"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X

domingo, 25 de setembro de 2011

Aviões britânicos bombardeiam a cidade de Sirte


Por José Gil de Almeida no site www.amarchaverde.blogspot.com
Aviões britânicos bombardearam durante a noite diversas regiões da cidade de Sirte, a cidade natal de Muamar Kadafi. Esse é mais um episódio covarde e sangrento, entre tantos outros patrocinados pelos países que compõe a OTAN.
Atacar e bombardear a população civil durante a noite é uma prática dos militares norte-americanos iniciada na Guerra da Coréia, quando dezenas de cidades e vilarejos daquele país foram dizimados sob ataque cruel e sanguinário das forças estrangeiras.
À meia-noite, uma formação de Tornados GR4s, que partiu da base da RAF (Royal Air Force) de Marham, em Norfolk, leste da Inglaterra, disparou uma salva de mísseis guiados de precisão Storm Shadow contra um bunker de um grande quartel-general na cidade natal de Kadafi, Sirte", afirma um comunicado.
A TV estatal líbia, Al Jamariya, anunciou nesta quinta-feira em sua página no Facebook que a OTAN estava bombardeando Sirte, atingindo alvos civis, entre os quais hospitais, escolas e rodovias.
Imaginem se a Líbia disparasse mísseis em direção à Europa? Seria um desastre sem proporções e a opinião pública mundial ficaria revoltada ao extremo, mas a mídia ocidental silencia quando aviões partem da Inglaterra para despejar bombas na Líbia e voltar ao país de origem cantando vitória. É uma verdadeira desgraça para o futuro da humanidade não reagir a mais esse crime de guerra praticado por britânicos.
Não consta que a ONU tenha autorizado que aviões da Inglaterra bombardeassem cidades líbias. Trata-se de crime de guerra, condenável por toda a legislação internacional. Entretanto, por tratar-se de terrorismo de Estado patrocinado por aliado dos EUA, é praticamente impossível que haja qualquer conseqüência em tribunais penais internacionais, na maioria controlados pelos governos das potências imperialistas que hoje atacam a Líbia para roubar petróleo.
A situação hoje é caótica na Líbia. Falta água, luz, gasolina e alimentos na maioria das cidades, ou seja, os invasores atingiram seus objetivos de enfraquecer o país para permitir o roubo de suas riquezas através da formação de um governo pró-ocidente, a exemplo do que fizeram no Iraque e Afeganistão.
O povo árabe líbio e os partidários de Muamar Kadafi lutam contra a maior potência militar do planeta, incluindo amais avançada tecnologia de guerra, os aviões não-tripulados utilizados pelo governo norte-americano. A população líbia foi colocada em regime de terror pelos bombardeios diários da Otan que assassinou milhares e milhares de civis indefesos.

sábado, 24 de setembro de 2011

Quem ganhou a guerra na Líbia?



Quem ganhou a guerra na Líbia?

Por Jeremy Salt*





A história já está sendo reescrita para acomodar a nova realidade provisória na Líbia" - a realidade de hoje, isto é, porque ninguém pode prever o tempo exato em que o povo líbio colocará para correr o novo governo de traidores e mercenários financiados por potências ocidentais. 

De acordo com Hussein Agha e Robert Malley, escrevendo no New York Review of Books, a Otan "ajudou" os rebeldes a "derrubar Kadafi". Esta é uma inversão da realidade porque na verdade os rebeldes ajudaram a Otan, e não o contrário. 

Incapazes de derrubar o governo com suas próprias forças, pois não passavam de grupos dispersos financiados por potências estrangeiras, eles abriram as portas para um colossal ataque ao seu país por forças estrangeiras. Em troca, a Otan pavimentou o caminho para seu avanço para o oeste até a Trípoli e permitiu-lhes assumir o crédito pela vitória. 

Foi a Otan – a serviço das potências estrangeiras – que salvou uma pequena insurreição que não duraria mais do que algumas semanas, transformando-a em uma guerra total na qual dezenas de milhares de vidas foram sacrificadas. Foi a Otan que, em nome da proteção aos civis, assassinou milhares de civis indefesos num processo de saturação de bombardeios à Líbia (admitiram 7.500 mísseis militares até o mês passado), destruindo qualquer possibilidade do governo legítimo se defender. 

O confronto entre o governo da Líbia e a Otan não foi uma guerra, mas um ataque monstruoso, de proporções gigantescas, utilizando a mais moderna tecnologia militar do planeta, e a força econômica, política e diplomática das potências mais poderosas. O destino da Líbia poderia ser o destino de qualquer outro país pequeno, como tem sido o destino de muitos pequenos países durante os últimos dois séculos de agressão ocidental contra o mundo não-europeus e não americanos.

Chamar essa agressão de guerra é uma afirmação enganosa por parte da mídia ocidental para desviar a opinião pública sobre a verdade dos fatos e beneficiar os agressores - financiadores. Basicamente, esta foi uma guerra decidida pelos governos da Grã-Bretanha, França e Estados Unidos, com outros países (Canadá, Itália, Bélgica, Dinamarca e Noruega) utilizando a Otan como camuflagem. Cameron e Sarkozy têm negado interesse próprio, mas a disputa sobre o direito prévio aos recursos de petróleo da Líbia já começou dentro do novo consórcio chamado de "Amigos da Líbia". A Líbia descobriu que tinha amigos que nunca suspeitou que existissem.

Intervenção externa em socorro a Benghazi

Foi muito rápida a mobilização de forças estrangeiras para atacar a Líbia, revelando que não foi por acaso, mas algo planejado e preparado ao longo dos últimos anos.Os governos das potências imperialistas França, Grã-Bretanha e os EUA começaram a mobilização para conseguir a ONU a legitimação da guerra para ocupar a Líbia. A exemplo do que a ONU fez na Coreia, Afeganistão e Iraque, a ONU foi novamente manipulada pelas grandes potências e aprovou a Resolução 1970, (26 de fevereiro) que trata de imposição de sanções e um embargo de armas: resolução 1973 (17 de março) declarada zona de exclusão aérea sobre os governos da Líbia e autorizado a tomar todas as medidas necessárias para "proteger a vida civil", neste caso, trata-se da mais pura hipocrisia: assassinaram milhares de pessoas em nome da proteção a essas mesmas pessoas. Seria cômico se não fosse trágico.

