitir-se do direito de pensar.
Hannah pôs o dedo na ferida. Muitos de nós julgamos que são pessoas sem coração, frias, incapazes de um gesto de generosidade os corruptos que embolsam recursos públicos, os carcereiros que torturam presos em delegacias e presídios, os policiais que primeiro espancam e depois perguntam, os médicos que deixam morrer um paciente sem dinheiro para custear o tratamento. É o que mostram os filmes cujos personagens são “do mal”.
Na realidade, o mal é também cometido por pessoas que não fariam feio se convidadas para jantar com a rainha Elizabeth II, como Raskólnikov, personagem de Doistoiévski em “Crime e castigo”. Gente que, no exercício de suas funções, se demite do direito de pensar, como fez Eichmann. 
Elas não vestem apenas a camisa do serviço público, da empresa, da corporação (Igreja, clube, associação etc.) no qual trabalham ou frequentam. Vestem também a pele. São incapazes de juízo crítico frente a seus superiores, de discernimento nas ordens que recebem, de dizer “não” a quem estão hierarquicamente submetidas.
Lembro de “Pudim”, um dos mais notórios torturadores do DEOPS de São Paulo, vinculado ao Esquadrão da Morte chefiado pelo delegado Fleury. Ele foi incumbido de transportar o principal assessor de Dom Helder Camara, monsenhor Marcelo Carvalheira (que mais tarde viria a ser arcebispo de João Pessoa), do cárcere de São Paulo ao DOPS de Porto Alegre, onde seria solto. 
Antes de pegar a estrada, a viatura parou à porta de uma casa de classe média baixa, em um bairro da capital paulista. Marcelo temeu por sua vida, julgou funcionar ali um centro clandestino de tortura e extermínio. Surpreendeu-se ao se deparar com uma cena bizarra: a mulher e os filhos pequenos de “Pudim” em torno da mesa preparada para o lanche. O preso ficou estarrecido ao ver o torturador como afetuoso pai e esposo...
Uma das áreas em que as pessoas mais se demitem do direito de pensar é a política. Em nome da ambição de galgar os degraus do poder, de manter uma função pública, de usufruir da amizade de poderosos, muitos abdicam do pensamento crítico, engolem a seco abusos de seus superiores, fazem vista grossa à corrupção, se abrem em sorrisos para quem, no íntimo, desprezam.
Essa a banalidade do mal. Muitas vezes ele resulta da omissão, não da transgressão. Quem cala consente. Ou do rigoroso cumprimento de ordens que, em última instância, violam a ética e os direitos humanos. 
Assim, o mal viceja graças ao caráter invertebrado de subalternos que, como Eichmann, julgam que não podem ser punidos pelo genocídio de 6 milhões de pessoas, pois apenas cuidavam de embarcá-las nos trens, sem que elas tivessem noção de que seriam levadas como gado ao matadouro das câmaras de gás.
Dois exemplos da grandiosidade do bem temos, hoje, em Edward Snowden, o jovem estadunidense de 29 anos que ousou denunciar a assombrosa máquina de espionagem do governo dos EUA, capaz de violar a privacidade de qualquer usuário da internet, e no soldado Bradley Manning, de 25, que divulgou para o WikiLeaks 700 mil documentos sigilosos sobre a atuação criminosa da Casa Branca nas guerras do Iraque e do Afeganistão. 
Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

terça-feira, 4 de junho de 2013

VI Convenção Mineira de Solidariedade a Cuba de 7 a 8 de junho




TEATRO DA CIDADE

Avanços na América Latina - Cuba não é uma ilha
palestra : Beto Almeida (jornalista e diretor da Telesur)

Avanços socialistas- desafios da experiência cubana
palestra :Fábio Simeón ( Instituto Cubano de Amizade entre os Povos- ICAP) 

Avanços no Brasil - O resgate de Prestes
palestra: Anita Leocádia Prestes (professora, filha de Olga Benário e Luiz Carlos Prestes)

Lançamento do livro :" Luiz Carlos Prestes : o combate por um partido revolucionário" de Anita Leocádia Prestes

DATA: 7 de junho de 2013, sexta-feira
HORÁRIO: a partir das 19h.
END.: Rua da Bahia, nº 1341, Centro.

SALAS DE TRABALHO PARA A SOLIDARIEDADE
Inscrições prévias: Teatro da CUT, Rua Curitiba, nº 786, 2º andar. DATA: 8 de junho de 2013 INFORMAÇÕES e INSCRIÇÕES
FONE:(31) 9464-7026
E-MAIL: acjmmg@gmail.com


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Os médicos cubanos que viriam ou virão ao Brasil não são médicos formados na ELAM


Estive em Cuba há duas semanas onde conheci uma jovem diplomata cubana (formada em Economia c/pós-graduação em Relações Internacionais), que nos explicou que o conteúdo das universidades em Cuba, em todos os cursos, há muitos anos, é baseado no conteúdo programático de universidades da Espanha. São realizados convênios e com isso, inclusive o material didático é o mesmo. Dessa maneira eles mantiveram a atualização do conteúdo mesmo sob o bloqueio.

Do ponto de vista da metodologia, a aplicada no curso de medicina mas também em outros cursos é construtivista (portanto, bem menos expositiva) e de fato estimula a experiência profissional na prestação de serviços desde o início do curso, também vi isso lá. No curso de medicina da Escola Superior de Ciências da Saúde, aqui em Brasília, é utilizado um método parecido e lembro que durante um bom tempo houve um embate com os docentes da UnB (e mesmo alunos) que consideravam o método falho. Isso por que, por exemplo, alunos da ESCS desde o 1º ano são orientados a atuarem como observadores ou com tutoria nos hospitais (e não somente no final do curso). Isso faz com que os alunos pareçam (e são) inexperientes perto dos que estão cumprindo estágio em nível avançado. Não sei como está agora esse debate por aqui, mas em Cuba ficou claro, que até mesmo em estudantes norte-americanos (tem um grupo se formando lá agora), o método aliado à experiência de atuarem em hospitais cubanos, sob princípios humanistas e valores que estão sedimentados na cultura cubana (como o inegável compromisso com a solidariedade), contamina todos os recém-formados com o desejo de, prioritariamente, se doarem como médicos à missão de salvar vidas.

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Os médicos cubanos que iriam ou irão vir ao Brasil não são médicos formados na ELAM

Fonte: Maria Frô

Por Maria Leite*


Os médicos cubanos que iriam ou irão vir ao Brasil não eram médicos da ELAM.

Os médicos da ELAM não são cubanos. São médicos formados em Cuba, de diversos países, com todos os gastos por conta do estado cubano, de quem recebem moradia, livros, estudo e a ajuda para gastos em dinheiro (bolsa).

