"Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, te farão amar o opressor e odiar o oprimido" Malcom X
sábado, 29 de outubro de 2005
Violência
Por César Luis M. Franco:
Jornal Correio Brasiliense. Brasília, Sexta-feira 28.10.2005.
BRINCADEIRA FATAL
Rapaz é morto com cinco tiros no Gama na noite de quarta-feira.
CERTAMENTE O DONO DA ARMA NO ÚLTIMO REFERENDO VOTOU:
N Ã O O O O O O O O O O O O O O O O O O O!
Ou seja, nem só arma de bandido mata.
quarta-feira, 26 de outubro de 2005
terça-feira, 25 de outubro de 2005
SOS Altiplano Leste
A APRALB - Associação dos Produtores Rurais do Altiplano Leste de Brasília, congrega desde 1986, proprietários e moradores dos parcelamentos rurais denominados: Sítio Santos Dumont; Sítio Forquilha Encravada; Sítio das Oliveiras; Chácaras Morro Alto; Chácaras Interlagos e Chácaras Paranoá, Trechos I, II e III, todos com chácaras de 2ha ou mais, conforme determina a legislação em vigor. Situada na APA do Rio São Bartolomeu — que possui zoneamento ambiental — mais precisamente em glebas das antigas Fazendas Paranoá e Taboquinha, a região está limitada ao norte pelo Rio Paranoá, ao sul pelos córregos Taboca e Taboquinha e a leste pelo Rio São Bartolomeu.
Quando da fundação desta Entidade, o conjunto desses parcelamentos passou a ser conhecido como Altiplano Leste, denominação esta que posteriormente generalizou-se para toda a região, indo até as rodovias DF001 e DF025, daí até a Barragem do Paranoá, estendendo-se pela margem direita do rio a fazendas e sítios adjacentes.
O Altiplano Leste situa-se em uma região de chapada, extremamente acidentada com área plana bastante reduzida o que inviabiliza culturas de extensão, favorecendo, entretanto, a horticultura, fruticultura e criação de animais, todas em pequena escala. Tal situação propicia à região um baixo adensamento populacional inferior a 1 (um) habitante por ha (segundo técnicos das SEMARH e SEDUH).
Sua condição de zona rural de uso controlado foi desqualificada no último PDOT (Plano Diretor de Ordenamento Territorial) de 1997/98, sem qualquer consulta à Comunidade, modificando-a para zona urbana de uso controlado, contrariando inclusive a Resolução do CONAMA nº 10/88 que é clara em relação à constituição de zonas urbanas em APA’ s, que só podem ocorrer se o zoneamento ambiental permitir.
A Comunidade do Altiplano entende, perfeitamente, a necessidade de se resolver o problema de crescimento populacional do DF (projetado para os próximos anos), mas é imprescindível que se atente para o fato de que tais soluções não venham atender uma minoria que defende interesses econômicos particulares. Apesar de o PDOT ter possibilitado a transformação das chácaras em parcelamentos menores, em nenhuma delas isto ocorreu, demonstrando de forma cabal que a Comunidade do Altiplano rejeita a especulação fundiária, que poderia trazer lucro fácil e imediato, preferindo optar pela proteção ambiental e pela manutenção das características da região. Além disso, a R.A. do Paranoá — onde atualmente o Altiplano está inserido — não teve concluído o seu PDL (Plano Diretor Local).
Prevendo que uma ocupação de 50 habitantes por ha (conforme o regulamentado no adensamento urbano) viria fatalmente a poluir os córregos que abastecem as bacias dos rios Paranoá e do já tão sacrificado Rio São Bartolomeu e acabaria por esgotar os aqüíferos que abastecem as nascentes, de vez que a região não é servida por rede de água e esgoto, valendo-se de poços profundos e fossas que, usados indiscriminadamente, contaminam o lençol subterrâneo. Com o aumento populacional, inúmeras espécies nativas de animais silvestres (algumas sob ameaça de extinção) seriam expulsos de seu “habitat” natural, trazendo danos irreparáveis à fauna da região.
