"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A horrenda face da OTAN por Stephen Lendman

A horrenda face da OTAN 
29/8/2011, Stephen Lendman, OpEdNews
http://www.opednews.com/articles/1/NATO-s-Ugly-Face-by-Stephen-Lendman-110829-87.html

Imagens não mentem, exceto as falsas imagens que a OTAN produz em Doha, Qatar e, provavelmente, por todo o mundo, e nos estúdios de Hollywood. Durante meses, os assaltantes saqueadores da OTAN e a gangue dos 'rebeldes' assassinos violentaram e violaram a Líbia – mataram, destruíram, saquearam, sob o pretexto de que estariam protegendo alguém.

Dia 22 de agosto, Obama, que já fez por merecer dois indiciamentos por crimes de guerra, descreveu aquelas falsas imagens como "manifestação do anseio básico e feliz por plena liberdade humana".
[1]

Dia 25 de agosto, a secretária de estado Clinton, mais uma que também já fez por merecer indiciamento por crimes de guerra, disse "os eventos na Líbia essa semana comoveram o mundo".
[2]

Por que não vão, eles e seus aliados na mesma conspiração, a Trípoli, Brega, Misrata e outras cidades líbias reduzidas a ruínas, e vêem eles mesmos o que fizeram, com os próprios olhos?

Se fossem, veriam os cadáveres insepultos pelas ruas, o sangue, a agonia no rosto dos sobreviventes, destruição por todos os lados para onde se olhe, miséria humana em escala jamais vista.

Por que não vão a Trípoli, para colher, em primeira mão, os frutos de sua vitória? Ver o que há para ver, sentir o fedor dos mortos, ver, ao vivo, a tragédia cada dia maior que se abateu sobre Trípoli? O que se vê em Trípoli é um devastador desastre humano.

Dia 27 de agosto, o jornal Russia Today noticiava


"falta tudo, em Trípoli, combustível, água, eletricidade, e todo o tipo de produtos hospitalares e de primeiros socorros. A situação em campo aproxima-se perigosamente de vasta catástrofe humana. Trípoli enfrenta grave escassez de água potável, eletricidade, gasolina e remédios (...) Todos os serviços públicos estão paralisados". [3]

Destruição, lixo, cadáveres em decomposição enchem as ruas. Doenças contagiosas e outras logo chegarão como epidemias, não só por causa dos cadáveres mas também por causa de água, terra e ar contaminados.

Que Obama e Clinton comecem a imaginar a fúria e o desejo popular de resistir àqueles horrores e a outros horrores que fatalmente virão.

Eles que comecem a preocupar-se com o que pode vir adiante – resistência crescente, luta, compromisso real e profundo com liberdade humana real, não conformismo ante a servidão que aguarda os líbios sob o jugo dos saqueadores da OTAN.

Contra a ocupação por bancos e banqueiros. Contra o saque dos seus recursos pelo "Big Oil". Contra Washington, Londres e Paris a decidir o que seria "melhor" para a Líbia.

Contra encolher-se em servidão contra esses ocupantes bandidos que contam com destruir a força da vida, do espírito, do desejo dos líbios. Nada, na Líbia ficará impune.

Os líbios não se renderão. Não escolherão a morte. Escolherão lutar contra a ocupação. Escolherão pagar o preço que custe a resistência, porque não resistir é o pior que lhes pode acontecer. Não podem aceitar e não aceitarão.

Durante o dia 27 de agosto, jornalistas independentes permaneceram como prisioneiros virtuais, sem poder sair do Hotel Corinthia em Trípoli, sem poder expedir suas matérias e comentários sobre o que realmente se passava em Trípoli e em outras áreas.

Fizeram muita falta aquelas matérias e comentários. Esperemos que consigam sair de lá e cheguem em segurança às suas casas.

Dia 26 de agosto, o International Action Center publicou em manchete: "Líbia – Continua a resistência contra o avanço de EUA/OTAN". A matéria dizia:


"Apesar da OTAN atacar com força máxima, ataques que dão cobertura a todo o tipo de ação de violência dos bandidos 'rebeldes' em terra, continua "a heroica resistência ao avanço dos imperialistas (...) Toda a imprensa-empresa insiste em repetir que há rendições em massa, que Gaddafi fugiu, que seus filhos estão presos e outras desinformações e mentiras. Na Líbia, com certeza, ninguém duvida que são mentiras, guerra de propaganda e artifícios de guerra psicológica".



Como já se viu acontecer no Iraque e no Afeganistão, declarações de arrogância ("vencemos", "missão cumprida") não porão fim à resistência popular. A luta continuará "de várias formas".

Os líbios já resistiram heroicamente não só a meses de bombardeio, mas, também, à propaganda racista da imprensa-empresa (que apresenta os EUA e a máquina de morte da OTAN como "grandes libertadores brancos"
[4]).

Nesse momento, os líbios enfrentam pilhagem em grande escala. A "responsabilidade de proteger" está convertida em razão para pilhar, enquanto a matança, a destruição, prosseguem.

O que está planejado para a Líbia é "o capitalismo de desastre", como Naomi Klein explicou em "A doutrina do Choque". A democracia do 'livre mercado' é mito. Os neoliberais saqueadores exploram a seu favor as ameaças à segurança, os ataques terroristas, as quebradeiras e falências, todos os desastres naturais e, sobretudo, exploram a seu favor todas as guerras.

O que se deve temer para a Líbia é o fim dos serviços públicos, privatizações gerais, a liberdade com a cabeça sobre o cepo, à espera da lâmina do carrasco. O ocidente espera impor uma versão neoliberal da Líbia, que substituirá a Líbia socialmente responsável da era Gaddafi.

Essa foi a principal razão pela qual Gaddafi foi 'condenado' pelo ocidente. Foi preciso derrubá-lo do governo da Líbia, para que os predadores corporativos pudessem alimentar-se do cadáver da Líbia.

Resultado disso, o ocidente já disputa os despojos. Até que definam o alvo seguinte, e o outro, e o outro, até que toda a África, todo o Oriente Médio, toda a Ásia Central sejam, afinal colonizadas, seja como for, ocupadas de um modo ou de outros, e, claro, saqueadas.

Para Washington, a pilhagem parasitária é definição triunfalista do livre mercado, incluindo sempre a privatização ensandecida de empresas públicas, nenhuma regulação, cortes de impostos para os ricos e de salários para os pobres, exploração desenfreada, geração incansável de miséria, cada vez maior; e controle militarizado sobre os explorados.

É o que Bilderberg quis dizer ao falar de "sociedade global sem classes" – uma nova ordem mundial onde só haveria senhores armados e servos. Nada de classe média, nada de sindicatos, nada de democracia, nenhuma igualdade e nenhuma justiça, só oligarcas armados, autorizados a fazer o que bem entendam, protegidos por leis que os beneficiam e acobertam.