Os médicos brasileiros, formados na ELAM, para exercer a medicina no Brasil, tem e terão de fazer exame de revalidação e não se incluem nesses 6000, que viriam ao Brasil, através de um convênio, não trabalhar por conta própria, mas dentro do que estabelecer o contrato.

Em Cuba, existe desde o ano 2000 o conceito de microuniversidade e todos os profissionais, não apenas médicos se formam em serviço. Ou seja, a partir do segundo ano o aluno já trabalha na sua futura profissão, sob orientação de um tutor.

Terceira Revolução Educacional em Cuba é parte de um processo de transformação que envolve vários subsistemas, dentre eles a Formação e o Aperfeiçoamento do Pessoal Pedagógico e a Formação de Médicos, que tem sua base nas experiências de formação emergente que existe em Cuba desde a campanha de Alfabetização dos anos 60. Cada centro é convertido em microuniversidade e as sedes universitárias congregam os professores das universidades e adjuntos. Uma microuniversidade é uma escola, mas também pode ser um hospital, uma fábrica ou uma oficina, porque o conceito de universalização não é exclusivo da formação do professor ou do médico, o que pressupõe colocar o universitário em contato com a realidade onde se desenvolve fisicamente a profissionalização.

Todos os médicos cubanos, formados nas escolas de medicina em Cuba, após se formarem, tem que trabalhar no serviço social, de 4 anos, que implica trabalhar como médico de família, generalista, em locais no campo, nas montanhas, …, de forma que não exista um cubano sem assistência de médicos. Alguns entre os formados vão fazer o serviço social em outros países como a Venezuela e depois ao acabar o serviço social voltam a Cuba para fazer uma especialidade médica, se quiserem, ou seguem como generalistas.”

“Descartamos buscar médicos cujo tempo de formação não é reconhecido nos próprios países. A mera formação universitária não garante o exercício da medicina. São necessários cursos de especialização e residência médica.” Como assim? Os alunos formados médicos no Brasil trabalham em hospitais na residência atendendo pacientes, mas ainda assim há uma grande parcela da população que nasce e morre sem ver um médico no Brasil!”. O que publicou o El Pais, não é confiável e quero crer que o governo de Dilma não cairia nesses equívocos.

Padilha, creio eu, não cedeu à chamada por muitos máfia de branco, ao corporativismo de mercenários, que com exceções, são os médicos no Brasil. Ele, na condição de escolhido por Dilma para esse cargo, veio mais uma vez confirmar que de um governo eleito por uma eleição burguesa, por um sistema eleitoral decidido pelo dinheiro, não irá nunca poder ou fazer nada que crie um grande confronto direto com os interesses da burguesia, de onde saem prioritariamente uma maioria de meninos criados com todinho e leite de pera para se tornarem os médicos, para quem vale uma coisa: send me money!

*Maria Leite (LEITE, Maria do Carmo Luiz Caldas) é professora de Física e autora do trabalho sobre a Educação em Cuba: LOS VALIENTES: A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NA ESCOLA SECUNDÁRIA BÁSICA EM CUBA

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A trampa Boston-Chechênia do FBI

Assim que saiu o anúncio das bombas em Boston, pensei imediatamente no factóide que encontrariam para culpar algum país inimigo. Na verdade, esse modus operandi já é tão manjado, que meu filho de 12 anos comentou: "vão encontrar um culpado do Irã ou da Coréia do Norte". Ou seja, não estão convencendo mais nem as crianças.

A estratégia militar norte-americana de dominação passa por princípios midiáticos conhecidos de qualquer profissional da área, mensagens subliminares, manipulação de memes, mitos, cujo objetivo é imprimir uma realidade paralela que acaba por influenciar o pensamento da sociedade como um todo. Existe toda uma organização mundial que se presta a esse papel em vários níveis, na comunicação, na política, mas também em espaços administrativos. A verdade é que as próprias teorias da conspiração sobre o tema acabam por se contaminar sob os mesmos princípios. O professor Wilson Roberto Vieira Ferreira, dá uma boa explicação sobre esses conceitos no artigo "A ficção midiática contamina o atentado de Boston".

O colega, sempre atento, Pepe Escobar, apresenta em sua reportagem-análise, alguns dados elucidatórios, hoje disponíveis a qualquer um que decida pesquisar (por si mesmo) na internet por informações que são deliberadamente suprimidas do noticiário. Então temos: vários figurantes maquiados com requinte hollywoodiano, dentre eles um cadeirante (ex-combatente) sem as pernas (mas quase sem sangue!), agentes da Craft (empresa que presta serviços de combatentes mercenários aos EUA, nos moldes da Blackwater e outras), posicionados e em alerta em meio à multidão muito antes de qualquer sinal de problema, uso de vídeos falsos de vigilância, imagens de suspeitos com o mesmo padrão que os irmãos chechenos mas sem identificação ou evidência lógica (ao menos se vc não for um agente do FBI, ultra "treinado"para encontrar pêlo em ovo) e, claro, dezenas de ausências na cobertura internacional, porém disponíveis de forma viral na rede.

Já vimos isso outras vezes, Hollywood tem sido cada vez mais utilizada como recurso para espalhar o terror e convencer o mundo da necessidade de sermos "salvos" pelo poderio bélico norte-americano. Mas por onde isso passa e até onde vai? O texto de Pepe Escobar propõe algumas reflexões. Recomendo fortemente o acesso aos links do texto, são complementares. Boa leitura.

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Fonte: Blog da Tecedora


A imprensa independente não se intimidou. Encontram-se fotos, em Natural News, um achado, um perfeito tesouro de fotos e mais fotos que mostram empregados da Craft no local da Maratona, em uniforme completo de combate, mochilas pretas, equipamento tático, portando até detector de radiação. As fotos, portanto, existem. E como reagiu o FBI? Impôs total blecaute. Censura total de imagens, coisa do tipo “nenhuma outra imagem será confirmada” – só imagens que mostrem os irmãos Tsarnaev. A empresa Craft é intocável. 
por Pepe Escobar
Asia Times Online (Tradução: Vila Vudu)
 
As bombas em Boston foram tiro pela culatra. Disso já não há qualquer dúvida. O que ainda não se sabe é que nível de tiro saiu-lhes pela culatra.

Pode ter sido operação clandestina que saiu totalmente errada. Pode ter sido tiro que saiu pela culatra de ex “combatentes da liberdade” – nesse caso chechenos étnicos – reconvertidos em terra-rists [como Bush pronunciava a palavra terrorists (NTs)]. Pode ter sido tiro saído diretamente pela culatra da política externa dos EUA contra muçulmanos, que só existe para mandá-los para Guantanamo, Abu Ghraib ou Bagram, entregá-los “extraordinariamente” (mas frequentemente) para serem torturados em solo estrangeiro ou para assassiná-los ‘legalmente’.

