"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Libertas que será também

"Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda."

Cecília Meireles, em Romanceira da Inconfidência


Amo esse trecho da Cecília. É como um lema. Cada palava desse texto aguça em mim uma vontade de buscar essa que é a própria subjetividade da existência humana. Em que momento somos realmente livres? Em que momento podemos nos considerar libertos? Possivelmente, dentro do conceito puro da palavra, não nascemos nem jamais seremos livres. Isso porque a liberdade plena e total envolveria um tipo de sensação da qual, talvez, apenas os animais desfrutem. Sem regras, dogmas, convenções, ordens... ou ainda, ela apenas seria possível em nossos pensamentos. A liberdade então para nós é uma busca eterna.

Mas podemos muitas vezes exercitar a liberdade e vivê-la de forma plena enquanto cidadãos, por exemplo. A busca pela liberdade de se expressar é uma das mais antigas bandeiras da história humana. Mas mesmo a liberdade cidadã não terminaria onde começa o direito do outro? Democraticamente, sim.

No dia-a-dia, sermos livres pode ser entendido como sermos espontâneos (a liberdade de Descartes). Ou seja, uma ação que não seja motivada por algo exterior, seja uma decisão unicamente sua, mesmo que dependa de algo como dinheiro ou oportunidade. A liberdade de decidir por si mesmo, é o que liberta o homem em sua ação. Por outro lado, o mesmo Descartes chama a atenção para o momento da escolha, é livre quem sabe escolher dentre as várias opções/caminhos disponíveis e aponta: "A escolha indiferente é ignorância e não liberdade". Aliás, alguns filósofos atentam para a Liberdade de Indiferença, ela seria o oposto do conceito puro de liberdade visto que, ao tomar uma decisão que oferece consequências indesejadas contra si mesmo (ou aos outros), o homem abre mão da sua liberdade plena.

Já o dificílimo Kant, aponta em sua Crítica da Razão Pura a autonomia de ser, de ter sua própria razão, ainda que consciente das leis morais vigentes. O livre arbítrio deve ser utilizado de forma pura, sem depender de tais regras, ainda que sem ignorá-las totalmente. Ou seja, mesmo Kant admite que a liberdade inconseqüente não é o melhor caminho.

Spinoza, outro filósofo, lembra que a decisão derivada da liberdade de escolha está sempre atrelada ao agente da decisão, ainda que no momento de decidir, a escolha seja livre de fato, ou aparentemente... Ou seja, associada à liberdade está também o conceito de responsabilidade. Para ele, uma não existe sem a outra, pois se transforma em libertinagem. Partindo do princípio que ser livre, de um modo geral, é agir conforme a sua vontade, então concluímos que, ao desconsiderar as limitações suas e alheias, não estamos agindo como seres livres e, ao contrário, nos tornamos agentes de privação da mesma!!

Eu que adoro esse exercício dialético, dialogar, discutir, contestar... entendo que de certa forma, o conceito de liberdade não pode vir separado dos princípios da ética. No fundo, a única coisa que podemos fazer de fato e direito, de forma plenamente livre, é o exercício do pensar. Porque o pensamento, a princípio (se não quisermos partir para o campo da metafísica) é a única ação que em si não gera consequências imediatas nem pra si nem para os outros. Abstrair, aliás, também é uma propriedade das mentes sãs (e, talvez, livres). Em geral os loucos têm dificuldade de abstrair, isso considerando os vários estágios da loucura, ou ainda, da ignorância. As pessoas que têm dificuldade de raciocinar, seja por uma questão psicológica, física, mental ou até por uma condição social, estão longe de serem livres e ainda sujeitas à serem subjulgadas pelos demais. Por isso também, a arte quando utilizada como ferramenta política é um instrumento de libertação, ela em si é um agente que permite a liberação do livre pensar. Em seu Manifesto da Antropofagia Periférica, o poeta Sergio Vaz lembra que: "A arte que liberta não pode vir da mesma mão que escraviza." Então, a liberdade também é um conceito social, antropológico, intimamente relacionado à estrutura a sociedade em que vivemos...

Finalmente, recomendo o livro do pacifista Bertrand Russel, "Caminhos para a liberdade", que vai falar de outros fatores ligados ao conceito de liberdade, como um exercício político, como uma busca do socialismo, das lutas sociais.. aliás, ir em busca da liberdade, lutar por ela, pelos seus pares, pelo direito de exercê-la, também nos transforma, se não instantâneamente em pessoas livres, em agentes da mesma nesse mundo em que todos vivemos, livres ou não.

"O mundo que devemos buscar é um mundo em que o espírito criador esteja vivo, e a vida seja uma aventura plena de alegria e esperança, baseada mais no impulso de construir que no desejo de reter o que possuímos ou tomar o que pertence aos outros. Deverá ser um mundo em que o afeto tenha livre ação, em que o amor esteja isento do instinto de domínio mas exercido com respeito, em que a crueldade e a inveja tenham sido dissipadas pela felicidade e pelo livre desenvolvimento de todos os instintos que edificam a vida e a enchem de deleites mentais. Tal mundo é possível; aguarda apenas que os homens desejem criá-lo. Por enquanto o mundo em que vivemos tem outros objetivos. Mas ele passará, destruído pelo fogo de suas próprias paixões incandescentes, e, de suas cinzas, surgirá um mundo novo e mais jovem, repleto de fresca esperança, com a luz da manhã em seus olhos" Bertrand Russel 

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