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terça-feira, 23 de maio de 2006

Como fazer a tecnologia ajudar o crescimento?

Há 50 anos, Robert Solow publicou o primeiro de dois artigos sobre crescimento econômico que lhe renderiam o Prêmio Nobel. Celebrado e experiente, era por isso uma escolha natural para participar de uma comissão sobre crescimento anunciada no mês passado pelo Banco Mundial,que pesará e filtrará o que se sabe sobre crescimento, e o que deve serfeito para estimulá-lo. Natural, exceto para quem leva a sua contribuição de 1956 ao pé da letra. Isto por que, pelo modelo que ele delineou naquele artigo, as tentativas dos formuladores de política de elevar a taxa de crescimento per capita são em última análise fúteis.

Um governo ansioso por forçar o ritmo do avanço econômico poderá ser tentado a promover campanhas de poupança, cortes de impostos,subsídios a investimentos ou até controles populacionais. Como resultado dessas medidas, cada membro da força de trabalho poderá contar com maiscapital para trabalhar. Mas esse processo de aprofundamento de capital,como os economistas o chamam, depara-se no fim com retornosdecrescentes. Dar um segundo computador a um trabalhador não dobrará asua produção.

O acúmulo por si só não consegue gerar progresso duradouro,como mostrou Solow. O que consegue? Qualquer coisa que permita àeconomia agregar à produção, sem necessariamente acrescentar maismão-de-obra e capital. Solow rotulou essa fonte de riqueza de "progressotecnológico" em 1956, e mediu a sua importância em 1957. Mas ele nãoexplicou em nenhum artigo de onde ele veio ou como ele poderia seracelerado. Invenção, inovação e ingenuidade eram influências "exógenas",fora do âmbito da sua teoria. Para práticos homens de ação, o modelo deSolow era uma provocação impossível: o que ele iluminava nãointeressava; e o que realmente interessava, ele pouco ajudava ailuminar.

A lei de retornos decrescentes exerce grande influênciasobre a imaginação econômica. Mas o escrito não ficou inconteste. Umnovo e fascinante livro, "Knowledge and the Wealth of Nations"(conhecimento e a riqueza das nações), de David Warsh, conta a históriada ciência econômica rebelde dos retornos crescentes. É o melhor livrodo gênero desde "Capital Ideas", de Peter Bernstein.

O retorno decrescente assegura que as empresas não conseguemcrescer demais, o que preserva a concorrência entre elas. Isso, por suavez, permite à mão invisível do mercado realizar a sua mágica. Mas, comodiz Warsh, a lealdade que os economistas demonstram a esse princípio étão matemática quanto filosófica. É fácil para os economistas navegar natopologia dos retornos decrescentes: uma paisagem de gradientesdeclinantes e picos isolados, livre das crateras e fendas traiçoeirasque poderiam lhes armar uma cilada.

O herói da metade final do livro de Warsh é Paul Romer, daUniversidade Stanford, que aceitou o desafio deixado por Solow. Se oprogresso tecnológico dita a expansão econômica, que tipo de lógicaeconômica governa o avanço tecnológico? Numa série de estudos, queculminou num artigo no "Journal of Political Economy" em 1990, Romertentou tornar a tecnologia "endógena", para explicá-la nos termos do seumodelo.
Ao fazer isso, dirigiu o crescimento para fora do confortávelbeco sem saída no qual Solow tão bem o estacionara.

Essa escapada exigia uma manobra de três pontos. Primeiro,Romer presumiu que idéias são mercadorias - de um tipo particular. Asidéias, ao contrário das coisas, são "não-rivais": todos podem usaralgum projeto, receita ou plano ao mesmo tempo. Essa manobra noargumento conduziu à segunda: a produção de idéias permite crescentesretornos de escala. Caras de produzir, elas são baratas, quase semcusto, para reproduzir. Assim, o custo total de um projeto não mudamuito quer seja usado por uma pessoa ou por um milhão.
Abençoada com retornos crescentes, a produção de idéias podeparecer um bom negócio, no qual compensa entrar. Na verdade, é o oposto.Não compensa, pois a concorrência enxuga o preço de um projeto até ocusto desprezível de reproduzi-lo. A menos que fábricas de idéiasdesfrutem de alguma forma de monopólio sobre seus projetos(patenteando-os, registrando direitos autorais ou mantendo-os emsegredo), não conseguirão cobrir o custo fixo de inventá-los. Este é oponto final na nova teoria do crescimento de Romer.
Que orientação essa teoria oferece a formuladores depolítica, como a comissão do Banco Mundial? No modelo de Solow, segundouma caricatura comum, a tecnologia cai do céu, não deixando muita opçãoalém de rezar. Já a teoria de Romer exige uma resposta mais material:educar as pessoas, subsidiar as pesquisas, importar idéias do exterior,avaliar cuidadosamente a proteção oferecida à propriedade intelectual.
Mas os formuladores de política precisam do modelo de Romerpara saber da importância disso? Solow levantou dúvidas. Apesar dacaricatura, ele não quis negar no seu modelo de 1956 que a inovação égeralmente obtida a um alto preço e movida a lucro. A questão era saberse é possível dizer algo de útil sobre esse processo no nível daeconomia como um todo. Em particular, Solow alerta que algumas das"conclusões mais poderosas" da nova teoria do crescimento são"imerecidas", pois fluem a partir de pressuposições poderosas.

Num ponto do livro de Warsh, Romer é citado comparando aconstrução de modelos econômicos a escrever poesia. É um triunfo formartanto conteúdo. Esse economista criativo não descobriu nada novo sobre omundo com seu artigo de 1990 sobre crescimento. Mas ele ampliou o planométrico e rítmico da ciência econômica para capturar um mundo - aeconomia do conhecimento - expresso até então só no mais vago tipo deverso burlesco. É assim que a ciência econômica progride. Infelizmente,ela não ajuda as economias, em si e por si, a fazerem progresso.

The Economist - 22/05/2006

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