O FBI, como se poderia facilmente prever que faria, não admite nenhuma dessas opções. Mantém-se agarrado a um roteiro enroladíssimo, digno desse pessoal mais completamente movido à cocaína. Noites hollywodianas dos anos 1980s: uma dupla de bandidos que “odeiam nossas liberdades”, porque... odeiam.

Como já escrevi, numa espécie de preâmbulo ao que aqui se lê, há buracos de dimensões intergalácticas na história dos irmãos Tsarnaev.[1] Já se sabe – pela mãe dos dois rapazes [2] – que o FBI (Federal Bureau of Investigation) seguia o irmão mais velho, Tamerlan, há, no mínimo, cinco anos. Em entrevista posterior a Piers Morgan da CNN, a mãe falou, sim, claramente, sobre “orientações” que o filho recebera.

Simultaneamente, o FBI foi obrigado a admitir que, no início de 2011 aceitou o pedido de “um governo estrangeiro” (expressão-código para “Rússia”) para não perder de vista o mais velho dos irmãos, Tamerlan. Aparentemente foi o que fizeram – e nada encontraram que sugerisse atividade terrorista.

Assim sendo, o que aconteceu depois? Alguém no FBI, dos que têm QI superior a 50, devem ter percebido que, por causa do pedido dos russos, o FBI ‘descobrira’ um precioso ‘operativo’ checheno-americano. E Tamerlan tornou-se informante do FBI. Podia ser tocado como se toca rabeca, para produzir qualquer som – como tantos outros tolos antes dele.

Portanto, se não o afinaram corretamente, pode-se acusar o FBI, com todo o direito, de incompetência devastadora (e não seria a primeira vez). Porque o FBI está dizendo agora que jamais suspeitou de que seu ‘operativo’ estivesse construindo alguma bomba, que desejasse testá-la ou que andasse de bomba da mochila pelas calçadas da maratona de Boston.

O que o FBI jamais, em tempo algum, dirá é quando monitoraram/controlaram/chantagearam Tamerlan pela última vez. Não esqueçamos: trata-se do mesmo FBI que nos ofereceu aquele ‘plano’ tipo “Velozes e Furiosos”, mancomunado com um cartel mexicano para assassinar um embaixador saudita[3] – plano que foi desmascarado e exposto apenas em alguns dias.

Tamerlan, é claro, pode ter dado uma de FBI p’ra cima do FBI (embora, talvez, nem tanto) e, depois de anos de monitoramento/controle/chantagem, passou a trabalhar como agente duplo. Ao que se sabe, trocou os EUA pela Rússia por longo período – de janeiro a julho de 2012. Ninguém sabe o que fez nesse período; o FBI adoraria provar que participou de treinamento terrorista tático. Mas, se era de fato ‘operativo’ tão interessante, bem pode ter sido mandado infiltrar-se nos grupos de jihadis chechenos comandados por Doku Umarov no vizinho Daguestão.

Quanto às relações complexas, cheias de nuances, como são todas as relações muito íntimas, desde os anos 1990s, entre Washington e os terra-rists chechenos – absoluto tabu na imprensa-empresa dos EUA –, ninguém precisa ler mais que o interessantíssimo e surpreendente Sibel Edmonds [19/4/2013, “USA: The Creator & Sustainer of Chechen Terrorism” (EUA: Criador e mantenedor do terrorismo checheno)].[4]

Sobre o tal exercício 

O FBI tem poder suficiente para impor aos EUA e ao planeta qualquer roteiro fantasioso sobre “dois jovens chechenos do mal”. Consideremos então um cenário alternativo crível, para ver a que nos leva.

Em vez de dois sujeitos (estrangeiros) do mal, totalmente americanizados, que repentinamente são inoculados pelo vírus do ódio “contra nossas liberdades” mediante doutrinação jihadista feita principalmente online, vejamos quem realmente se beneficia com o que aconteceu em Boston.

O Boston Globe foi forçado a “fazer desaparecer” a informação sobre um exercício de contraterrorismo – que incluiria cães que farejam bombas – e que aconteceria durante a maratona. O FBI bem pode ter dito ao seu ‘operativo’ Tamerlan que ele participaria do exercício. Tamerlan podia ser sujeito durão, mas seria facilmente chantageado, se sua família fosse ameaçada no caso de ele não cooperar.

Então, entregaram a Tamerlan uma mochila preta com uma falsa bomba de panela-de-pressão e disseram-lhe que a pusesse num local determinado – como um dos procedimentos incluídos no exercício. Nesse ponto, todo o (nosso) cuidado é pouco: não há nenhuma prova conclusiva que autorize a confirmar que se tratasse de simples exercício. Não há como saber se a bomba era falsa ou se estava armada para explodir ou ser explodida.

Digamos que Tamerlan, homem durão, e seu irmão, o impressionável Dzhokhar, tenham sido realmente responsáveis (sem o FBI no quadro). Depois de tanto planejamento, com certeza haveria rota de fuga planejada – transporte, passaportes, dinheiro, bilhetes de avião. E nada disso havia. Dzhokhar foi à escola, treinou na academia, enviou mensagens por Twitter.

Não há absolutamente nenhuma testemunha que diga ter visto os irmãos depositarem as bombas. Eles puseram as bombas onde as puseram, porque essa foi a instrução que receberam do FBI. E dali em diante, já ninguém entende mais nada. Roubaram um Mercedes num posto de gasolina e deixaram partir o motorista – depois de dizerem a ele que eram responsáveis pelas bombas da Maratona. Dzhokhar e a Mercedes conseguem sair vivos de tiroteio cerrado, furando uma muralha de policiais – mas, no percurso, o Mercedes passa por cima do corpo de Tamerlan enrolado em explosivos. Dzhokhar deixa uma trilha de sangue. Mas nenhum cachorro seguiu a trilha.

E há o saborosíssimo exercício em cidade sob lei marcial: toda a cidade foi esvaziada e paralisada – o prejuízo gerado por essa operação é incalculável – por causa de um adolescente em fuga pela cidade. Atenção, EUA! A coisa está só começando!

O que é certo é que os irmãos Tsarnaev absolutamente não eram militantes jihadis; só os viciados nos veículos de esgoto de Murdoch algum dia engolirão a ideia de que fossem.

Basta passar os olhos por uma página de jihadistas autênticos, como o Kavkaz Center [http://en.wikipedia.org/wiki/Kavkaz_Center], muito bem estabelecidos e plenamente representativos do que se conhece como o Emirado Islâmico do Cáucaso, de insurgentes. Ali se fazem boas perguntas. E o Centro Caucasiano desmonta completamente a versão de que os irmãos seriam jihadistas empedernidos.