A partir deste ponto de partida a imposição de uma zona de exclusão aérea abriu a oportunidade para os primeiros aviões estrangeiros bombardearem a Líbia. As primeira bombas a caírem na Líbia para "proteger o povo" foram despejadas por aviões franceses, país que tem péssimo histórico de crimes de guerra na colonização e saque de nações africanas. Acostumados – ao longo da história - a assassinar os negros para roubar suas riquezas naturais, os franceses sentiram-se como se "voltassem ao lar".

O fracasso da Anistia Internacional

A Anistia Internacional elaborou um relatório que detalha os crimes cometidos pelos rebeldes até a entrada em Trípoli. O que a Anistia Internacional omite, atendendo a interesses do porta-voz da Otan, são os crimes cometidos pelos poderes de intervenção externa contra a população civil. Uma lista curta incluiria o bombardeio de abastecimento de água, clínicas, armazéns, mercados, pelo menos, um hospital, escolas, a Universidade Nasser, em Tripoli, casas de civis, os escritórios da Sociedade da Líbia para tratamento da Síndrome de Down, uma pousada em Brega onde um grupo de imãs católicas foram assassinadas porque se colocaram na frente de uma passeata que pedia paz em Benghazi.

As vítimas de ataques aéreos da Otan, incluídas mulheres e crianças, somam milhares. Todos os dias cometeram- e cometem – crimes contra civis indefesos, e em todos esses crimes o porta-voz da Otan afirma que o objetivo dos ataques eram alvos militares, apesar da evidência visual ao contrário: em poucas ocasiões em que eles admitiram vítimas civis, disseram, cinicamente, que lamentavam os erros de segmentação ou sistema de armas.

A Anistia Internacional deveria questionar o quadro de violações do direito internacional na Líbia por parte da Otan, começando com o fato da intervenção ter excedido e extrapolado o mandato (espúrio em si mesmo) emitido pelo Conselho de Segurança da ONU. 

Por que não questionam, por exemplo, sob a luz do direito internacional, o ataque a casa de Saif al Arab al Kadafi em Trípoli, em primeiro de maio. O comando militar da Otan sabia que havia mulheres e crianças na residência, mas ainda assim matou seu filho e três de seus netos. O argumento de que casa de Saif al Arab seria um comando militar ou centro de controle é uma escandalosa mentira. O escritório da Sociedade para tratamento da Síndrome de Down na Líbia foi bombardeada, aparentemente porque o comando militar da Otan pensava que Kadafi estivesse naquele local. Estas tentativas claramente deliberadas para assassiná-lo levantam um outro aspecto do direito internacional que a Anistia não se sente inclinada a investigar.

Sobre a questão da perda de vidas de civis resultantes de ataques aéreos, a Anistia acha que a Otan "admitiu uma série de erros fatais, incluindo uma em 19 de junho, em Tripoli que levaram à morte de civis". A passagem posterior refere-se a vários civis 'supostamente' ser morto (em vez de realmente ser morto como parece ter sido o caso) quando um "projétil" (uma telha solta?) atingiu suas casas. A Anistia permite que um porta-voz da Otan explique o que aconteceu. Havia uma "falha no sistema de armas" que "poderia ter causado [sic.] a perda de vidas inocentes" e, por essa perda de vidas o porta-voz da Otan diz – novamente – que lamenta.

Há também uma referência a um ataque aéreo perto de Trípoli em 20 de junho.O alvo era um conglomerado pertencente a "um dos associados de Kadafi" (ou seja, um alto funcionário do governo da Líbia). Pelo menos uma mulher e duas crianças foram mortas porque o "conglomerado" teria implicações militares, mas na verdade tratava-se de um conglomerado de casas. De acordo com o porta-voz da Otan, no entanto, apesar do assassinato da mulher e das crianças, este foi um "ataque de precisão", lançado contra um "alvo militar legítimo". No mínimo, a questão da proporcionalidade surge novamente. Se a Otan tinha provas de equipamento militar dentro do complexo (nunca mostrado) também tinha provas da presença de mulheres e crianças. O alvo provável era o alto funcionário do governo, que escapou ileso.

Repórteres informaram a Anistia Internacional que "pelo menos alguns dos prédios atingidos no composto parecia ser residencial" e deixaram por isso mesmo. Ela menciona a explosão de três antenas de televisão por satélite como uma eventual infração das leis de guerra sobre a proibição de ataques a infra-estrutura civil, mas não tem nada a dizer sobre violações infinitamente mais graves do direito humanitário internacional por parte da Otan. Não há menção dos 85 mortos no ataque em primeiro de agosto, nenhuma menção sobre o assassinato dos religiosos na cidade de Brega; nenhuma menção sobre o assassinato do filho de Kadafi e netos; nenhuma menção a continuação dos ataques a infra-estruturas civis desde o início da guerra aérea até os dias de hoje. Nem há qualquer menção das ofertas de negociações feitas por Kadafi e pela União Africana, todas elas rejeitadas pelos rebeldes pela simples razão de que, enquanto eles tinham a Otan atrás deles, eles não iam parar até que o governo em Trípoli foi derrubado. Sem a Otan não bombardeasse o país de formacriminosa e terrorista diarimaente ao longo de sete meses, os rebeldes não sairiam de Benghazi , e teriam que negociar. Na medida em que o papel da Otan é central e determinante, o relatório da Anistia é uma farsa vergonhosa.

Os negócios firmados entre os rebeldes e os governos dos Estados Unidos, França e Grã-Bretanha vão permanecer escondidos debaixo da mesa pelo maior tempo possível, e só lentamente é que vamos ver que vai envolver: generosas concessões às grandes empresas petrolíferas ocidentais, contratos para a reconstrução do que os mísseis da Otan estão destruindo, reabertura eampliação das embaixadas, missões militares para treinar e reorganizar o exército da Líbia, e empreiteiros passeando em Humvees e veículos blindados para proporcionar "segurança". Naturalmente os custos da guerra - de 'libertação' da Líbia – será pago pela Líbia.

O estabelecimento de bases militares da Otan na Líbia será o bônus especial para as forças estrangeiras ocidentais ameaçaremcada vezmaisa África. A Líbia vai retornar ao sistema financeiro internacional, o que significa uma economia reestruturada com base nos "conselhos" do FMI e empréstimos. Não haverá mais conversa de um Banco Central Africano e agência de investimento financiado pela Líbia, e outros projetos que Kadafi já tinha colocado em movimento.