Está bem claro no livro de Milton Friedman, de 1962, Capitalismo e liberdade. Lá se lê:


"só uma crise – real ou pressuposta – produz mudança verdadeira. Quando ocorre uma crise, as ações a tomar dependem das ideias que haja à volta. Nossa função básica é desenvolver alternativas às políticas existentes (e nos preparar para suspendê-las) quando o impossível passar a ser politicamente inevitável."


Para Friedman, as únicas funções do governo seriam "proteger nossa liberdade do assalto de inimigos externos e de outros cidadãos; preservar a lei e a ordem, para garantir que contratos privados sejam cumpridos; preservar a propriedade privada; e promover a competição nos mercados."

Tudo em mãos públicas é socialismo, ideologia, para Friedman, blasfema. Dizia que os mercados funcionam melhor quando funcionam sem regras, regulações, impostos, barreiras protecionistas, "interesses entrincheirados", interferência humana. De tal modo que o melhor governo seria, na prática, o nenhum governo.

Em outras palavras, o business faria melhor, tudo o que qualquer governo faça. Ideias sobre democracia, justiça social e sociedade cuidada ou protegida, dizia Friedman, seria tabu, porque interfeririam no capitalismo solto ladeira abaixo, na banguela.

Disse que a saúde pública deveria ser posta em mãos privadas, a acumulação de lucros, ilimitada, abolidos todos os impostos cobrados de todas as empresas, e os serviços sociais reduzidos, ou completamente abolidos. Acreditava que "a liberdade econômica é um fim em si mesma e meio indispensável para que se chegue a liberdade política".

Em relação à Líbia, nem a liberdade econômica nem a liberdade política são sequer pensáveis, a menos que a resistência popular impeça que prossiga o saque e retome, dos saqueadores ocidentais e seus aliados, o que já saquearam e venham a saquear. Sem resistência, nada restará aos líbios além da servidão.

Essa dura realidade tem de ser mudada, é preciso resistir, não importa o que custe ou quanto tempo dure a resistência. Temos de esperar que os líbios estejam à altura do sacrifício e da luta que se exige deles. Que se alimentem da fúria contra a planejada ocupação pela OTAN e o saque em andamento. Desistir é via que não poderão sequer considerar.

A resistência bem pode ser o coringa contra o qual Washington espera não ser obrigado a disputar. Em outro artigo, escrevi "Líbia: Manter viva a chama da liberdade" [5]. Em outro, "Nada acaba antes de terminar".
[6]

Lembremos os versos de John Lennon, "Imagine nada por que matar ou morrer. Viver a vida em paz. Esperar que um dia o mundo viva como um só mundo."
[7] É preciso tentar.

É preciso tempo para alcançar coisas importantes. O impossível demora um pouco mais.

O primeiro passo é detonar a visão de Friedman do que seria o melhor dos mundos, a OTAN, Washington ocupada pelas grandes corporações.

Conseguindo isso, teremos dado um primeiro passo para ajudar a libertar os líbios e, talvez, mais gente, em outros pontos do mundo, lutando pelo mundo em que todos merecem viver. Não é difícil. Está aí fora, à espera de que nos decidamos a ir buscá-lo.






[1] 22/8/2011, "Discurso do presidente sobre a Líbia", em http://m.whitehouse.gov/the-press-office/2011/08/22/statement-president-libya (em inglês).
[2] 25/8/2011, "Declaração da secretária de Estado sobre a Líbia", em http://bangkok.usembassy.gov/082511_secstate_statement.html (em inglês).
[3] 27/8/2011, "Libya: on brink of humanitarian disaster", em http://rt.com/news/libya-humanitarian-disaster-un-311/ (em inglês)
[4] 29/8/2011, em Global Research, em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=26231 (em inglês).
[6] "It Ain't Over Till It's Over"; é título de uma canção de Leni Kravitz (vídeo e letra em http://letras.terra.com.br/lenny-kravitz/21863/). O artigo (24/8/2011) está em http://sjlendman.blogspot.com/2011/08/libya-war-it-aint-over-till-its-over.html (em inglês).   

Leonor na Líbia


Estou acrescentando aqui um link permanente para o blog da Leonor, jornalista que vive na Líbia desde 2008 e escrevia sobre o país até que foi surpreendida pela guerra.

sábado, 27 de agosto de 2011

R2P: de 'responsabilidade de proteger' a 'razão para pilhar"

R2Ps: De "Responsabilidade de Proteger" a "Razão para Pilhar"
27/8/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/MH27Ak03.html 

A tarefa-carga do homem branco[1] não prevê perguntar aos africanos o que pensam do massacre ocidental/monárquico em curso contra os árabes nas praias do norte do continente. Mas alguns, pelo menos, decidiram pôr fim à enrolação.

Mais de 200 líderes e intelectuais africanos distribuíram carta aberta em Johannesburg, África do Sul, chamando a atenção para o "uso distorcido do Conselho de Segurança da ONU para a prática da diplomacia militarizada, com o objetivo de derrubar o governo na Líbia" e para "marginalizar a União Africana".

Quanto aos 'vencedores' ocidentais na Líbia, já nem tentam disfarçar. Richard Haass, presidente daquele almanaque de Gotha do establishment dos EUA que é o Conselho de Relações Exteriores, assina coluna no Financial Times na qual diz claramente que "a intervenção humanitária introduzida para salvar vidas que se acreditava que estivessem ameaçadas foi, de fato, intervenção política para derrubar o governo".
[2]

Quanto à chusma de atores locais – líbios da Cirenaica – Haass já os despachou para a lata do lixo da história: "Os líbios não conseguirão administrar a situação e emergir por conta própria" e, com "dois milhões de barris de petróleo por dia" em jogo, a única solução é uma "força internacional". Tradução: exército de ocupação – como no Afeganistão e no Iraque. Bem-vindos ao neocolonialismo 2.0.

A hora da vingança

Por tudo isso, o establishment norte-americano já está tão atrevido quanto a direita rica cabeça de noz da variedade Donald "aquela coisa no cocuruto" Trump. Trump disse à Fox News: "Nós somos a OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte]. Nós apoiamos a OTAN com dinheiro e armas. E ganhamos o quê? Por que não ficaríamos com o petróleo?"

Em termos de Dia da Marmota geopolítico, é de fato o Afeganistão e o Iraque, tudo outra vez – uma orgia de saques, destruição de estátuas, segmentos de reality show televisivo para não deixar ninguém descolar o olho das telinhas, até faixas de uma torcida pró-OTAN (mais ou menos como os americanos agradeceriam aos chineses que bombardeassem New York City até reduzi-la a ruínas, para 'libertá-la').