A [empresa] Craft, que tudo sabe 

Poucas empresas paramilitares e respectivas griffes no ocidente industrializado são mais sinistras que The Craft.[5] Craft foi responsável pelo exercício de guerra. O símbolo é uma caveira, parecida, até, com O Justiceiro, personagem Marvel. O motto chega a ser tímido, ante o que a empresa faz: “Não importa o que sua mãe diga: a violência resolve”. A imprensa-empresa nos EUA fez simplesmente sumir qualquer vestígio da multidão de empregados-agentes da Craft que estavam em todos os pontos, muitos deles, no local da Maratona. Pode-se falar em um blecaute, pelas empresas-imprensa.

Mas a imprensa independente não se intimidou. Encontram-se fotos, em Natural News,[6] um achado, um perfeito tesouro de fotos e mais fotos que mostram empregados da Craft no local da Maratona, em uniforme completo de combate, mochilas pretas, equipamento tático, portando até detector de radiação. As fotos, portanto, existem. E como reagiu o FBI? Impôs total blecaute. Censura total de imagens, coisa do tipo “nenhuma outra imagem será confirmada” – só imagens que mostrem os irmãos Tsarnaev. A empresa Craft é intocável.

O problema é que tudo que tenha a ver com a empresa Craft nesse cenário é problema. (1) A invisibilidade da Craft – toda a imprensa-empresa obedecendo como ovelhinhas ao que o FBI ordenou e apagando do noticiário todos os fatos. (2) A qualidade da expertise “de segurança” – um exército de mercenários ao qual se paga uma fortuna... e os tais hiper treinados ‘especialistas’ armados com o mais pesado armamento high-tech do planeta não conseguem capturar uma dupla de amadores?! E (3) a sinistra possibilidade de tudo tenha sido operação clandestina executada pela empresa Craft.

Se nos mantivermos fieis à realidade, deixando de lado as histórias em quadrinhos by Marvel, todas as evidências apontam para alguma coisa bem semelhante ao modus operandi da galáxia soturna de franquias da al-Qaeda. Consideradas as provas recolhidas da história e do comportamento dos irmãos – nenhuma atividade passada nem militar nem de sabotagem – elas também sugerem que não teriam experiência suficiente para planejar e executar tudo aquilo, sozinhos. Mas pode-se entender sem dificuldade uma operação copiada da al-Qaeda e atribuída a dois rapazes que não teriam como defender-se – algo que, pelo menos em teoria, a empresa Craft poderia facilmente planejar.

Por tudo isso, eis a que nos leva um cenário perfeitamente realista: falsa operação construída por FBI/Craft, a qual (1) pode ter dado terrivelmente errado, motivo pelo qual os autores tiveram de encontrar dois bodes expiatórios, no prazo de algumas horas; ou (2) a sinistra possibilidade de que tudo tenha sido planejado como joguinho de gato-e-rato para produzir exatamente o resultado que produziu – e levar à militarização, agora já quase total, de toda a vida civil nos EUA.

Vale o escrito (em sangue). Estão sumindo os últimos vestígios de Estado de Direito nos EUA – agora que um painel bipartidário de especialistas já descobriu que todos os funcionários em postos de comando do governo George W Bush estiveram, sem dúvida possível, implicados em torturas; e que a tortura foi prática sistemática, mesmo que jamais tenha conseguido impedir qualquer ato terrorista.

Washington está a um passo de ver-se incluída na lista cintilante de estados como o Egito na era Mubarak, Bahrain e Uganda. Como o coronelão-senador Lindsay Graham já declarou, “a pátria é o campo de batalha”. E você, leitor, é “combatente inimigo”. Se decidirmos que é.

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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Recordar é viver: a Revolução não será televisionada

Por Raphael Sanz

Quando se fala em Venezuela, Hugo Chávez, bolivarianismo e afins no Brasil, o assunto sempre descamba para uma discussão sobre liberdade de expressão. Folha, Abril, Globo e outros veículos de mídia corporativa bradaram, rosnaram e ameaçaram morder Hugo Chávez desde 1999 quando ele assumiu a presidência do seu país. Chávez teve um papel fundamental no processo que garantiu a democratização dos lucros da exploração de petróleo venezuelano. Ou seja, a grana do petróleo era utilizada para investir em educação (tanto que o analfabetismo foi praticamente erradicado do país), em saúde e nas organizações populares de bairros e vilarejos, chamados de círculos bolivarianos, que serviram para popularizar o poder de decisão, do povo, em relação às políticas que seriam tomadas por todas as esferas de governo. Os círculos bolivarianos organizam assembleias e entidades comunitárias, estimuladas pela revolução, e cuidam de questões internas da comunidade, de educação popular e de reivindicação junto ao governo.


Mas que contradição. Chávez exerceu um papel desses e o acusam de ser um ditador e de cercear a liberdade de expressão. Muito estranho mesmo. Pouco antes de morrer, Chávez foi incisivo nessa questão com um jornalista da Globo, durante entrevista coletiva (http://www.youtube.com/watch?v=JUsVSargH-Y). Teceu críticas à emissora e à visão neoliberal de liberdade de imprensa. “Se você escrever algo que seu editor não queira, uma vez é bronca, duas é advertência, na terceira vez é rua”. Com um discurso mais ou menos assim, Chávez foi explicando que a censura corporativa é cruel. Que interesses de patrões e anunciantes são sagrados na mídia neoliberal e que, no Brasil ou na Venezuela, são esses fatores que ditam a censura nos meios de comunicação.

A morte de Chávez, no último dia 5 de março, gerou uma onda agressiva de discussões nas praças reais e virtuais a respeito desses temas, o que me fez resgatar um documentário de 2003 que, em minha opinião, explica muito bem a relação entre a revolução bolivariana e os meios de comunicação corporativos que levam dinheiro estadunidense (Venevision e RCTV, assim como a Globo no Brasil). A Revolução não será televisionada, além de traçar um perfil do caráter golpista das grandes televisões venezuelanas, que efetivamente protagonizaram junto à burguesia do país um verdadeiro golpe de Estado em abril de 2002, ainda narra o dia-a-dia desse golpe, farsa a farsa, mentira a mentira.

O filme começa com o presidente Chávez discursando contra o neoliberalismo, segue com chamadas jornalísticas em inglês atacando-o e fecha com outra chamada dizendo que “o novo governo da Venezuela vai estabilizar a produção e o comércio de petróleo no país”. E nessa toada vai alternando dados a respeito do presidente, do povo pobre que o apoia, com tomadas das televisões venezuelanas pegando pesado com Chávez nos seus noticiários: desde dizer que Chávez tem um relacionamento freudiano com Fidel Castro, até afirmar que o presidente é retardado mental e exigindo que o melhor para a Venezuela seria uma transição sem Chávez. Transição do quê? Dos círculos bolivarianos para o capitalismo selvagem.