A Líbia será como o Iraque, para favorecer a rapina de suas riquezas naturais por parte dos "libertadores". O Conselho Nacional de Transição é internamente fragmentado e mais propenso a implosão antes da consolidação de um governo. A guerra ainda está longe do fim, exigindo a participação da Otan a cada passo do caminho, e os últimos redutos do governo deposto estão se superando, aumentando a resistência dia a dia. Mesmo que Kadafi ou Saif al Islam fossem mortos, é provável que a luta pela libertação da Líbia continue. A guerra à Líbia não se trata de uma guerra de libertação ou de uma revolução popular, mas é um produto da intervenção ocidental. Os sorrisos triunfante em Tripoli de Cameron, Sarkozy e Bernard-Henri Levy, são os sorrisos de um tigre saboreando sua última refeição e contemplando seu próximo. Nenhum ataque ocidental em um país árabe já terminou bem para a população local, e na Líbia é improvável que haja qualquer exceção.

O sucesso da força militar ocidental no Oriente Médio é ameaçador. Iraque e Líbia são precedentes perigosos. Com o apoio dos governos europeus, os EUA têm ameaçado o governo sírio para retardar o crescimento econômico do país nas duas últimas décadas. Seu colapso ou derrubada representaria o maior ganho estratégico para os EUA, Israel, Grã-Bretanha e França desde a Segunda Guerra Mundial, superando o isolamento do Egito através do tratado de paz de Camp David e da destruição do Iraque. As repercussões seriam sentidos em todos os níveis da política árabe. O regime sírio está em apuros e estes poderes podem cheirar sangue. Eles esperam que a pressão interna irá derrubá-lo, mas se não podem expor no mesmo caminho que os levou para a Líbia. Este é certamente na sua agenda, o que eles, eventualmente, devem decidir.

O autor Jeremy Salt é professor associado na história do Oriente Médio e Política na Universidade Bilkent, em Ancara, na Turquia. Anteriormente, lecionou na Universidade do Bósforo em Istambul e na Universidade de Melbourne nos Departamentos de Estudos do Oriente Médio e Ciência Política. Escreveu vários artigos sobre questões do Oriente Médio, especialmente na Palestina, e foi um jornalista para o jornal The Age, quando ele morava em Melbourne. Ele contribuiu com este artigo para PalestineChronicle.com.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Haiti


"Haiti", composição dos músicos brasileiros Caetano Veloso e Gilberto Gil, do álbum Tropicália 2, de 1993, se mostra ainda atual. Aqui você confere a gravação original.

A música faz referência, dentre inúmeros assuntos inerentes, à Fundação Casa de Jorge Amado, localizada em Salvador (BA), organização não-governamental cujo objetivo é preservar o acervo do escritor brasileiro e tem também como missão a criação de um fórum permanente de debates sobre a cultura baiana – especialmente sobre a luta pela superação das discriminações raciais e sócio-econômicas. 
A atualidade da música também pode ser demonstrada pela ocorrência de atrocidades cometidas por rebeldes líbios, com o apoio da OTAN e o silêncio da ONU, contra uma maioria de negros imigrantes que trabalhavam em empresas estrangeiras na Líbia e agora são alvos de torturas, assassinatos, estupros. Uma verdadeira limpeza étnica já denunciada pela Anistia Internacional e outras organizações de direitos humanos, mas ignorada por grande parte da imprensa mundial.
Nesta versão da Banda Trampa, a música tem o peso do rock n´roll com a leveza da música erudita. O clipe, gravado inteiramente no centro e periferia de Brasília, capital do Brasil, mostra os contrastes do "nosso" Haiti.


Criado em 2008, o projeto Trampa Sinfônica é um espetáculo que une, em um único palco, a banda Trampa de rock´n roll com a Orquestra Sinfônica de Brasília Esse encontro entre dois estilos musicais tão distintos é também uma homenagem à memória do idealizador do projeto, o maestro Silvio Barbato (11/05/1959 – 01/06/2009), que estava à bordo do Airbus da Air France, que desapareceu no Oceano Atlântico durante o voo 447 em 2009.



Quando você for convidado pra subir no adro
Da Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados


E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados


E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for


Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui


E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital


E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal


E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon


E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos


Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos


E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba


Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

Carta de Hugo Chávez para Ban Ki-moon em apoio à Palestina



Em 17 de setembro, o presidente venezuelano Hugo Chávez enviou uma carta ao Secretário Geral da ONU Ban Ki-Moon, para confirmar o apoio do governo venezuelano para o estabelecimento do Estado da Palestina.


Por Hugo Chávez Frías, Presidente da República Bolivariana da Venezuela

Miraflores, 17 setembro de 2011

Sua Excelência, 
Ban Ki-moon 
Secretário Geral das Nações Unidas

Senhor Secretário-Geral: 
Ilustres representantes dos povos do mundo:

Dirijo estas palavras à Assembléia Geral da ONU, a este grande fórum que representa todos os povos da terra, para ratificar, neste dia e neste cenário, o apoio total da Venezuela ao reconhecimento do Estado Palestino: ao direito da Palestina em se tornar um país livre, soberano e independente. Trata-se de um ato de justiça histórica para com um povo que carrega consigo, desde tempos imemoriais, toda a dor e sofrimento do mundo.

Em seu ensaio memorável "A Grandeza de Arafat", o grande filósofo francês Gilles Deleuze escreveu com todo o peso da verdade: A causa palestina é antes de tudo, o conjunto de injustiças que essas pessoas sofreram e continuam a sofrer. E eu ouso acrescentar que a causa palestina também representa uma constante e inabalável vontade de resistir, que já está escrita na memória histórica da condição humana. Vontade de resistência que nasce do amor mais profundo pela terra. Mahmoud Daewish, a voz infinita da Palestina almejada, nos fala com o sentimento e a consciência deste amor:

Nós não precisamos de memórias 
porque em nós trazemos o Monte Carmelo 
e em nossas pálpebras a erva da Galiléia. 
Não digas: Se pudéssemos correr para o meu país como um rio! Não o digas! 
Porque nós estamos na carne de nosso país 
e nosso país está em nós.