E nem se fala da imbecilidade da grande mídia-empresa. A CNN deslocou Trípoli para o leste – para o Mediterrâneo leste, em algum ponto perto do Líbano. A BBC mostrou uma festa 'rebelde' numa praça Verde em Trípoli localizada na Índia, com bandeiras da Índia. Homenagem e prova da total integração entre a OTAN e a mídia do CCG, Conselho de Cooperação do Golfo, também conhecido como Clube Contrarrevolucionário do Golfo – as seis ricas satrapias fundamentalistas da região.

Considerando que o CCG virtualmente ordena à Liga Árabe o que fazer, não surpreende que a Liga já tenha reconhecido o sinistro Conselho Nacional de Transição 'rebelde' como governo legítimo, embora só represente a Cirenaica e apesar de o Grande Gaddafi
[3] continuar vivo (embora com a cabeça a prêmio: 1,6 milhão de dólares). Digamos que é o troco da Liga Árabe, por Gaddafi ter chamado o rei saudita Abdullah de "estúpido", nas preliminares para a guerra do Iraque.

Também é como se a Líbia agora fosse um emirado árabe em construção, sem nada ter a ver com a África. O CCG financiou e armou os 'rebeldes'. A União Africana era quase unanimemente contra a guerra OTAN/CCG. Ergo, no que dependa de OTAN/CCG, a África que se dane; a única coisa que realmente importa – estrategicamente – é meter uma base militar/naval do Africon/OTAN na Líbia.

E lá nos vamos, para outra Zona Verde

Já não é segredo para ninguém que agentes dos serviços secreto britânico, francês, da CIA, do Qatar e mercenários de todos os tipos choveram (de paraquedas) sobre território líbio como força de invasão, há meses, planejando e treinando 'rebeldes' e em estreita coordenação com a OTAN, essa entidade prodígio da filantropia universal.

Nunca se tratou de mandado da ONU, mas... quem liga?! OTAN/CCG pagam as contas, a OTAN cuida do bombardeio e OTAN/CCG "estabilizarão" a confusão toda, como se lê em plano de 70 páginas vazado pelo Times de Londres e de Rupert Murdoch. [4]

Só tolos acreditarão na notícia-boato previsível de que o plano teria sido elaborado pelo Conselho Nacional de Transição com "ajuda ocidental". A OTAN não se atreverá – não, pelo menos, no começo – a pôr os pés em terra; daí a proposta de "uma força-tarefa de 10.000-15.000 soldados em Trípoli", a ser fornecida pelos Emirados Árabes Unidos, que, mais dia menos dia, lá estará. A pergunta mais eletrizante é: na folha de pagamento dos Emirados Árabes Unidos haverá mercenários estrangeiros (jordanianos, sul-africanos, colombianos) treinados pela Blackwater, ou mercenários tribais?

E – adivinhem o quê! – uma Zona Verde remix, como no Iraque, próxima da praça Verde. São notícias quase tão deliciosas quanto o embaixador do Conselho Nacional de Transição nos Emirados Árabes Unidos, Aref Ali Nayed, a desmentir compungido o plano vazado, no mesmo momento em que Benghazi confirmava a coisa toda.

Todos já sabem também que a rendosa reconstrução de tudo que a OTAN destruiu beneficiará – e quem poderia ser?! – os 'vencedores': os países da OTAN/CCG.
[5] O líder do Conselho Nacional de Transição Mustafa Abdel Jail já confirmou, em Benghazi.

Devem-se esperar ruidosas comemorações locais – e globais –, no que tenha a ver com pôr a mão no butim. Sem considerar a riqueza (ainda inexplorada) em gás e petróleo, a Líbia tem mais de 150 bilhões de dólares em bancos estrangeiros. E o Banco Central da Líbia – agora em vias de ser privatizado – guarda nada menos que 143,8 toneladas de ouro. Há também por lá água doce suficiente para um milênio, que Gaddafi começava a tornar acessível via o espetacular multibilionário Projeto "Grande Rio Feito pelo Homem" [orig. Great Man-Made River (GMR) project].

Aí está também mais uma sólida resposta à pergunta sobre por que a França decidiu, tão freneticamente, derrubar Gaddafi: as maiores empresas mundiais de exploração de água são francesas; e a possibilidade de privatizar suprimento de água doce a ser comercializado por mil anos deixou os executivos daquelas empresas, digamos... babando.

Por tudo isso, como vasto novo mercado potencialmente muito lucrativo para empresas europeias, e bem ali, na outra margem do Mediterrâneo, a Líbia é artigo de primeira, o que dá novo significado à doutrina do imperialismo humanitário e sua "responsabilidade de proteger" [orig. R2P ("responsibility to protect")], que passa a significar "direito de pilhar" [orig. R2P ("right 2 plunder")] – como escreveu um leitor de Asia Times Online.

O primeiro-ministro italiano Silvio "bunga bunga" Berlusconi foi gentil: encontrou-se em Milão com o primeiro-ministro do Conselho Nacional de Transição, bem à frente da nova bandeira da Líbia (de fato, é a velha bandeira monárquica do rei Idris), posta ao lado das bandeiras da Itália e da União Europeia.

E dizer que há apenas um ano, Silvio B. oferecia fantástica festa ao seu camaradinha cujas mãos adorava beijar –, precisamente nosso Grande G. –, com desfile de 30 beduínos montando cavalos puros-sangues importados.

Em 2008, Silvio B. e o Grande Gaddafi assinaram tratado para enterrar a infeliz era colonial (1911-1942), pelo qual a Itália gastaria $5 bilhões ao longo de 25 anos em investimento na infraestrutura da Líbia – estradas e ferrovias; graças a esse tratado, 180 empresas italianas conseguiram contratos fabulosos na Líbia, e a Itália passou a ser  principal parceira comercial da Líbia.

Por isso, o líder do Conselho Nacional de Transição Mustafa Abdel Jalil estava obrigado a confirmar para Berlusconi que a nova Líbia manterá "relações especiais" com todos os "vencedores" da guerra de OTAN/CCG contra a Líbia; e destacou a Itália.

Semana que vem, será a vez do Xeique Abdullah bin Zayed, ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, que visitará Benghazi para passar a mão em fatia bem gorda do bolo da reconstrução. Depois do estouro da bolha imobiliária, os Emirados Árabes Unidos pululam de empresários prontos a saltar sobre qualquer oportunidade.

E quanto ao mapa do caminho

Mas e se o Grande Gaddafi tiver carregado seu ouro? O ex-presidente do Banco Central da Líbia garante que, em Trípoli, estão fisicamente guardadas reservas equivalentes a nada menos que $10 bilhões em ouro.