Por oportuno, lembramos que em nossa área existe um pequeno condomínio de apenas 44 lotes (Condomínio Lago Sul II) que se encontra excluído, no mapa, da área pleiteada pela comunidade para se manter como Zona Rural. Quanto ao denominado Condomínio Privê Morada Sul, situa-se fora de nossos limites. Em face do exposto, conclamamos a todos aqueles que se preocupam com a preservação ambiental a nos apoiar na defesa de nossa cidadania, pressionando nossos representantes na Câmara Legislativa do DF, para nos enquadrar no próximo PDOT, como Zona Rural de Uso Controlado.
Moradores do Altiplano Leste
Brasília-DF
segunda-feira, 24 de outubro de 2005
Então, venceu o retrocesso
"O referendo acabou tomando um caráter plebiscitário que contém uma clara manifestação de desconfiança dos cidadãos no Estado brasileiro. Não é uma desconfiança neste ou naquele governo. O recado do cidadão é a desconfiança no Estado. A sociedade mandou dizer que não está nem um pouco satisfeita com as políticas públicas do Estado brasileiro, sobretudo a política de segurança pública, ou a falta de uma política de segurança pública."
Não há porque discordar da afirmação acima, de Lúcia Hipólito.
Resta agora conferir o quanto este resultado concede de vantagem aos grupos mais radicais dentro das diversas polícias. Quer dizer, vamos ver se esses grupos não se considerarão legitimados a agir com mais violência do que já estão agindo.
Saudações pacifistas, ainda.
Enviado por Demétrio Carneiro
quarta-feira, 19 de outubro de 2005
O perigo da Gripe Aviária
Todo mundo devia prestar mais atenção nas aulas de biologia e geografia do 2º grau. Em geral, passamos por lá com médias suficientes para finalizar o período torturante de três anos, já imaginando o terror dos cursinhos e mais quatro ou cinco anos de curso superior. Por essas e outras, quando um furacão, epidemias ou tsunamis, ameaçam a humanidade, boa parte da população acaba tendo que aprender "na marra" o que todas essas manifestações da natureza significam e acabam tendo que confiar nos índices e notícias que saem na imprensa. Estes, nem sempre confiáveis porque saem das cabecinhas criativas de jornalistas mal informados que não tem o compromisso com a informação e publicam a primeira coisa que escutam, como na brincadeira do telefone-sem-fio (Escola Base que o diga).
A mais recente ameaça à humanidade é a Gripe Aviária. A CNN noticiou hoje à tarde que "especialistas informam que a gripe aviária não representa perigo para a humanidade por ser uma doença restrita à espécie." Ora, quem tem coragem de reproduzir uma notícias dessas não lembra das aulas do 2º grau ou, no mínimo, não chegou à apurar a informação com algum "especialista" de verdade. Neste caso específico, é fácil. Basta conversar com qualquer biólogo, veterinário, médico porque seja lá qual forem suas "especialidades", todos aprenderam na fase básica do curso matérias como bioquímica e microbiologia que mostram que NÃO EXISTE VÍRUS QUE NÃO TENHA CAPACIDADE DE MUTAÇÃO. Quase todas as zoonoses conhecidas foram originadas de vírus de animais que sofreram mutações migrando para o organismo humano.
O que os governos em geral - em especial o nosso em meio à toda essa crise política - não querem, é admitir que poucos países estão preparados para combater o que pode ser uma das maiores epidemias que a humanidade já viu. O vírus da gripe tem 80 milhões de anos, sofre pequenas mutações tão logo o organismo humano cria anticorpos e, a cada 30 anos, ressurge em uma nova versão, muitas vezes fatal. Os pequenos roedores foram os primeiros a serem atacados pela gripe ainda em épocas pré-históricas e transmitiram a doença para mosquitos e carrapatos. Esses animais se tornaram imunes, mas o vírus continuou se reproduzindo e se adaptando às mudanças climáticas do planeta.