Contra aqueles que falsamente sustentam que o ocorrido com o povo palestino não é um genocídio, o mesmo Deleuze afirma com lucidez implacável: Do começo ao fim, vêm agindo como se o povo palestino não só não devesse existir, mas como se nunca tivesse existido. Isso representa a própria essência do genocídio: decretar que um povo não existe, para negar-lhes o direito à existência.


Neste sentido, quanta razão tem o grande escritor espanhol Juan Goytisolo quando afirma contundentemente: A promessa bíblica da terra da Judéia e Samaria para as tribos de Israel não é um contrato de propriedade em cartório que autoriza a expulsão daqueles que nasceram e vivem naquele solo. É precisamente por isso que a resolução de conflitos no Oriente Médio deve, necessariamente, trazer justiça ao povo palestino, este é o único caminho para a paz.


É perturbador e doloroso que as mesmas pessoas que sofreram um dos piores genocídios da história tenham se convertido nos carrascos do povo palestino: é perturbador e doloroso que a herança do Holocausto seja a Nakba. E é verdadeiramente preocupante que o sionismo continue a usar a acusação de anti-semitismo como uma chantagem contra aqueles que se opõem às suas violações e crimes. Israel tem, descaradamente e vilmente, usado e continua a usar a memória de suas vítimas. E eles fazem isso para agir com total impunidade contra a Palestina. Ademais, vale a pena mencionar que o anti-semitismo é um flagelo ocidental, de raiz européia, em que os árabes não tiveram participação. Além disso, não vamos esquecer que é o povo semita da Palestina que sofre com a limpeza étnica praticada pelo Estado colonialista israelense.

Quero tornar-me claro: uma coisa é denunciar o anti-semitismo, e outra coisa totalmente diferente é aceitar passivamente que a barbárie sionista imponha um regime de apartheid contra o povo palestino. Do ponto de vista ético aqueles que denunciam o primeiro, devem condenar o segundo.

Uma digressão necessária: tem sido fartamente utilizado confundir o sionismo com o judaísmo. Ao longo do tempo fomos lembrados disto por vários intelectuais judeus, como Albert Einstein e Erich Fromm. E hoje há um número cada vez maior de cidadãos conscientes, dentro de Israel propriamente dito, que abertamente se opõem ao sionismo e suas práticas criminosas e terroristas.


Há que dizê-lo com todas as letras: o sionismo, como uma visão de mundo, é absolutamente racista. Prova irrefutável disto pode ser notado nas palavras, de cinismo aterrador, escritas por Golda Meir: Como vamos devolver os territórios ocupados? Não há ninguém a quem devolvê-los. Não há tal coisa chamada povo palestino. Não é como as pessoas pensam, que existia um povo chamado "palestinos", que se consideravam palestinos, e que nós chegamos, os expulsamos e nos apropriamos de seu país. Eles simplesmente jamais existiram.


É importante lembrar que: a partir do final do século XIX, o sionismo iniciou o chamado para o retorno do povo judeu à Palestina e a criação de um Estado nacional próprio. Esta abordagem foi benéfica e funcional para os colonialistas franceses e britânicos, como também seria mais tarde para o imperialismo ianque. O Ocidente sempre incentivou e apoiou a ocupação sionista da Palestina por meios militares, o que ocorre desde então.

Leiam e releiam o documento historicamente conhecido como a Declaração de Balfour de 1917: o governo britânico assumiu a responsabilidade legal em prometer um lar nacional na Palestina para o povo judeu, ignorando deliberadamente a presença e os desejo de seus habitantes. Deve-se acrescentar ainda que cristãos e muçulmanos viveram em paz durante séculos na Terra Santa até o momento em que o sionismo começou a reclamá-la como sua propriedade total e exclusiva.

Não vamos esquecer que no início da segunda década do século XX, o sionismo começou a desenvolver seus planos de expansão, aproveitando a ocupação colonial britânica na Palestina. Até o final da Segunda Guerra Mundial, a tragédia do povo palestino se exacerbaria, consumando-se na expulsão de seu território e, ao mesmo tempo, da história. Em 1947, a desprezível e ilegal resolução 181 da ONU recomendou dividir a Palestina em um Estado judeu, um Estado árabe, e uma área sob controle internacional (Jerusalém e Belém). Vergonhosamente, 56% do território foi concedido ao sionismo para estabelecer seu Estado. Na verdade, esta resolução violou o direito internacional e ostensivamente vem ignorando a vontade da grande maioria árabe: o direito à autodeterminação dos povos tornou-se letra morta.

De 1948 até esta data, o Estado sionista tem continuamente aplicado a sua estratégia criminosa contra o povo palestino com o apoio constante de seu aliado incondicional, os Estados Unidos da América do Norte. Esta lealdade incondicional é claramente observada pelo fato de que Israel dirige e define a política internacional dos EUA para o Oriente Médio. É por isso que o grande palestino de consciência universal Edward Said afirmou que qualquer acordo de paz construído sob a aliança com os Estados Unidos seria uma aliança que confirmaria o poder sionista, ao invés de confrontá-lo.

Então, ao contrário do que Israel e os Estados Unidos estão tentando fazer, levando o mundo a acreditar nas transnacionais midiáticas, o que aconteceu e continua a acontecer na Palestina, usando as palavras de Said, não é um conflito religioso, mas um conflito político, de cunho colonial e imperialista e ele não é um conflito milenar, senão contemporâneo, não é um conflito nascido no Oriente Médio, mas sim na Europa.


O que foi e continua a estar no centro deste conflito: o debate e as discussões têm priorizado a segurança de Israel, ignorando a Palestina. Isto é corroborado por recentes acontecimentos, um bom exemplo é o mais recente episódio genocida desencadeado por Israel durante a Operação "Chumbo Fundido" em Gaza.

A segurança da Palestina não pode ser reduzida ao simples reconhecimento de uma autonomia limitada e o autocontrole policialesco em suas "enclaves" ao longo da margem ocidental do Jordão e na Faixa de Gaza, ignorando não só a criação do Estado Palestino, no conjunto das fronteiras anteriores a 1967 e com Jerusalém Oriental como sua capital, os direitos dos seus cidadãos e sua auto-determinação como povo, mas também, ignorando a compensação e consequente regresso à pátria de 50% do povo palestino que estão espalhados por todo o mundo, conforme estabelecido pela resolução 194.