Outro fator que contribuiu para a antipatia a Chávez da mídia corporativa são suas duras críticas às políticas estadunidenses. “Não se pode responder ao terror com mais terror” disse em 2001. Assim, jornalistas ianques rebatem dizendo que Chávez faz negócios com narcotraficantes colombianos e que o presidente pode ser um agente cubano na Venezuela. Sem comentários.

“Agora eu gosto da política, porque agora tenho uma vida democrática e participativa”, diz uma moça, em completa consonância com um rapaz que afirma que, pela primeira vez na Venezuela, há um governo democrático, que é do povo. Em contrapartida, oposicionistas de classe média e alta aparecem reclamando que, na Venezuela, antes não havia medo, e denunciam um projeto continental de insurreição comunista em toda a América Latina. Chávez rebate: “A riqueza da Venezuela é de todos, e não de uma minoria”.

Canais privados acusam o governo de usar a violência, como Hitler e Mussolini, ao supostamente perder popularidade, enquanto Pedro Carmona, presidente da RCTV, uma das maiores empresas venezuelanas, e Carlos Ortega vão à Washington para uma reunião a respeito do presidente Chávez. George Tenet, da CIA, afirma que a Venezuela é importante por ter reservas de petróleo. Carmona e Ortega chamam uma marcha oposicionista em frente à companhia nacional de petróleo, onde é possível ver manifestantes portando bandeiras dos EUA.

Uma marcha pró-Chávez é convocada para o mesmo local. Os grupos se encontram em frente ao palácio presidencial e, enquanto o exército tenta se colocar entre ambos, é possível escutar tiros. Pessoas vão caindo e mais tarde descobre-se que os tiros vieram de franco-atiradores (snipers) de cima de alguns prédios. Pessoas estavam sendo visadas na cabeça. As portas do palácio se abrem para os feridos e alguns apoiadores de Chávez começam a atirar na direção de onde vinham os disparos dos snipers. Assim, uma câmera da Venevision estava posicionada acima da ponte onde os chavistas estavam atirando e capturou uma imagem que dava a entender que disparavam em direção à marcha oposicionista. Repetiram inúmeras vezes a imagem para culpar o chavismo pelo massacre de Caracas. O que as televisões não mostraram é que a direção para onde os chavistas atiravam estava vazia e a marcha oposicionista nunca havia passado por ali. Assim se manipulou o conflito a fim de fortalecer o tal golpe de Estado.

Após alguns discursos da imprensa privada e o pronunciamento dos militares golpistas, aparece a informação de que um regimento rebelde da guarda nacional toma de assalto o canal 8, da TV pública, e impede o governo de se defender publicamente das acusações, uma vez que toda a mídia privada é propriedade da oposição. Chávez e seus ministros veem pela TV que o palácio Miraflores está cercado por tanques de militares rebelados e recebe a ordem de rendição dos golpistas. Estes pedem uma entrega pacífica, sem resistência do governo. Caso contrário, o palácio Miraflores seria bombardeado.

Políticos celebram o golpe agradecendo aos meios de comunicação pelo serviço prestado. E enquanto se destituía oficialmente todo o executivo, o povo se revoltava com a falta de democracia. “Eu votei no Chávez e quero que ele cumpra o mandato”, diz uma senhora. Nesse dia, ficou proibido mostrar chavistas na TV. O povo saiu de foco.

No sábado, aproximadamente 24 horas após o golpe, o povo venezuelano saiu às ruas para pedir a volta de Chávez. Milhões de manifestantes cercaram o palácio presidencial. As tropas do palácio que seguiam leais a Chávez abriram as portas do palácio Miraflores aos manifestantes. Carmona saiu pela porta de trás. O povo comemorou a tomada do palácio. Alguns ministros, escondidos nos últimos dias nas entranhas de Caracas, entram no palácio carregados pelo povo.

Enquanto isso, a mídia privada se recusava a dar a notícia de que o palácio estava de volta nas mãos dos chavistas. Por volta das 3h da manhã do domingo, 14 de abril de 2002, Hugo Chávez volta ao palácio presidencial de helicóptero e declara: “este povo fez história (...) agora, não se deixem mais envenenar por tantas mentiras”.

Para assistir: http://vimeo.com/6626091

sexta-feira, 22 de março de 2013

Muito além do peso

Esse filme é um alerta. Ele mostra que, dentre outras coisas, é muito, muito difícil lutar contra a propaganda que bombardeia as crianças diariamente. As que dizem coisas como "amo muito tudo isso" e imprimem em seus cérebros um valor completamente contrário a qualquer hábito mínimo de saúde. Muitas vezes o comportamento é apoiado por adultos que dizem "ah, deixa, o que é que tem?", prq eles também não percebem o quanto estão dominados pela propaganda subliminar embutida nos comerciais que vendem, na verdade, obesidade, colesterol, diabetes e pressão alta, dentre outros.  Para os que tiverem preguiça em ver o filme inteiro, procurem por trechos no youtube. Há vários. Para mim, são todos chocantes. Eu me sinto, pessoalmente, absolutamente impotente e entristecida e o filme vem nos alertar mas também nos joga na incerteza de que talvez, impedir mesmo toda essa pressão, seja quase impossível.





Entrevista de Estela Renner e Marcos Nisti no "Agora é Tarde" do Danilo Gentilli



segunda-feira, 18 de março de 2013

Chávez: o adeus a uma nêmesis do neoliberalismo

Fonte: RedeCastorPhoto



7/3/2013, Chris NinehamInformation Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Morreu uma das maiores figuras do século 21. Em tempos de universal mediocridade e ortodoxia neoliberal à venda por toda parte, o Presidente Hugo Chávez da Venezuela impôs-se pela personalidade de independência, princípios e coragem. Não apenas falou sobre socialismo e justiça social: tomou medidas para que, em seus vários governos, houvesse meios para melhorar de fato a vida de milhões em seu país, sobretudo dos mais pobres. Foi homem de tal carisma e tão radical, que não seria exagero dizer que produziu governos e movimentos progressistas por toda a região.