São raros hoje os idosos com mais de noventa anos mas os que ainda vivem, lembram bem da Gripe Espanhola. No final de 1918 o mundo, recém saído da 1ª Guerra Mundial, assistiu estarrecido e impotente a outra máquina de matar. Ela atacou o planeta inteiro e deixou mais de 20 milhões de mortos - 1% da população mundial à época. Só nos Estados Unidos, 500 mil pessoas morreram, mais do que o número de soldados mortos no campo de batalha durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial, Guerra da Coréia e Guerra do Vietnã juntas. O vírus espalhou-se rapidamente e atingiu em maior número moradores das cidades e os mais jovens. O sintomas de uma gripe normal são dores de cabeça e no corpo e congestão nasal. Pois os atacados pela espanhola sofriam bem mais. Os pulmões, congestionados e enrijecidos, tornavam o ato de respirar uma tarefa quase impossível. Relatos da época dão conta de que os corpos ficavam tão arroxeados que distingüir um cadáver de um branco do de um negro não era nada fácil. A gripe tomou o mundo por causa das idas e vindas dos soldados da Primeira Guerra Mundial. Para o front vinham homens de todos os lugares do planeta. Doentes, voltavam para sua terra natal e infectavam mais gente.
Pode-se dizer que a Primeira Guerra, além de matar nas trincheiras, espalhava a morte para todos os cantos, inclusive o Brasil. A primeira notícia do vírus da gripe espanhola no país foi de setembro de 1918, logo depois da chegada de um navio com imigrantes vindos da Espanha. Vários deles apresentavam sintomas da gripe. Outro relato dizia que alguns marinheiros sentiram estranhos sintomas a bordo de um navio que ancorou em Recife. O fato é que no início de novembro de 1918 a doença já tinha alcançado vários pontos do Brasil. As cidades portuárias foram as que mais sofreram. No Rio de Janeiro, morreram 17 mil pessoas em dois meses. Os familiares, desesperados, jogavam seus mortos na rua com medo de contrair a doença. As avenidas ficaram cheias de cadáveres e presidiários foram obrigados a trabalhar como coveiros. Os bondes circulavam abarrotados de corpos. Na frente das principais igrejas, milhares de famílias se reuniam para pedir ajuda a Deus. Em São Paulo, foram mais de 8 mil mortes. Entre as vítimas da gripe estava o presidente da República, Rodrigues Alves. Eleito para o cargo pela segunda vez, não pôde tomar posse e morreu no dia 16 de janeiro de 1919. Os médicos, também alarmados, não sabiam o que receitar e indicavam canja de galinha. O resultado foram saques aos armazéns atrás de frangos. Os jornais afirmavam que o tratamento deveria ser feito à base de pinga com limão ou uísque com gengibre. No Rio, o sanitarista Carlos Chagas comandou o combate à enfermidade. Em Porto Alegre, foi criado um cemitério especialmente para as vítimas da gripe espanhola. Em todo o país foram cerca de 300 mil mortos.
O vírus da gripe quase sempre está presente nos corpos de aves. Os humanos não são infectados por eles mas animais domésticos sim. A classe científica nunca esqueceu a tragédia da gripe espanhola e tenta ainda hoje descobrir os motivos de tanta mortandade. Tanto é que pesquisadores da Escola Willian Dunn de Patologia de Oxford pretendem reconstruir o vírus da gripe espanhola. Os cientistas querem descobrir as razões que levaram o vírus a ser tão letal e, a partir dessas informações, desenvolver métodos de proteção contra futuras pandemias. O vírus poderá ser reconstruído, pelo menos em parte, porque pesquisadores norte-americanos já pesquisaram seqüências de dois dos mais importantes genes de 1918.
Em 1997, um surto da doença foi causado pelo vírus HSN1. O primeiro caso foi registrado em maio e causou quatro mortes em Hong Kong. O vírus já era conhecido, mas só nos casos de infecção em aves. Quando uma mutação genética tornou-o transmissível também aos seres humanos, o governo foi obrigado, para evitar tragédias maiores, a sacrificar 1,4 milhão de aves.
A OMS considera o Sudeste Asiático como o ponto de origem mais provável de uma pandemia. Atualmente, existem 16 focos de gripe do frango confirmados no mundo: Indonésia, Vietnã, Paquistão, Bolívia, Colômbia, Tailândia, Laos,Cambodja, China, Rússia, Cazaquistão, Sibéria, Turquia, Romênia, Croácia e Grécia.