É inacreditável que um país (Israel), que deve sua existência a uma resolução da Assembléia Geral pode ser tão desdenhoso das resoluções que emanam da ONU, conforme disse o padre Miguel D'Escoto, quando pedia o fim do massacre contra o povo de Gaza, entre o final de 2008 e o início de 2009.

Sr. Secretário Geral e ilustres representantes dos povos do mundo:

É impossível ignorar a crise nas Nações Unidas. Em 2005, perante esta Assembléia Geral, nós sustentamos que o modelo de Nações Unidas havia se esgotado. O fato de que o debate sobre a questão palestina tenha sido adiado e está sendo abertamente sabotado, novamente nos confirma isso.

Há vários dias, Washington vem afirmando que, no Conselho de Segurança, vai vetar o que será uma resolução da maioria da Assembléia Geral: o reconhecimento da Palestina como membro pleno das Nações Unidas. Na Declaração de Reconhecimento do Estado palestino, a Venezuela, juntamente com as Nações irmãs que compõem a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA), denunciaram que tal aspiração justa pode ser bloqueada por esta via. Como sabemos, o império, neste casos e em outros, vem tentando impor o seu duplo padrão no cenário mundial: é a dupla moral ianque que tem violado o direito internacional na Líbia, e agora, permite que Israel faça o que bem entender, convertendo-se no principal cúmplice do genocídio palestino que vem sendo realizado pelas mãos da barbárie sionista. Edward Said tocou em ponto nevrálgico quando escreveu que: os interesses de Israel nos Estados Unidos criaram uma política em torno Oriente Médio israelocentrista.


Gostaria de finalizar com a voz de Mahmoud Daewish em seu poema memorável "Sobre esta terra":

Sobre este terra, nós temos algo 
que faz a vida valer a pena: 
Nesta terra está a senhora da terra, 
Mãe de todos os começos 
Mãe de todos os fins.
Ela foi chamada... Palestina. 
Seu nome continua sendo... Palestina. 
Minha senhora, porque você é minha dama, 
eu mereço a vida.


Ela continuará a ser chamada Palestina: a Palestina vai viver e vencer! Longa vida livre, soberana e independente à Palestina!

Hugo Chávez Frías 
Presidente da República Bolivariana da Venezuela


Publicado originalmente em (inglês): http://www.mathaba.net/news/?x=628760

domingo, 18 de setembro de 2011

MANIFESTO DO HAMÁS: sobre pedido da Autoridade Palestina de reconhecimento como estado-membro da ONU




18/9/2011, MondoWeiss, a guerra de ideias no Oriente Médio 
(traduzido do original em árabe para o inglês por Simone Daud)

Traduzido do inglês para o português pelo pessoal da Vila Vudu


Sobre o pedido, apresentado pela Autoridade Palestina em Ramallah, para que a Palestina receba status de estado-membro da Organização das Nações Unidas 


O que foi discutido e acordado por toda a força nacional palestina, como programa político nacional é:

– estabelecimento de um estado palestino com real soberania, nas linhas de junho  (Huzairan) de 1967;

– com Jerusalém como capital de estado;

– com retorno dos refugiados;

– com a evacuação de todas as colônias; e

– sem reconhecer a entidade sionista. 

Nós, do movimento Hamás, apoiamos qualquer esforço e manobra política que vise a obter apoio internacional e solidariedade para: 

– o direito dos palestinos à liberação e à autodeterminação;

– o estabelecimento de estado plenamente soberano;

– a obtenção de direitos nacionais palestinos; e que

– resulte na condenação da entidade sionista, que nega todos os direitos dos palestinos e revele a verdadeira natureza da entidade sionista.

Mas não se aceita nenhuma manobra política que se faça à custa de qualquer dos direitos nacionais dos palestinos.

Infelizmente, o pedido a ser apresentado pelos irmãos da Autoridade Palestina em Ramallah, para obter que a Palestina seja aceita como estado membro das Nações Unidas tem caráter unilateral, e está ainda muito distante de contar com o consenso de todos os palestinos. Além disso, não brotou de acordo coerente, nos termos da estratégia de toda a luta de libertação nacional de todos os palestinos. 

O pedido a ser encaminhado à ONU é, nesse sentido, extensão do processo de paz. A ideia de insistir em repetir a ideologia das negociações está muito longe da decisão pela resistência e por buscar construir "posição forte" para negociar.

Enfatizamos nossa firme convicção de que a resistência, em seu significado essencial, e, perifericamente, todas as formas da luta política de massas, é a via real que pode libertar a Palestina, conquistar nossos direitos e estabelecer um estado palestino que tenha soberania genuína.

A urgente necessidade dos palestinos é a libertação real de nosso território, para que ali se estabeleça um verdadeiro estado da Palestina independente e soberano. 

Não há qualquer necessidade ou urgência de continua a discutir sobre um estado que não existe e não poderá ser 'inventado' pela ONU. 

Não há qualquer urgente necessidade de tanta preocupação com passos simbólicos, todos de impacto limitado, nem de gerar resultados ambíguos, que não estão livres de alguns riscos.

Apelamos nesse momento aos nossos irmãos da liderança da Autoridade em Ramallah, irmãos  do movimento Fatah, e a todas as forças e facções palestinas, para que retomem o diálogo entre nós, para procedermos a uma revisão política em profundidade.

É a via que há para construir uma estratégia palestina, patriótica, de combate e resistência, que manifeste acordo nacional. 

Temos de continuar a reunir, na base desse acordo nacional, todas as "cartas de poder" [vantagens, posições de força], sobretudo a resistência, até estarmos realmente preparados para exercer o direito de autodeterminação, libertar nossa terra da ocupação sionista e conquistar nossos direitos nacionais, se deus nos permitir.

Movimento da Resistência Islâmica, HAMAS
Setor de Imprensa
Sábado, 19 Shawwal, 1432 H

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Peguem o 'colar de pérolas'... e joguem-se de cabeça no Mar do Sul da China!

Peguem o 'colar de pérolas'[1]... 
e joguem-se de cabeça no Mar do Sul da China! 