Assim, enquanto os britânicos do serviço secreto metidos em trajes civis árabes e brandindo Kalashnikovs idênticas às dos 'rebeldes' procuram Gaddafi "vivo ou morto", ao estilo texano de George W Bush, o Grande Gaddafi pode bem estar comprando aliados tribais e pagando, literalmente, em ouro. Para não dizer que já conta com o apoio da tribo Gaddafi (habilíssimos caçadores noturnos), da tribo al-Magarha (atiradores de primeiríssima) e de quase toda a tribo da esposa de Gaddafi, os Warfallah (a maior do país, com mais de 2 milhões de pessoas).

Dado que o Conselho Nacional de Transição anda dizendo por todos os cantos que a Líbia pós-Gaddafi será pluralista e multicultural, já se veem sinais claros de que já começaram a construir mais uma Areia Movediça City.

Os árabes do norte absolutamente desprezam os berberes do sul – e vice-versa. A gente da Tripolitania absolutamente despreza os salafitas da Cyrenaica – e vice-versa.

Com tanta coisa em jogo, é fácil visualizar um mapa do caminho que será, com pequenas variações, o seguinte:

– Um governo do Conselho Nacional de Transição muito fraco, governo-fantoche; as tropas da doutrina do neoliberalismo de desastre distanciar-se-ão cada vez mais dos líbios habituados a 40 anos de ensino gratuito, atendimento gratuito à saúde e moradia gratuita; logo se organizará movimento de guerrilha contra a ocupação estrangeira; salafitas-jihadistas de outras latitudes árabes acorreram para a Líbia; cidades do deserto facilmente se tornarão bases de grupos guerrilheiros; os oleodutos do sudeste do país serão atacados; será réplica de Bagdá, de 2004 a 2007; haverá uma 'avançada' [surge] em cenário de guerra civil/tribal sem fim; e lá estará o Afeganistão 2.0, como frente-gêmea guerrilheira – o grupo de Gaddafi contra os 'rebeldes'/OTAN, e os salafitas contra a OTAN, porque o ocidente nunca admitirá que a Líbia converta-se em estado islâmico.

Gaddafi, hoje, aposta que os espiões e mercenários de OTAN/CCG converterão a Líbia em novo Iraque/Afeganistão. (É bem possível, aliás, que a OTAN adore a ideia.) Com isso, forçarão Gaddafi a entrincheirar-se mais fundo no norte da África. Voltarão as mesmas velhas táticas imperiais de dividir-para-reinar, enquanto as empresas ocidentais exercerão seus direitos de saquear.

Simultaneamente darão nova vida, numa espécie de trama secundária, à "guerra ao terror", enquanto a recessão devora o que resta das respectivas economias nacionais. Mas o complexo industrial-militar e empresários do ramo de armas/segurança continuarão felizes da vida. Iraque/Afeganistão, tudo outra vez? Vamos ver quem pode mais.
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[1] White man's burden é poema de Rudyard Kipling, de 1899, um apelo para que os EUA assumam a tarefa de promover o desenvolvimento das Filipinas que acabavam de ser derrotadas na Guerra hispano-americana; é considerado o 'hino' do imperialismo britânico (pode ser lido em http://public.wsu.edu/~wldciv/world_civ_reader/world_civ_reader_2/kipling.html) [NTs].

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Quando Jô Soares ainda tinha coragem para fazer críticas à Rede Globo

Do BLOG DA DILMA:

JÔ SOARES LÊ ARTIGO COM CRÍTICAS À REDE GLOBO! (vídeo de 1987)




Update: Alguns leitores do blog nos avisaram que o link para compartilhamento aparece bloqueado. Também notei que o vídeo aparece incompleto aqui no post. Recomendo que acessem o link original no Uol, para ver a leitura completa da carta do Jô. Vale muito a pena.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Jornalista destaca o valor da cobertura latinoamericana na guerra da Líbia

A entrevista pode ser ouvida em espanhol na página da TeleSur. Seguem alguns trechos:

A jornalista argentina Stella Calloni, destacou nesta quarta-feira o trabalho que os jornalistas latino-americanos presentes na Líbia vem fazendo, afetados pelos ataques da OTAN, abrangendo também o "terrorismo midiático" praticado pela imprensa internacional que "somente têm um lado calando as vozes do outro lado".

"Não fosse pela Telesur e Prensa Latina, teríamos uma informação falsificada pelos outros meios de comunicação", disse Calloni.

O papel da imprensa internacional tem sido o de terrorismo, uma mídia sinistra que só fala de um lado e cala as outras vozes(...) Daí a importância da mídia da América Latina, que têm procurado transmitir a verdade", disse ela.

"Há ainda um trabalho a ser feito para mostrar ao mundo o que foi esta invasão", disse a repórter Argentina.

"A imprensa que mente para ajudar a guerra é parte dessa guerra, não podem ser separados", disse ela e acrescentou que deve-se "considerar que as informações também estão sendo usadas como armas de guerra".

Calloni disse que "cada morte precisa despertar a consciência dessas pessoas."

"Eles têm utilizado armas com urânio empobrecido na Líbia (...) Nós (jornalistas) precisamos ter consciência da grande força que há nesta situação", disse ela.

Rebeldes vieram depois dos bombardeios da OTAN

A jornalista argentina disse que os rebeldes entraram na Líbia, em Trípoli, após intensos bombardeios da OTAN.

"Os rebeldes não tomariam nada sem esse bombardeio, já são mais de sete mil (bombardeios) da OTAN reconhecidos pelos Estados Unidos (EUA)", disse.

"Esta é uma invasão que não pode ser atribuída aos rebeldes. Onde a OTAN bombardeou, os rebeldes entraram (...) Temos que começar a ser sérios e de maneira informativa chamar as coisas pelo seu nome", disse a jornalista.

Os bombardeios "deixam lesões que as crianças nunca irão esquecer." Apesar dos esforços de paz "por todos os lados, não houve nenhuma consideração (da OTAN), porque apenas queriam se apoderar da Líbia e a estão tomando", denunciou Stella Calloni.

Caminha a Líbia para uma batalha final?

Delegação brasileira em fotografia tirada ANTES da viagem: Miguel Mello (cinegrafista), Alzimara Bacellar (Confederação de Mulheres), Deputado Brizola Neto, Deputado Protógenes Queiroz, jornalista e escritor Robinson Pereira, jornalista Mário Jakobskind (representando a ABI), o advogado Felipe Boni de Castro, a jornalista Juliana Medeiros e o repórter fotográfico Sérgio Alberto




Na última segunda-feira a OTAN iniciou uma pesada intensificação dos ataques diários à Líbia, país que vem sofrendo uma guerra civil interna com o apoio massivo de aviões da coalizão estrangeira em uma situação jamais vista na história humana, até agora.

Depois de definitivamente ter sido colocada no mapa pela mídia internacional, mas não exatamente pelo reconhecimento obtido na ONU em 2007 como o maior IDH do continente africano, a Líbia parece caminhar para uma batalha final.