A gripe das aves, também conhecida como gripe do frango, foi identificada pela primeira vez em 1878, na Itália, como uma doença grave dos frangos. A doença pode assumir formas benignas, como problemas para pôr ovos ou penas eriçadas, ou formas altamente patogênicas, que mata as aves de criação em menos de 48 horas. Uma dessas formas, o vírus H5N1, ressurgiu em Hong Kong, em 2003, atingindo, meses depois, Coréia, Vietnã, Tailândia e outros países do sudeste asiático, causando uma elevada mortandade entre aves de criação. Agora, o risco de uma mutação do vírus capaz de afetar os humanos é real. Mais do que real, praticamente inevitável, segundo a OMS. Desde o fim de 2003, pelos menos 117 casos de infecções humanas foram registradas, com 60 mortes. O vírus H5N1 também pode ser transmitido por patos de criação que não apresentem sintomas da doença, alertou a OMS, advertindo que, neste caso os produtores tem altas chances de serem infectados.
O governo de Hong Kong quer adquirir 20 milhões de doses de Tamiflu - único medicamento relativamente eficaz contra a doença - até 2007, número considerado suficiente para controlar a gripe entre os quase 7 milhões de habitantes da cidade. As autoridades também avaliam a possibilidade de utilizar estádios de futebol como hospitais improvisados caso as clínicas fiquem lotadas por uma epidemia generalizada.
Com os hospitais abarrotados com todo o tipo de doenças e traumas sendo atendidos com extrema precariedade, só temos que torcer para que esta gripe não chegue aqui.
Falha nos argumentos pelo NÃO
Por Davi Emerich:
Concordo, a campanha do "não" está uma merda. Salto alto, intelectualizada demais, altista etc.
Preocupo-me é com as pessoas comprometidas com mudanças em todos os níveis em nossa sociedade, se confundindo diante das opções.
Posturas progressistam têm linha, um caminho (por exemplo, o projeto da cerca elétrica é um retrocesso e até comentei isso com o Augusto).
Vamos abrir um debate. Gostaria de um só argumento que justificasse cabalmente o "não".
Antecipo alguns deles:
l) Arma como um direito. Quem deu esse direito, de onde vem, moralmente onde se ampara? Ora, o estado democrático tem o poder de arbitrar certos direitos - e pretende coibir o uso de arma. Por exemplo, ninguém pode andar com bomba de dinamite no bolso, com uma cápsula com bacilos para dissuadir pessoas. Esse negócio de direito é idolatrado nos Estados Unidos, isso porque eles vivem da memória do massacre que perpetraram contra os índios e contra outros povos.
2) Primeiro deve-se desarmar o bandido. Coisa mais idiota, bandido só se desarma com políticas de Estado, com repressão, na marra. Proibir o comércio de armas e municão, é separar a sociedade entre bandido e não bandido, é dar mais instrumento ao Estado para combater a corrupção. O argumento do não nesse sentido, é o mesmo daqueles que querem manter o privilégio de quem tem curso superior no caso das prisões ("só quando o sistema presidiário for melhorado", foi a tese dos parlamentares que sempre votaram contra a proposta), daqueles que insistem em manter os seus filhos em escola pública, nós todos da classe média ("só quando a escola pública for melhorada"), daqueles que continuam querendo facilidade em Imposto de Renda ("eu pago pelo serviço que o Estado não presta!"). São os argumentos dos eternamente "esperando Godot" e como Godot não chega, tudo fica do jeito que está. Ora, isso não é sério.
3) Com o fim do comércio há uma tendência para o aumento de furtos e pequenos roubos. Tudo bem, acho que isso realmente tende a ocorrer em um primeiro momento. Porém, não em nível de violência assustadora (essa não crescerá, manter-se-á nos níveis de hoje; aliás, a proibição vai ajudar a combater este crime). Mas para pequenos furtos há uma tecnologia imensa à disposição. Proiba-se a comercialização e o próprio mercado se encarregará, rapidamente, de fornecer à população outros instrumentos mais eficientes de defesa. E a custos mais baratos.