12/9/2011, M K Bhadrakumar, Indian Punchlinehttp://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/


Especialistas em todo o mundo, que estudam a Ásia Central e o Afeganistão, sabem que Pan Guang – diretor do Centro Xangai para Estudos Internacionais e, simultaneamente, Diretor do Centro de Estudos da Organização de Cooperação de Xangai [ing. Shangai Cooperation Organization, SCO] – é voz influente no processo de construção de políticas em Pequim. Pan fala perfeito inglês e é personalidade encantadora (além de anfitrião generoso), cuja área de expertise foi um dia Israel, e que até hoje não perde chance de mostrar aos hóspedes cada mínimo, nunca lembrado, jamais suspeitado, extremamente fascinante detalhe da rica herança que os judeus legaram a Xangai.

Seja como for, o último artigo que Pan publicou em China-US Focus, sob o título "China and US in Central Asia: Role of the SCO and the Possibility of Cooperation in Central Asia"
[2] [China e EUA: papel da Organização de Cooperação de Xangai e possibilidade de cooperação na Ásia Central] chamou-me a atenção por outra razão.

O artigo divulga detalhes espantosos do que China e EUA vêm discutindo sobre o Afeganistão.

Saí da leitura do documento, espantado, para começar, de ver (a) o quanto são simplórias, pedestres, elementares, as discussões que fazemos na Índia hoje
[3]  sobre o papel regional da China no Sul da Ásia, e  (b) o quanto são velhas e o quão estão completamente ultrapassadas as ideias que a imprensa indiana não se cansa de repetir[4].

Pan apresenta um primeiro mapeamento, geral, de plano de cooperação entre a Organização de Cooperação de Xangai e os EUA, que deixa sem fôlego qualquer analista.

Nas palavras de Pan: "Ponto de partida conveniente pode ser a constituição de uma estrutura de ligação para coordenar questões antiterror entre EUA-OTAN e a Organização de Cooperação de Xangai (SCO). O mecanismo de ligação poderá ser progressivamente ampliado para diálogo SCO + EUA (SCO + 1) ou SCO + EUA, União Europeia (OTAN), Japão (SCO + 3), e pode até ser ampliado para constituir o Fórum Regional da Organização de Cooperação de Xangai [ing. SCO Regional Forum (SRF)], como o Fórum Regional Asiático [ing. Asian Regional Forum (ARF)]."

Soa inacreditável? Pois ainda não ouviram o mais impressionante.

A bomba de Pan, que fará muitos 'analistas' de jornal e televisão e intelectuais 'midiáticos' arrancarem os cabelos em frenesi desesperado ainda está por vir.

Pan revela que EUA e OTAN já estão em tratativas com a China, para conseguir outra rota para transportar suprimentos para os soldados ocidentais que estão no Afeganistão – rota que, como os EUA desejam, deve passar por território chinês. E quais as rotas mais quentes, preferidas pelos estrategistas dos EUA e da OTAN? Bem... O leque de opções parece que se vai fechando; a opção ideal parece partir da China, pela estrada Karakorum e a Caxemira Ocupada pelo Paquistão [ing. POK, Pakistan Occupied Kashmir], até o Afeganistão; uma segunda via pode ser o porto de Gwadar construído (e gerido?) pelos chineses no Paquistão.

OK, OK. Entenderam? A China não só está entrando mais fundo na Caxemira Ocupada pelo Paquistão (e a Caxemira, é claro, pertence à Índia), como, também, entrará ali por negócio acertado com Washington e Bruxelas – e, claro, para ajudar EUA e OTAN!

A grande questão talvez fosse o que a Índia fará sobre tudo isso. Mas nada há que a Índia possa fazer. Não haverá retórica indiana que dê conta.

Além do mais, as implicações estratégicas mais amplas são óbvias – a China está sendo oficialmente reconhecida por EUA e pelo Ocidente, como parceira na estabilidade e segurança do Sul da Ásia. Pan destaca especialmente esse aspecto, item das recentes negociações sino-americanas de alto nível.

Tudo isso considerado, os analistas da 'mídia' estão sendo deixados para trás, em total isolamento, pendurados ao famoso 'colar de pérolas'. Tio Sam está escondido, mudo. Também sumiram da paisagem os analistas da CIA que 'vazam' análises para a imprensa indiana [e para a brasileira e para todas as imprensas do mundo (NTs)].

Talvez seja a hora de nossos 'analistas' de jornal e intelectuais 'midiáticos' meterem o famoso 'colar de pérolas' ao pescoço e mergulharem para nadar um pouco no Oceano Índico, em algum ponto entre Hambantota ou Coco Islands. Melhor ainda: podem jogar-se, de cabeça, no Mar do Sul da China.  
 




NOTAS

[1]   Ing. "string of pearls". "O termo surgiu num memorando interno do Departamento de Defesa dos EUA, intitulado "Futuros da energia na Ásia" [ing. "Energy Futures in Asia"]. Foi matéria do Washington Post em 2005 (em
http://www.washingtontimes.com/news/2005/jan/17/20050117-115550-1929r/ ). Aparece desenvolvido como estratégia em publicação oficial em http://www.strategicstudiesinstitute.army.mil/pdffiles/PUB721.pdf , onde se lê:
    
"Colar de Pérolas é manifestação da crescente influência geopolítica da China, graças aos esforços dos chineses para garantir acesso a portos, campos de pouso e bases aéreas, relações diplomáticas especiais e modernização das forças militares, em área que se estende do Mar do Sul da China, pelo Estreito de Malacca, pelo Oceano Índico e até o Golfo Persa" [NTs, com informações (e mapas) de
http://en.wikipedia.org/wiki/String_of_Pearls_(China)#cite_note-0].

[3] Sobre o quanto são simplórias, pedestres, elementares, ridículas, de fato, patéticas, as discussões dos 'especialistas' brasileiros, embaixadores que serviram a governos já descartados pelas urnas, hoje desempregados ou já empregados na Fiesp e Febraban e em universidades privadas, e 'intelectuais' uspeano-udenistas-midiáticos em geral, reunidos por William Waack nos programas 'de análise internacional' da rede Globo e do canal Globo News... Sobre isso, NEM SE FALA! [NTs].