Sua presença e sua política de esquerda já eram, elas mesmas, produto de ampla radicalização nos movimentos de base. As políticas neoliberais que Pinochet começou a implantar brutalmente no Chile nos anos 1970s, começaram a ser difundidas para todo o continente, a partir do início dos anos 1980. Na Venezuela, foi o Presidente Carlos Andrés Pérez quem introduziu o programa, gerido pelo FMI, “A Grande Virada”, no final dos anos 1980s. Entre 1981 e 1997, os 10% mais ricos na Venezuela viram sua fatia da renda bruta nacional crescer, de 22 para 33%. Os pobres venezuelanos responderam àquela “virada” com ocupações, protestos de massa e agitação: o “Caracazo”.

Inspirado por esses movimentos, o jovem Hugo Chávez, então jovem oficial do exército venezuelano, lançou uma tentativa de golpe, longamente planejada, em 1992. O golpe tinha apoio popular, mas foi contido pelo governo de Pérez. Ao ser preso, Chávez fez uma de suas típicas declarações de coragem: “Infelizmente”, disse, “não alcançamos, por hora, os objetivos que definimos. Novas possibilidades surgirão, e o país conseguirá andar na direção de futuro melhor”. Instantaneamente, a boina vermelha do uniforme do regimento de paraquedistas que Chávez usava e a expressão “por hora” tornaram-se símbolo de resistência para os pobres do país.

Marcha à esquerda

O golpe falhado desestabilizara o regime. A esquerda cresceu e a classe rica dividiu-se internamente. Chávez saiu da prisão em 1994 e lançou o Movimento 5ª República, que concorreu e venceu as eleições de 1998 e fez dele, filho de professores que sobreviviam com salários de miséria, o símbolo da oposição à austeridade que os EUA haviam conseguido impor ao país: era Presidente da Venezuela. Diferente de tantos líderes progressistas, Chávez moveu-se para a esquerda depois de eleito e empossado.

Um dos pontos cruciais desse processo foi a tentativa de golpe contra seu governo, em 2002. O golpe foi coordenado por generais, líderes religiosos e grandes empresários, com ativo apoio das empresas de imprensa e discretamente apoiado pelos EUA. Chávez foi sequestrado no palácio e levado de lá num helicóptero que decolou da cobertura do próprio prédio. Mas o golpe foi contido pela mobilização espontânea de dezenas de milhares de moradores dosbarrios. Em cenas magnificamente gravadas e reunidas no documentário “Por dentro do golpe” [orig. Inside the Coup (2003), divulgado sob o título A revolução não será televisionada - assista logo abaixo edição legendada em português], a multidão cercou o palácio presidencial onde os líderes do golpe festejavam. À vista daquelas centenas de milhares de pessoas, o clima de festa mudou rapidamente. Houve negociações e Chávez foi trazido de volta ao palácio, no mesmo helicóptero que o sequestrara, para alegria da multidão.

Uma segunda tentativa de golpe aconteceu no final daquele ano, ligada a um movimento de lockout das grandes petroleiras que operavam no país. Dessa vez, um movimento de massa de trabalhadores restabeleceu condições para que o governo, afinal, assumisse o controle sobre o petróleo nacional.

Depois disso, e beneficiando-se dos preços crescentes do petróleo, Chávez lançou vários programas sociais que em muito melhoraram a vida dos pobres da Venezuela. Programas de moradias, de subsídios para alimentação, novos centros médicos e um programa de alfabetização em massa, todos organizados através de “missões” populares, e que tiveram impacto gigantesco na vida de milhões de pessoas. Quase metade da população, em momentos diferentes, por exemplo, passaram a receber subsídios estatais regulares para alimentação.

Chávez tomou, é claro, várias medidas para proteger-se contra golpes e golpistas. Mas o segredo de seu sucesso político nunca dependeu disso. Sempre foi homem de imensa energia. Manteve um programa semanal de televisão, “Alô Presidente”, no qual cantava, lia, contava histórias e falava, literalmente, por horas. Dizer que sabia falar ao povo é subquantificar e subqualificar esse processo. Mas nem por isso Chávez descuidou da atenção sempre ativa que sempre dedicou aos movimentos internacionais.

Conheci Chávez pessoalmente em 2006, como membro de uma delegação internacional de ativistas antiguerra. Típico dele, havia conseguido que Caracas recebesse aquela edição do Fórum Social Mundial, imenso conclave internacional antiglobalização. Falou-nos por quase uma hora, sobre socialismo, a história do movimento sindical nos EUA, as ideias de Chomsky, a questão campesina na América Latina e muito mais.

Entendia como poucos a dinâmica do imperialismo. Reconheceu, com alguma humildade, que a guerra do Iraque e os movimentos antiguerra dentro dos EUA haviam sido fatores determinantes, que de fato impediram que os EUA agissem mais ativa e mais diretamente contra seu governo

Eleito e reeleito

A imprensa o acusa de autoritarismo, provavelmente porque Chávez venceu mais eleições que qualquer outro presidente eleito, no mundo. Foi apoiado, consciente e profundamente por seus eleitores até seu último dia. Em dezembro passado, seu partido venceu as eleições regionais em todos os governoratos, exceto num. Hoje, até os jornalistas mais empenhados em derrotá-lo reconhecem que seu vice-presidente Nicolas Maduro dificilmente será derrotado nas novas eleições marcadas para dentro de 30 dias.

Chávez nunca atuou diretamente contra a elite de direita na Venezuela – nem por isso ela lhe fez oposição menos feroz. Quando nos recebeu, contou que o bem protegido palácio presidencial era o único local satisfatoriamente seguro, onde podia trabalhar. Sua força sempre veio de sua conexão com os pobres e os trabalhadores. Chávez foi presidente posto e mantido no poder por um sentimento popular de solidariedade, que periodicamente emergiu como movimento de massas. A continuação de seu trabalho e a transformação da sociedade venezuelana estão em andamento, longe de estarem concluídos e terão de continuar a ser disputadas. Chávez faz corar de vergonha muitos líderes ditos progressistas em todo o mundo, que se escondem atrás da opinião pública fabricada, para justificar a subserviência aos mercados e à direita reacionária. Provou que suas políticas radicais funcionam e geram votos. Mostrou que é possível – e muito popular – desafiar o império norte-americano.

É homem que será lembrado por muito tempo em cada esquina do mundo dos pobres [assim, portanto, os ricos não conseguirão esquecê-lo].