No entanto, algumas perguntas são necessárias: com a maior parte da população armada até os dentes, um povo que gostaria de se libertar de “mais de 40 anos de ditadura” estaria resistindo por quase seis meses? Ou é factível que um exército de um país de pouco mais de 6 milhões de habitantes (equivalente à população do Rio de Janeiro), poderia resistir sozinho à artilharia aérea de pelo menos 5 países aliados da OTAN?

Para os membros da delegação brasileira que estiveram próximos à fronteira do país e foram impedidos de atravessarem a rodovia que liga a Tunísia à Líbia, em função dos ataques, foi fácil perceber que os grupos opositores já teriam encerrado os conflitos não fosse o apoio da OTAN – que inclui o fornecimento de armas pesadas aos rebeldes – e as sucessivas transferências de valores dos EUA para o banco do CNT – Conselho Nacional de Transição. Conselho que não representa a unidade dos opositores, notadamente pelo brutal assassinato do comandante militar rebelde causada por seus próprios comparsas.

O bombardeio que destruiu a única via de acesso – para entrar ou sair do país – utilizada pela imprensa, médicos, transporte de alimentos, combustível e demais itens de abastecimento, iniciaram a estratégia de levar a Líbia ao isolamento, através do aumento da pressão em direção à capital Trípoli.

O derramamento de sangue ocorre agora com a chancela da ONU e a campanha midiática internacional, que tenta confundir a opinião pública – com seus correspondentes baseados em Israel e imagens da "festa" em Benghazi sendo reportadas como se fossem em Trípoli – associando o que acontece na Líbia com o ocorrido na Tunísia ou Egito, para que os espectadores acreditem de que se trata unicamente de uma guerra contra um “ditador que está há 40 anos no poder”.  Mas o que acontece na Líbia não passa por aí.

Não há um movimento popular que esteja em busca de melhores condições sociais no país que tem a maior renda per capita da África, em torno de 16.000 dólares e a ausência total de impostos. O que há é uma estratégia com detalhes de bastidores ainda não totalmente esclarecidos, mas que envolve com certeza, a promessa negociada com países interessados na exploração das riquezas líbias sem a interferência de Gaddafi, que exigia contratos com cláusulas bem menos interessantes para países acostumados a levarem vantagem nesse tipo de negociação comercial internacional.

Ainda que haja entre os rebeldes grupos legítimos que apóiem a mudança no país, é evidente agora que estes que avançam no deserto e para outras cidades além de Trípoli já não se comunicam com o que seria um manifesto do povo pela liberdade, seja ela de qualquer espécie. A começar pelo fato de que compõem a massa de opositores, presidiários de todos os tipos libertados de cadeias que foram abertas pelos rebeldes, mercenários de vários lugares do mundo e soldados do Qatar que se juntaram por terra à eles, vestidos como civis.

O ataque coordenado que busca tomar a capital iniciou-se de forma orquestrada entre a OTAN e grupos que chegaram a Trípoli rapidamente em dois aviões emprestados pelas forças estrangeiras, vindos de Benghazi. Outros vieram com destacamentos de soldados Qatarianos pelo mar, em três barcos que aportaram no litoral de Trípoli - vigiado há meses por porta-aviões americanos. E o mais espantoso, aproveitaram o momento da oração que quebra o jejum no final do dia, como acontece durante todo o mês de Ramadan, pegando a população desprevenida.

O presidente Barack Obama, em plena campanha para 2012, certamente estava em vias de arranjar uma saída rápida para a guerra, ainda que fosse silenciar sobre a morte de mais de 1300 civis em 12 horas de combate. A via diplomática (e mais improvável) chegou a ser sinalizada por uma ligação há alguns dias do presidente americano para o russo Mededev. Alguns analistas chegaram a acreditar que uma retirada seria eminente. No entanto, para um país que não conseguiu se retirar de um Iraque devastado após mais de 6 anos de ocupação, seria ingenuidade admitir essa possibilidade.

Outra notícia, a mais absurda do ponto de vista humanitário, foi a de que uma entidade de direitos humanos com o apoio da ONU iniciou a retirada de todos os estrangeiros da Líbia nos últimos dias, para que o genocídio programado não se transformasse em um incidente diplomático ainda maior.

Alguns veículos já anunciam a queda de Muammar Gaddafi ou sua rendição ou ainda sua fuga  do país com a família. Porém, o mais provável é que ele encare de frente, com seus aliados, a sangrenta batalha e somente saia da Líbia se o matarem. Morte que agora parece próxima com o anúncio do CNT e OTAN de uma recompensa (!) para quem realizar o feito, em outra inédita manifestação de abuso das prerrogativas do direito internacional em situações de guerra, com a complacência da ONU.

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A repórter Juliana Medeiros viajou à Líbia acompanhando a delegação brasileira.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Pronunciamento de Inácio Arruda sobre a Líbia

23/08/2011 - 22h55

Inácio Arruda defende posição brasileira em relação à Líbia Esta matéria contém recursos multimídia

[senador Inácio Arruda (PCdoB-CE)]



Em pronunciamento nesta terça-feira (23), o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) questionou a participação da Otan na disputa pelo poder na Líbia e fez um alerta quanto à adesão ao que chamou de "discurso fácil" contra Muamar Kadafi. Ressaltando que não estava defendendo o ditador líbio, o senador disse ser necessário um contraponto ao "senso comum", com destaque para a posição do Brasil em relação aos acontecimentos.
- Não vejo um movimento do Conselho de Segurança das Nações Unidas pedindo um bombardeio da Otan na Arábia Saudita. Não vejo um movimento mais ardoroso pedindo o fim da monarquia inglesa ou das outras monarquias que há por aí, por tanto tempo existindo uma coisa ultrapassada, conservadora, feudal, que se mantém mundo afora, do imperador japonês - exemplificou.
Segundo Inácio Arruda, a ação dos rebeldes líbios é mostrada como "um movimento avançado e progressista", o que não seria verdade. Ele também defendeu a cautela do governo brasileiro em reconhecer uma liderança revolucionária na Líbia.
- O Brasil não é um país oportunista, principalmente quando está na democracia, é o contrário. Na democracia, temos que ter mais coragem de examinar claramente os interesses brasileiros. Alguns questionaram que o Brasil estava discutindo com a China, com a Rússia, com a África do Sul uma opinião mais conjunta. Claro, é isso mesmo, o Brasil tem que discutir é com esses parceiros mesmos, ouve a todos, mas discute com parceiros, que tem interesses mais em comum - argumentou.

Jornalismo de guerrilha


Ontem os jornais deram que Saif, filho de Gaddafi, estava preso e que o próprio Gaddaffi fora capturado. Logo em seguida, Saif aparece em carro aberto dando entrevistas para a TV cercado por apoiadores.