[4]
Sobre o quanto são velhas e estão totalmente ultrapassadas as ideias que a imprensa brasileira não se cansa de repetir... Sobre isso, NEM SE FALA! [NTs]

domingo, 11 de setembro de 2011

11/9



A propaganda reiterada, ou a máxima da "mentira repetida mil vezes" ajudaram o mundo a esquecer que, em um mesmo 11 de setembro, os EUA bombardeavam um país vizinho ao nosso, o Chile. No documentário acima, um curta de 11 minutos, Ken Loach traça um paralelo entre as duas datas e mostra como Kissinger e Nixon encontraram motivos para "salvar o povo chileno de sua irresponsabilidade" por terem escolhido o médico, marxista e maçom Salvador Allende, o primeiro chefe de estado socialista eleito democraticamente na América Latina.

Como a maior parte das pessoas no mundo, lembro exatamente onde estava e o que senti quando assisti ao ataque em 11/9 contra os americanos. Lembro do susto, do medo, do choque. Mas, com o passar dos anos, minha comoção se transformou em indignação. Me pergunto se as mães americanas que perderam seus filhos, não se comovem com os filhos e mães do Afeganistão, do Iraque ou dos mais de 30 países que os EUA já atacaram diretamente ao longo de sua história. Só na invasão do Iraque, mataram mais de 200.000 pessoas, o que significa 100X mais que o número de mortos em 11/9 nos EUA.

Agora mesmo, enquanto assistimos à cobertura do "Marco Zero" em NY, aviões da OTAN atacam cidades na Líbia, sem respeitarem nem mesmo os "minutos de silêncio" pelos mortos do WTC, ou sem dar a chance para que os parentes enterrem seus entes queridos, espalhados pelas ruas, como se um tsunami tivesse avançado pelo deserto.

Como diz o colega Eduardo Castro - que estava em NY no 11/9 - o mundo ficou, dez anos depois, mais intolerante, mais perigoso, mais racista. Sobre o episódio, visto pelo Eduardo que era repórter da Band à época dos ataques, você pode ler no blog dele aqui. Abaixo do relato dele, tem um texto muito interessante do Paulo Moreira Leite, comparando o legado de Bin Laden e Bush. Este último, sucessivamente retratado como "herói" pela imprensa mundial, sem jamais ter cometido um ato sequer de heroísmo em sua vida.

Mas assistindo ao documentário do Ken Loach acima, sobre uma mesma terça-feira 11/9, é impossível não se perguntar: seria o 11/9 nos EUA o que os budistas chamam de karma?

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Agora, é a vez da Síria


30/8/2011, M. K. Bhadrakumar, Voltaire.net
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu


Se a semelhança entre os cenários da devastadora mudança de regime no Iraque e na Líbia significa alguma coisa, o futuro da soberania de Bashar al-Assad na Síria pode estar por um fio. O xis da questão – lembro eu – é que mudar o regime na Síria é providência absolutamente central para todos os objetivos dos EUA no Oriente Médio. As coisas estão de tal modo interligadas, que vários objetivos estratégicos podem ser obtidos numa só cajadada, dentre os quais, e importante, diminuir muito a influência de Rússia e China na região. Não é oportunidade que Washington deixe passar.

As imagens que chegavam de Trípoli ontem eram fantasmas estranhamente semelhantes a outros, já vistos. Buzinas soando, Kalashnikovs disparadas para o ar, jovens e crianças andando sem rumo pelas ruas de casas e prédios em ruínas, fotógrafos e cinegrafistas ocidentais vorazmente recolhendo fragmentos de frases em inglês de pé quebrado, da boca de qualquer personagem local disposto a divulgar os imorredouros ideais da Revolução Francesa de 1789 e da Magna Carta. Outro espaço, outro tempo, as imagens eram as mesmas, mas não se consegue localizá-las exatamente. Poderiam ser fiapo de lembrança, que se esgueira dos porões da mente, ou esquecido ou expulso da consciência? Agora, dia seguinte, já não há dúvida: os canais de televisão reprisaram cenas de Bagdá em 2003.

A narrativa que chegava de Trípoli é extraordinariamente semelhante a que recebemos de Bagdá: um ditador brutal e megalômano, que parecia onipotente, é derrubado pelo povo, e uma onda de euforia varre uma terra exaurida. Com as celebrações, o benefactor-cum-liberator ocidental avança para o centro do palco, assumindo seu posto no “lado certo da história”. No século 19, teria dito – no Quênia ou na Índia – que carregava sobre os ombros “a carga que cabe ao homem branco”. Hoje, diz que traz avanços ocidentais a quem clama por eles.

Mas é só questão de tempo, antes que a narrativa esvaia-se, e realidades aterrorizantes se imponham. No Iraque, vimos como uma nação que há apenas 20 anos começava a avançar rumo a padrões de desenvolvimento da OECD foi empurrada de volta à miséria e à anarquia.

Golpe de estado

A oposição democrática líbia é mito fabricado pelos países ocidentais e por governos árabes “pró-Ocidente”. Há fissuras profundas dentro da oposição líbia, e facções de todos os tipos, de liberais genuínos a islamistas e ao mais claro lumpenproletariat. E há as divisões entre tribos. As disputas internas entre as várias facções parecem receita para outra rodada de guerra civil, enquanto facções que não têm nem legitimidade nem autoridade disputam o poder.

A dimensão dessas fissuras apareceu muito clara, mês passado, quando o comandante-em-chefe Abdul Fattah Younes foi arrancado do front sob falso pretexto, afastado de seus guarda-costas e brutalmente torturado e morto pelos “rebeldes” militantes de uma facção islamista.

A imprensa ocidental começou a discutir abertamente o papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que arquitetou a intervenção e novamente interveio para desequilibrar o poder bélico contra Muammar Gaddafi. A “revolução” mais parece golpe de estado instigado por Grã-Bretanha e França. Mesmo assim, a aliança ocidental precisou de terríveis longos seis meses para levar seus ‘rapazes’ até Trípoli. Gaddafi ainda os mantém ocupados, depois de sua saída em grande estilo. A espantosa verdade é que cabe a Gaddafi decidir quando parar de lutar.

O que Gaddafi decidir fazer nas próximas horas terá grande influência sobre o acontecerá depois. Se haverá pesado derramamento de sangue, provavelmente haverá vingança dos vitoriosos sobre os vencidos.