Comunicado da Vila Vudu: Aqui damos por encerrada a nossa homenagem ao Presidente Hugo Chávez Frías; todos trabalhamos sem parar durante mais de 48 horas, para encontrar e traduzir, distribuir e postar informação séria e pensamento progressista sobre o presidente Chávez. Pequena homenagem, para homem tão grande. Os pobres resistimos e vencemos, simplesmente, cada vez que não nos deixamos matar, nem calar, nem engambelar... Mas uma coisa é certa: em nenhum veículo da dita “grande imprensa” -- a imunda imprensa-empresa brasileira -- alguém encontrou melhores análises, melhor jornalismo e melhores comentários sobre o presidente Chávez, do que aqui, nessa blogosfera de trabalho comunista, voluntário e solidário, onde operamos. Só a luta ensina!

sexta-feira, 15 de março de 2013

Além da fumaça branca

Por Antonio Luiz M. C. Costa
Carta Capital

O argentino Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, reza missa na Capela Sistina nesta quinta-feira 15.
Foto: Osservatore Romano / AFP
Não se culpe só os jornalistas: até os especialistas e os prelados mais próximos do Vaticano ficaram surpresos com a escolha do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio. Ao ter notícias da fumaça branca, Dom Mariano Crociata, presidente da Conferência Episcopal Italiana (ou seja, o equivalente italiano da CNBB) apressou-se a enviar cumprimentos a Angelo Scola, tido como favorito por quase toda a mídia. Uma gafe difícil de esquecer.

É um lembrete de que tentar tirar demasiadas conclusões a respeito do novo papa com base em indícios vagos, antes que ele tome atitudes públicas e explícitas, corre o risco de dar com os burros n’água. Ainda assim, vale tomar nota de alguns pontos interessantes:
Não é Angelo Scola, nem Odilo Scherer – O cardeal de Milão era tido como o favorito de Joseph Ratzinger e da maioria dos cardeais diocesanos (os que atuam fora do Vaticano), enquanto os mais ligados à Cúria (a burocracia vaticana) supostamente preferiam o italiano Gianfranco Ravasi, do Conselho de Cultura do Vaticano (apoiado por Tarcisio Bertone, secretário de Estado de Bento XVI) e o argentino Leonardo Sandri, da congregação das Igrejas Orientais (apoiado por Angelo Sodano, secretário de Estado de João Paulo II). Visto que nenhum dos grupos parecia ter maioria absoluta, o nome do arcebispo de São Paulo era citado como um provável candidato de conciliação entre as correntes (provavelmente no contexto de um acordo para nomear Sandri como Secretário de Estado), por ter uma carreira pastoral no Brasil, mas também ter boas relações com a Cúria. Por que nenhum deles foi eleito?
Foi candidato forte em 2005 – No Conclave de 2005, Bergoglio, apoiado pelo também jesuíta e influente (mas à época, já muito adoentado) cardeal Carlo Maria Martini, foi o mais votado depois de Ratzinger (42 a 10, 65 a 35 e 72 a 40 nas primeiras apurações, segundo Pope Benedict XVI de Thomas Streissguth), antes que ele mesmo pedisse (“quase em lágrimas”, escreveu Marco Tosatti, do jornal La Stampa) a seus partidários para desistirem, permitindo que Ratzinger fosse eleito com 84 dos 115 votos. Representava a insatisfação com a continuidade da linha dura de João Paulo II, com a ascensão de ordens laicas demasiado vinculadas a interesses políticos e econômicos terrenos (Opus Dei, Legionários de Cristo, Comunhão e Libertação, Neocatecumenais e assim por diante) e a vontade de eleger um representante do terceiro mundo, mas pesava contra ele a suspeita de colaboração com a ditadura argentina e a preferência da maioria pelo que parecia ser uma versão mais calma e reservada do papa recém-falecido e apontaria para uma tranquila continuidade.
Pelo visto, a maioria dos cardeais se arrependeu e quis dar uma segunda chance a Bergoglio, que representa uma forma mais tradicional de organização católica (a ordem dos jesuítas). É menos rígido do ponto de vista do clero em questões de dogma, disciplina, forma e ritual – mais “moderado” que Ratzinger no sentido de não incentivar as missas tradicionais em latim ou o uso da batina, e é aberto ao ecumenismo, pois realizou cerimônias conjuntas com evangélicos e abriu a catedral a eventos com judeus e muçulmanos. Mas é igualmente conservador na abordagem da política e da moral laicas (na Argentina, foi o mais feroz opositor do aborto e do casamento homossexual, que denunciou, palavras literais, como “jogada do diabo”).
É idoso e frágil – Eleito aos 76 anos, Bergoglio tem apenas dois anos menos do que Ratzinger em 2005 e é o nono papa mais idoso ao ser eleito em toda a história da Igreja. Além disso perdeu grande parte de um pulmão aos 21 anos (provavelmente um pneumotórax por tuberculose, como ainda se fazia em 1957) o que limita sua atividade física e o torna paciente de alto risco no caso de novo problema pulmonar. Mais recentemente, sofreu de lombalgia e de inflamação aguda do nervo ciático. Por isso, a maioria dos vaticanólogos o descartava: mesmo com um estado geral aparentemente melhor, Ratzinger renunciou por alegadas razões de saúde e supunha-se que os cardeais queriam, desta vez, um papa mais vigoroso e com longa expectativa de vida. Aparentemente os especialistas se enganaram: os cardeais não queriam um papa forte e sim um com o qual possam esperar nova eleição em não muito tempo, para terem a oportunidade de corrigir o rumo, ou por alimentarem ambições próprias. Mais do que possíveis gafes, a omissão como um dos supervisores do Banco do Vaticano ou a ligação com a Opus Dei, pode ter pesado com Dom Odilo seus “meros” 63 anos, que faziam prever uma expectativa de duas décadas de papado.
É um latino-americano de direita – A história segundo a qual Bergoglio delatou e entregou dois companheiros jesuítas à tortura pode ser ou não um mal-entendido, apesar de pelo menos um dos torturados ter morrido, anos depois, convencido da traição do seu superior. Mas é inegável que não criticava a ditadura, sorria ao lado dos ditadores de turno, não ouvia os dissidentes, expurgou qualquer traço da Teologia da Libertação entre os jesuítas argentinos (antes fortemente progressistas) e desencorajou famílias que tentavam recuperar bebês roubados pelos militares. Nisso, acompanhou a Conferência Episcopal, cujos representantes esclareceram à Junta Militar em setembro de 1976: “nós bispos, sabemos que um fracasso (do governo) levaria com muita probabilidade ao marxismo e por isso acompanhamos o atual processo de reorganização do país, encabeçado e organizado pelas Forças Armadas, com compreensão, adesão e aceitação”.
Escreveu Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz: “não considero Jorge Bergoglio cúmplice da ditadura, mas creio que lhe faltou coragem para acompanhar nossa luta pelos direitos humanos”. Quando a Argentina, muito depois, veio a ter um governo de centro-esquerda, o arcebispo tornou-se um opositor ferrenho. Se a escolha de um latino-americano sinaliza interesse especial da Igreja pela América Latina, é no mesmo sentido que a escolha de Karol Wojtyla sinalizou interesse pelo então bloco soviético e com a mesma preocupação, pois hoje este continente concentra as mais dinâmicas experiências de esquerda e de contestação ao imperialismo. Que ninguém se iluda com suas ocasionais críticas ao neoliberalismo, que João Paulo II também fazia: não se trata de progressismo, mas do corporativismo católico conservador de Leão XIII, que fundamentou regimes como os de Francisco Franco e Antonio Salazar.
Escolheu o nome de Francisco – Na Igreja Católica, como em geral nas religiões tradicionais, nenhum símbolo é gratuito. Por que um nome novo e não algum dos mais tradicionais, como esperavam tanto vaticanólogos quanto apostadores (“Leão” era o mais cotado entre estes)? A mídia o associou a Francisco de Assis, lembrado como símbolo de humildade e de amor aos pobres e à natureza e supôs que isso indicaria que Bergoglio faria da simplicidade e do trabalho social o eixo do seu pontificado. Não se pode excluir que exista também essa intenção e em Buenos Aires o novo papa ganhou reputação de ser austero, inimigo do luxo (por andar de metrô em vez de carro oficial) e praticar a caridade (embora esse seja um dever de qualquer membro do clero). Mas o Portal dos Jesuítas do Brasil, que decerto conhece melhor a cultura da sua ordem, garante que “a escolha do nome faz referência a São Francisco de Assis, que fundou a ordem dos Franciscanos, mas principalmente a São Francisco Xavier”.