4) A espada dos samurais, muito mais sagrada que o revólver, tornou-se obsoleta; o revólver como defesa também já o é, o problema é que em torno dele há uma indústria pesada em um culto desmedido (seria melhor apaixonar-se por mulher ou homem, ou pelos dois, dependendo da orientação sexual de cada um);
5) Vamos ao concreto, a arma é símbolo de poder (daí esta paixão maluca por ela até daqueles que não a possuem) e também um símbolo nitidamente machista. Não conheço pesquisa, mas afirmaria que de cada 20 armas de fogo, 19 estão nas mãos de homem (ou que pensam SÊ-LO) e apenas uma na mão de mulher.
Vou trabalhar. Outra hora escrevo mais.
Pelo "sim".
Davi
QUE DEUS NOS PROTEJA
Edir Macedo orou, orou, até conseguir entronizar a Igreja Universal no altar-mor do Palácio do Planalto. Basta o presidente da República pegar o Aerolula, no dia 13, em mais um tour Internacional, para seu correligionário, o vice-presidente José de Alencar, assumir as rédeas do poder, agora sob o teto de um tal de PMR (Partido Municipalista Renovador), cuja formação foi facilitada pelo trabalho de obreiros evangélicos que colheram nas igrejas 438 mil assinaturas para a criação da sigla do multifacetado sistema partidário brasileiro. E bastará ao neocrente Alencar pegar o Sucatão para uma voltinha pelo continente, para o comunismo entronizar o símbolo da foice e do martelo na mesa presidencial. Eis que Aldo Rebelo, do PCdoB, é o segundo homem na linha sucessória.
Até onde se sabe, a distância que une os dois sucessores de Lula é tão estreita quanto a que une o Pólo Norte ao Pólo Sul. O primeiro teria um lastro de 6 milhões de fiéis, no Brasil e em 46 países, mais de 2 mil templos, uma bancada de 30 parlamentares e o respaldo de uma multinacional religiosa que fatura cerca de US$ 1 bilhão por ano. O segundo se funda na história de 60 anos de clandestinidade e conta com uma base ainda pequena, formada por 60 mil militantes e bancada de 9 parlamentares, que defendem o centralismo democrático da utopia socialista. As luzes que os iluminam, convenhamos, irradiam um cromatismo contrastante. Os evangélicos pregam: "Quando você dá seu dízimo, Deus abre as janelas do céu e derrama bênçãos." Os comunistas do PCdoB cantam: "O futuro grandioso dos povos está ligado à substituição do capitalismo pelo socialismo científico que abolirá o sistema de propriedade privada e estabelecerá a propriedade social dos meios de produção."
Pois bem, se a cara de um não se assemelha ao focinho do outro, mesmo que estejam próximos ao assento presidencial, é porque o Brasil é isso mesmo que o leitor está pensando, ou, se quiser, abriga uma democracia muito frouxa. A separação entre Igreja e Estado não levada a sério. Mas, no Brasil, há lugar para tudo. Na nossa democracia tudo é permitido, inclusive o que é proibido.
Veja-se a argamassa da crise. Disparates misturam-se a tiradas engraçadas e a arremedos trágicos, tudo sob o pano de fundo da provisoriedade. E quem põe lenha na fogueira é o próprio presidente da República. Não é ele que se queixa do denuncismo, tapando a vista para parlamentares envolvidos no esquema de corrupção, para as dezenas de pessoas afastadas da administração e mais de 70 empresas privadas e órgãos públicos relacionados nas investigações? Está cego para tudo isso, mas tem o olho aceso na reeleição. Por isso quer romper os diques da crise. É tudo culpa da urucubaca!!!
Qual é a estratégia? Desarmar o circo das CPI´s. Três ações táticas foram concebidas. A primeira é a dos três macaquinhos, que têm os ouvidos tapados a boca fechada e o os olhos vendados. Trata-se da tática de descaracterizar o ilícito e criar contrapontos e versões para os fatos. Por exemplo, dizer que as oposições e a mídia mentem ou exageram. Lula comanda a tática pela vanguarda. Usa a arma do verbo para atacar a falta de provas nas comissões de investigação. O ministro do dinheiro, Palocci, fica no meio, atirando com a arma das verbas. Os parlamentares ameaçados, a partir dos petistas, guerreiam na retaguarda, promovendo distensões entre Corregedoria e Conselho de Ética, ciscando para os lados e protelando decisões. Dirceu vai até ao Supremo.