Parabéns à guerra da desinformação que fica enfraquecida e descredenciada a cada dia que passa. Hoje Obama declarou que legitima o grupo de rebeldes que toma o poder na Líbia, já prevendo acordos de fornecimento de Petróleo, e a promessa de liberação dos fundos de investimentos Líbios nos bancos estrangeiros.

Viva a democracia imperialista. Estes "rebeldes" são mercenários de todo o continente Africano, armados e apoiados pelas forças da OTAN para causar a desordem e a fim de enfraquecer o regime vigente. E os ditos protetores da humanidade tem toda credibilidade em ditar as regras, já que também detém o título de único país a lançar a bomba atômica e é hoje a maior potência econômico-bélica mundial.

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Sérgio Alberto é jornalista e repórter fotográfico e viajou à Líbia acompanhando a delegação brasileira.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Comunicação:uma semana, duas derrotas da desregulamentação

Na semana passada, a luta pela regulamentação democrática da comunicação  e por sua regulamentação, sofreu duas derrotas gravíssimas: na Câmara, o projeto que flexibiliza, sem fiscalização, portanto, desregulamenta,  a veiculação da Voz do Brasil, foi aprovado sob monitoramento da ABERT, e , no Senado, aprovou-se o projeto 116 que transfere o oligopólio da TV paga no Brasil , até agora supostamente sob domínio de grupos nacionais,  para o controle do capital estrangeiro que domina as empresas de telecomunicações. Ambos com aplausos da esquerda!

No primeiro caso, o problema da veiculação do programa Voz do Brasil em horários inadequados para os estados amazônicos com fuso horário poderia ter sido perfeitamente  resolvido com uma medida administrativa no âmbito da  EBC. Uma portaria, uma orientação, que determinasse a gravação do programa para sua exibição às 19 horas, de acordo com o fuso horário local. Ou seja, não era necessário punir a esmagadora maioria do público ouvinte para atender uma necessidade do público minoritário amazônico, situação que poderia ter sido contornada sem a necessidade de lei que ameaça concretamente o futuro da Voz do Brasil.
O verdadeiro objetivo do projeto
Fica evidente, assim,  que este não era o objetivo do projeto de lei, mas sim o de atender aos vorazes apetites dos conglomerados de comunicação privados sedentos por uma hora a mais de baixaria radiofônica e pouco jornalismo, pois, como é sabido, a imensa maioria das emissoras de rádio não cumpre a exigência legal para um mínimo de programação noticiosa, sequer contratam jornalistas para tal.
Pois agora, se o projeto vier a ser aprovado como está, o horário das 19 às 20 horas será ocupado pela programação comercial, consumista e alienante das emissoras ligadas à ABERT, que monitorou atentamente a aprovação do projeto até agora, inclusive na sua forma à jato no ano de 2010, em ano eleitoral, com o Congresso esvaziado e sem audiências públicas. O resultado pode ser o pior: um programa de rádio que pesquisas qualificadas atestam ser considerado de boa qualidade pelo público, que também manifestou-se esmagadoramente a favor da manutenção do seu horário, poderá vir a ser extinto.  


Com isto, milhões de brasileiros deixarão de ter no horário de costume informações relevantes sobre as decisões do Executivo, do Judiciário e do Legislativo veiculadas pelo mais antigo programa de rádio do mundo e que é, na verdade, a única forma de se ter acesso a informações sobre os poderes públicos, já que jornais e revistas não chegam aos grotões, nem do campo ou da cidade, nem mesmo ao grande público.  Quem vai fiscalizar se 6 mil emissoras veicularão a Voz do Brasil?  Para a autora do projeto isto não é problema dela, mas do governo. Ela é da base aliada. 
Desconhecimento? 
Mais, desconhecendo a realidade radiofônica brasileira, a autora afirmou que as rádios educativas continuarão a veicular o programa, o que significa jogar o programa no ostracismo, pois estas emissoras são rarefeitas, não alcançam nacionalmente nem 5 por cento da audiência, estão desmanteladas, sem potência e são numericamente  pouco expressivas. O programa passaria a ser inaudível! Já em seu  horário atual e em cadeia nacional, a Voz do Brasil alcança, em horário adequado, milhões de brasileiros que não possuem outra forma alternativa de informação e sem as distorções conhecidas na mídia comercial. Na semana que passou, por exemplo, foi o programa que melhor e mais amplamente cobriu a Marcha das Margaridas e a presença da presidenta Dilma no evento, informando sobre uma pauta relevantíssima das famílias trabalhadoras com campo junto ao executivo, sendo que o enfoque do rádio comercial, sobre o mesmo episódio, centrou-se exageradamente apenas na substituição do ministro da área. Ora, um ministro passa, mas as 70 mil trabalhadoras do campo, que vieram até Brasília com sua  dignidade, seus direitos e suas conquistas,  ficam e devem ser atendidas, crescentemente,  pelas políticas públicas. E a sociedade tem o direito ser informada adequadamente sobre esta expansão de direitos sociais. Isto foi feito pela Voz do Brasil, no episódio. Sem ele, como a esmagadora maioria das milhares  de emissoras ofereceriam esta informação  aos seus ouvintes? 
Desregulamentação 
No caso da TV paga o projeto aprovado, desobriga, desregulamenta, portanto, a veiculação pelas operadoras dos Canais Básicos de Utilização Gratuita, como as TVs Senado e Câmara, TVs Comunitárias, Universitárias e Educativas, que era exatamente o principal aspecto defensável da Lei do Cabo, que também abriu o setor, até 49%, para o capital estrangeiro. Agora, há não somente a entrega de 100% deste setor de tv para o capital estrangeiro, dominado por oligopólios, com a ridícula obrigação de exibir apenas  30 minutos/dia de produção nacional, como se o audiovisual brasileiro não tivesse, historicamente,  sido capaz de ter uma Embrafilme, de produzir um Pagador de Promessas e tanto talento admirado mundialmente. Muito mais grave: o projeto foi apoiado pela esquerda que confunde oligopolização com incentivo à concorrência, quando uma coisa é exatamente a anulação da outra, como sabemos. 
Esquerda esquizofrênica?
O mais grave das duas derrotas está no fato de que podem ser traduzidas em duas investidas contrárias à regulamentação que, ultimamente, tem sido palavra de ordem não apenas nacional, mas internacional do movimento pela democratização da comunicação. Assim, ao invés de lutar para preservar, qualificar e aperfeiçoar o espaço público regulamentado há mais de 7 décadas pelo Voz do Brasil  -  o que é perfeitamente possível, sobretudo com a introdução de novas tecnologias de informação e considerando que o programa é feito ao vivo  -  a esquerda prefere, esquizofrenicamente, apoiar uma flexibilização, na verdade,  uma desregulamentação que coloca em risco a existência  do informativo.  Ao contrário, não apenas a esquerda, mas todos os setores sociais indignados com a precariedade e a vulgaridade de um jornalismo distorcido e assumidamente de pensamento único  - contrariando a Constituição   -   ao invés de apoiar esta tese tão preciosa para os magnatas de mídia, deveria ,isto sim, lutar para que a Voz do Brasil tivesse sucursais em todo o país, contratasse muito mais equipes de reportagens, tornando-se verdadeiramente nacional e ainda mais permeável à relação das políticas estatais e públicas com  a sociedade, num jornalismo imbuído da ética da missão pública, o que inexiste, salvo exceções, no jornalismo empresarial.
Enquanto se buscam formas para evitar o pior -  um projeto ainda não foi sancionado e o outro ainda vai ao plenãrio da Câmara  -  ficamos todos com a difícil tarefa de decifrar o enigma de uma esquerda que prega a regulamentação e a democratização, mas vota pela  desregulamentação e a oligopolização, além da desnacionalização. 
Beto Almeida , Membro da Junta Diretiva da Telesur