Francisco Xavier é conhecido como um dos fundadores da Companhia de Jesus ao lado de Ignácio de Loyola e como missionário na Índia, Japão e China. Foi admirado pelos jesuítas como o homem que converteu mais fiéis ao catolicismo desde Paulo de Tarso e odiado pelos não-católicos da Índia como o homem que destruiu estátuas de deuses, incendiou templos hindus e levou a Inquisição a Goa para perseguir não só hindus, judeus e muçulmanos como também os cristãos sincréticos da antiga tradição de São Tomé. Desse ponto de vista, a promessa implícita na escolha do nome é a de se esforçar pela conversão dos infiéis, reconquistar os que se afastaram da Igreja e continuar a perseguir os supostos hereges.
É da natureza da esquerda católica acreditar em milagres. Mas é mais fácil Bergoglio andar sobre as águas ou fazer o proverbial camelo passar pelo fundo de uma agulha do que se revelar um progressista. Não há dúvidas de que é um homem inteligente, politicamente hábil e que como a maioria dos jesuítas, tem uma excelente formação cultural e científica (formou-se em química). No momento em que o Vaticano enfrenta uma série de escândalos sexuais e financeiros e suas disputas internas vazam pelos jornais, escolheu dizer em seu primeiro sermão como papa que o maior risco da Igreja é “se converter numa ONG piedosa” e que “quem não reza ao Senhor, reza ao diabo, já que quando não se proclama Cristo, se proclama a mundanidade do diabo, do demônio”.

quinta-feira, 7 de março de 2013

SEM CHÁVEZ


Fonte: Maria Frô
Por LEANDRO FORTES

Não tenho dúvidas de que a História irá fazer bom juízo de Hugo Chávez, o comandante de uma revolução pacífica e democrática, a desmembrar e expor em praça pública o complexo e cruel pacto de permanência das elites locais. Antes de Chávez, a Venezuela não existia no mapa geopolítico mundial, parecia ser anexo na América do Sul, um país-satélite dos Estados Unidos, a ponto de amar mais o beisebol que o futebol. Uma elite que tinha Miami como um condomínio de luxo, ao qual voltavam às sextas-feiras, depois do trabalho, empresários, políticos, cidadãos.
Minha fé na justiça da História reside não só no argumento da força popular renascida entre a massa, essa palavra endurecida, e um governante mestiço, meio índio, meio nada. Essa “ninguendade”, sobre a qual se debruçou Darcy Ribeiro, a explicar o significado filosófico das misturas étnicas de base lusitana da qual descendemos quase todos nós, brasileiros, assim como do matiz hispânico vem a “nadiedad” de Chávez e da imensa nação de esquecidos que o elegeu e o manteve firme no poder, até que, morto o comandante, se enrolaram na bandeira venezuelana e foram chorar, aos milhões, em todas as cidades do país.
Antes de Chávez, a Venezuela mantinha-se dentro de uma estrutural social paralisante, dentro da qual os privilégios do petróleo, maior riqueza do país, eram distribuídos entre apenas 1% da população. Em pouco mais de uma década, o líder bolivariano tirou, de um universo de 24,6 milhões de pessoas, 5 milhões delas da pobreza absoluta. Universalizou a saúde e a educação, criou mercados subsidiados de alimentos, ensinou política aos pobres, tirou os arreios da Venezuela em relação aos Estados Unidos e, certa vez, na sede da ONU em Nova York, diante das câmaras, disse o seguinte sobre o lugar que George W. Bush havia ocupado antes de sua fala: “Ainda cheira a enxofre”. Tinha cojones, o comandante.
Hugo Chávez fez trocentas eleições livres na Venezuela, todas monitoradas por observadores estrangeiros e, mais ainda, por uma mídia sequiosa de sangue, mas é uma tarefa inútil bater nessa tecla. Fixar a pecha de “ditador” em Chávez foi uma tentativa do Departamento de Estado americano e da mídia em geral para iniciar o processo de demonização do presidente venezuelano. Nem é preciso dizer na nossa triste contribuição nesse processo, dando notícia de como Chávez era perigoso para o mundo livre, branco e cristão. Embora Chávez, o índio, o negro, o zé-ninguém, acreditava em um socialismo baseado nas origens do cristianismo.
Então, tinha que ser “ditador”, mesmo, já que a fé em Cristo impedia que lhe imputassem, também, a pecha de “comunista”.
A reação dos conservadores a Chávez, confesso, me interessava mais do que a figura do presidente, a histeria da direita latino americana, a forma primária como a propaganda contra o presidente venezuelano se disseminava pelo noticiário da mídia brasileira, as opiniões de bonecos de ventríloquos disfarçados de especialistas, o ódio dos liberais contra a erradicação de privilégios.
Chávez combateu a todos, e a todos venceu. Tinha o riso largo dos vencedores, não disfarçava o desprezo pela tibieza de seus adversários, dos que lhe acusavam de ser um tanto caricato em seu uniforme militar. Estes mesmos que, no entanto, eram suficientemente espertos para entender o significado daquela farda. Chávez deu ao Exército de onde veio um novo significado de Pátria, onde estão todos, não somente uns.
Não sou ninguém, nem tenho conhecimento o suficiente, para prever o futuro da Venezuela. Mas uma coisa é certa: ela nunca mais será a mesma, depois de Chávez.

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