Em termos políticos, a queda iminente de Gaddafi não implica vitória da oposição. Sem o apoio tático da OTAN, a oposição teria sido derrotada. A grande questão, portanto, é que papel terá a OTAN, na Líbia, no futuro. E há também a questão de se, agora, a OTAN dirigirá suas atenções à Síria.

A OTAN cerca (e ocupa) o mundo árabe

Cumprida com sucesso a missão de derrubar o governo Gaddafi na Líbia, seria de esperar que OTAN deixasse o teatro líbio. A Resolução n. 1.973 da ONU foi violentada. Mas que ninguém espere a retirada da OTAN. O leitmotif da intervenção ocidental na Líbia foi o petróleo líbio.

Movimento recente de Gaddafi, de aproximar-se dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) e trazê-los para o setor líbio de petróleo, obviamente ameaçou os interesses ocidentais.

A retórica pró-democracia que emana de Londres e Paris sempre soou como toada oca. A intervenção da OTAN na Líbia extrapolou os limites da legislação internacional e da Carta das Nações Unidas. A OTAN está hoje na ridícula posição de ter de extrair a legitimidade necessária para permanecer na Líbia, dos mesmos sinistros elementos que subiram ao palco como forças “democráticas”, mas não têm apoio popular – sob o pretexto de que ainda há trabalho a fazer.

Há, sim, ainda, trabalho a fazer. Pode ser, outra vez, do começo ao fim, o Iraque e o Afeganistão. Já começa a surgir enorme resistência contra a ocupação estrangeira. As tribos líbias têm fama na história e no folclore da resistência. Por outro lado, um grande paradoxo da geopolítica é que quanto mais se aprofunde a anarquia, mais a ocupação encontra pretexto ideal. 

A intervenção ocidental na Líbia introduz novos padrões na geopolítica do Oriente Médio e África. Levou a OTAN até o leste do Mediterrâneo e para dentro da África. É parte essencial da estratégia dos EUA pós-Guerra Fria, para converter a aliança transatlântica em organização global com capacidade para atuar nos “pontos quentes” globais, com ou sem autorização da ONU. Não há dúvida alguma de que, no ‘novo Oriente Médio’, a OTAN terá papel de pivô.

É o que já se ouve, com ecos de horripilar, na fala do vice-primeiro ministro britânico Nick Clegg, à primeira vista, sobre a Líbia: “Quero deixar bem claro que a Grã-Bretanha não dará as costas aos milhões de cidadãos dos estados árabes que tentam abrir suas sociedades em busca de vida melhor.” Mas... e se estivesse falando da Síria? Com certeza absoluta, Clegg não estava oferecendo serviços de “abertura” aos cidadãos árabes das sociedades de Arábia Saudita, Bahrain ou Iêmen, para dar às tribos que lá vivem condições de vida europeia moderna. Lá, seus representantes majoritários, têm o apoio convicto do poderio ocidental. Alguém aí consegue imaginar o motivo?

Com a operação líbia aproximando-se do término, todos os olhos voltam-se para a Síria. O Wall Street Journal especula: “O sucesso dos líbios afeta a rebelião potencialmente mais importante na Síria (...) Já há sinais de que a Líbia inspira os rebeldes que tentam depor [Bashar al] Assad.”[1] Mas acrescenta o detalhe, sem o qual a ideia propagandística não estaria devidamente proposta: “Há diferenças cruciais entre Líbia e Síria, e será difícil replicar em Damasco o modelo da revolução líbia.”

Apostas altas na Síria

Sim, mas a mente ocidental é famosa pela capacidade de inovação. Não há dúvidas de que a Síria está no coração do Oriente Médio e conflitos que irrompam ali quase com certeza engolfarão toda a região – inclusive Israel e, possivelmente, também o Irã e a Turquia.

Por outro lado, os movimentos coordenados do ocidente nas últimas semanas ampliando sanções contra a Síria, são muito semelhantes ao que se viram no prelúdio da intervenção na Líbia. Estão em andamento esforços sustentados para criar uma oposição síria unificada. Semana passada, encontro na Turquia – o terceiro em sequência – finalmente elegeu um “conselho” que ostensivamente representaria a voz do povo sírio. Evidentemente, está em construção, cuidadosamente, um ponto focal, que, em momento conveniente, poderá ser cooptado como do interventor ocidental democrático que representaria a Síria. O apoio da Liga Árabe, para funções de folha de parreira, também está disponível. Os regimes árabes “pró-ocidente” – autocracias – reapareceram à frente da campanha ocidental, como portadores do estandarte da representatividade na Síria.

Pode-se argumentar que a parte mais difícil seria obter mandado da ONU para intervenção ocidental na Síria. Mas a experiência líbia mostra que sempre é possível conseguir um álibi. Para isso, pode-se confiar na Turquia: quando há envolvimento da Turquia, é possível invocar o Estatuto 5 da OTAN.

O xis da questão é que é imperativo derrubar o governo da Síria, para que a estratégia dos EUA no Oriente Médio possa avançar, e Washington não aceitará obstáculos que algum dos BRICS crie, porque o que está em jogo é importante demais. Estão em jogo a expulsão, de Damasco, da liderança do Hamás; o rompimento do eixo sírios-iranianos; o isolamento do Irã, com o correspondente estímulo para derrubar o governo iraniano; enfraquecer e degradar o Hezbollah no Líbano; e reconquistar a dominação estratégica de Israel sobre todo o mundo árabe.

Claro que, na raiz disso tudo, está o controle sobre o petróleo, o qual, como disse George Kennan há 60 anos “é recurso nosso, não deles [dos árabes]”, considerado crucial para manter qualquer esperança de prosperidade sustentada do mundo ocidental. E ria de quem disser que governos ocidentais e seus cidadãos empobrecidos já não teriam apetite para guerras.

Finalmente, tudo isso implica, em termos geopolíticos, na reversão de qualquer influência que russos e chineses tenham obtido no Oriente Médio.

Já está em operação uma sutil propaganda ocidental que pinta Rússia e China como obstáculos à derrubada de governos na região –, porque estariam “do lado errado da história”. É a esperta virada ideológica na muito bem-sucedida jogada-padrão da Guerra Fria, que jogou o comunismo contra o Islã.

A linguagem corporal nas capitais ocidentais não deixa dúvidas: de modo algum os EUA deixarão escapar a oportunidade que veem hoje, para eles, na Síria.

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