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Delegação brasileira em missão de paz na Líbia, continua retida na Tunísia


Acompanho desde o último domingo a delegação brasileira - composta pelos deputados Brizola Neto e Protógenes Queiroz, além de alguns jornalistas e ativistas - que viajou com destino à Líbia. O objetivo seria atender a um convite do comitê independente que atua junto ao governo líbio, seguindo o já ocorrido com delegações de outros países, para observar a situação real da guerra e compor um relatório que se juntará a outros, nas negociações de paz que vêm ocorrendo desde o início dos conflitos.
A saída do Brasil, com destino ao Norte da África, iniciou-se em Paris, que coincidentemente foi o primeiro dentre os aliados a bombardear a Líbia em março deste ano. Em seguida, o grupo seguiu viagem para a Tunísia, país que passou recentemente por uma revolução popular que levou à renúncia do presidente Zine el Abidine Ben Ali.
Cruzamento de Túnis


Ao chegarmos à Tunísia a delegação foi informada de que a OTAN tinha iniciado uma série de pesados ataques na estrada que liga as fronteiras da Tunísia e da Líbia, caminho que vem sendo utilizado como a principal via de abastecimento do país africano. Desde então, são sucessivas as nossas tentativas de seguir viagem, ainda sem sucesso.

"Sabe, eles tem muito dinheiro"
Ainda no aeroporto em Túnis, conversei com o responsável pelo balcão de informações do setor de desembarque - que pediu para não ser identificado - e este, um tunisiano que contou ter participado ativamente dos manifestos que sacudiram a Tunísia em janeiro, afirmou que os conflitos na Líbia não são iguais aos do seu país, com imensas desigualdades sociais. Ele disse não entender o motivo da revolta na Líbia, já que para ele a maioria dos líbios "tem tudo, não lhes falta nada sabe, eles tem muito dinheiro" fornecendo também outros detalhes que começavam a delinear o que encontraríamos nos últimos dias.
Mulheres vestem-se como querem na Tunísia



Já no aeroporto, pudemos notar que a Tunísia - o primeiro dentre os países árabes a abolir o uso do véu - alcançou avanços ainda maiores entre os direitos das mulheres. Temos visto várias vestidas de formas diferentes, com ou sem véu e até com saias ou shorts, que fariam, não fosse outros aspectos, pensarmos que estamos em qualquer país ocidental. Os idiomas predominantes são o árabe e o francês, mas a presença massiva de tunisianos que também dominam o inglês dá o panorama de integração com a Europa perceptíveis nas influências da cultura local, nas roupas, construções ou mesmo na comida. O apimentado típico dos pratos tunisianos, intenso até para os padrões brasileiros, é de influência francesa.

Nota de repúdio aos ataques
A delegação divulgou, já na terça-feira uma nota de repúdio aos ataques da OTAN e desde então temos observado indícios de que a "verdade" não é algo fácil de ser encontrado em um conflito como esse. Há uma certa rejeição dos tunisianos à figura de Muammar Gaddafi, pela associação imediata com a figura do presidente deposto da Tunísia, mas é consenso que os líbios são vistos como uma elite que vem ao país para consumo. Além disso, os tunisianos reconhecem a prosperidade líbia e chegam a admitir que gostariam dos mesmos benefícios em seu país, como ausência de impostos, programa de moradia que atinge quase 100% da população, modernas escolas e hospitais públicos e gratuitos por toda a vida. 
Nos últimos dias em busca de informações na Tunísia, foi possível identificar aspectos interessantes, até então desconhecidos para a maioria de nós, um deles é o fato de que mais de um milhão de líbios vivem na Tunísia e outros tantos circulam livremente entre os dois países, ao ponto de ser fácil a identificação das placas dos automóveis líbios, sempre os mais caros. A maior parte da elite Líbia tem casas de veraneio em Túnis, capital que é também um dos grandes centros turísticos da costa mediterrãnea. Um exemplo marcante é o bairro de Sidi-Bu-Saidi, cujo aluguel de casas - predominantemente brancas e azuis e com vista para o mar Mediterrâneo - custam em torno de 1.000 euros por mês. A maioria delas, alugadas ou próprias, é ocupada por líbios que vem ao país, principalmente na época do Ramadã, em busca de descanso.
Sidi-Bu-Saidi, em Túnis

A Tunísia, aliás, é um caso à parte dentre os países que passam pelo que a imprensa internacional vem chamando de "primavera árabe". Encontramos opiniões divididas sobre a situação no país após a queda do presidente. A maioria apóia o processo eleitoral que está sendo elaborado - previsto para 23 de outubro - mas analisam que a liberdade obtida a partir dos manifestos populares está, ao mesmo tempo que tornando possível avanços sociais, mas também provocando situações de caos generalizado como o excesso de lixo nas ruas, assaltos e brigas cada vez mais constantes em bares. A expressiva redução do policiamento reflete-se também no trânsito absolutamente confuso de Túnis com carros e motos que buzinam o tempo todo enquanto fazem ultrapassagens perigosas.