A segunda tática é a da mudança de gênero. Governo e petismo, mães da crise, se transformam em pais do Brasil de economia exuberante. Lula continua na vanguarda, assessorado por Palocci, Meirelles e Furlan. Na arena externa, o PT resgata a velha linguagem de vestal. Seu presidente,
Tarso Genro, na TV, conclama as bases a votarem, hoje, no segundo turno das eleições. A retórica é emoldurada pelo slogan "PT Responsabilidade para com o Brasil". É muita cara-de-pau.
A terceira tática é manobrada no Congresso com a ajuda de dois comandantes do teatro de guerra: Renan Calheiros e Aldo Rebelo. O presidente do Senado luta para as CPI's acabarem logo e o presidente da Câmara quer garantir uma agenda positiva para aliviar tensões. A confusão se amplia. Defendendo a seara dos partidos pequenos, onde está o seu PCdoB, Rebelo sugere a votação da reforma política, o bode na sala para aliviar a cláusula de desempenho a vigorar nas próximas eleições. Discute-se como matar o princípio da anualidade e, se for o caso, estuprar a Constituição. O casuísmo entra na pauta. Enquanto isso, a proibição do comércio de armas vai a referendo, no próximo dia 23, sem passar por um debate amplo e sob a suspeita de uma campanha enviesada na TV. Os R$ 600 milhões a serem gastos nesse evento poderiam ser economizados, caso o referendo fosse incluído no pacote eleitoral de 2006.
Fechando as cores da aquarela, emerge nas margens do São Francisco o perfil do bispo Luís Flávio Cappio, em greve de fome por 11 dias contra a transposição das águas do rio, que já foi da "unidade nacional" e hoje é símbolo de desunião. Multidões se solidarizaram com ele, rezando para que o Divino Espírito Santo iluminasse a consciência de Lula. Que prometeu adiar a obra, maneira de evitar o sacrifício do bispo. Só que há uma montanha de R$ 20 bilhões para atrapalhar a ajuda do Espírito Santo. Quanta improvização! Afinal, a transposição irá ou não irá alterar o quadro de seca na região? O que diz a intelligentzia nacional?
E Ia nave và, aos trancos e barrancos, sob a oração evangélica do bispo Macedo, a reza católica do bispo Cappio, a nova fé de José Alencar e a ascensão do comunista Aldo Rebelo. Que Deus ecumênico nos proteja!
*Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.
SEGURANÇA NÃO SE RESOLVE ARMANDO A POPULAÇÃO
Editorial de hoje do Jornal Valor Econômico:
Existe um curioso cruzamento entre as opções por sexo, idade e renda em relação à proibição do porte de armas e as estatísticas. Segundo pesquisa do Ibope divulgada no último final de semana, os homens apoiarão majoritariamente o "não" no referendo do próximo domingo, onde a pergunta a ser respondida é a seguinte: "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?". Quanto maior a renda e instrução, maior a chance de ser contrário à proibição.
Esse é um corte social que se assemelha muito ao perfil da violência no país. As vítimas de homicídios dolosos com armas de fogo são, em sua maioria, homens, em geral pobres e freqüentemente negros, segundo o cientista social Luiz Eduardo Soares, em artigo publicado no Valor, no último dia 28. Tirando o fator sexo, todos os outros corroboram a tese de que, em sua maioria, é favorável ao desarmamento a população que tem proximidade física com a violência, não acredita que estar armado vai lhe dar segurança e, provavelmente, teve na família ou na vizinhança jovens homens vitimados por uma arma de fogo - entre 1979 e 2003, quando mais de 550 mil pessoas morreram à bala no Brasil, 41,1% eram jovens entre 15 e 24 anos.