Trânsito caótico da Tunísia





Jogadores brasileiros na Tunísia
No hotel, encontramos um jogador de futebol brasileiro, que vive em Túnis há alguns meses, Vitor Sony, 23 anos. Ele joga pelo Afrikan e estava acompanhado do jogador Clayton Menezes, 37, celebridade na Tunísia por ter defendido a camisa do país por duas vezes em Copas do Mundo. Ele encerrou a carreira de jogador e agora empresaria novos jogadores como Vitor.
Clayton não soube dizer muito sobre o que acontece no país vizinho, mas afirmou que a liberdade conquistada pelo povo tunisiano nos últimos meses tem "deixado algumas pessoas loucas". Ele disse que mora no país desde 1995 e que tem observado uma melhoria geral na postura das pessoas, com menos medo de expressarem suas ideias após a queda de Ben Ali mas, ao mesmo tempo, disse esperar que após as eleições a dinâmica de funcionamento das cidades se normalize. Segundo ele, "desde a revolução, nada mais funcionou direito por aqui".
Já o meia esquerda Vitor, que mora no hotel com a noiva também brasileira, disse que sente muita saudade da família, mas que vir para Túnis valeu a pena porque "aqui você recebe".  O jogador que já passou pelo Santo André paulista afirmou que no Brasil  "um mês dura três" para os clubes, ou até mais como no caso dele, que chegou a ficar até cinco meses sem receber. Por isso, quando convidados por olheiros, a maioria dos jogadores em início de carreira como ele, aceita imediatamente a proposta de sair do país.
Ponte destruída próxima à fronteira de Tripoli

A verdade vai se delineando

Há três dias um navio vindo do Qatar - país que compõe os aliados da OTAN - tentou cruzar a costa líbia com armamento pesado a ser distribuído em Benghazi para os rebeldes, mas sua passagem foi negada pelas autoridades portuárias tunisianas. A rede de TV AlJazeera com sua espetacular estrutura para produção jornalística, tem ocupado quase 70% de sua programação na cobertura dos conflitos, em especial do ponto de vista do grupo opositor. Isso porque o Emir do Qatar é  dono da rede de televisão.
Um dos jornalistas da delegação, Robinson Pereira, conseguiu gravar entrevista com membros rebeldes em um hotel próximo ao que estamos. O que mais nos chamou atenção foi a declaração de um deles, um laboratorista que veio à Túnis em busca de medicamentos, que disse não entender "o motivo pelo qual a OTAN erra tanto os alvos, sobrevoam os tanques do exército líbio no deserto, mas atingem as áreas residenciais nas cidades" e a afirmação de que eles não têm certeza se a OTAN sairá do país, caso a oposição vença a guerra, mas que eles não querem estrangeiros ocupando seu país como aconteceu no Iraque. "Não sei se eles pretendem ou não, mas eles têm que sair", enfatizou.
Percebemos também que nas falas de todos, fica clara a preocupação com a destruição de toda a estrutura do país. A OTAN com os bombardeios vem causando problemas em ambos os lados. A população do país já sofre há semanas com a falta de energia, alimentos e combustível.

Membros da delegação tentarão chegar à fronteira
O grupo decidiu hoje dividir-se e parte dos membros da delegação tentará chegar à fronteira de carro, atravessando a pequena ilha de Djerba - ligada ao continente por uma faixa de terra - e cidades próximas, para observarem a movimentação após os ataques aos postos de fiscalização de fronteira que foram atingidos pela OTAN. Outra parte aguarda no hotel por maiores instruções.
Agora a noite, em conferência via Skype com nosso contato na Líbia, soubemos da morte de um irmão do Dr Musa Ibrahim (porta-voz do governo líbio), um jovem que ocupava um posto de defesa de bairro, estratégia organizada pelas famílias para proteger as casas do ataque de gangues rebeldes. Liguei a televisão no canal da TV Jamahiria, a estatal líbia, para acompanhar o programa do Dr Youssef Sahkir, um analista político, transformado em celebridade na Líbia nos últimos meses. Ele entrevista o Dr Musa Ibrahim sobre a morte do irmão e sobre a situação das cidades retomadas pelo exército líbio.
Um dado interessante sobre o Dr Youssef Sahkir é que durante anos ele conduziu o mesmo programa com viés opositor ao governo e no primeiro mês da guerra, apresentou duras críticas a Muammar Gaddafi, dando voz aos rebeldes que se manifestavam em Benghazi, cidade onde os conflitos se iniciaram. Ele chegou a sair do país e ficar por um tempo no Egito, após a primavera árabe de lá. Depois, recebeu informações sobre as ligações entre os grupos rebeldes e membros da AlQaeda e mercenários da Blackwater e voltou à Líbia passando a denunciá-las em seu programa. Desde então, ele vem acusando as forças militares de estarem cometendo um "massacre desmedido" sobre a população Líbia com o único interesse de expropriar as riquezas do país, com a maior renda per capita da África, e ocupar um ponto estratégico na costa mediterrânea e no Norte da África.
Com os últimos bombardeios da OTAN, com foco único nas estruturas do país e em áreas residenciais, fica cada vez mais difícil  sustentar o discurso de que estão agindo com propósitos "humanitários". O volume de líbios que encheu a Tunísia nos últimos dias, denota o medo crescente da população em meio a uma guerra onde os dois lados vem sendo sufocados pelas forças estrangeiras. Como afirmou um dos rebeldes entrevistado há alguns dias, "se eles vieram para ajudar a salvar vidas civis, estão falhando na operação".
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As imagens são do repórter fotográfico Sérgio Alberto.

domingo, 14 de agosto de 2011

Soldados americanos no Iraque

Fonte: Com Texto Livre


Este vídeo contém imagens fortes do espancamento covarde de crianças iraquianas pelas forças americanas, enquanto se ouve o soldado, que filma a cena, vociferar de entusiasmo. Essa é a "democracia" e a "ajuda humanitária" que Barack Obama vem construindo no Iraque, dando continuidade ao trabalho duro de seu antecessor.



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

As verdadeiras Vozes de Londres

"A imprensa tenta nos transformar em vândalos, porque? Porque sou pobre ou porque sou preto?.. (...) eu também tenho direitos e enquanto eles mandam os soldados para uma guerra onde somente se importam com o petróleo, não se preocupam com as pessoas aqui sem emprego, nem mesmo com as famílias e as vidas desses soldados, eles não se importam com nada!.. (...) e seu eu quiser exigir meus direitos, eles querem me calar (...) se eu quiser questionar a ordem eu vou para a cadeia!..(...) e tentam me dizer que eu devo a eles porque recebi educação pública, eles querem nos convencer disso, de que recebi muitos benefícios!..(...) então nós resolvemos exigir o que é nosso por direito, agora mesmo!" (Neville)




No vídeo abaixo, o sociólogo Silvio Caccia Bava é mais um a rejeitar a tentativa da GloboNews de conduzir os entrevistados a falar o que eles querem.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Assista: 10 minutos que podem mudar a sua vida

Para a repórter da GloboNews que hoje, pela manhã, tentou conduzir o entrevistado, tentando fazer com que ele concordasse que os jovens que se manifestam agora na Espanha, ou Chile, são "marginais". Para todos nós que temos "deuses dentro" de nós quando nos entusiasmamos com uma causa bonita e pela qual vale a pena lutar, viver. E até mesmo para os que desistiram de sonhar. Esses 10 minutos com Galeano podem mudar a sua vida.


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