O fato de as mulheres serem favoráveis ao desarmamento em número maior que os homens explica-se pela realidade familiar. Elas são a grande maioria das vítimas fatais de armas de fogo dentro de casa e a maioria desses crimes é cometida pelo marido, companheiro ou namorado. Estudos feitos nos EUA, citados em documento da Anistia Internacional, afirma que, mundialmente, nos assassinatos em família, o número de vítimas mulheres supera o de homens. Ter uma arma aumenta em 41% as chances de alguém ser vitimado em casa mas, para as mulheres, o risco aumenta 271%. Além disso, o uso de armas é uma constante nos crimes sexuais que não são seguidos de morte.
O componente social da questão do desarmamento deve ser considerado. Teoricamente, a população de baixa renda e de baixa escolaridade é a que está mais desprotegida. E talvez para essa camada social o saldo de um ano de Estatuto do Desarmamento seja mais visível. Segundo dados do Datasus, do Ministério da Saúde, em 2004 - quando o Estatuto do Desarmamento já vigia há um ano, e sob o impacto de campanhas de entrega de armas - , as mortes causadas por armas de fogo foram 8,2% inferiores às ocorridas no ano anterior. Segundo estudo feito pela Unesco, foram poupadas, ao longo de 2004, 5.563 vidas.
Outro estudo da mesma instituição constata que, ao longo dos últimos dez anos, as vítimas de armas de fogo no país superaram o número de mortes de 26 conflitos armados do mundo. Foram 325.551 mortes nessa circunstância, uma média de 32.55 por ano. A simples proibição da comercialização, é certo, não vai resolver sozinha esse problema. Mas o fato é que os resultados de um ano de Estatuto do Desarmamento, e a própria experiência internacional, tombam irremediavelmente as evidências para o fato de que uma restrição mais rígida é um fator importante em qualquer política de redução de mortes por armas de fogo. O Canadá mudou sua lei em 1995 e, nos cinco anos posteriores, conseguiu índices 45% mais baixos; em relação às mulheres, a queda foi de 57%.
Existem números para tudo; os argumentos proliferam, às vésperas do plebiscito. A campanha do "não" atraiu eleitores usando principalmente o argumento de que a proibição interferirá no direito constitucional à defesa da vida e do patrimônio. Quando encarado como direito, o uso da arma torna-se ainda mais perigoso. A vida em sociedade impõe como limite à liberdade individual o direito do outro. Nesse caso, o direito individual, de matar, se imporá sobre o coletivo. Sobre esse argumento, a campanha do "não" acrescenta outro, o de que, como o Estado não pode ou não quer prover a segurança do cidadão, quem se sentir ameaçado tem o direito de assumir essa função. Embora os partidários do "não" estejam tomando como "despótica" a decisão de proibir a comercialização de armas, teme-se uma democracia onde qualquer cidadão possa arrogar-se o direito de matar uma pessoa. Os cidadãos brasileiros, inseguros, não devem ser policiais de quarteirão. Devem exigir do Estado que cumpra as suas funções de segurança pública, resolva um problema histórico de má-distribuição de renda e empreenda uma política de desenvolvimento sustentável, que reduza a marginalidade por miséria. Cidadão, definitivamente, não é polícia.
O Desarmamento segundo Rita Lee
Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade, até porque elas são desarmadas pela própria natureza: Nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência.
As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência.
É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz. E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d'água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas. São as mulheres que irão impor um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e a doçura de seus corações.
Nem toda feiticeira é corcunda. Nem toda brasileira é só bunda.
terça-feira, 18 de outubro de 2005
Deu no blog do Noblat
"O deputado estadual do Rio José Nader Júnior (PTB), vice-presidente da Comissão Especial contra o Desarmamento e pelo Direito à Legítima Defesa, da Assembléia Legislativa, e defensor do voto “Não” no referendo de 23 de outubro, foi preso em flagrante ontem pela Delegacia de Meio Ambiente do Estado do Tocantins (Dema) sob a acusação de crime ambiental e de porte ilegal de arma.
Detido no município de Pium, a 119 quilômetros de Palmas, às margens de um afluente do Rio Araguaia, o deputado, que é filho do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) José Nader, tinha quatro armas e 412 cartuchos de munição, inclusive de uso restrito às Forças Armadas. Também foram encontrados no chalé onde ele estava peixes ameaçados de extinção e de pesca proibida no país."




